Efetivismo e Sociologia: nova versão

 

Efetivismo e Sociologia: Uma reflexão em vista dos Direitos Humanos e Sociais [i]

 

Sumário

Efetivismo e Sociologia. 1

O efetivismo como atitude na construção da teoria sociológica. 2

A questão da reificação da realidade social 2

O efetivismo em filosofia matemática. 3

Os conjuntos matemáticos tornam-se conjuntos práticos 5

A Influência dos Fatores Extralógicos 6

A Dimensão pragmática da linguagem.. 7

As influências sócio históricas 8

O efetivismo como caráter humano das liberdades 9

Ideologia de competição e de produção econômica. 10

A individualidade concreta. 12

O fortalecimento da liberdade de expressão. 13

A concepção dinâmica de qualquer moralidade efetiva. 15

A teoria da intuição da vontade. 16

As liberdades humanas essenciais 17

A leitura sociológica. 19

Durkheim.. 20

A sociologia da vida moral em Durkheim.. 21

A conjunção dos valores 22

Índice. 24

 

O efetivismo como atitude na construção da teoria sociológica.

 

A questão da reificação da realidade social

 

Os universos simbólicos são passíveis de cristalização segundo processos de objetivação, sedimentação e acumulação do conhecimento. Levam a um mundo de produtos teóricos que, todavia, não perde suas raízes no mundo humano, de tal sorte que os universos simbólicos se definem como produtos sociais que têm uma história.

Se quisermos entender o significado, temos de entender a história da sua produção em termos de objetivação, sedimentação e acumulação do conhecimento.

Na descrição do universo simbólico, Peter Berger e Thomas Luckmann observam a “função nômica”, que põe cada coisa em seu lugar certo, permitindo ao indivíduo retornar à realidade da vida cotidiana [ii].

Desta forma, a análise dos processos de legitimação tem em conta que nas objetivações em que as teorias são observadas com a função nômica, surge a questão de saber até que ponto uma ordem institucional ou alguma parte dela é apreendida como uma faticidade não-humana, sendo essa a questão da reificação da realidade social.

Indaga-se ali se o homem ainda conserva a noção de que, embora objetivado, o mundo social foi feito pelos homens e, portanto, pode ser refeito por eles. É a reificação como grau extremo do processo de objetivação, extremo esse no qual o mundo objetivado perde a inteligibilidade e se fixa como uma faticidade inerte. Os significados humanos são tidos, então, em opacidade, como produtos da natureza das coisas.

► A questão da reificação da realidade social não reduz a reflexão sobre o método para a construção especial de uma teoria científica, embora nos esclareça o suficiente para repelir a orientação epistemológica do influente filósofo da ciência Karl Popper [iii]·.

Com efeito, sem desenvolver uma compreensão da reificação, mas tratando a construção de teorias científicas na concepção de um mundo não-humano dos produtos, incluindo neste os acervos do conhecimento, as bibliotecas, os livros, os recursos técnicos, as teorias e argumentos científicos, Karl Popper  promoveu a exigência artificial para a sociologia em separar análise estrutural e análise histórica, assumida por sociólogos influentes como Ralf Dahrendorf [iv] e Anthony Giddens [v], para exemplificar.

O efetivismo em filosofia matemática

Método altamente formal, o conjecturalismo epistemológico radical resume-se em  reconstruir criticamente situações de problema, afirmando-as notadamente em contraposição a toda a orientação (subjetivista) que pretenda reviver intuitivamente alguma experiência pessoal, como R. G. Collingwood [vi], citado por Popper.

Esse formalismo excessivo, caracterizado no desejado critério da “refutabilidade necessária” de toda a teoria científica, encontrou reação em seus próprios seguidores, tanto que Dahrendorf reconhece que “a refutação de teorias anteriores só tem razão de ser quando serve de ponto de partida para novas teorias” [vii].

Acontece que, em sua reflexão especial sobre a construção de uma teoria científica, o sociólogo não deve submeter suas teorias deterministas conjecturais ou probabilitárias à influência dos popperianos, nem precisa limitar-se ao “conjecturalismo radical”.

Na história do pensamento matemático constam certas orientações que esclarecem bem a procedência na realidade da construção de uma teoria científica, notando-se em especial o efetivismo.

Paralelamente ao seu desenvolvimento como critério de teoria moral no início do século XX, o efetivismo veio a ser afirmado em filosofia matemática[viii].

Caracterizado como atitude na elaboração de teorias científicas que foi sustentada pelos chamados construtivistas, o efetivismo consiste em aceitar (1) – que há um conteúdo para os objetos matemáticos; (2) – que o mesmo é verificado a posteriori e, portanto, (3) – se confunde ao critério que define os números como objetos matemáticos, a saber, (4) – que se pode construí-los efetivamente.

Reconhece-se inclusive uma hermenêutica do formalismo, que os construtivistas situam na exibição efetiva e explícita dos objetos matemáticos [ix]. É o ponto de vista efetivista pelo qual se deve fazer a economia do inconstruível: deve-se destruir ou ignorar o que não se pode construir efetivamente. Daí sua recusa das orientações que supõem a apreensão imediata e simultânea de conjuntos infinitos por nosso pensamento [x].

Os conjuntos matemáticos tornam-se conjuntos práticos

Como se sabe, o construtivismo e o efetivismo são concepções marcadas por escrúpulos ontológicos extremos aos quais, sem embargo, é aplicável uma regra prática. Se, em princípio, nessas concepções “não se deve multiplicar as entidades sem necessidade”, o efetivismo e o construtivismo afirmam-se como atitudes pragmatistas e utilitaristas porque admitem flexibilizar tal princípio quando a necessidade parece inevitável e conduz a resultados dos quais não se pode prescindir.

Daí que, embora recusem as construções que supõem a apreensão imediata e simultânea por nosso pensamento de conjuntos infinitos, os construtivistas admitem que a atualidade do infinito e os resultados globais em teoria dos números são úteis em tão alto grau que não se pode em absoluto dispensar de apreendê-los “quase – ontologicamente” [xi].

Seja como for, o debate em filosofia das matemáticas entre construtivistas e formalistas deixa ver em favor do efetivismo que o formalismo por si só é insuficiente para distinguir nossa lógica habitual entre a multiplicidade formal das lógicas.

Vale dizer, as limitações sintáticas se fazem presentes nesse debate. Não só é necessário distinguir a lógica habitual, mas há carência de argumentos de ordem intuitiva e semântica para ultrapassar certos modelos estandardizados da aritmética ou da axiomática da teoria dos conjuntos.

Nesse sentido, o efetivismo revela-se uma atitude teorética cujo alcance ultrapassa as questões matemáticas em teoria dos conjuntos e abre o caminho para a construção de teorias sociológicas.

Daí a descrição e a análise dos determinismos sociais e sociológicos como operações efetivas de integração dos fatos particulares nos planos de conjuntos práticos.

Os determinismos sociais são operadores no sentido usual do termo em análise matemática, isto é, símbolos de uma operação que se efetua sobre uma variável ou sobre uma função. Todavia, como ensina Georges Gurvitch [xii], a qualificação “positivista” é incabível porque se tratam de funções dialéticas e não apenas estritamente lógicas, como dialético é o efetivo esforço coletivo.

Por sua vez, explorando este caminho onde os conjuntos matemáticos tornam-se conjuntos práticos, não-inertes [xiii], C. Wright Mills questionou o “Preconceito contra a Sociologia do Conhecimento” exatamente em razão do desprezo pelas sintaxes existentes na realidade social [xiv].

A Influência dos Fatores Extralógicos

►Com efeito, em relação ao problema da escolha ou “eleição” dos modelos de verificação na prática científica, a aceitação ou a rejeição dos mesmos por parte de pensadores individuais e de elites constitui, no dizer de Wright Mills, uma das conjunturas nas quais fatores extralógicos possivelmente sociológicos podem intervir e influir sobre a validade do pensamento de uma elite.

Embora, sem dispor dos termos sociológicos precisos de quadros sociais do conhecimento e de coeficientes existenciais do conhecimento (introduzidos por Gurvitch), Wright Mills está a nos mostrar exatamente algum aspecto básico do que esses termos sociológicos designam.

A Dimensão pragmática da linguagem

Daí prossegue articulando a compreensão que lhes corresponde, e avança duas considerações para esclarecer a mediação observada nas correlações funcionais integrando a atividade científica no conjunto da vida social.

Na primeira consideração de análise sociológica, Wright Mills constata que as referidas indagações ou seleções e proposições dos problemas sofrem a influência dos “contextos sociais” através da mediação dos próprios conceitos operacionalizados nas formulações dos pensadores, já que os conceitos existem como “significados socialmente condicionados”.

Trata-se de reconhecer que, como semântica e sintaxe, a linguagem é inseparável de sua dimensão pragmática, na qual se inclui a dimensão sociológica. Desta sorte, em face de certas indagações ou seleções e proposições dos problemas, é legítimo admitir haver uma influência do inter-relacionamento entre os conceitos culturalmente disponíveis, por um lado, e, por outro lado, aquilo que se toma como problemática de investigação científica.

Em suma, existem correlações funcionais interligando os significados culturais e as problemáticas selecionadas pelos pesquisadores, sendo por meio dessas correlações que as indagações científicas são introduzidas no conjunto da vida social.

As influências sócio históricas

Na segunda consideração de análise sociológica, Wright Mills sustenta uma “teoria social da percepção”, segundo a qual, na busca de verificação dos elementos empíricos, os conceitos existentes condicionam os resultados da indagação, porquanto são esses conceitos que constituem estruturalmente “o mundo de objetos estruturados tecnicamente na linguagem especializada”, o mundo no qual se busca a verificação.

Daí, Wright Mills afirma em realismo sociológico que “elites técnicas diferentes possuem capacidades de percepção diferentes”, e que “as dimensões observacionais de qualquer modelo de verificação sofrem a influência da linguagem seletiva de quem o aplica”, com as “influências sócio históricas” se fazendo sentir por meio dessa linguagem.

Desta forma, ficam desautorizados os que, preconceituosamente, negam a relevância da sociologia do conhecimento para a epistemologia, tanto mais se considerarmos o impacto dessa “teoria social da percepção” nas condições da verdade como simples correspondência da experiência e dos fatos.

 

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O efetivismo como caráter humano das liberdades

 

Alguns comentaristas ingênuos tecem críticas superficiais sobre a moralidade implícita na defesa dos Direitos Humanos, alegando uma orientação abstrata, como se os movimentos pela promoção dos Direitos Humanos tivessem carência de realismo em suas campanhas.

Deixando de lado aqueles comentários ostensivamente provocativos e maliciosos, que visam somente lançar confusão para evitar o controle pela opinião pública das funções de autoridade, não será sem interesse acentuar algumas observações para sustentar que a dignidade moral implícita nos Direitos Humanos tem foco na individualidade concreta.

Com efeito, o posicionamento político por trás da “etiqueta de orientação abstrata” é conservador no sentido bem definido de pretender que os Direitos Humanos não passem de plataformas da classe burguesa.

Como se sabe, desde sua formação no século XVII até os dias atuais, a classe burguesa sempre manifestou um conhecimento político muito eficaz, como tática e afirmação de um ideal, que se cristalizou em doutrinas elaboradas – desde Hobbes, Spinoza, Rousseau até o neoliberalismo e o solidarismo dos finais do século XIX.

Todavia, a característica do conhecimento político da burguesia é ter sido capaz de manter-se moderado até as primeiras décadas do século XX. Para isso apoiou-se nos mitos da paz, igualdade de possibilidades, progresso técnico ilimitado, igualdade dos interesses de todos e, por fim, o mito da abundância.

Embora invocados com prudência e cautela, os mitos políticos da burguesia mostram o valor da redução do conhecimento de outro ao conceito genérico da pessoa humana, tomado como conceito idêntico para todos, de que se nutre o subjetivismo idealista (Rousseau, Kant).

Aliás, o conhecimento político moderado deve-se a que a burguesia sempre tratou de evitar comprometer-se, mantendo-se como agente político circunspecto, já que, finalmente, sempre teve mais a perder que a ganhar em toda a crise ou revolução, fazendo-se facilmente reservada e conservadora onde seus interesses econômicos não estejam gravemente ameaçados e onde não se questiona sua existência.

Ideologia de competição e de produção econômica

Para compreender a expressão intelectual dessa mentalidade, deve-se observar que será a formação de grupos de interesse na Renascença, prolongando-se em disputas políticas no Ancien Regime, que possibilitará o surgimento e a elaboração das doutrinas políticas modernas – começando na Inglaterra, com Thomas Morus (“Utopia”, 1516) e Francis Bacon (“Nova Atlântida”, inconclusa).

Posteriormente, nos séculos XVII e XVIII, serão os escritos de Hobbes e de Locke que correspondem às aspirações da classe burguesa ascendente como quadro social do conhecimento que, finalmente, só então triunfará. Na França: a influência dos fisiocratas, enciclopedistas, Turgot e J.J. Rousseau será marcante desde o começo e durante a revolução, e suas doutrinas tratam tanto do fim ideal quanto da tática a empregar para alcançá-lo, tipificando o conhecimento político não somente implícito ou tácito, mas dotado de formulação coerente. Na Holanda: o “Tratado Político” (1675-1677) de Spinoza já faz pressentir, segundo os estudiosos, certos elementos do pensamento de Rousseau.

A sociologia do conhecimento nas sociedades globais que dão à luz o capitalismo nos séculos XVII e XVIII nos mostra um ambiente muito novo e imprevisto impulsionado, como é sabido, pelo advento do começo do capitalismo e do maquinismo; pelo descobrimento do Novo Mundo, etc.

Nesse ambiente, o conhecimento de outro no Ancien Régime se encontra em grande dispersão pelos diferentes meios relacionados com a atualização da sociabilidade das massas, com a política de nivelação do absolutismo e com a desintegração dos grupos herdados da sociedade feudal, estando em nítida regressão a identificação do conhecimento de outro ao “espírito de corpo”.

Junto ao conhecimento de senso comum nas sociedades globais que dão à luz o capitalismo, surge um novo conhecimento de outro, servindo de compensação parcial para o rebaixamento desse mesmo conhecimento de outro como de indivíduos concretos, que predominava no “espírito de corpo”.

Aliás, esse rebaixamento é bem observado no fato que tanto na classe proletária nascente como na classe burguesa ascendente, ambas penetradas da ideologia de competição e de produção econômica, o conhecimento de outro é quase nulo.

Então, o novo conhecimento de outro que surge, vem afirmando uma tendência para universalizar a pessoa humana. Tendência esta que se relaciona a Rousseau, com sua teoria da Vontade Geral idêntica em todos, e a Kant, este, com seu conceito de “Consciência Transcendental” e de “Razão Prática”, que chega à afirmação da “mesma dignidade moral” em todos os homens [xv].

A individualidade concreta

►Acontece que a orientação dos Direitos Humanos tem igualmente fontes mais recentes que contemplam, não o outro em geral, mas o indivíduo específico, o homem diferente de seus semelhantes, em que a individualidade concreta tem sua dignidade moral devidamente reconhecida.

Basta lembrar o movimento pelos Direitos Civis e, no histórico deste, o Discurso das Quatro Liberdades, de F. D. Roosevelt, para constatarmos a orientação dos Direitos Humanos como bem concreta e realista.

Com efeito, a realidade social-histórica descoberta detrás do salto tecnológico da cibernética tem por referência principal a extensão dos Direitos Civis e Políticos nos EUA, na sequência da March for Jobs and Freedom, ocorrida no início dos anos sessenta.

O salto tecnológico da cibernética fez acentuar a liberdade de expressão, com os meios de comunicação de massa desempenhando um papel essencial para repercutir e projetar em ampla escala as manifestações de comportamento, os fatos políticos e as condutas efervescentes ligadas às aspirações coletivas.

Desta sorte, os eventos dos anos sessenta revelam a função de comunicação social prevalecendo sobre as ideologias, tornadas estas mensagens de mídia, incluindo o anticapitalismo ou anti-imperialismo.

O fortalecimento da liberdade de expressão

Como se sabe, a “Marcha sobre Washington para a criação de emprego e liberdade” foi um grande comício político que teve lugar em Washington, DC, em 28 de agosto de 1963, com grande repercussão nos meios de comunicação desde a sua convocação. Martin Luther King, Jr. aí pronunciou seu histórico “I Have a Dream”: discurso de promoção da harmonia racial proclamada no Lincoln Memorial durante a marcha. Cerca de 250.000 pessoas participaram na marcha, estima-se que 200.000 fossem afro-americanos e 50.000 eram brancos.

Essa marcha que constitui o acontecimento de mais alta significação para a história da segunda metade do século XX, reanimando por todo o mundo as condutas efervescentes ligadas às aspirações coletivas democráticas, tem ao seu crédito a Lei de Direitos Civis (1964) e a Lei dos Direitos de Votação Nacional (1965) consagrando a cidadania sem discriminação.

Do ponto de vista da “nova” sociologia do conhecimento, o que se observa é o fenômeno da radicalização dos intelectuais no século XX, favorecendo uma atitude anticapitalista.

A evolução política dos intelectuais – no sentido estrito de criadores de produtos ideológico-culturais – se insere como se sabe em um marco mais vasto de radicalização da capa dos trabalhadores intelectuais em geral, nos países capitalistas avançados e no terceiro mundo. A causa (singular) principal desse fenômeno é a proletarização dessa capa social.

Trata-se de um fenômeno já observado desde o início dos anos de 1930 por Antônio Gramsci em sua obra “Os Intelectuais e a Organização da Cultura” e que se torna patente depois da segunda guerra mundial, quando se produz o “salto qualitativo” no desenvolvimento do capitalismo.

A radicalização anticapitalista dos trabalhadores intelectuais no século XX se torna nítida quando a extensão massiva do capital ao setor chamado terciário, e as transformações ligadas à terceira revolução industrial (automatização, informática) produziram uma industrialização e estandardização generalizada de todos os setores da atividade humana [xvi].

Deste modo, o fortalecimento da liberdade de expressão suscita ou convoca a consciência da irracionalidade da civilização técnica, notada a partir da inelutável especialização, favorecendo em consequência a revalorização dos direitos sociais, inclusive nas mídias.

Trata-se da liberdade de expressão no sentido mais efetivo de liberdade intelectual – para lembrar o conceito desdogmatizador de Spinoza – que se exerce com anterioridade histórica em relação às mídias e não em dependência destas. Vale dizer, liberdade de expressão orientada para o efetivismo como elemento das liberdades, como caráter humano das liberdades.

 

A concepção dinâmica de qualquer moralidade efetiva

 

De fato, paralelamente à sua afirmação como atitude construtivista em teoria dos conjuntos matemáticos, o efetivismo diferencia-se lá onde é afirmada a concepção dinâmica da experiência moral.

Como se sabe do ponto de vista sociológico, o conhecimento dos critérios morais concretiza-se como uma reflexão posterior sobre o ato moral diretamente vivido, sobre os valores entrevistos no calor da própria ação.

Essa ação moral criadora dos seus próprios critérios está em oposição direta a qualquer crença no progresso automático, notando-se que a especificidade da experiência moral assim reconhecida se verifica exatamente como reconhecimento, como ação participante nos variados graus do esforço ou, em uma só sentença: “é a vontade de olhos abertos nas trevas”.

Na leitura sociológica, a base dessa experiência moral específica é a teoria da intuição da vontade orientada pelas suas próprias luzes, à qual se chega pela concepção dinâmica de qualquer moralidade efetiva em três níveis: (a) como ultrapassagem contínua do adquirido; (b) como recriação permanente dos Nós e de Outrem; (c) como moralidade de ação e de aspiração participando na liberdade criadora pelo próprio esforço incessante dos Nós.

Concepção dinâmica esta resumida na fórmula de Henri Bergson (1859 – 1941) segundo a qual “para que a consciência se destacasse do ‘já feito’ e se aplicasse ao que ‘se está a fazer’ seria necessário que, voltando-se e retorcendo-se sobre si mesma, a faculdade de ver constituísse uma só unidade com o ato de querer”.  Na ação livre, ao lançar-se para frente, tem-se a consciência dos motivos e dos móveis tornando-se ambos idênticos.

A teoria da intuição da vontade

 

Essa teoria da intuição da vontade é não só a base da especificidade da experiência moral, mas essa especificidade mesma é a liberdade consciente.  Quer dizer, assim como há diferentes espessuras da duração e variadas intensidades da liberdade, há também diferentes graus da vontade consciente, a qual se torna cada vez mais livre à medida que: (a) ultrapassa a escolha entre as alternativas, mediante o exercício da decisão; (b) ultrapassa a própria decisão voluntária, mediante o exercício da vontade propriamente criadora.

Desta forma, a moral da criação que se tira de Bergson encontra fundamento para prosseguir a sua realização nas diferentes camadas (paliers) em profundidade da realidade social.  É a liberdade situada no âmago da vida humana consciente. Enfim, sabe-se que o desvio místico de Bergson deve-se ao não ter ele encontrado na sua análise da liberdade consciente o problema dos valores de civilização, “esses escalões que dirigem a elevação libertadora” [xvii] .

No âmbito da política da Democracia, o ponto de vista da ação moral criadora dos seus próprios critérios pode ser constatado no célebre Discurso das Quatro Liberdades de Franklin Delano Roosevelt [xviii]·: Liberdade de Expressão, Liberdade de Culto, Liberdade para Querer, Liberdade contra o medo (Four Freedoms: Freedom of Speech, Freedom of Worship, Freedom from Want, and Freedom from Fear).

 

As liberdades humanas essenciais

Nesse discurso vem a ser introduzido em nível de doutrina e análise a convicção de que as liberdades buscadas na Democracia devem ser compreendidas como liberdades humanas essenciais.

O ponto de vista da ação moral criadora dos seus próprios critérios é constatado nos dois trechos fundamentais seguintes:

Primeiro: na passagem afirmando que a liberdade essencial é irrenunciável e não pode ser trocada por uma segurança temporária: “Those, who would give up essential liberty to purchase a little temporary safety, deserve neither liberty nor safety”;

Segundo: na passagem em que as liberdades humanas essenciais são compreendidas à luz dos dias vindouros sob a mirada voltada para um mundo fundado justamente sobre as quatro liberdades humanas essenciais, ou seja, são compreendidas sob a mirada de suas próprias luzes: In the future days, which we seek to make secure, we look forward to a world founded upon four essential human freedoms.

E na sequência são enunciadas as quatro liberdades que se compreendem por elas próprias por serem liberdades humanas essenciais: § The first is freedom of speech and expression – everywhere in the world. §    The second is freedom of every person to worship God in his own way – everywhere in the world. §    The third is freedom from want – which, translated into world terms, means economic understandings which will secure to every nation a healthy peacetime life for its inhabitants – everywhere in the world. §    The fourth is freedom from fear – which, translated into world terms, means a world-wide reduction of armaments to such a point and in such a thorough fashion that no nation will be in a position to commit an act of physical aggression against any neighbor – anywhere in the world.

E a conclusão realista: That is no vision of a distant millennium. It is a definite basis for a kind of world attainable in our own time and generation.

►Em face dessas convicções desse modo formuladas não há negar que os Direitos Humanos têm foco na individualidade concreta e que são inseparáveis dos Direitos Sociais.

As quatro liberdades humanas essenciais deixam claro que, no termos do próprio Discurso FDR Four Freedoms Speech 1941, “não há nada misterioso a respeito das bases de uma democracia sã e forte”. E o Discurso prossegue no seguinte:

As coisas básicas esperadas por nosssa gente de seus sistemas politicos e econômicos são singelas. Tais coisas são: A igualdade de oportunidade para a juventude e para outros; Os trabalhos para os que podem trabalhar; A seguridade para os que a necessitam; A terminação do privilégio especial para os poucos; A conservação de liberdades civis para todos; O gozo dos frutos do progresso científico em um amplo e constante aumento do nível de vida.

Estas são as coisas singelas e básicas que nunca devem ser perdidas de vista na confusão e complexidade incrível de nosso mundo moderno. A força interior e duradoura de nossos sistemas econômicos e políticos depende do grau em que eles sejam capazes de satisfazer a estas expectativas [xix].

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 A leitura sociológica

 

Na leitura sociológica a base da experiência moral específica é a referida teoria da intuição da vontade orientada pelas suas próprias luzes, à qual se chega pela concepção dinâmica de qualquer moralidade efetiva em três níveis: (a) como ultrapassagem contínua do adquirido; (b) como recriação permanente dos Nós e de Outrem; (c) como moralidade de ação e aspiração participando na liberdade criadora pelo próprio esforço incessante dos Nós.

Há diferentes graus da vontade consciente, a qual se torna cada vez mais livre à medida que: (a) ultrapassa a escolha entre as alternativas, mediante o exercício da decisão; (b) ultrapassa a própria decisão voluntária, mediante o exercício da vontade propriamente criadora. Daí como disse o problema dos valores de civilização, “esses escalões que dirigem a elevação libertadora”.

 

Durkheim

 

►Em seu pensamento objetivo, Durkheim compreende os ideais em maneira descritiva como obstáculos (apreendidos, no sentido em que comparativamente o são as amplitudes concretas do conhecimento perceptivo do mundo exterior), supondo o critério sociológico de sua resistência justamente à penetração pela subjetividade coletiva como o complexo psicossociológico das significações humanas (ou “coletividade de aspiração”, no dizer de Durkheim, que aí inclui as crenças coletivas), levando-o a conceber aqueles ideais exatamente como os termos motores dessas aspirações, seus focos irradiadores.

Diferentes dos valores baseados no critério da utilidade, como os valores econômicos costumam mostrarem-se, aqueles outros valores chamados culturais, compreendidos por Durkheim como valores ideais ou fundados nos ideais, podem ser definidos do ponto de vista da sociologia da vida moral (considerada esta última em sua autonomia e em sua especificidade) em termos de (a) instrumentos de comunhão social (no sentido da mais intensa imanência recíproca entre o individual e o coletivo na sociabilidade de um Nós o mais constrito), e (b) princípios de incessante regeneração justamente para a vida nos ideais, podendo ser comparados a ímãs que atraem e merecem atrair a “vontade”. como esforços humanos convergentes.

 

A sociologia da vida moral em Durkheim

 

Como se sabe, a orientação para a sociologia da vida moral em Durkheim compreende dentre outros aspectos o seguinte: (a) a objetividade dos valores propriamente culturais não se reduz à sua mera coletividade ou recorrência em grande número; (b) as principais obras de civilização como a religião, a moral, o direito, a arte são sistemas de valores culturais; (c) a validade objetiva dos valores culturais consiste na sua referência ao nível de realidade mais profundo dos ideais.

A afirmação dos valores como sendo objetivos está em que as coisas e as pessoas às quais tais valores são atribuídos atendam à condição de serem coisas e pessoas que estão postas em contato com os ideais por efeito do estado mental de afetividade coletiva (sentimento do desejável ou sensibilidade indefinida, incluindo as propensões, tendências, preferências, e todo o conjunto das orientações afetivas do psiquismo, por diferença dos atos mentais como as intuições e os juízos).

Tal é o efeito (imãs da vontade) que qualifica propriamente a subjetividade coletiva como aspiração (aos valores), notando-se o aspecto de imãs da vontade que os valores assumem neste contacto com os ideais. Os ideais tomados por si não são representações intelectuais abstratas, frias, mas como dissemos essencialmente motores.

 

A conjunção dos valores

 

►Durkheim alcançou as bases da sociologia da vida moral, sobretudo pelo aproveitamento original que tirou de sua reflexão junto com a filosofia de Kant, levando-o como se sabe a introduzir em diferença deste último que a ignorou, como já foi dito, a noção do desejável na análise dos valores.

Com efeito, é para a funcionalidade dos valores ideais, sua característica estritamente sociológica de instrumentos de comunhão social (no sentido acima definido) e princípios de incessante regeneração da vida nos ideais se afirmando indispensavelmente por meio da afetividade coletiva, que é orientada a utilização do termo desejável na seguinte formulação durkheimiana: qualquer valor pressupõe a apreciação de um sujeito em referência de uma sensibilidade indefinida – é o desejável, qualquer desejo sendo um estado interior.

Definição descritiva esta que não só torna extensível a característica do desejável a qualquer valor para além dos valores ideais (qualquer valor tendo assim alguma participação nos ideais), mas, por esta via os engloba igualmente na noção de funcionalidade expressa na fórmula acima mencionada a respeito destes últimos (“qualquer valor pressupõe a apreciação de um sujeito em referência de uma sensibilidade indefinida”), fórmula esta pela qual a sociologia elimina radicalmente a pretensão de um absoluto eudemonista por estranho à afetividade coletiva.

Como admitem seus continuadores, em sua aplicação exclusiva à sociologia da vida moral, a concepção de Durkheim deveria conduzir ao estudo empírico das correlações funcionais entre os valores morais e os conjuntos sociais.

Para esse desdobramento apontaria sua fórmula acima de que “qualquer valor pressupõe a apreciação de um sujeito em referência de uma sensibilidade indefinida”, isto é, pressupõe a experiência com afetividade coletiva de uma busca suscitada pelo desejável.  Além disso, o estudo empírico das correlações funcionais entre os valores morais e os conjuntos sociais se encontra favorecido notadamente em razão do seguinte: (1) Durkheim chega a opor para fins de análise os valores ditos culturais a outros valores, insistindo ao mesmo tempo na variedade infinita e na particularização de todos os valores sem exceção; (2) põe em relevo o papel que desempenham os valores na formação da própria realidade social.

Daí que, enfim, seus continuadores possam completar a concepção durkheimiana com a constatação das flutuações dos valores, os quais se juntam e se interpenetram depois de se terem diferenciados – a chamada conjunção dos valores, que Georges Gurvitch atribui a Celestin Bouglé [xx].

 

Índice

 

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Agrupamento(s), alienação, burguesia, campesinato, campesino, capitalismo, ciência, civilização, classe (burguesa, proletária, subalterna, camponesa), classes (médias, sociais,), classes [do conhecimento], coeficiente [existencial do conhecimento], cognitivo(a)(s) [sistema, juízos, tendências], coletivo(a)(s), complementaridade, comunicação, comunidade, conhecimento, consciência, contraditórios, controle, culturalismo, desejo, desejável, determinismo, direito, Durkheim, epistemologia, Estado, estratificação, estruturação, experiência, falso saber, Gestalt, globais, grupo(s), história, humano(a)(s)  [esforço, luta, significações, direitos], ideologia, intermediação, internet, Karl Marx, liberdade, massa, Max Weber, mentalidade, microssociologia, modernização, moral, Nós, objeto, outrem, procedimentos, psicologia, psiquismo, quadros sociais, realidade histórica, realidade social, realismo, reciprocidade, regulamentações, reificação, saber, Saint-Simon, sentimento, símbolos, sociedade, sociologia, sociólogo, subjetividade, subjetivismo, superestrutura, tecnificação, técnica, tecnologia, tipo, utilitarismo, variabilidade, variação, valor.

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Referências Bibliográficas e Notas

[i] Comunicación al Congreso Iberoamericano de Educación: Metas 2021  Buenos Aires (Argentina) 13-15 de septiembre de 2010.

[ii] Cf. Berger, Peter e Luckmann, Thomas: “A Construção Social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento”, trad. Floriano Fernandes, Rio de janeiro, editora Vozes, 1978, 4ª edição, 247 pp. -1ªedição em Inglês, New York, 1966. Ver as págs. 247 sq.

[iii] Popper, Karl: ‘Conhecimento Objetivo: uma abordagem evolucionária’, tradução Milton Amado, São Paulo/Belo Horizonte, EDUSP/editora Itatiaia, 1975, 394 pp, traduzido da edição inglesa corrigida de 1973 (1ª edição em Inglês: Londres, Oxford University Press, 1972).

[iv] Dahrendorf, Ralf: “Las Classes Sociales y su  Conflicto en la Sociedad  Industrial”, trad. Manuel Troyano, Madrid, ed. Rialp, 1970, 339 pp. (1ª edição em Alemão, Stuttgard, 1957).

[v] Giddens, Anthony: “As Novas Regras do Método Sociológico: uma crítica positiva das sociologias compreensivas”, trad. Ma. José Lindoso, revisão Eurico Figueiredo, Rio de Janeiro, Zahar, 1978, 181 pp. (1ª edição em Inglês, Londres, 1976). Do mesmo autor: “A Estrutura de Classes das Sociedades Avançadas”, trad. Márcia Bandeira, revisão Edson de Oliveira, Rio de Janeiro, Zahar, 1975, 368 pp. (1ª edição em Inglês, Londres 1973).

[vi] Collingwood, R.G.: “A Ideia de História”, trad. Alberto Freire, Lisboa, Ed. Presença, 1972, 401 pp. (1ª edição em Inglês, 1946).

[vii] Dahrendorf, Ralf: “Las Classes Sociales y su  Conflicto en la Sociedad  Industrial”, op.cit. pág: 112.

[viii] Os nomes historicamente representativos do efetivismo em matemática são Émile Borel (1871- 1956) y Henri Léon Lebesgue (1875 – 1941).

[ix] Os construtivistas estimam que somente os números reais efetivamente exibidos ou não implícitos são suscetíveis de serem conhecidos, ou conhecidos com precisão.

[x] Os conjuntos infinitos não-apreensíveis têm equivalente em sociologia diferencial lá onde se constatam as atitudes coletivas em suas ambiências imponderáveis. Cf. Gurvitch, Georges: Dialectique et Sociologie, Paris, Flammarion, 1962, 312 págs., col.  Science.

[xi] Peccatte, Patrick: “La Consistance Rationnelle Critique de la raison démarcative”, Saint-Étienne: Aubin éditeur, 1996, Versão E-book, 188 págs. pdf, 12 Dezembro 2001, http://peccatte.karefil.com/CR/CR.PDF. Este autor reconhece que o construtivismo permanece muito presente e estimulante na filosofia contemporânea das matemáticas.

[xii] Gurvitch, Georges (1894-1965): “Determinismos Sociais e Liberdade Humana: em direção ao estudo sociológico dos caminhos da liberdade”, trad. Heribaldo Dias, Rio de Janeiro, Forense, 1968, 361pp., traduzido da 2ªedição francesa de 1963. (1ªedição em Francês: Paris, PUF, 1955).

[xiii] Cf. Gurvitch, Georges: Dialectique et Sociologie, Paris, Flammarion, 1962, 312 págs., col.  Science.

[xiv] Wright Mills, C.: ‘Consecuencias Metodológicas de la Sociología del Conocimiento’, in Horowitz, I.L. (organizador): ‘Historia y Elementos de la Sociología del Conocimiento – tomo I’, artigo extraído de Wright Mills, C.: ‘Power, Politcs and People’, New York, Oxford University Press, 1963; tradução Noemi Rosenblat, Buenos Aires, EUDEBA, 3ªedição, 1974, pp.143 a 156.

[xv]  O subjetivismo idealista perpetuou-se como preconceito filosófico inconsciente nas teorias que, sem crítica, acolhem um estruturalismo lógico (a priori) na base de toda a sociedade e da própria língua.

[xvi]  A análise e a crítica da cultura standardizada está desenvolvida nas obras de T.W. Adorno. Cf. Adorno, Theodor. W.: “Notas de Literatura”, tradução Manuel Sacristán, Barcelona, Editora Ariel, 1962, 134 pp., ver págs. 109 sq. ///“Prismas: la Critica de la Cultura y la Sociedad”, tradução de Manuel Sacristán, Barcelona, Ariel, 1962, 292 pp. (Original em Alemão: Prismen. Kulturkritik und Gesellschaft. Berlin, Frankfurt A.M. 1955).

[xvii] Esta leitura de Bergson foi proposta por Georges Gurvitch em sua obra “A Vocação Actual da Sociologia” –vol.II: “antecedentes e perspectivas”, tradução da 3ª edição francesa de 1968 por Orlando Daniel, Lisboa, Cosmos, 1986, 567 pp. (1ª edição em francês: Paris, PUF, 1957).

[xviii] FDR Four Freedoms Speech 1941 – President Franklin D. Roosevelt: The Annual Message to Congress.January 6, 1941/ versão automática em castelhano reproduzida por Jacob (J.) Lumier in acervo da Biblioteca Virtual do JL’Blogs: “Discurso das Quatro Liberdades-1941”

link: http://sociologia-jl.blogspot.com/2007/04/view-blog-authority.htm

[xix] FDR Four Freedoms Speech 1941 – President Franklin D. Roosevelt: The Annual Message to Congress.January 6, 1941. op.cit. Versão provisória ao Português feita pelo autor.

[xx] Esta análise e interpretação têm lastro em Gurvitch, G. (1894-1965): “A Vocação Actual da Sociologia –vol.II: antecedentes e perspectivas”, op cit.

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