Dialética e microssociologia do conhecimento: referências para uma atuação sociológica.

Dialética e microssociologia do conhecimento: referências para uma atuação sociológica.
Por
Jacob (J.) Lumier

Trecho corrigido pelo autor e extraído do ensaio sociológico de Jacob (J.) Lumier intitulado “ASPECTOS DA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO: Reflexão em torno às análises sociológicas de Georges Gurvitch”.
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São as atitudes coletivas que criam os ambientes sociais onde se cotejam as diferenças sociais e se afirmam as estruturas sociais, ambientes estes que, compreendidos sob a noção de “Gestalt”, como conjuntos ou configurações virtuais ou atuais, implicam um quadro social referenciando os símbolos que se manifestam no seu seio e as escalas particulares de valores, que no seu seio são aceites ou rejeitadas (as chamadas” dinâmicas de avaliação” favorecendo a tomada de consciência dos temas coletivos reais).
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Como se sabe, as “fossilizações sociais” já são constatadas em Saint-Simon (ver: “Les Classiques des sciences sociales” ) e a partir dele constituem um conceito sociológico de serventia para verificar justamente os obstáculos à percepção das transformações no interior das estruturas da sociedade capitalista na passagem para o século XX. Todavia, nem todos os estudiosos da sociologia do conhecimento no século XX concordariam em acentuar, mesmo por via da vertente saint-simoneana, a evidência de um paralelismo entre a análise crítico histórica da “fossilização da ideologia liberal” e a sociologia de Georges GURVITCH. Autores como Joseph GABEL, preocupados em dimensionar o alcance da dialética sociológica na desalienação (Cf.”Sociologie de la Alienation”, p.211sq), parecem deixar de lado que a noção gurvitcheana de “mumificação do discursivo” inclui a “interiorização das normas” como obstáculo à ”capacidade instituinte”, atingindo o termo “instituição” como considerado deste ponto de vista “demasiado estreito”. Por contra, outros autores sensíveis à mirada e à intervenção sociológica como René LOURAU viram com justeza na “mumificação do discursivo” entre outros aspectos a recusa da utilização sociológica de “instituição” como termo cristalizado que se limita a designar o instituído, a coisa estabelecida, as normas já presentes, o estado de fato confundido como o estado de direito, tornando desse modo cada vez mais escondido o aspecto instituinte da vida social, que LOURAU relaciona às designações empregadas por Georges GURVITCH como a noção de “condutas efervescentes” (Cf. “A Análise Institucional”, pp.134-143). Na verdade, mais voltado para a psiquiatria, Joseph GABEL deixa escapar que o alcance desalienante da dialética sociológica é indireto e mais do que um procedimento desmistificador do “falso saber”deve ser visto a partir do empirismo pluralista efetivo, como uma orientação demolidora dos preconceitos filosóficos inconscientes (tais como a projeção de um Eu genérico idêntico em todos, que é um preconceito legado da filosofia do século XVIII através de Rousseau e Kant). Quer dizer, do ponto de vista do empirismo pluralista efetivo que GURVITCH desenvolverá sob a designação de “hiperempirismo”, se desdobrarmos a célebre fórmula de Maurice MERLEAU-PONTY que a definiu como “um pensamento que não constitui o todo, mas que é aí situado” (Cf. ”Les Aventures de la Dialectique”,p.274), podemos reencontrar na dialética que esse “pensamento situado no todo” é a expressão das atitudes coletivas; que é um pensamento feito de arranjos que levam a reagir, que levam as unidades coletivas reais (grupos e classes), no interior destas os Nós (como expressão concreta da consciência coletiva) e as sociedades inteiras a reagirem de maneira comum, a conduzirem-se de um certo modo e a assumir papéis sociais particulares (Cf.GURVITCH: ”A Vocação Atual da Sociologia”- vol.1, pp.110sq).
Em sua expressão dialética estas ambiências criadoras manifestam-se nas três escalas: a dos Nós, a dos grupos e classes (são parciais), a das sociedades globais e suas estruturas. Daí, dessas três escalas, que, na sociologia de GURVITCH, as atitudes como configurações, conjuntos ou ambiências sociais implicando um quadro social com dinâmicas de avaliação sejam descritas como “ambientes imponderáveis” que, num aparente paradoxo (só aparente), podem ser detectados experimentalmente nos coeficientes de discordância entre as opiniões exprimidas nas sondagens ditas de “opinião pública” e as atitudes reais dos grupos -note-se em favor desta constatação experimental (provocada pelas próprias sondagens de opinião) que o nível mental incluindo as opiniões, as representações, as conceituações é estudado como sendo apenas um aspecto do conjunto, tanto mais incerto quanto os indivíduos mudam de atitude em função dos grupos ou os personagens que os papéis sociais encarnam mudam segundo os círculos a que pertencem. Mas não é tudo. Do ponto de vista da teoria de estrutura social a dialética sociológica é estudada na sociologia de GURVITCH em modo diferencial, e é descoberta com anterioridade em relação à expressão, é descoberta no próprio ser social, como veremos na “Quarta Parte” deste ensaio. Desse modo se mostrará então uma dialética complexa e pluralista, que está em medida de expressar a própria multiplicidade dos tempos sociais gerados pelas estruturas em estado de mudança interior (Nota 1). Quer dizer, se esta mudança interior torna fragmentada numa multiplicidade a tensão entre posição e movimento teremos uma variedade de procedimentos dialéticos de intermediação entre as manifestações ou os termos dicotômicos, sejam estes apenas opostos ou mais do que isso contrários, contraditórios, etc. Sem dúvida, a incoerência de Jean Paul SARTRE para com GURVITCH situando a este junto dos positivistas lógicos (Cf.”Critique de la Raison Dialectique”, pp.117 e 130) é desconsiderar o alcance realista (no sentido ontológico deste termo) da dialética como ligada à sociologia diferencial dos agrupamentos sociais particulares e à microssociologia. Para SARTRE a dialética sociológica assim verificada não se enquadraria na racionalidade do processus histórico nem a constatação gurvitcheana das hierarquias dos agrupamentos particulares como não absorvidas e conflitantes com as hierarquias das classes sociais. Como veremos adiante na sociologia de GURVITCH é a partir da constatação dessa diferença específica da hierarquia dos agrupamentos sociais particulares em face das classes sociais que se chega à percepção da mudança no interior das estruturas. Além disso, tampouco pode ser classificada “positivista”a descrição e a análise gurvitcheana dos determinismos sociais como operações de integração dos fatos ou manifestações particulares nos planos de conjuntos práticos. Se os determinismos são operadores no sentido usual do termo em análise matemática, isto é, símbolos de uma operação que se efetua sobre uma variável ou sobre uma função, a qualificação “positivista” é incabível porque se trata de função dialética e não apenas lógica, como dialético é o esforço coletivo de unificação. Na sociologia de GURVITCH , a integração dos fatos e a unificação nas estruturas se verificam a posteriori porque os grupos, as classes, as sociedades são afirmados tai
s na medida em que expressam e reconhecem eles próprios em temas coletivos os Nós, os grupos, as classes e as sociedades que pertencem reciprocamente e respectivamente aos grupos, ás classes, ás sociedades. SARTRE opõe a “mudança inercial” contra a sociologia diferencial como se a dinâmica complexa dos conjuntos práticos atendesse à mudança como decorrente do choque de posições e não dependesse das atitudes coletivas, do espontâneo coletivo propriamente dito que já é tocado pela liberdade humana em algum grau. Prova disto é o fato, já mencionado e básico na sociologia de GURVITCH, de que os agrupamentos particulares mudam de caráter e não apenas de posições, assumem identidades e diferenças não assumidas em tipos ou subtipos de sociedades diferentes. Na medida em que participam da mudança em eficácia que se opera no interior das estruturas, os grupos, mais do que se deslocarem conforme trajetórias apenas exteriores, se movem nos tempos sociais, acentuando a variabilidade (Nota 2).
Tanto é assim que um refinado historiador e crítico da sociologia de GURVITCH como o é Fernand BRAUDEL, portanto habituado à variedade dos conjuntos de fatos (Cf.”História e Ciências Sociais”) não deixou escapar a reflexão de que a tensão entre posição e movimento que moveu a Werner HEISENBERG na elaboração das chamadas equações de incerteza em teoria microfísica se fragmenta na multiplicidade dos tempos de que fazemos a experiência na vida social e histórica, tendo debatido inclusive a formulação de GURVITCH a este respeito, sobretudo a compreensão sociológica de que a multiplicidade dos tempos sociais se descreve como a coordenação dos movimentos que persistem na sucessão e se sucedem na duração. De fato, não há dúvida de que, na sociologia de GURVITCH, os procedimentos dialéticos compreendendo as complementaridades, as compensações, as ambigüidades, as ambivalências, as polaridades, as reciprocidades de perspectivas constituem as descrições pelas quais se chega a desocultar os tempos, a desocultar a eficácia ou a permanência das mudanças que estão a ocorrer no âmago da realidade social. Neste sentido, a mumificação do conceitual ou discursivo adquire um estatuto metodológico mais específico passando de obstáculo à percepção para obstáculo à verificação da mudança, já que o plano discursivo é negado sociologicamente pelas variações factuais do saber e a mumificação do conceitual bloqueia este conhecimento. Cabe acrescentar, enfim, no dizer de GURVITCH, que a verificação dos níveis da dialética, sobretudo a clarificação das três escalas ou dimensões do microssocial, do grupal, do global é uma orientação bem circunstanciada que se compreende do ponto de vista do avanço real da colocação em perspectiva sociológica do conhecimento, acentuada no século XX, nos anos 50 e 60, pela busca de coerência entre teoria científica e pesquisa favorecendo o reencontro das diferentes interpretações da dialética e do empirismo pluralista efetivo, corroborado no âmbito das ciências da natureza com a teoria física afirmando a multiplicidade dos quadros de referência operativos.

Não há dúvida de que a teoria sociológica de estrutura social é uma teoria dinâmica.

Como já dissemos a respeito dos determinismos propriamente sociológicos de que depende a formação das estruturas sociais, o esforço coletivo de unificação dos determinismos sociais já é historiado, de tal sorte que as estruturas sociais se colocam como um processus permanente compreendido num movimento de desestruturação e reestruturação. As estruturas sendo obras de civilização não podem, pois, subsistir um instante sem a intervenção dos atos coletivos, num esforço de unificação e orientação a recomeçar sempre.
GURVITCH insiste que o problema da estrutura social só se põe na escala macrossociológica e em relação às unidades coletivas reais, nunca em geral: não há uma análise estrutural separada de uma análise dos agrupamentos particulares, das classes sociais, ou das sociedades globais sejam estas tribos, cidades, Estados, impérios, nações, sociedades internacionais. Do ponto de vista sociológico é improdutivo discutir problemas de estrutura social sem levar em conta a nítida consciência coletiva da hierarquia “específica e referencial” de uma unidade coletiva real, como o é a hierarquia das relações com os outros grupos e com a sociedade global,ou, designada de modo mais amplo, hierarquia das manifestações da sociabilidade, hierarquia esta que só se verifica nos agrupamentos estruturados (Nota 3). Na sociologia de GURVITCH em cuja percepção diferencial os grupos são sempre específicos, a análise da passagem de um “agrupamento não-estruturado, mas estruturável” como o é todo o agrupamento particular, para chegar à condição de agrupamento estruturado, distingue os seguintes momentos (Cf. “A Vocação Atual da Sociologia-vol.I”, op.cit.pp.496 a 500): (1)- a diferenciação entre “categoria” ou “estrato”, como simples coleção de indivíduos que se encontram numa situação mais ou menos idêntica, e os “verdadeiros grupos reais”; (2)- a oposição de grupo e de estrutura; (3)- a passagem propriamente dita de um agrupamento não-estruturado para agrupamento estruturado. No tópico “(1)”, afirma-se que é uma questão de fato e somente de fato saber quando se está perante a verdadeiros grupos reais ou perante a uma simples coleção de indivíduos. Desse modo, se constata que os desempregados podem passar de “coleção” para grupo real nas conjunturas de crise econômica, da mesma maneira em que as pessoas que se encontram numa situação econômica idêntica só constituem grupo real quando sentem que o seu nível de vida e prestígio social sofreu uma baixa ou, pelo contrário, quando se dão conta de que o seu nível de vida e prestígio social se encontram em alta. Do mesmo modo, consumidores e usuários podem tornar-se grupos reais quando seus interesses são alcançados pelo conflito, o que acontece porque: (1)- se trata de consumidores que não são simultaneamente produtores, como aposentados, inválidos, crianças, adolescentes, velhos, mulheres, etc; (2)- os consumidores se encontram especialmente conscientes da subida dos preços provocada pelas exigências dos produtores de um outro ramo da indústria; (3)- se deixam animar por uma doutrina como o trabalhismo, p.ex., que os leva a acentuar sua posição de consumidores ou a procurar um equilíbrio entre esta posição e a dos produtores. Nestes três casos as duas categorias produtores e consumidores podem tornar-se grupos reais, podem mesmo estruturar-se e, se isso acontecer, podem ir ao ponto de se organizar.
Por fim, nota GURVITCH, o caso dos diferentes públicos que na maior parte do tempo são apenas categorias ou coleções de indivíduos, embora em certas circunstâncias particulares possam tornar-se grupos reais e mesmo encaminhar-se na via da estruturação: é o exemplo dos laicistas e os clericalistas na altura dos conflitos de separação do Estado e da Igreja, etc. GURVITCH nota e insiste nisso que quando se passa de uma categoria a um grupo real temos questões de fato, estamos diante de unidades coletivas observáveis diretamente, e fundadas em atitudes contínuas e ativas que constituem quadros macrossociológicos com certa coesão. Quer dizer, estamos diante do seguinte: 1- “agrupamentos de afinidade fraternal”, calcada esta afinidade numa situação econômica análoga, como é o caso dos estratos numa classe social, o dos desempregados, o dos produtores e o dos consumidores; 2- agrupamentos de idade, como a juventude, as pessoas de idade madura, os velhos, ou agrupamentos ligados às gerações; 3- os públicos, como agrupamentos assentes na afinidade de gostos, de crenças, de doutrinas, etc. Nada obstante, enquanto falta a estrutura e não seja palpável o próprio movimento para uma estruturação não têm esses qua
dros conseqüentemente nenhuma armação e o equilíbrio entre as diversas hierarquias não existe, a consciência coletiva não se separa do inconsciente e as regulamentações ou controles sociais pelo direito, pela moral, pelo conhecimento, etc. não são diferenciados, entre outros critérios. Segundo GURVITCH, na segunda metade do século XX, nas sociedades mais desenvolvidas, nota-se que esse movimento para uma estruturação acontece com o grupo de pessoas idosas e acontece também por um lado com os estratos de técnicos, peritos, diretores e por outro lado com os estratos de funcionários, empregados, intermediários. Nosso autor sustenta contra a tese que pretende separar análise estrutural e análise dita histórica que o procedimento de apreciar em um só conjunto e contrapor grupo e estrutura na análise sociológica é válido, não só para agrupamentos de grande envergadura como os acima considerados, mas para os agrupamentos particulares funcionais, já que: 1) – não pode deixar de haver certa semelhança entre grupo e estrutura, sendo característica de todos os agrupamentos o fato de serem estruturáveis, como já mencionado; ademais, a possibilidade de uma estrutura não se confunde e não é nem estruturação nem estrutura adquirida ; 2)- em um grupo não-estruturado as relações com os outros grupos e com a sociedade global ficam fluidas; 3)- é somente quando começa a estruturação que essas relações se tornam precisas, quer dizer que se coloca toda uma série de questões a propósito de como o grupo se integra na sociedade global e da medida da sua tensão com os outros grupos ; 4)- por isso,assinala GURVITCH, os mesmos grupos específicos podem adquirir estruturas variadas em função da sua integração nos diversos tipos de sociedades globais, como o grupo familiar, que ora é família doméstica, ora é família conjugal, ora é família-lar; como, igualmente, o grupo profissional, que ora aparece fazendo parte da família doméstica, ora identificado a uma confraria mágica, ora fazendo um todo com uma casta, ora tomando o caráter de uma associação voluntária, etc.; 5)- por fim, é indiscutível que um grupo não-estruturado em um tipo de sociedade global , como é o caso das indústrias, o dos consumidores, ou, ainda, o dos estratos tecnocráticos, em regime de capitalismo concorrencial, pode vir a estruturar-se muito fortemente noutros tipos de sociedades globais, como é ainda o caso dos grupos mencionado uma vez postos sob o regime do capitalismo dirigista.

GURVITCH fundou a microssociologia partindo da crítica imanente a DURKHEIM, de modo realista, mediante a análise das duas espécies de sociabilidade.

Seja como for, na sociologia diferencial de GURVITCH, importa reter no estudo da estruturação que em cada unidade coletiva real se encontram as manifestações da sociabilidade. Quer dizer, estas manifestações configuram em sua diferença específica os quadros microssociais que se encontram em cada unidade coletiva real de maneira espontânea, mas que são utilizados pelas unidades coletivas para se estruturarem e, desse modo, as manifestações da sociabilidade são hierarquizadas do exterior ou de fora para dentro: o grupal e o global imprimem pois a sua racionalidade histórica e a ligação estrutural a essas manifestações microscópicas da vida social.
Apreciada nela mesma, o esquema de análise diferencial na microssociologia de GURVITCH distingue o seguinte: 1) – a sociabilidade por fusão parcial nos Nós como expressão concreta da consciência coletiva, ou a sociabilidade que se manifesta na participação nos Nós, cujos graus de intensidade são a Massa, a Comunidade e a Comunhão. Na Massa, a pressão (“exterior”) do conjunto sobre os participantes é a mais forte dos três graus, e a atração (“interior”) dos Nós é a mais débil; na Comunidade prevalece a média e na Comunhão ocorre o inverso da Massa, de tal sorte que o volume desta última pode ter uma expansão quase ilimitada, enquanto a Comunhão se estreita para manter a força e a profundidade da fusão no Nós. 2) – a sociabilidade por oposição parcial num Nós, que se manifesta nas relações com outrem, sejam relações interpessoais ou relações entre eu tu ele, sejam relações intergrupais. Para GURVITCH, é na fusão nos Nós que se afirma a tomada de consciência da unidade relativa desse Nós e do mundo de significados ou de realidade que desse modo se abre o qual , como já mencionado, de outra forma restaria inacessível, notando-se a grande riqueza que a descoberta desse mundo de significados microssociológicos aporta à sociologia do conhecimento, à sociologia da moral, à do direito, etc. Quanto às relações com outrem a unidade resta inconsciente, já que os juízos, as idéias, os símbolos atualizados nesse plano se reduzem aos horizontes de sócios e reproduzem as significações que têm sede em um Nós, em um grupo, em uma classe, ou em uma sociedade global.
Temos então que a Massa, a Comunidade, a Comunhão como quadros sociais, não o são ao mesmo título das unidades coletivas reais cuja sociabilidade constituem, mas o são à medida de sua conceituação em tipos de quadros sociais. Da mesma maneira, o saber dos grupos é um saber próprio, enquanto que o da Massa, da Comunidade, da Comunhão é um saber que lhes corresponde. Quer dizer, é mediante a dialética sociológica que se pode conceituar os três graus de fusão parcial num Nós. De fato, GURVITCH fundou a microssociologia partindo da crítica imanente a DURKHEIM em modo realista mediante a análise das duas espécies da sociabilidade mencionadas (por fusão parcial nos Nós e por oposição parcial num Nós), e desenvolveu a dialética como ligada à experiência pluralista e à variabilidade por exigência da constatação de que nos Nós as relações com outrem não podem ser identificadas nem às fases históricas da sociedade global, nem aos agrupamentos particulares (cf. “A Vocação… -vol.1”, op.cit.p.286). E isto é assim porque a diversidade irredutível dos Nós faz com que tais manifestações da sociabilidade por relações com outrem não admita síntese que ultrapasse a combinação variável dessas relações microscópicas, como espécie de sociabilidade. Quer dizer, mesmo no estado muito valorado pelos estudiosos da história social, quando as relações com outrem são distribuídas hierarquicamente e servem de ponto de referência a uma estrutura social (relações com o Estado, relações com a classe burguesa, etc.) a síntese não ultrapassa o estado de combinação variável. É pela microssociologia que se põe em relevo a variabilidade no interior de cada grupo, de cada classe, de cada sociedade global.
Na sociologia de GURVITCH, a pesquisa microssociológica da variabilidade descobre doze planos cujas coordenadas básicas são as duas espécies de sociabilidade mencionadas: a por fusão parcial nos Nós e a por oposição parcial num Nós. Cada uma dessas duas espécies microssociológicas se atualiza em três graus: 1)- os três graus de fusão nos Nós, correspondendo, como já mencionado, à Massa, `Comunidade , à Comunhão, e 2)- os três graus de oposição parcial num Nós correspondendo, por sua vez, às relações com outrem por afastamento, às relações mistas, às relações por aproximação. GURVITCH assinala que as relações com outrem são observadas desde o ponto de vista da dialética sociológica, sobretudo a dialética das três escalas – a do microssocial, a do parcial e a do global, já mencionadas- (a)- como as relações variáveis que se manifestam entre os Nós, os grupos, as classes , as sociedades globais; (b)- como as relações que, em acréscimo, variam com a oposição entre sociabilidade ativa e sociabilidade passiva, sem todavia deixar de manter sua eficácia de conjuntos ou de quadros sociais, já que são componentes fundamentais da estruturação dos grupos ( Nota 4). .

Do ponto de vista da microssociologia do conhecimento,
o estudo mais rico em significações é o das comunidades
como quadros sociais.

Menos complexa, a análise sociológica das massas leva a distinguir inicialmente o seguinte: 1) – massas bem destacáveis e massas pouco destacáveis; 2) – massas passivas e massas ativas. Evidentemente, são as massas bem destacáveis e as massas ativas que mostram maior interesse para a sociologia do conhecimento: assim temos os seguintes exemplos ou casos privilegiados: 1) – massas destacáveis: são as massas quando se atualizam nas classes sociais e nas sociedades globais, ou nos agrupamentos de grande envergadura, como o Estado, a Igreja, os partidos políticos, os sindicatos; 2) – massas menos destacáveis: são as massas quando se atualizam nas famílias, nos grupos locais, nas fábricas, etc. 3) – massas passivas: a massa dos desempregados, a massa dos emigrados, etc. 4) – massas ativas: as massas descontentes, as massas revolucionárias, as massas em êxtase. Quanto ao conhecimento em correlação sociológica funcional com as massas se afirmam em primeiro lugar e lado a lado, o conhecimento perceptivo do mundo exterior e, sobretudo, o conhecimento político. As massas passivas percebem o mundo em amplitudes egocêntricas como situado, por exemplo, nos “espaços” ligados às suas necessidades -caso dos desempregados, em que as amplitudes percebidas são ligadas à busca de emprego, à ajuda, `a ameaça da fome, etc. Nas massas ativas, o conhecimento do mundo exterior leva a dividi-lo em zonas hostis ou amistosas, desfavoráveis ou favoráveis ao porvir, e elas o percebem em função de sua ação, de suas impaciências e de suas iniciativas. Nas massas passivas esse conhecimento do mundo exterior toma as formas simbólica, especulativa e coletiva; nas massas ativas a forma conceitual se torna empírica. Quanto ao conhecimento político é implícito nas massas passivas e explícito nas massas ativas. Há um abstencionismo das massas passivas que segundo GURVITCH é apenas aparente e está ditado por um conhecimento partidário, comprometido, tático, ainda que semiconsciente ou tácito. Nas massas ativas os símbolos políticos são formulados como mitos que chamam à ação, por um lado e, por outro lado, os meios de alcançar eficazmente os objetivos assim formulados são igualmente conceitualizados. É a dupla conceitualização presente nos programas, declarações e resoluções dos partidos políticos. Entretanto, mais do que apenas formulado no plano do discurso, sabe-se que o conhecimento político assim conceitualizado em modo discursivo é produto menos das massas do que dos quadros macrossociais, como os partidos políticos e as classes sociais. Nada obstante, o êxito ou o fracasso dos programas políticos partidários é com freqüência função de sua correspondência ou de seu desacordo não somente em face da ação, mas em relação ao conhecimento político direto das massas (cf. GURVITCH: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, p. 59 sq). Enfim, as massas ativas mostram tendência a fazer predominar o conhecimento político sobre qualquer outra classe de saber, de tal sorte que o conhecimento de outro e dos Nós se transforma em reconhecimento dos adversários e dos aliados, e o conhecimento perceptivo do mundo exterior sai em busca dos campos que estejam dispostos um contra o outro. Sem duvida essa tendência das massas pró-conhecimento político pode ser modificada “radicalmente” pelos grupos, classes e sociedades em que tais massas se atualizam, ou ainda pode ser equilibrada pelas outras manifestações dos Nós, como as comunidades e as comunhões .
Em sua pesquisa pioneira da microssociologia, especialmente na análise da Comunidade, GURVITCH nota que as comunidades (termo este especificamente sociológico, descritivo e positivo que nada tem a ver com “comarca”, “comuna” ,”comunidade nacional ou internacional”, muito menos com “comunidade religiosa”) são particularmente propícias para o conhecimento, e que esta característica justificou os sociólogos personalistas em sua atribuição à comunidade de um valor maior que às massas e às comunhões, o que GURVITCH sublinha como contestável, pois o critério do conhecimento não é o único e continua sendo impossível estabelecer uma hierarquia abstrata e a priori entre as massas, as comunidades e as comunhões; tudo depende tanto das estruturas macrossociais, onde se atualizam as comunidades, quanto dos conteúdos cognitivos (classes e formas de conhecimento), dos conteúdos morais, estéticos, etc. Se as comunidades são as manifestações mais duráveis e mais freqüentemente atualizadas no seio dos grupos, das classes, das sociedades, a ambigüidade deve ser posta em relevo notando-se que a tendência à ponderação resultante da característica de ser durável – pela qual as comunidades têm um ar de racionalismo sendo tendentes a favorecer as condutas regulares e os funcionamentos preestabelecidos e estereotipados dos modelos e dos símbolos – não elimina o fato de que as comunidades igualmente a todas as manifestações de sociabilidade permanecem espontâneas e fluentes, de tal forma que o saber que lhes corresponde não é o dos sistemas cognitivos, não é o saber hierarquizado, mas se faz de “indicações” das classes de conhecimento que nelas são localizadas.
Enfim, prossegue GURVITCH, há que se acautelar quanto ao erro de identificar as comunidades e os grupos particulares, como acontecia na corrente sociológica conhecida por “Estudos de Comunidade” (Community Studies), que é uma confusão entre os grupos locais e a sociabilidade, tida esta última como feita dos “entendimentos” que sobrepassam as simples relações com outrem, e que é concebida de maneira bem aproximada à dos formalistas como TONNIES, com a comunidade sendo oposta à sociedade. No que concerne a classe do conhecimento perceptivo do mundo exterior, GURVITCH assinala que as comunidades sendo “extrovertidas” suscitam a tendência à conceitualização, a tendência à aplicação de medidas e à própria quantificação diante do mundo exterior, tendência esta que emana dos grupos de grande envergadura, como a Igreja e o Estado, ou provem das sociedades globais onde tais comunidades são integradas. Quer dizer, o conhecimento perceptivo do mundo exterior foi favorecido e tomou uma forma racional adequada de equilíbrio do especulativo e do positivo nas sociedades em que predominaram as comunidades, tais como: as Cidades-Estados antigas, as pequenas cidades da Idade Média, as sociedades da Renascença, as sociedades globais correspondentes ao capitalismo competitivo. Já em relação ao conhecimento de outro, que também é privilegiado pelas comunidades, nota-se que: 1)- é preciso definir quem é o outro, ou que se entende por “outro” nos grupos e nas sociedades globais em que se atualizam as comunidades: assim, por exemplo, nas Cidades antigas, o “outro” refere-se aos concidadãos e não aos “metecos”, nem com mais razão aos escravos; 2)- os tipos de sociedades globais com exceção da sociedade feudal e da patriarcal sempre desviaram a tendência das comunidades a favorecer o conhecimento de outro. Quanto ao conhecimento de senso comum é contemplado apenas em princípio pelas comunidades, porque estas favorecem os modelos e as regras e lhes dão um matiz racional na forma do equilíbrio do especulativo e do positivo, como dissemos. Isto para GURVITCH significa o seguinte: 1) – que são as comunidades que através das famílias e dos grupos locais de pequena envergadura fazem sobreviver o conhecimento de senso comum; 2)- que, sendo nossas sociedades industriais refratárias a esta classe de conhecimento, e visto a limitação das comunidades para reforçá-lo além dos quadros restritos notados no item (1) fica patente a fraqueza dos Nós para resistir às estruturas globais ou parciais no seio das quais se atualizam.
As comunidades -prossegue nosso autor- têm um efeito contrário ao das massas sobre o conhecimento político, o qual sob sua
influência tende a fazer-se mais positivo do que especulativo: assim quando são predominantes em um grupo, em uma classe social, ou em uma sociedade global, as comunidades racionalizam o conhecimento político, quer dizer, o liberam de um simbolismo exagerado, de mitologias e de utopias. Enfim, a característica das comunidades de serem propícias para os modelos e os estereótipos deve ser levada em conta na apreciação da correlação funcional com o conhecimento técnico: assim 1)- as comunidades ajudam a manter em certo nível os conhecimentos técnicos já adquiridos; 2)- as comunidades que nascem do trabalho em equipe, como a fábrica, a oficina, o laboratório, etc. podem melhorar ou até descobrir conhecimentos técnicos novos, como se verificou nos começos da industrialização, enquanto que, na fase atual da sociedade industrial, dada a extrema complexidade da técnica, o papel renovador do conhecimento técnico das comunidades de trabalhadores se tornou mínimo.
No que concerne a análise das comunhões na sociologia de GURVITCH, nota-se a tendência “ao enclausuramento e limitação” como caracterização das mesmas. Observa-se que o caráter místico das comunhões “não é absolutamente necessário”. Elas podem ser racionais, como a comunhão entre filósofos ou entre partidários de uma doutrina política, ou ainda podem basear-se na ação sócio-política. Segundo nosso autor, o que conta na caracterização das comunidades é a incapacidade das mesmas para evitar a ruptura entre sua intensidade e sua extensão, sem que essa extensão seja sacrificada nas cisões inevitáveis. Quer dizer, as comunhões tendem a redobrar-se sobre elas mesmas. Quando podem virtualmente crescer em extensão, ou quando acontece que a virtualidade dessa extensão pode ser posta perante a intensidade dos Nós, tornam-se inevitáveis as cisões, com a prevalência da intensidade do respectivo Nós. Dado este caráter de solipsismo coletivo, essa tendência a fechar-se no mundo que lhes é próprio, a fechar-se no seu próprio encantamento, as comunhões são muito menos propícias ao saber do que as comunidades e, nota GURVITCH, “às vezes até menos ainda do que o são as massas”. As comunhões só favorecem o conhecimento delas mesmas, quer dizer, o conhecimento dos Nós que elas constituem, bem como o conhecimento político e o conhecimento cósmico-teogônico. Admitem também, porém deformando-o, o conhecimento perceptivo do mundo exterior. Há exceções: 1) – uma comunhão de pesquisadores pode ser motivada pelo conhecimento científico no momento de uma grande descoberta; 2) – uma comunhão de adeptos pode ser motivada por uma revelação filosófica de transcendência universal. Importa notar que o conhecimento dos Nós propiciado pelas comunhões é exótico em duplo sentido e se observa na atitude da Comunhão para com aqueles que estão fora dela, isto é, para com “outros Nós” ou para com os participantes individuais. Desse modo, na situação em que está posta diante dos ignorados, dos recalcitrantes e dos indiferentes, sobre os quais o encantamento não tem eficácia, a comunhão lhes faz sofrer não o mínimo de pressão do conjunto – como o faz aos seus membros ligados mais pela atração do respectivo Nós, mas (e este é o primeiro sentido do caráter exótico acima destacado) lhes faz sofrer “o máximo de pressão”, sendo exatamente esta característica (e este é o segundo sentido do caráter exótico) que “faz lembrar” o poder ou o modo de operar da massa, para cujo domínio parece, então, que a comunidade empurra os “desencantados”. De acordo com GURVITCH, esse aparente paradoxo de a Comunhão operar a integração dos fatos particulares de um modo que lembra o determinismo da Massa se compreende porque as comunhões vivem sem perspectiva, sem abertura para a extensão e o crescimento, vivem no tempo cíclico, no tempo do “eterno retorno” que surge dos seus êxtases do porvir (do porvir como simbolização do tempo avançado sobre si). Portanto, a amplitude onde está inserido o mundo exterior se confunde para as comunhões com os seus membros e com os ritos, modelos, símbolos que usam em comum (amplitude áutica, egocêntrica e concêntrica). Quer dizer, sem as conjunturas excepcionais como grandes greves, revoluções vitoriosas ou começos de grandes movimentos religiosos, é difícil arrancar as comunhões de seu isolamento. Enfim, nota-se que o conhecimento político em estado mais ideal do que tático tal como favorecido pelas comunhões é simbólico e ligado a um mito ou a uma utopia, ou aos dois combinados. Tanto que nas sociedades arcaicas as comunhões serviram de sede para as experiências simbólico-místicas racionalizadas em mitos cósmico-teogônicos. Já quanto às sociedades históricas, GURVITCH observa que é difícil estabelecer as relações diretas entre as comunhões de crentes e o dogma elaborado pelos teólogos, com exceção dos “Quaquers” e sua comunhão conseguida pelo silêncio.

Neste ponto sobressai o inegável alcance essencial da microssociologia para a teoria sociológica de estrutura social.

De todas as formulações da sociologia diferencial de GURVITCH que viemos de expor a respeito do alcance essencial da microssociologia para a teoria de estrutura social torna-se claro a improcedência da tese contrária de que seria praticamente impossível a microssociologia independente da psicologia social – tese essa já renegada pelo seu próprio mentor Jean PIAGET (ver sua contribuição ao segundo vol. do “Tratado de Sociologia” dirigido pelo próprio GURVITCH). Imaginou-se que a sociologia como disciplina científica seria fundada no suposto imperativo axiológico de “tomar posição”, atribuído como incumbência metodológica do sociólogo, por um lado, combinado tal imperativo, por outro lado, ao ideal de matematização da psicologia da inteligência dita genética. Sustentou-se ainda que a sociologia dos conhecimentos, no plural, seria chamada a se apoiar é verdade de mais em mais sobre a história das idéias, sobre a história das ciências e das técnicas, orientação esta que supostamente lhe passaria a tarefa de “tomar posição” a respeito de fenômenos tão decisivos como o milagre grego e a decadência da ciência grega no período alexandrino. Por fim, entendeu-se que a explicação sociológica se faria coincidir com uma matematização qualitativa de natureza análoga àquela que intervem na construção das estruturas lógicas. Sem dúvida, como tudo indica, nesta tese contrária à dialética sociológica tomou-se por modelo a sociometria de J.L.MORENO, que é uma técnica de estimação dos ajuizamentos de valor portados por cada membro de um grupo sobre cada um dos outros.
Entretanto, ao notar a dialética das três escalas (o microssocial, o parcial e o global) já vimos que na sociologia os elementos microssociais não têm absolutamente nada a ver com o individualismo, o atomismo e o formalismo sociais. As manifestações da sociabilidade incluindo as relações com outrem são definidas pela dialética sociológica como as múltiplas maneiras de ser ligado pelo todo no todo, este último termo compreendendo inclusive o complexo de significações observados em todo o campo cultural existente. Aliás, note-se que desde 1937, portanto antes de J.L.MORENO e seus colaboradores começarem a associar sua sociometria à microssociologia, já insistia GURVITCH no fato de que todas as interações, interrelações, relações com outrem -interpessoais e intergrupais- ou interdependências pressupunham e eram sempre fundadas sobre interpenetrações, integrações, participações diretas, fusões parciais nos Nós (atuais ou virtuais), sempre concebidos como totalidades Cf.Lumier, Jacob (J.) : ” ASPECTOS DA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO -REFLEXÕES EM TORNO ÀS ANÁLISES SOCIOLÓGICAS DE GEORGES GURVITCH ” . Do ponto de vista desta abordagem sociológico-dialética a pr
odução de MORENO e seus colaboradores, famosos pela extraordinária aceitação e penetração do psico-drama e do sócio-drama notadamente nos Estados Unidos, deve ser apreciada como o esforço de autores que embora tenham ultrapassado os erros de um HOBBES há muito superado, permaneceram parcialmente em desvantagem devido a um psicologismo individualista que os levou a reduzir a realidade social a relações de preferência e de repugnância interpessoais e intergrupais. Nota GURVITCH que o erro de HOBBES não foi o de ter procurado os elementos microscópicos e irredutíveis de que é composta qualquer unidade coletiva, mas foi sim o erro de encontrá-los fora da realidade social, nos indivíduos isolados e idênticos. Desse modo se estabeleceu a referência do atomismo social como o conjunto das concepções individualistas e contractualistas que reduzem a realidade social a uma poeira de indivíduos idênticos. É esta a referência que GURVITCH verifica no psicologismo individualista, situando assim MORENO no mesmo nível dos representantes do formalismo social que promoveram a redução de qualquer sociabilidade à simples interdependência e interação recíproca, cujos nomes mais conhecidos são: (a) – Gabriel TARDE, notado por seus debates com DURKHEIM; (b) – Georges SIMMEL e (c) – Leopold von WIESE. Nesta limitada orientação se preconiza que no nível psicológico da realidade social qualquer interesse está concentrado sobre a psicologia interpessoal em detrimento da psicologia coletiva propriamente dita, e nesta sequência, desprezando as funções intelectuais e voluntárias, MORENO se limita ao aspecto exclusivamente emotivo e neste âmbito ao aspecto da preferência e da repugnância, deixando de lado o aspecto da aspiração.

A sociologia dos agrupamentos particulares como quadros sociais do conhecimento

No que concerne o estudo dos grupos particulares como quadros sociais do conhecimento deve-se notar inicialmente na sociologia de GURVITCH que só há grupo quando em um quadro social parcial aparecem as seguintes características: 1)- predominam as forças centrípetas sobre as forças centrifugas; 2)- os Nós convergentes predominam sobre os Nós divergentes e sobre as diferentes relações com outrem. Quer dizer, é dessa maneira e nessas condições que o quadro do microcosmo das manifestações de sociabilidade que constitui um grupo social particular pode afirmar-se no seu esforço de unificação como irredutível à pluralidade das ditas manifestações. Daí a percepção desenvolvida na sociologia de GURVITCH de que em todo o microcosmo social há virtualmente um grupo social particular que a mediação da atitude coletiva faz sobressair. O grupo é uma unidade coletiva real, mas parcial que é observada diretamente, como já foi dito. Essa unidade é fundada exatamente em atitudes coletivas contínuas e ativas; além disso, todo o grupo tem uma obra comum a realizar, encontra-se engajado na produção das “idéias”, como o direito, a moral, o conhecimento, etc., de tal sorte que sua objetivação se afirma recorrente como “unidade de atitudes, de obras e de condutas” advindo dessa característica objetivação que o grupo se constitua como quadro social estruturável, com tendência para uma coesão relativa das manifestações da sociabilidade.
Nota-se então no conjunto dos agrupamentos particulares uma dialética entre a independência e a dependência a respeito do modo de operar da sociedade global. Dessa forma, como já o notamos, observa-se que os grupamentos mudam de caráter em função dos tipos de sociedades globais em que se integram conforme hierarquias específicas, notadamente conforme a escala dos agrupamentos funcionais. Nota-se também, do ponto de vista da dialética diferencial independência/dependência que em tipos de sociedades globais favorecendo a estruturação dos agrupamentos particulares, como na sociedade feudal, o modo de operar desses grupos pode parecer comandar o do conjunto. O inverso é verdadeiro: na teocracia oriental, na Cidade-Estado, na sociedade do início do capitalismo, no comunismo nota-se que o modo de operar das estruturas globais tem eficácia que parece predominar ostensivamente sobre o dos agrupamentos particulares. Enfim, nas lutas das classes, a competição e a combinação entre o modo de operar unificando os grupos e o que rege as sociedades globais podem tomar formas muito diversas. Seja como for, é essa dialética sociológica de competição e combinação orientada ora para a independência, ora para a dependência a respeito do modo de operar da sociedade global que segundo GURVITCH justifica o estudo separado dos modos de operar regendo os agrupamentos. Da mesma maneira, é essa dialética que justifica a percepção do papel essencial que, pela objetivação, os grupos desempenham na unificação pela sociedade global.
Ou seja: existe um deslocamento, uma competição, uma ruptura, uma tensão entre o determinismo sociológico das classes sociais e o das sociedades em que elas se encontram integradas. Segundo GURVITCH é um erro fatal transformar o determinismo das classes em um princípio universal, em módulo permitindo atingir a compreensão de todo o determinismo sociológico global. Sem levar em consideração essa ruptura não se chega ao essencial, não se percebe que se está ante “uma descontinuidade relativa limitada por uma continuidade relativa”, cujos graus só podem ser estudados de maneira empírica. Daí o campo da dialética entre independência e dependência, sendo essencial o papel dos agrupamentos particulares porque impedem que a unificação pelo modo de operar da sociedade global -cuja integração dos fatos é a mais eficaz- seja efetuada sem a intervenção da liberdade humana, sem a intervenção da liberdade de escolha, da liberdade de decisão, da liberdade de criação individual e coletiva. Ou seja, o papel dos agrupamentos particulares é não deixar escapar nem a descontinuidade, nem a continuidade entre os dois determinismos, entre o determinismo das classes sociais e o das sociedades globais.
Dessa maneira, a análise sociológica diferencial empírica do grupal, isto é, a análise da escala do parcial na realidade social tal como estudada na sociologia de GURVITCH leva a distinguir seis espécies de agrupamentos funcionais, seguinte: (1) – os agrupamentos de parentesco: clã, família doméstica, família conjugal, lar, etc.; (2) – os agrupamentos de afinidade fraternal, que são fundados sobre uma afinidade de situação, compreendida aí a situação econômica, mas que também podem ser fundados sobre uma afinidade de crença, de gosto ou de interesse: por exemplo: os agrupamentos de idade e de sexo, os diferentes públicos, os agrupamentos de pessoas tendo os mesmos rendimentos ou fortunas; (3)- os agrupamentos de localidade : comunas ou comarcas, municipalidades, departamentos, distritos, regiões, Estados; (4)- os agrupamentos de atividade econômica, compreendendo todos os agrupamentos cujas principais funções consistem em participação na produção, nas trocas, na distribuição ou na organização do consumo; (5)- os agrupamentos de atividade não-lucrativa, como os partidos políticos, as sociedades eruditas ou filantrópicas, clubes esportivos, etc.; (6)- os agrupamentos místico-extáticos, como as igrejas, as congregações, as ordens religiosas, seitas, confrarias arcaicas, etc.
Na sociologia de GURVITCH, a escala dos agrupamentos funcionais cujas espécies acabamos de enumerar é posta em relevo como sendo privilegiada e formando os pilares das sociedades. Constituem não só o pilar das sociedades globais de todo o tipo, mas também o de toda a estrutura social do conjunto. Todavia, é do fato de que os agrupamentos mudam de caráter em função dos tipos de sociedades globais em que se integram, como já o dissemos, que se pode falar de tipos de agrupamentos e de que estes tipos são mais concretos que os tipos micr
ossociológicos, são mais concretos do que a Massa, a Comunidade, a Comunhão, as relações de aproximação, as relações de afastamento, as relações mistas. Quer dizer, os tipos de agrupamentos são mais submetidos às condições históricas e geográficas; são mais dependentes dos tipos de estruturas globais em foco na estrutura social do conjunto em que ora formam blocos maciços, ora se dispersam, sofrendo de maneira manifesta os efeitos do modo de operar da sociedade global. Reciprocamente, o modo de operar da sociedade global é, por seu lado, fortemente impregnado (a) – pelo modo de operar dos agrupamentos parciais, em especial daqueles que exercem papel destacado na hierarquia dos agrupamentos funcionais, sobre a qual, ademais, se apóia a estrutura do conjunto em questão, assim como, (b)- pelo modo de operar das classes sociais, as quais desde que aparecem nas sociedades industrializadas subvertem a hierarquia básica da estrutura do conjunto e a combatem. Sob este aspecto das relações entre a escala do parcial e a escala do global, incluindo a dialética entre a independência e a dependência em face do global, nota-se ainda que, na sociologia de GURVITCH, a hierarquia dos agrupamentos no interior de uma classe social só raramente se reduz à escala dos estratos de afinidade econômica, resultantes estes que são da disparidade de riqueza ou de salário, da disparidade de preparação profissional, da disparidade de necessidades, carências ou satisfação destas. Outros gêneros de hierarquias de grupos surgem com base em critérios como o prestígio, o poder, a boa reputação de certos agrupamentos no interior da classe, critérios estes que, em geral, são completamente independentes da estratificação econômica.
Por sua vez, no interior de uma classe social a escala dos agrupamentos independentes dos estratos econômicos implica uma avaliação que só pode derivar da tábua de valores própria a esta classe (cf.”Determinismos Sociais e Liberdade Humana”, op.cit, p. 209 sq). Desse modo, a classe social em seu esforço de unificação dos agrupamentos parciais que ela empreende em competição com a unificação pelo tipo de sociedade global se afirma como totalidade dinâmica específica que, todavia, apresenta caráter diferente para cada classe, para cada estrutura e, às vezes para cada conjuntura global. Quer dizer, a unificação dos modos de operar dos agrupamentos sociais particulares em um modo de operar de classe toma formas diferentes dado a variedade das classes sociais, seus tempos diferentes e suas obras diferentes. O esforço de unificação dos modos de operar divergentes no interior de uma classe social põe em relevo o papel destacado que a consciência de classe, a ideologia e as obras de civilização desempenham habitualmente na dinâmica das classes sociais, que não é só uma dinâmica de avaliação relativamente à hierarquia dos agrupamentos independentes da estratificação econômica, mas inclui a suprafuncionalidade da classe, pois a classe social interpreta a totalidade das funções sociais como combinada ao esforço concentrado que realiza para ascender ou para ingressar no poder. Na sociologia de GURVITCH, a análise da totalidade dinâmica específica da classe social faz notar o fato de que as classes sociais servem normalmente de planos de referência ao conhecimento, à moral, ao direito, à arte, à linguagem, favorecendo a verificação do funcionamento dos modos de operar parciais dessas próprias classes sociais. Enfim como já foi notado, o modo de operar das classes sociais afirma antes de tudo a acentuação dos papéis sociais, de preferência no domínio econômico e político; em seguida, afirma a eficácia da consciência coletiva muito intensa e penetrante, conseguindo predominar sobre o espírito de corpo dos agrupamentos, chegando a guiar suas atitudes. Vem depois a afirmação da eficácia dos símbolos, idéias e valores e mais amplamente das obras de civilização e ideologias que as justificam, elementos estes que colaboram para solidificar a estruturação das classes sociais.
É preciso ter em vista, quando se estuda a sociologia de GURVITCH (daí seu interesse para os profissionais das Ciências Humanas e para uma atuação sociológica) que se trata de pôr em relevo os meandros da liberdade humana intervindo na realidade social, de tal sorte que a variabilidade é pesquisada exatamente porque constitui o critério da liberdade nos determinismos sociais (ver a este respeito notadamente sua obra “Determinismos Sociais e Liberdade Humana”, já citada). Desse modo, não é de estranhar a ênfase dada por nosso autor ao acentuar como irredutíveis as tensões verificadas entre os grupos subalternos no interior de uma classe, tanto mais percebida quanto a classe é do ponto de vista diferencial simultaneamente um macrocosmos de agrupamentos e um microcosmos de manifestações da sociabilidade. Da mesma maneira são irredutíveis: (a) – as variações na tomada de consciência de classe; (b) – as variações no papel desempenhado pelas classes na produção, distribuição e consumo; (c) – as variações das obras de civilização que realizam ou da ideologia que representam. Ou seja, ao menos sob o aspecto coletivo não se pode deixar de perceber um elemento de liberdade humana penetrando na realidade social pela luta das classes sociais, pela tomada de consciência de classe, pelos conflitos entre classes e sociedades globais, pelas tensões entre forças produtivas e relações de produção. Quanto aos diferentes agrupamentos em tensões e lutas no seio das classes sociais, notam-se as famílias, os grupos de idade, os agrupamentos de afinidade econômica ou estratos, as profissões, os públicos, os grupos de produtores e de consumidores, os agrupamentos locais, as associações amicais, fraternais, religiosas, políticas, educativas, esportivas e assim por diante, isto, sem falar na limitação recíproca entre Estado, igrejas diversas, sindicatos profissionais, partidos políticos, que favorece a liberdade individual. Enfim, a percepção da multiplicidade dos agrupamentos no seio de uma classe varia em função da própria luta das classes: maior a luta, menor a percepção. Por sua vez, o Estado e os partidos políticos são dois gêneros de agrupamentos particulares que, nos tipos das sociedades modernas, se apresentam geralmente como instrumentos das lutas das classes. Nota-se ainda que a redução dos agrupamentos a estratos ou camadas caracterizadas pela disparidade de fortuna ou de salário é, como já o dissemos, um erro que ameaça a unidade da classe como totalidade irredutível aos agrupamentos que nela se integram. As classes sociais têm sempre tendência a alterar a hierarquia oficial da sociedade em que elas são incluídas; elas não concedem importância às tradições e às regras a não ser quando são afastadas do poder ou lhes é difícil mantê-lo. Além disso, a eficácia da consciência de classe, da ideologia e da organização concretiza-se de maneira diferente para cada classe e varia em função das estruturas e às vezes das conjunturas, notando-se que a consciência de classe, a ideologia e a organização são (a)- normalmente muito mais pronunciadas no proletariado do que nos camponeses, ou nas classes médias e mesmo do que na burguesia; (b)- tampouco são de intensidade igual segundo as nações, os tipos de capitalismo, os regimes políticos, as flutuações nos rumos da crise ou da prosperidade, e assim por diante.

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Podemos agora retornar aos principais aspectos do microssocial na dialética com a sociologia das escalas do parcial e do global, aprofundando na descrição já feita da sociabilidade da Massa, da Comunidade e da Comunhão, como quadros sociais, agora tomadas sob o ângulo da sua eficácia, o ângulo dos determinismos sociais ou da produção das significações práticas que lhes correspondem. Devemos sublinhar que nessa dialética das três escal
as sobre a qual GURVITCH insiste são desenvolvidas as orientações diferenciais da teoria sociológica tiradas da tradição de SAINT-SIMON e do jovem MARX.

Quer dizer, trata-se de pôr em relevo os aspectos da atividade coletiva total. Já dissemos que nessa tradição diferencial se põe em relevo as correspondências entre estrutura social, produção econômica, propriedade, regime político, idéias intelectuais e morais, assim como os seus conflitos possíveis. Procede-se ao estudo dos determinismos sociais, aos quais, buscando aqueles aspectos da atividade coletiva total, SAINT-SIMON se referia ao falar sobre modos de operar a integração dos fatos particulares nos planos de conjunto. Especialmente na dialética das três escalas, a descrição dos determinismos sociais e dos determinismos sociológicos acentua por um lado o efeito e a função para a unificação do conjunto (a) – do esforço de integração característico dos elementos microssociais, (b) – o alcance dos seus modos de operar de cuja combinação se faz a unidade coletiva real, e, por outro lado, acentua (c) – o efeito do esforço unificador característico de cada classe ou de cada grupo, como favorecendo ou desfavorecendo o modo de operar das massas, ou o das comunidades, ou o das comunhões para a unificação do conjunto. Observa-se inicialmente que as classes sociais tendem a favorecer mais a eficácia dos Nós do que a das relações com outrem interindividuais ou intergrupais e, dentre esses Nós, favorecem o modo de operar das massas e das comunhões em detrimento das comunidades. GURVITCH nota como interessante a hipótese de que a alta importância da consciência de classe, das obras de civilização e da ideologia para a unificação, esconde um jogo de compensações para “acalmar” o enfraquecimento da eficácia da comunidade. Todavia, este mesmo autor observa que o estatuto do modo de operar da comunidade no esforço unificador das classes pode variar. Na classe burguesa, por exemplo, tanto quanto na classe ruralista, a eficácia, o enquadramento pelo modo da comunidade parece bastante acentuado, enquanto na classe trabalhadora é o contrário que se produz. Já nas classes médias os Nós são limitados pela eficácia das relações com outrem intergrupais, tendência esta válida na classe burguesa à época do capitalismo concorrencial, com a importância do contrato.
Note-se que a própria microssociologia varia em função da maior ou menor exasperação do antagonismo das classes: no primeiro caso, quando a exasperação é mais intensa, se acentua a eficácia ou “enquadramento” pelo modo de operar da Comunhão no interior das classes; no segundo caso, se acentua a eficácia da Massa ou da Comunidade. Ademais, a passagem da sociabilidade passiva para a sociabilidade ativa é um critério das classes sociais que se encontram numa situação em que estão se erguendo, em que são classes ascendentes, isto é, passam rapidamente ao plano das massas, comunidades e comunhões ativas. Já as classes em germinação favorecem o modo de operar das massas passivas; as classes no poder, por sua vez, favorecem a eficácia das comunidades ativas enquanto as classes privadas do poder favorecem o modo de operar das comunhões e comunidades passivas. Então a microssociologia revelada nos modos de operar o esforço das classes sociais para a unificação está incessantemente a se refazer, já que varia em função de cada classe e da situação concreta da mesma em uma conjuntura ou em uma estrutura. Verificação esta tanto mais verdadeira quanto as classes são também macrocosmos de agrupamentos, como já foi dito, tanto mais que no interior de cada agrupamento o problema da microssociologia se coloca de novo.

O ponto de vista do permanente “refazer” da microssociologia.

Então do ponto de vista do permanente “refazer” da microssociologia acima constatado na dialética das três escalas, reencontramos a descrição dos determinismos, desta feita no plano dos macrocosmos de agrupamentos e descobrimos o estudo da microssociologia agora sendo revelada nos modos de operar o esforço coletivo para a unificação dos próprios elementos microssociais, como os elementos que estão dirigindo a realidade social dos agrupamentos particulares, estudo dialético este que em acordo com a sociologia de GURVITCH deve considerar o seguinte: 1) – os agrupamentos particulares como já o dissemos se encontram sob uma dialética de competição e de combinação entre a independência e a dependência em relação às sociedades globais; 2) – os agrupamentos particulares como já o sabemos mudam de caráter e entram em hierarquias específicas; 3) – portanto, os agrupamentos particulares sofrem o impacto das lutas das classes situando-se não em relação a estas últimas, porém desempenhando o papel essencial em relação ao tipo de sociedade global; 4) – a própria microssociologia só pode ser estudada em sua incerteza; 5) – este estudo, por sua vez, só pode ser feito no âmbito de uma classificação que: (a) – relaciona as espécies de grupos; (b) – toma em consideração os agrupamentos como entrando em hierarquias específicas; (c) – toma-os como mudando de caráter; (d) – aplica os critérios de seus caracteres específicos; (e) – põe em relevo a fórmula dos quatro esquemas de correlações das tendências sociológicas probabilitárias gerais dos grupos, seguinte:

Fórmula dos quatro esquemas de correlações das tendências sociológicas probabilitárias gerais dos grupos:

(I)- (1) – o enquadramento pelo modo de operar a integração dos fatos em que se afirma a Massa ou o enquadramento pelo modo de operar da Comunidade é favorecido pelo esforço coletivo unificador da sociabilidade dirigindo os agrupamentos de cadência lenta, como os agrupamentos de localidade e os de parentesco, p.ex.; (2) – o enquadramento pelo modo de operar da Comunidade fica favorecido nos agrupamentos de cadência média, como os agrupamentos profissionais, os partidos políticos, etc; (3) – tanto o enquadramento pelo modo da Massa quanto pelo modo da Comunhão são favorecido nos agrupamentos de cadência rápida, como o são os agrupamentos de afinidade fraterna, tais como as juventudes, as seitas, as oficinas, as fábricas, as empresas, etc.

(II)- (1) – o enquadramento pela Massa é favorecido no esforço de unificação das manifestações de sociabilidade nos agrupamentos a distância, como os desempregados, os diferentes públicos, os produtores, os profissionais, as próprias classes sociais; (1.1) – esse mesmo enquadramento é igualmente favorecido nos agrupamentos de contatos artificiais, como o formado pelos membros de um partido político que não freqüentam suas sessões, pelos membros de um colegiado onde se vota por correspondência, etc.; (2) – o enquadramento pelo modo de operar a integração dos fatos em que se afirma a Comunidade é favorecido na unificação da sociabilidade dirigindo aos agrupamentos reunidos periodicamente, tais como: (a) – os grupos que reúnem raramente: sindicatos, cooperativas, partidos políticos, corpos eleitorais do Estado; ou (b) – os grupos que se reúnem mais freqüentemente: como as usinas, os escritórios, as classes de um estabelecimento de ensino, etc.; (3) – o enquadramento pelo modo de operar da Comunhão é favorecido nos agrupamentos permanentemente reunidos, como a família doméstica, o lar, os pequenos povoados, os internatos, os conventos, as unidades militares, as células de prisão, etc.;

GURVITCH acrescenta que essas tendências são variáveis, seguinte: (1) – a eficácia da Comunhão no esforço dirigindo a unificação das manifestações de sociabilidade nas classes sociais em luta, como agrupamentos a distância, triunfa sobre o enquadramento pela Massa que, por sua vez, prevalece nos outros agrupamentos a distância, como os públicos, os profissionais, etc.; (2) – da mesma maneira, isto é de maneira variável, se no
ta que o enquadramento pelo modo de operar da Massa importa sobre o da Comunhão nas casernas, nas células de prisão, nos lares em desentendimento, como agrupamentos permanentemente reunidos. (3) – Sem dúvida, são os agrupamentos a distância que nas sociedades modernas revelam os enquadramentos mais fortemente pronunciados, servindo justamente de quadros às obras como o conhecimento, a linguagem, a arte, a moral, a religião.

(III)- (1) – o enquadramento pelo modo de operar da Massa tende a predominar no esforço unificador da sociabilidade dirigindo os agrupamentos de fato e abertos, tais como os diferentes públicos, os agrupamentos de idade, os produtores, os consumidores, as classes sociais e muitos outros; (2) – já o enquadramento pelo modo de operar a integração em que se afirma a Comunidade tende a predominar no esforço unificador da sociabilidade que dirige os agrupamentos voluntários com acesso condicionado; (3) – o da Comunhão tem maior ocasião de se afirmar em certos agrupamentos impostos e fechados. GURVITCH sublinha (1)- que as combinações reais desses microdeterminismos permanecem incertas. A Comunhão pode ficar oprimida e não se atualizar por força do “elemento de contenção” atuante em proveniência do esforço coletivo unificador nos grupos de fato e abertos. Nada obstante, o modo de operar da referida Comunhão, apesar do “elemento de contenção” impedindo-a de se atualizar, pode assim mesmo tornar-se predominante sobre o enquadramento pelo modo de operar da Massa, naqueles agrupamentos de fato e abertos mencionados, como, por ex.as classes sociais; (2)- a predominância do enquadramento pelo modo da Massa sobre o da Comunidade fica favorecido em certos agrupamentos voluntários com acesso condicionado, como certos grupos profissionais cujo acesso exige somente alguns conhecimentos técnicos: profissão de chofer, de mecânico, de marinheiro,etc.

(IV)- (1) – o enquadramento pelo modo de operar da Comunhão passiva é favorecido desde que a função seja a dos agrupamentos de parentesco; (2) – o enquadramento pelo modo de operar da Comunidade às vezes passiva às vezes ativa é favorecido nos agrupamentos funcionais de afinidade fraternal; (3) – o enquadramento pelo modo de operar da Comunidade ativa prevalece nos agrupamentos funcionais de localidade; (4) – igualmente, o da Comunidade ativa, ou mesmo, se for o caso, o da Comunhão ativa ficam favorecidos no seio dos agrupamentos funcionais de atividade econômica; (5) – o da Massa ativa ou o da Comunidade passiva ficam favorecidos nos agrupamentos funcionais não-lucrativos; (6) – o da Comunhão ativa, nos agrupamentos funcionais místico-extáticos.

OBS. – Na análise descritiva gurvitcheana se tem em conta como o dissemos o caráter probabilitário, a incerteza fundamental das tendências nas quais interfere a escala microssociológica, seguinte: (1) – o modo de operar da Massa passiva pode predominar sobre o da Comunhão ativa em agrupamentos místico-extáticos tais como as igrejas universais; (2) – da mesma maneira, o modo de operar da Comunhão, às vezes, simplesmente, não conta ou não implica, como é o caso nos agrupamentos de afinidade fraternal, nos agrupamentos não-lucrativos e mesmo nos agrupamentos de localidade. Nota-se enfim, (3) – que os agrupamentos de maior independência relativa e, sendo o caso, de maior capacidade de resistência ao enquadramento no tipo global são os agrupamentos de atividade econômica, os místico-extáticos e, às vezes, os de afinidade fraternal, como as juventudes; somente após, vem os agrupamentos não-lucrativos, ao passo que os agrupamentos de localidade são os mais dependentes. (4) – Sem dúvida, podem existir diversas combinações e diferentes acomodações entre os agrupamentos diferenciados segundo suas funções, porque, neles, se encontram mais freqüentemente os mesmos participantes, isto é, configura-se uma situação em agrupamentos mais particularmente compatíveis entre eles: pode-se ser membro ao mesmo tempo de um grupo de parentesco, de um grupo de atividade econômica, de um grupo de localidade, de uma igreja, de uma seita. No caso desta situação, a eficácia dos modos sociológicos parciais comporta menos falhas, menos rupturas ou descontinuidades. Situação essa, porém, que não se deixa equilibrar em uma estrutura, pois não exclui o conflito, como, por ex., os conflitos entre famílias, sindicatos, partido, Estado, igreja, etc. provocados por uma conjuntura particular em uma sociedade global.

Neste ponto, podemos notar que o estudo da dialética das três escalas – a do microssocial, a do parcial, a do global – deixa bem estabelecida a percepção de que a realidade social do conjunto comporta uma pluralidade de modos atualizados.

Na Primeira Parte deste ensaio notamos como uma aquisição da teoria sociológica na tradição de SAINT-SIMON e do jovem MARX revalorizada na sociologia de GURVITCH a verificação de que a realidade é em ato. Quando assinalamos que a consciência faz parte das forças produtivas em sentido lato e desempenha um papel constitutivo nos próprios quadros sociais seja como linguagem, seja pela intervenção do conhecimento, seja ainda como direito espontâneo tiramos daí que a construção do objeto na teoria sociológica se faz a partir dos quadros sociais, como os modos de ação comum atualizados nas manifestações da sociabilidade, nos agrupamentos particulares, nas classes sociais e nas sociedades globais. Acrescentamos, ademais, que os quadros sociais exercem um domínio, um envolvimento sobre a produção material e espiritual que se manifesta em seu seio e que se prova mediante as correlações funcionais. Notamos igualmente que dessa forma os quadros sociais e a consciência real (abrangendo no dizer do Jovem Marx: a religião, a família, o Estado, o Direito, a moral, a ciência, o espírito) revelam-se como produtos das forças produtivas strictu sensus e, por isso, podem permanecer objetivados, dando lugar, por sua vez, à dialética dos níveis de realidade social.
Se anteriormente sublinhamos que a teoria sociológica na construção de tipologias tira dessa dialética dos níveis da realidade social ela própria os procedimentos de complementaridade, compensação, implicação mútua, ambigüidade, ambivalência, reciprocidade de perspectivas e, até, polarização, agora, neste ponto de nossa exposição, se trata de incluir no estudo da estruturação a compreensão de que as manifestações da sociabilidade como fenômenos microssociológicos são elementos anestruturais, portanto incapazes por si próprios de formar hierarquias dos patamares de realidade. Ou seja, as formas da sociabilidade embora não os unifiquem como vimos atualizam no seu seio os degraus objetivados da realidade, aos quais GURVITCH chamará “níveis múltiplos”, constatando que entre esses níveis se trata de relações inteiramente variáveis, alternando e combinando por um lado graus de cristalização e por outro lado graus de espontaneidade, assim constituindo forças dinâmicas de mudança. Em palavras simples, a partir desses níveis assim compreendidos como níveis múltiplos, se afirma o conhecimento de que não existe tipo de sociedade que alcance uma coesão sem choques; de que nada se resolve nunca numa sociedade, pelo menos não definitivamente, só há graus de coesão e de disparidade.
Portanto, as hierarquias em que esses níveis múltiplos tomam parte são também hierarquias múltiplas, que variam em cada sociedade e em tal ou qual tipo de estrutura, seja estrutura parcial ou global, e nas quais a descontinuidade prevalece. O estudo desses níveis e dessas hierarquias múltiplas permite avançar na explicação sociológica do que GURVITCH chama ”pluridimensionalidade da realidade social”, suas “ordens sobrepostas”. Mais não é tudo. Se as camadas seccionadas podem se afirmar como sendo mais cristalizadas e oferecer um suporte m
ais sólido à estruturação do que jamais poderão fazê-lo as manifestações da sociabilidade, cabe sublinhar que tais camadas nada representam, e não passam de aspectos difusos da matéria social dinâmica, independentes do grau de valor e de realidade, somente limitados aos graus de dificuldade para acessá-los. Dessa maneira, a teoria sociológica constrói seu objeto na medida em que delimita a realidade social em níveis mais ou menos construídos para estabelecer “conceitos” ou quadros operativos eficazes em vista de dar contas da pluridimensionalidade da realidade social.
Segundo GURVITCH, o estudo das combinações móveis dessas camadas seccionadas somente terá lugar em realidade se for feito antes que intervenha sua unificação no determinismo sociológico parcial regendo os agrupamentos particulares e as classes sociais. Note-se que a anterioridade desse estudo das camadas seccionadas resguarda a sociologia da arbitrariedade do chamado “corte epistemológico” praticado nas metodologias abstratas, exatamente por verificar a dialética dos níveis de realidade como combinada a essa outra dialética das três escalas.
Desse modo, se poderá diferenciar dez patamares em profundidade, seguintes: 1)- a superfície morfológica e ecológica; 2)- os aparelhos organizados; 3)- os modelos sociais; 4)- as condutas coletivas regulares; 5)- as tramas dos papéis sociais; 6)- as atitudes coletivas; 7)- os símbolos sociais; 8)- as condutas coletivas inovadoras; 9)-as idéias e valores coletivos; 10)- os estados mentais e atos psíquicos coletivos -cabendo sublinhar que é maior a dificuldade de acesso quanto mais profundo ou espontâneo é o nível estudado, quanto mais se aproxima aos atos psíquicos coletivos. Para aclarar o arranjo dessas camadas subjacentes, suas combinações móveis em hierarquias específicas múltiplas a sociologia de GURVITCH leva em conta que as alterações nesses planos de conjunto estão na origem das mudanças fundamentais no interior das estruturas, e que, portanto, igualmente a estas, as camadas subjacentes se movem nos tempos sociais, por meio dos quais admitem princípios de equilíbrio, isto é: admitem graus diversos de mediação entre o contínuo e o descontínuo, entre o quantitativo e o qualitativo, o reversível e o irreversível, constituindo seqüências de microdeterminismos sociológicos que se combatem e sofrem desajustes nas cadências dos seus movimentos, mas que, nada obstante, chegam a arranjos em hierarquias múltiplas e variadas, por efeito da dialética entre a escala do microssocial, a escala do parcial e a escala do global, de tal sorte que as hierarquias figuram como criações do esforço de unificação. Temos, então, para simplificar, que os princípios de equilíbrio constituindo seqüências microssociológicas estão na base das hierarquias de que, por sua vez, as estruturas configuram as dinâmicas de formação de equilíbrio ao darem nascimento aos tempos sociais.
Com efeito, no interior de uma estrutura social as hierarquias múltiplas implicam uma formação de equilíbrio dinâmica, conforme a escala dos tempos sociais da própria estrutura , e acentuam a permanência das mudanças fundamentais ocorrentes no interior da estrutura que, pela variabilidade, alteram a formação de unidade do tipo de sociedade global, alteram a combinação das hierarquias que definem o tipo. Dessa forma, acentuando a escala dos tempos sociais, o conceito de estrutura na sociologia de GURVITCH põe em relevo o fato de o conjunto social por mais complexo que seja, preceder virtualmente ou atualmente todos os equilíbrios, hierarquias, escalas, seguintes:

(I) – A série das hierarquias específicas e múltiplas, compreendendo as escalas ramificadas nas quais o elemento hierárquico assenta-se na distribuição e não na pressão do conjunto; tais hierarquias são as seguintes: 1) – a combinação das manifestações da sociabilidade como atualizando-se no conjunto e nos agrupamentos particulares; 2) – a acentuação dos patamares em profundidade da realidade social como atualizando-se no conjunto, na escala do parcial, e no microssocial; 3) – a escala dos modos de divisão do trabalho e dos modos de acumulação, que também se atualizam nas classes sociais, e não só nas sociedades globais; (4) – a hierarquia das regulamentações sociais (também chamados “controles sociais”); 5) – a escala dos tempos sociais hierarquizando-se, combinando-se, interpenetrando-se, entrechocando-se de diferentes maneiras, pois como já foi dito, a duração de uma estrutura nunca é um repouso, mas no dizer de GURVITCH é uma “procissão através de vias tortuosas abertas pela multiplicidade dos tempos sociais”.

(II) – A série das hierarquias em unificação com preeminência do elemento de contenção:
1) – a hierarquia dos agrupamentos funcionais, às vezes em competição com a das classes sociais e a das respectivas organizações. Nota-se que essa competição lhe imprime um acentuado fator de variação, em virtude do que a hierarquia dos agrupamentos funcionais desfruta de um estatuto ambíguo e pode ser considerada também entre as hierarquias múltiplas, já que ainda não constitui as formas particulares dos conjuntos; 2) – a combinação dos modelos, signos, sinais, símbolos, idéias, valores, em breve, das obras de civilização cimentando a estrutura social global, notando-se que essa hierarquia constitui o momento fundamental na formação de unidade; 3) – a hierarquia dos determinismos sociais, compreendendo a dialética entre o microssocial, o parcial e o global, cuja unificação dá a forma particular do determinismo sociológico global.

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Do fato de o conjunto social preceder todas as hierarquias, temos não somente que o problema chamado “passagem do grupo à história” releva da pluridimensionalidade da realidade social e se examina no âmbito do estudo das camadas seccionadas, que, conforme dissemos, é um estudo empreendido antes que intervenha a unificação das mesmas nos determinismos sociológicos parciais regendo os agrupamentos particulares e as classes sociais, mas, em conseqüência, temos que as tendências e os equilíbrios que constituem o caráter estruturável de um grupo nem sempre são conseguidos e os grupos não chegam a se tornar estruturados, mostrando ser real o problema da possibilidade da estrutura.

Na sociologia de GURVITCH o caráter estruturável de um grupo tem três proveniências, seguintes: (1) – o fato de que a unidade do grupo se realiza mediante o arranjo de uma coesão particular entre (a) – as manifestações da sociabilidade, por um lado, e (b) – por outro lado as atitudes coletivas, incluindo suas expressões nas condutas regulares; (2) – a existência de um princípio de equilíbrio entre as hierarquias múltiplas; (3) – o fato de que a inserção do grupo em uma classe social ou em uma sociedade global tende a manifestar-se por um arranjo (3a) – de suas relações com os outros grupos e, (3b)-, do papel e do lugar que o grupo tem na hierarquia particular dos agrupamentos que caracterizam uma sociedade global dada.
Em conseqüência da observação dessas proveniências, se pode formular a definição de que os agrupamentos são estruturáveis porque: 1) – manifestam tendência para estabelecer um arranjo virtual das hierarquias múltiplas, ou seja, uma “ordem particular”; 2) – manifestam tendência para pôr em relevo a posição, o papel e as relações do grupo com o “exterior”, ou seja, um “espírito de corpo”. Todavia, como dizíamos do fato de o conjunto social preceder todas as hierarquias resulta que as tendências e os equilíbrios que constituem o caráter estruturável de um grupo e que viemos de enumerar nem sempre são conseguidos. Daí que existam grupos estruturados como os idosos, os grupos de juventude, certas profissões (embora estes grupos sejam habitualmente desorganizados, têm expressão em diferentes
organizações) e existam também grupos “apenas estruturáveis”, como os diferentes públicos, as minorias étnicas, os produtores, os consumidores, as indústrias, os grupos de geração.
Nota GURVITCH que o nível organizado em relação ao equilíbrio da estrutura é só uma questão de expressão, não indispensável, ainda que todo o grupo organizado seja ao mesmo tempo estruturado, já que, em contrapartida, um grupo pode ser não somente estruturável sem ser organizado, como pode também ser estruturado e não ter organização própria. Do ponto de vista do interesse na sociologia do conhecimento que apreciamos neste ensaio são os grupos estruturados que oferecem planos de referência mais precisos (ver a este respeito e das análises que se seguirão, a obra de GURVITCH intitulada “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, já citada). Tanto é assim que, pela abordagem da análise gurvitcheana, o conhecimento opera como um elemento cimentador da estrutura, fazendo com que os grupos estruturados sejam sedes específicas do conhecimento.

Visando exatamente pôr em relevo o caracter específico dessas sedes do conhecimento, a análise gurvitcheana dá privilégio aos agrupamentos sociais caracterizados no seguinte: (I) – segundo seu modo de acesso seja aberto, condicionado, fechado; (II) – segundo suas funções, destacando a família, os grupos de localidade de pequena envergadura, as fábricas; (III) – os blocos de grupos multifuncionais, como o Estado e a Igreja.

(I) – Os grupos abertos, como já o mencionamos, incluem, além dos grupos de fato (diferentes públicos, grupos de idade, etc.) as multidões, as manifestações públicas ou não públicas, as reuniões, certos grupos filantrópicos, etc. Evidentemente, estes grupos não representam focos ou sedes específicas do conhecimento. Todavia é admitido a exceção dos grupos de jovens e dos grupos das pessoas de idade, na medida em que constituem unidades coletivas reais, como nas sociedades patriarcais ou, simplesmente, nas sociedades tradicionais, visto que os anciãos podem ser considerados como os únicos portadores do conhecimento esotérico ou do conhecimento cuja difusão é aceite, fazendo predominar, como intermediários, o sistema cognitivo da sociedade global sobre todo outro saber nessas sociedades, tornando-se, imperceptivelmente, grupos fechados.
(I-1) – Quanto a esses grupos fechados, quer se trate de uma casta de sacerdotes, de um grupo feudal, da nobreza de armas, ou da nobreza de toga, da camada mais alta da burguesia (que recruta somente por nascimento ou por herança), de trustes, ou de cartéis, nacionais ou internacionais produzem um saber específico, oposto ao da sociedade global, um saber que, (a) – mesmo formando sistemas cognitivos estes se reduzem a certos conhecimentos políticos, a certos conhecimentos técnicos, ou a outros tantos de senso comum, sendo que a combinação de tais conhecimentos varia segundo o caráter dos grupos fechados e o das conjunturas ante as quais se encontram; (b) – um saber que manifesta uma tendência ao hermético e esotérico, ainda que a forma racional triunfe por completo e conduza ao cálculo aperfeiçoado de balanços financeiros complexos …
(I-2) – No que concerne os grupos de acesso condicionado, em que a análise gurvitcheana do interesse na sociologia do conhecimento contempla os grupos profissionais privilegiados, aqueles que exigem títulos ou diplomas, como o professorado, a magistratura, ou os que são submetidos a um controlador organizado, como o conselho de medicina, a ordem dos advogados, etc. GURVITCH descreve a situação dos estabelecimentos de ensino superior, cujo acesso é por cooptação ou por concurso, notando que essas instituições são sedes específicas de conhecimentos científicos, técnicos, ou de conhecimentos filosóficos. Considerados como conhecimentos propriamente universitários, ou que constituem matéria de ensino e pesquisa, esses conhecimentos se caracterizam todos pela acentuação das formas de conhecimento, com predomínio das formas conceitual, simbólica, positiva, coletiva e racional, sem excluir que o saber concebido e ensinado nas universidades continua sendo em parte esotérico, hermético e tradicional, “defeito” este que, segundo o nosso autor, se corrige pelo espírito competitivo, embora seja certo que toda a inovação se faça com lentidão e não se impõe sem grandes precauções. Quanto ao papel do conhecimento estratégico ou político e do conhecimento de senso comum nesse sistema cognitivo,nota-se que estes conhecimentos restam muito abaixo dos níveis dos conhecimentos ensinados , já que, quando se trata de estabelecer questões administrativas, se requerem qualidades e conhecimentos de uma classe completamente distinta. Enfim, o conhecimento de outro e dos Nós , quer dizer, dos colegas e dos estudantes, não se atualiza no seio da universidade se a comunidade não consegue predominar sobre a massa e a comunhão.

(II) – Na análise da família-matrimônio como sede de conhecimentos, deve-se levar em conta o seguinte: (1) – que, como já sublinhamos, todo o grupo muda de caráter segundo o tipo de sociedade global em que está incluído e segundo a classe social em que está inserido; (2) – o estado de harmonia ou de desacordo no seio da família; (3) – as influências exteriores dos outros grupos; (4) – a mobilidade social; (5) – que, em nossa época, a família não revela grande riqueza ao estudo do saber, encontrando-se habitualmente como um grupo demasiado submetido e aberto à influência cognitiva das classes e sociedades globais em que está inserido. Dessa maneira, considerando o papel do conhecimento de outro e dos Nós, nota-se que essa classe de conhecimento predomina sobre as demais se a situação familiar é de harmonia: é, então, conhecimento entre marido e mulher, entre pais e filhos, e conhecimento entre os filhos. Se, todavia, aparecem na família os desacordos, os problemas de qualquer classe, os membros deixam de entender-se e se dividem em campos opostos, o que, na apreciação de GURVITCH, leva a desprezar o conhecimento dos demais. Quanto ao conhecimento de senso comum, se supõe que os pais o transmita aos filhos e o apliquem eles mesmos para um funcionamento sem tropeços da família. Entretanto, nota-se que, nas condições atuais de vida, esse conhecimento de senso comum está mais limitado e dá espaço às influências contrárias ao saber viver da família, influências estas que podem se exercer sobre os pais desde os locais de trabalho, desde a participação nos sindicatos, etc., e sobre os filhos, desde os estabelecimentos de ensino e desde os companheiros. Somente as famílias dos meios de classe média, ou as camponesas, continuam cultivando essa classe de conhecimento. Já o conhecimento político dispõe de mais espaço nas famílias. Há o sentido restrito de um conhecimento da estratégia a que devem recorrer os pais para a educação e a formação dos seus filhos e, reciprocamente, pelo lado dos filhos, há o sentido de um conhecimento dos meios de lograr de seus pais o máximo de liberdade. Caso se tome o conhecimento político em seu sentido mais geral e habitual, que implica tomadas de posição estritamente políticas e o conhecimento das regras estratégicas a observar no que concerne à sociedade global, nota-se a perda de lugar desse conhecimento em relação ao tempo em que estava submetido a uma tradição longínqua e contínua, efeito de uma mobilidade muito reduzida da situação de classe das famílias (os filhos seguindo as posições dos pais). Observa-se que, no século XX, por um lado, a mobilidade se tornou maior e, por outro lado, em um mesmo nível social, a continuidade dos conhecimentos políticos se rompe amiúde. Todavia, essa diminuição progressiva da influência da família continua sendo limitada. Enfim, nota-se a importância crescente de certos conhecimentos técnicos, ainda que em nível ru
dimentar, no funcionamento da família: o manejo dos artefatos domésticos e das máquinas a motor exige um mínimo de informação.
(II-1) – A análise e descrição dos grupos locais de pouca envergadura, tais como povoados, lugarejos, vilas ou aldeias, leva em conta o seguinte: (1) – a delimitação desses grupos como grupos funcionais se faz com precisão porque suas “obras a realizar” são sempre multifuncionais e bem diferenciadas, pois se trata de assegurar a regulamentação e a administração da boa vizinhança, bem como a realização de distintas atividades econômicas e administrativas , ou de estabelecer as relações com outros grupos locais da mesma classe, etc.; (2) – esses grupos tendem normalmente a favorecer a atuação em seu seio das comunidades em detrimento das massas e das comunhões , sendo, porém, eles próprios inconfundíveis com as comunidades que atualizam em seu seio, além disso, esses grupos , em conjunturas históricas especiais, como guerras, revoluções , movimentos de libertação, etc., são incapazes de resistir ao surgimento de comunhões ou à dissolução da comunidade em massa. A classe de conhecimento mais preeminente nos grupos locais de pouca envergadura é o conhecimento perceptivo das relações com o exterior, isto é, o mundo exterior que esses grupos conhecem está imbricado nas perspectivas dos jardins, hortas, campos, bosques, estradas e caminhos de comunicação com as localidades vizinhas e os lugarejos onde se fazem os mercados. Segundo os termos da análise gurvitcheana, trata-se de amplitudes egocêntricas e concêntricas imprimindo o caráter específico desse conhecimento, portanto, um conhecimento voltado para a ambiência particular desses grupos. Isso quer dizer que o mundo exterior tende a se afrouxar, perdendo poder de atração ou de pressão como o que vem de fora, embora seja digno de notar as perspectivas ou amplitudes difusas das relações com as cidades, com o Estado e sua capital, como lugar de organização administrativa e política. Nota-se ainda que a penetração pelos Estados, Igrejas, e sociedades globais se faz sentir na aplicação pelos grupos locais de conceitualizações e de medidas para os tempos , como os tempos cíclicos das estações do ano e os de longa duração, bem como na aplicação de conceitualizações para as amplitudes das relações com o exterior, ocorrendo, então, que os grupos locais rechaçam suas amplitudes e seus tempos concretos, aos quais, todavia, permanecem vinculados. No que concerne ao conhecimento de senso comum, esses grupos são seu último refúgio. Já o conhecimento de outro e dos Nós são marcados pelos estereótipos provenientes da sociedade global, com a televisão e o rádio tendo parte importante nisto. O conhecimento político dos grupos locais de pouca envergadura compreende a tática própria para manter boas relações com os vizinhos, compreende também a participação na vida política do país, através das eleições municipais, as legislativas, etc., participação esta que, aliás, se faz notar exatamente a partir dos grupos locais de pequena envergadura.
(II-2) – A análise gurvitcheana das fábricas e o saber, privilegiando os grupos de operários, favorece o interesse pelo conhecimento político que apresenta caráter específico. São distinguidos três níveis dessa classe do saber: (a) – um nível particularizado, entendido como “tática de adaptação ao humor dos companheiros de equipe, ao humor dos capatazes ou ao dos engenheiros”. Tática de adaptação esta que vem unida a uma espécie de conhecimento de senso comum, em relação não com a tradição, mas com o ambiente específico da fábrica. Dessa maneira, esse conhecimento político particularizado pode às vezes entrar em conflito com: (b) – o conhecimento político em nível proletário ou nacional e, por conseguinte, com a atitude dos sindicatos e dos organismos de representação operária. Entre estes dois aspectos, há (c) – o terceiro nível de conhecimento político das fábricas : o modo de expressão do descontentamento, a fatiga e a oposição espontânea ao regime autoritário das fábricas. Note-se que essa modalidade do conhecimento político contribui para reconciliar e combinar as outras duas. Sem dúvida, há que levar em conta o igualmente específico conhecimento perceptivo do mundo exterior, cujo lugar é muito importante na fábrica, como conhecimento que os operários têm do mundo próprio da oficina, da fábrica, da empresa, cuja característica básica está em que os objetos dessa percepção, os locais, as máquinas, as oficinas, incluindo as oficinas dos diretores e dos engenheiros, são objetos tão próximos e ao mesmo tempo estão tão longe dos operários. Além disso, são também objetos desse mundo exterior que os operários conhecem, as perspectivas e as correspondentes cadências em que se desenvolvem os esforços e a vida dos operários em equipe; bem como as distâncias, incluindo os percursos para falar aos seus chefes; as máquinas a usar; o tempo a sacrificar, como a locomoção domicílio-trabalho-domicílio. Enfim, completando sua análise desse sistema cognitivo, GURVITCH situa a submissão dos trabalhadores às máquinas, à administração dos técnicos especialistas e aos diretores das fábricas, no âmbito do conhecimento de outro e dos Nós, que, exatamente por esses mesmos fatos, fica em último lugar, tornando-se um conhecimento de aspectos padronizados, um conhecimento de expectativas, como o comportamento, que, então, é o que se nota nos companheiros, como, por exemplo, o comportamento em relação ao trabalho, o comportamento a respeito do sindicato, ou durante uma greve , ficando distanciadas, nesse conhecimento de expectativas ou de comportamentos, as pessoas próprias dos companheiros, situação de “estranhamento” esta que poderia mudar em um regime de gestão auto-controlada. Nota-se ainda que a forma do conhecimento político acentua o especulativo, o simbólico, e até o mitológico, sem perder, todavia, seu aspecto racional, calculador e adequado, enquanto as demais classes de conhecimento em foco nas fábricas atualizam, ao lado das formas adequada e racional, as formas empírica, positiva, e coletiva, o que, sublinha nosso autor, torna bem diferenciado o aspecto específico do conhecimento político dos operários das fábricas.

(III) – A análise e a descrição dos sistemas cognitivos dos Estados é, sem dúvida, bastante complexa. Trata-se de blocos de grupos locais que, como estes últimos, permanecem multifuncionais e, portanto, não se podem identificar com as sociedades globais, que são suprafuncionais, interpretam a totalidade das funções sociais. Deve-se ter em conta que (1) – os Estados são sociedades políticas que se expressam em estruturas particulares, às quais se sobrepõem aparelhos organizados (soberania política), mas que não possuem competência universal; (2) – depois da industrialização e independentemente das relações internacionais e das sociedades internacionais, os Estados têm tendência a se converter em instrumentos do domínio de classes, vivendo num ambiente tenso, pleno de conflitos internos, tais como as lutas com os grupos locais, cidades, e regiões; tensões entre os serviços públicos ou entre seu conjunto e o Exército; antagonismos entre os organismos legislativos, administrativos e judiciais; dificuldades com os grupos econômicos, os sindicatos, as igrejas, e com as classes sociais que não estão no poder; (3) – situação esta a que se somam as variações do Estado em função dos diversos regimes políticos, tanto mais democráticos quanto seus aparelhos organizados estão mais abertos à penetração das estruturas das sociedades políticas. Note-se que, na análise gurvitcheana, o papel preeminente é dos regimes políticos, que “orientam o sistema cognitivo”, do qual o Estado é o foco, em diferentes direções, como é o caso, por ex., da monarquia pa
trimonial, da monarquia absoluta, da constitucional, e da parlamentar, bem como da democracia liberal, da tecnocracia burocrática, etc.

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Dialética e microssociologia do conhecimento:
referências para uma atuação sociológica.
por
Jacob (J.) Lumier

NOTAS COMPLEMENTARES

1. A respeito dos “conceitos” ou quadros operativos da sociologia, já se enfatizou que “os fenômenos sociais totais” de que nos fala GURVITCH não têm idade, significando que os tempos sociais múltiplos não acontecem de novo,simplesmente,mas estão acontecendo sempre (cf. BRAUDEL,F: “História e Ciências Sociais”, op.cit., pp.121sq).
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2. Em relação à filosofia existencial e fenomenológica de HEIDEGGER e sobre a aproximação desta com a teoria social, há uma análise do automatismo desenvolvida por Henri LEFÉBVRE em seu livro dos inícios dos anos de 1960 intitulado “Metafilosofia” (cf.capítulo 5: “Mimesis e Praxis”, pp. 246 a 264).
No curso de uma reflexão em torno ao problema da relação entre a lógica e a dialética como se resolvendo na praxis e levando à superação da filosofia (como teoria do conhecimento), desenvolvendo o que chamou “teoria geral das estabilidades” (ib.pp. 254 sq) esse autor aprecia a proposição heideggeriana sobre a ciência incluindo a Cibernética, entendida tal proposição como “teoria do real” e “teoria da praxis operativa” (praxeologia), que ele toma como uma constatação do desenvolvimento. Em outras palavras, LEFÉBVRE, ele próprio, toma a ciência moderna e seus gigantescos dispositivos técnicos planetários como “realização teórica”.
No seu proceder, (a) -relaciona essa constatação com a situação de que, nas sociedades dividas em classes, as representações sofrem os efeitos de uma “lei tendencial de polarização que as aproxima ou as afasta do conteúdo” (ib.p.259); (b) – busca com essa aplicação sociológica explicar a ocorrência da constatada “realização teórica”, na qual (b1) – se inscreve a supressão da cisão entre a representação e o real, supressão esta que atinge a própria teoria do conhecimento (correntes do neo-kantismo), já que (b2) – aquela cisão agora suprimida, como aspecto da separação entre ser e conhecer, era posta pelo “entendimento analítico”, não sendo do âmbito da razão dialética.
Verifica-se, então, como efeito da observada “lei tendencial” assim aplicada uma configuração particular em que as representações e a praxis reduzem o conteúdo, reduzem a vida humana a uma vida abstrata (cf.ib.pp.259/260).
Para LEFÉBVRE, citando o “jovem” MARX e HEGEL, a tal configuração particular redutiva deve ser referida a especialização, compreendendo nela e por meio dela a abstração e a cisão da atividade, que o homem toma por realidade e por coisa em que absorver sua consciência, em uma aparente realização de si mesmo.
Neste ponto desdobra-se o argumento do autômato, seguinte: (a) – ao se limitar na cisão da atividade, o homem se situa ele próprio no “reino animal do espírito”, ao qual igualmente se restringe -noção esta tirada de “A Fenomenologia do Espírito” (edição francesa,vol.I,p.324; apud LEFÉBVRE,H: op.cit.p.260); (b) – surge, então,a figura do “animal abstrato”, isto é, o homem como animal sem vida espontânea, privado dos impulsos vitais característicos; (c) – figura esta cujo surgimento corresponde a um paralelo, em MARX, com a teoria do “objeto abstrato”, compreendendo a mercadoria, o dinheiro, que alienam e reificam a atividade cindida, (d) – sendo que LEFÉBVRE entrevê nessa teoria, por sua vez, a fórmula privilegiada da própria teoria da realização teórica, identificada, inicialmente, na proposição heideggeriana.
Entretanto, ao contrário do que poderia parecer, com o autômato assim surgido e figurado na realização teórica, o conhecimento não fica todavia sem fundamento. É que o objeto técnico garante sua objetividade. Quer dizer: o conhecimento realiza-se no âmbito da prática como a praxis técnica. Então, o problema de restabelecer o laço entre o sujeito e o objeto desaparece, “porque se resolve na prática científica, onde, por sua vez, cresce de importância a noção metodológica de “simulação”. Daí, o autômato assume o conhecer (a ciência) como realização teórica. Suprime a seu modo a cisão entre objeto e sujeito, entre o conhecer e o ser, entre o real e a representação.
Tornado ato prático e realidade, o conhecimento não exige mais uma teoria distinta (filosófica ou neo-kantiana). O autômato (robot) tende a captar e a incorporar a si mesmo a totalidade do conhecer e das representações, liberando assim o ser humano de sua parte objetiva, permitindo-lhe, no entanto, apoiar-se nessa consolidação. Paródia fascinante do homem realizado, no dizer de LEFÉBVRE, o grande autômato, o animal abstrato em sua compreensão total e sua plena extensão é o simulacro quase perfeito da totalidade apreendida, vivida, reconstruída: é realidade e aparência unificadas (ib.p.263). E LEFÉBVRE formula, então, a indagação crítica final em face da Cibernética como o grande autômato: “não é ao mesmo tempo, em plena simultaneidade sincronizada, a realização e a alienação?” Admitindo, em seguida, que essa indagação é o que permite, a alguns, dizer que o autômato as concilia, logo, as suprime, uma e outra, como oposição e problema; e aos outros, afirmar que o autômato leva o conflito ao paroxismo, e anuncia a grande superação.

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3. Como se sabe, em sociologia, ultrapassando a epistemologia da refutabilidade, a desdogmatização expressa as totalidades reais apreendidas nos fenômenos sociais totais, dos quais, entretanto, são conhecidos somente os modos seccionados, os patamares em profundidade da realidade social. A microssociologia permite corroborar essa ambigüidade do objeto oculto, sendo este um dos principais méritos de GURVITCH, em cuja obra Henri LEFÉBVRE, no seu importante artigo no “Tratado de Sociologia”, assinala, como êxito, a refinada elaboração gurvitcheana da linguagem de ciência para a sociologia como disciplina científica do século XX, notando sobretudo a aplicação fecunda do aspecto tridimensional.
Sem dúvida, a tridimensionalidade em GURVITCH liga-se ao aproveitamento das chamadas teorias de consciência aberta, a que já nos referimos neste ensaio, notadamente à idéia de dialetização do simples, desenvolvida por G. BACHELARD em “O Novo Espírito Científico”, cujo aproveitamento nota-se sobretudo na sociologia dos patamares em profundidade da realidade social.
Além disso, a aplicação das teorias de consciência aberta afirma-se na imanência recíproca entre o psíquico e o consciente , por um lado, e, por outro lado, a sociedade, o mundo, o ser, constituindo o fato psíquico que a sociologia descobre na sociedade, como situado no ser e particularmente no ser social, a saber: o fenômeno psíquico total. A imanência recíproca entre consciência e sociedade já é situada no ser social, já é tocada pela experiência humana -daí que é possível sua descoberta pela sociologia- não sendo outra a configuração dos quadros sociais. Podemos dizer que em todo o quadro social se descobre a imanência recíproca entre consciência e sociedade, pelo que se pode dimensionar a diferença da sociologia do conhecimento para com a epistemologia nomológico-dedutiva da refutabilidade , a qual desconhece a evidência da perspectivação sociológica do conhecimento, mantendo em uma separação artificial e estreita os quadros de referência das teorias científicas.

Então, os procedimentos dialéticos da reciprocidade de perspectiva saltam à vista: é a imanência recíproca descobrindo a imanência recíproca. No dizer de GURVITCH, quando se trata dos atos mentais e da vida consciente, a reciprocidade de perspectiva faz sobressair uma imanênc
ia recíproca tornada tão intensa que conduz a um paralelismo ou a uma simetria mais ou menos rigorosa entre as manifestações do coletivo e as do individual, que, então, se recobrem completamente. “É assim que, nas profundezas mais íntimas do eu encontramos a consciência coletiva e, inversamente, vemos que é nos estados mais intensos que as consciências coletivas deixam de exercer a menor pressão sobre as consciências individuais que nelas participam” (cf. “A Vocação Atual da Sociologia”, vol.I, p.134).
Tal é o princípio das consciências intercomunicadas que MANNHEIM fracassou ao buscar em sua obra “Ideologia e Utopia”.

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4. Há sociólogos que valorizam a psicologia social em detrimento da microssociologia e da sociologia do conhecimento. DAHRENDORF constrói seu conceito de grupo de referência no marco da psicologia social e, por isso, encontra muitos embaraços para sustentar seus enunciados sociológicos. Liga-se ele à corrente de outro sociólogo influente no século XX, Robert K. MERTON, quem faz uso direto da psicologia social na definição do conceito operativo de grupo de referência. A diferença é que, do ponto de vista psicológico, tais grupos são tidos como “grupos de fora funcionando como padrões de valores”, enquanto DAHRENDORF nega essa situação de “grupo de fora arbitrariamente escolhido” e o define como “um grupo com o qual a pessoa tem uma relação necessária em virtude de uma de suas posições sociais”, o que o leva ao enunciado de que “todo o segmento de posição estabelece uma relação entre o ocupante da posição e um ou mais grupos de referência”. À continuidade, então, fica estabelecido “um conjunto de grupos de referência, cada um dos quais impõe ordens e é capaz de sancionar o comportamento da pessoa”, seja positivamente, seja negativamente, de tal sorte que esse autor entende que “a questão da natureza da sociedade se transforma noutra questão: como os grupos de referência formulam e sancionam as expectativas das posições que definem? (cf. “Ensaios de Teoria da Sociedade”, op.cit., pp.62/63). Então, podemos ver que a indicada “relação necessária”, tomada independentemente dos diferentes Nós e de toda manifestação microssocial, surge como atributo impositivo do “segmento de posição”, de maneira mecânica e exteriorizada, desprovida de apreciação crítica e sem o caráter desdogmatizador, constituindo, em conseqüência, uma fonte de maiores embaraços do que uma ponte para boas explicações sociológicas. Tanto que esse autor se verá, por isso, na circunstância de esclarecer sobre a medida em que os enunciados da sua teoria de papéis sociais favorecem a “reificação”ou não, haja vista que, nessa teoria, a pessoa fica constrangida a enquadrar-se nessa “relação necessária” que lhe é imposta, por força da objetivação conceitual do grupo vinculado ao segmento de posição (cf.ib.pp.106/126). Nitidamente influenciado pela epistemologia nomológico-dedutiva de Karl POPPER, DAHRENDORF, nessa obra mencionada, não percebe o alcance da sociologia do conhecimento para acentuar a relativização das objetivações dos conceitos sociológicos, sobretudo o alcance das correlações funcionais entre, por um lado, os quadros sociais -incluindo as formas de sociabilidade, os grupos, as classes sociais e as sociedades globais e suas estruturas-, e por outro lado os diferentes gêneros do conhecimento , tendo em conta que não se trata aqui apenas do conhecimento científico, mas de todo o juízo que pretenda afirmar a verdade sobre alguma coisa, ou, no dizer de GURVITCH, tendo em conta que, por conhecimento deve entender-se “os atos mentais em que se combinam a experiência imediata e mediata em diferentes graus com o juízo”. Desse modo, o enunciado de que “os grupos de referência formulam e sancionam as expectativas das posições que definem”, só valerá de maneira relativizada e não por força direta da objetivação desses grupos.
Em realidade, todos os agrupamentos particulares, como qualidades apreendidas, entram em correlações funcionais com o conhecimento, com o saber, o qual é praticado de modo variado pelos participantes, de tal sorte que a suposta “determinação” de que tais grupos “formulam e sancionam as expectativas ou o comportamento das pessoas, (a)- mais do que condicional ou probabilitário, é um enunciado restritivo, haja vista excluir a mediação pela dependência do saber que as pessoas têm, no caso, a dependência da percepção do mundo exterior, incluindo a percepção da extensão e dos tempos, de que nos falou GURVITCH; bem como, (b)-, exclui a dependência do conhecimento que os participantes têm de outro, dos Nós, dos grupos, das classes, das sociedades e, até mesmo, (c)- exclui a dependência do conhecimento político. As expectativas de papéis são realidades coletivas complexas e variadas que aí estão em dinâmicas de avaliação, implicando o conhecimento, a moral, o direito, a educação, etc., como controles ou regulamentações sociais com sedes em tipos diferentes e conflitantes de agrupamentos, classes e sociedades globais.
Sem dúvida, o peso do conhecimento, sua importância para as pessoas e na vida social, é maior nas sociedades modernas e nas nossas sociedades atuais, de tal sorte que a desatenção para este aspecto da experiência e da criação coletiva, na teoria dos papéis sociais leva o sociólogo a embaraços e, definitivamente, ainda que não chegue a constituir fator de reificação, tampouco favorece a desdogmatização. Além disso, a acentuação da dependência ao fenômeno social de conjunto, a eficácia das correlações funcionais entre os quadros sociais e o conhecimento, como qualidades que se expressam umas pelas outras, tem prioridade no estudo das expectativas de papéis sociais, já que podem, inclusive, levar a profundas alterações estruturais, sobretudo nas situações e nas conjunturas em que se constatam como já o dissemos, os casos de deslocamentos ou rupturas entre os quadros sociais e o saber, com as correlações funcionais cedendo lugar à causalidade singular, em que os quadros sociais se impõem sobre o saber ou, inversamente, este último condiciona aqueles primeiros.
Desse modo, o enunciado de que “são os grupos de referência que formulam e sancionam as expectativas das posições que definem” só vale como expressão do determinismo sociológico de uma estrutura social em casos de deslocamento ou ruptura entre os quadros sociais e o saber.

© 2007 by Jacob (J.) Lumier
jacoblumier@leiturasjlumierautor.pro.br

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