Standardização e Ataraxia

Há uma conexão entre a ataraxia na fantasia futurista e as tendências para certas involuções já existentes no cotidiano das sociedades penetradas pela indústria cultural e a cultura de massa

Deve-se levar em conta que a pesquisa sobre o materi-al e a finalidade da arte não se esgota na descoberta do vazio de significação nem se limita ao aspecto do mera-mente existente que ali aflora no déjà vu.

A Standardização através da des-subjetivação leva também à ataraxia cujo primeiro momento foi menciona-do ao notar a ausência de emoção projetada na fantasia futurista.

Isso porque a fantasia futurista glorifica o cotidiano da vida acentuando-lhe a transcendência, mas o faz deixando na sombra a conexão material do espiritual, a qual, por contra, apoiada no desejo, na busca de satisfação, na se-xualidade vem a ser vivida como ansiedade pelos indiví-duos humanos.

Na verdade essa aparente desatenção para com a cone-xão material apenas desenvolve a imagem de apatia que a fantasia futurista tece ao estender a Standardização aos temas da felicidade e da sexualidade.

Neste ponto, pode ver que aprofundando através da análise da fantasia futurista a reflexão sobre o material da arte e literatura de avant-garde encaminha-se na direção que reencontra o pensamento artístico de Marcel Proust.

Com efeito, é na obra desbravadora deste criador his-tórico, na série romanesca reunida em “A La Recherche du Temps Perdu” que o vazio de emoção configura um elemento fundamental, o foco mesmo das imagens e me-táforas da narrativa literária.

Tanto é assim que, em seu notável ensaio sobre Proust , Samuel Beckett insistirá no alcance neutraliza-dor sobre a vontade e sobre a própria auto-afirmação da consciência desempenhado pelo monólogo interior prous-tiano, sobretudo no início do segundo volume de “Le Temps Retrouvé” em que, ao conseguir o vazio de emo-ção, o narrador tem acesso ao êxtase artístico e o viven-cia mediante a intervenção da memória involuntária.

Certamente, a orientação freudiana (sem a psicanáli-se) de T.W. Adorno se distancia de Proust assim como a Libido não esgota o instinto do Eu.

Não que o narrador proustiano seja menos neurótico (Beckett classificará o seu infantilismo como ligado ao complexo de dominação) do que os estados considerados por T.W. Adorno como elementares na criação poético-literária, mas sim que o pensamento de Proust vê a fonte da obra de arte na individualidade mesma do artista e em sua fantasia, enquanto a Crítica da Cultura busca como disse nas significações culturais o foco irradiador das i-magens e metáforas literárias.

Desta forma, T.W. Adorno põe em relevo a conexão entre a ataraxia na fantasia futurista e as tendências para certas involuções já existentes no cotidiano das socieda-des penetradas pela indústria cultural e a cultura de mas-sa, aliás, é essa conexão que orienta toda a sua Crítica da Cultura, como pesquisa sobre os materiais da arte e reflexão estético-sociológica sobre a utopia negativa.

Com efeito, no prolongamento da Standardização pelo futurismo, a ataraxia, a impertubabilidade é produzida por extensão ao âmbito da relação da liberdade individual e dos tabus sexuais, notados estes no já mencionado culto do instrumento técnico separado de todo o destino obje-tivo e da afcção fetichista em possuir perfeitos equipa-mentos de toda a natureza.

A Função da Ataraxia

Segundo T.W. Adorno a função da ataraxia na utopia negativa rebaixa a idealização do meramente existente, ou melhor, da existência monádica ou atomizada dos indiví-duos, dando expressão (antierótica) à relação complemen-taria que existe entre coletivização e atomização.

Assim o núcleo de toda a relação entre seres humanos é amarrado por essa ataraxia ao êxtase sexual. Quer dizer, há na utopia negativa contradição envolvendo uma liber-dade (neutralizada em vazio de emoção) na qual os tabus sexuais perdem sua força e são substituídos pela autoriza-ção do antes proibido, ou se fixam em maneira vã por uma estéril constrição. O prazer mesmo degenera em mise-rável galhofa e em mera ocasião de narcisista satisfação por ter fisgado a esta ou àquele (…); o sexo se faz indiferente e irrelevante pela institucionalização da promiscuidade (…); se deseja a descarga fisiológica como elemento de higiene e a carga emocional que isso pode representar se deposita em conta do desperdício de energia sem utilidade social; o que há de evitar a todo o custo é deixar-se levar pela emoção. Tal a contradição em que desponta a ataraxia, certa im-perturbabilidade como vazio de sexualidade ou de emo-ção, um estado antierótico que T.W. Adorno analisará como construção do orgasmo organizado na fantasia futu-rista. .

No exame de tal contradição – uma liberdade neutrali-zada em vazio de emoção na qual os tabus sexuais per-dem sua força – deve-se distinguir na fantasia futurista a vertente marcada pelo puritanismo, que acolhe e elabora como inseparáveis o sentido religioso, por um lado e, por outro lado, a humilhação do sexo e a entrega sexual, e que se poderá detectar na cena romanesca do The Brave New World.

Desta forma encontra-se mais arraigado o dispositivo ideológico tornando localizado e restrito o assunto sobre sexo, o qual fora equivalente ao tema da libertinagem considerada como estímulo fisiológico, à maneira em que nas chamadas culturas masculinas os cavaleiros costu-mavam falar entre eles de mulheres e de erótica, mes-clando (a) – orgulho por terem conquistado soberania pa-ra tocar no tema tabu e, (b) – desprezo por este tema.

No romance de Aldous Huxley o dispositivo ideológico (que torna localizado e restrito o assunto sobre sexo) e o próprio fato do sexo estão mais sublimados e mais pro-fundamente reprimidos (reforçando o tabu, ou melhor, fi-xando-o em maneira vã por uma estéril constrição), sendo notado na questão da falsa felicidade, que sacrifica a i-déia de felicidade verdadeira.

Tanto mais que nesta vertente derivada do puritanismo a objeção anteposta à “era industrial” denuncia o relaxa-mento dos costumes e não tanto a desumanização. A in-dagação principal é saber se há felicidade possível sem proibições a destruir – como se a felicidade dimanante da violação de um tabu pudera justificar e legitimar o tabu mesmo, como ironiza T.W. Adorno (cf.ib.pág. 108).

Fungibilidade

Por contra, a inoperância de tal ideologia (que fixa o tabu em estéril constrição) influindo na fantasia futurista ao fazer sobressair que o rápido e prescrito câmbio de companhia erótica na utopia negativa deriva da cega e o-ficial organização do sexo, que converte o prazer em broma e o nega ao concedê-lo.

Ou seja, é o tabu mesmo que continua vigorando na impossibilidade de mirar cara a cara o prazer, de entre-gar-se plenamente a ele por meio da reflexão. Se esta proibição houvera sido quebrada, se o prazer se tivera li-berado já das malhas da instituição seria capaz de dis-solver a rigidez do The Brave New World como mundo da utopia negativa.

O princípio moral supremo desse mundo pintado na fantasia futurista, seu desiderato, sua culminação é de que qualquer um pertence a qualquer um: é a fungibi-lidade absoluta, que dissolve o homem como ser indi-vidual.

Mera mitologia, a fungibilidade destrói o último Em-Si do homem, seu último tabu e o determina como me-ro Para-Outro, como nulo.

Tendo em conta essa culminação, mas prosseguindo na desmontagem do dispositivo ideológico efetivo que, tornando localizado e restrito o assunto sobre sexo refor-ça ao contrário o tabu, sublinha nosso autor que a culmi-nada situação de anarquia sexual é incompatível com uma ordem totalitária, posto que o conceito de domínio pode definir-se como a disposição de uns sobre os de-mais e não como disposição total de todos sobre todos.

O homem que não é mais senão para outra coisa fica-ria sem dúvida alienado de sua mesmidade, porém seria também liberado da atadura da autoconservação que mantém unido o mundo da utopia negativa tanto quanto o mundo velho.

Segundo T.W. Adorno a pura fungibilidade corroeria o núcleo do poder e prometeria a liberdade em sentido ab-soluto. Dessa maneira sobressai a debilidade da concep-ção de conjunto que vincula o futurismo por um lado e, por outro lado, a ideologia derivada do puritanismo, e que vincula a ambos com o princípio moral da fungibilidade absoluta na utopia negativa.

Fragilidade composicional esta que T.W. Adorno exa-minará partindo da cena principal do romance da fantasia futurista de Aldous Huxley, a saber: o choque erótico dos dois mundos: o da personagem Lenina – que é o protótipo da mulher americana liberada – e o do “selvagem John” que a ama em modo lírico e puramente contemplativo e que, como uma relíquia do humano, pertence ao mundo que ficou às costas da cultura absoluta de massa, (um mundo pintado nessa fantasia como repugnante e defor-mado, à imagem das colônias nudistas em que o sexo se anula também mediante sua desocultação).

Fonte:

A UTOPIA NEGATIVA: LEITURAS DE SOCIOLOGIA DA LITERATURA

Jacob J. Lumier

(Primeira edição – online junto à Web de Eumed.net, BIBLIOTECA VIRTUAL de Derecho, Economía y Ciencias Sociales

Universidade de Málaga, Espanha)

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A Fenomenologia Concreta de Ernst Bloch – Ebook Issu

A reflexão histórico-filosófica é vista como sendo distanciada em relação às questões prementes da vida pública em virtude do seu caráter não-representacional, embora seja situada na realidade social.

Ernst Bloch é um pensador com essa virtude [1]. Nada obstante, além de uma sociologia do legado rural tradicional na formação das classes sociais, a leitura de sua obra é interessante porque nos mostra a dimensão humana universal da Esperança histórico-filosófica que está por trás dos movimentos camponeses na formação do mundo moderno.

Embora seja estudado em ligação com as conhecidas correntes intelectuais do Século Vinte influenciadas por dogmas materialistas ou marxistas [2], Ernst Bloch é o pioneiro da relativização da dialética na crítica-histórica e, ainda na década de 1920, desenvolve em sua obra a compreensão da totalidade com vários níveis de realidade histórica ou de passado, designada no seu dizer a totalidade múltipla.

Portanto, deve ser lido como pensador europeu relacionado à história contemporânea da dialética, cabendo lembrar a respeito disto que Gastón Bachelard começou a introduzir a dialética em Ciências Humanas somente em 1936 [3], e que a “revolução de Heisenberg” data de 1925, quando foi descoberta a mecânica quântica, cujas Equações de Incerteza levaram a Física Teórica à descoberta da dialética complexa e relativista (Revista Dialectique, 1947) [4].

Neste sentido, tomamos como nossa principal referência a obra Héritage de ce Temps (Erbschaft dieser Zeit, Zürich, 1935), que é uma coletânea de artigos e ensaios que incluem escritos publicados no final dos anos vinte e comentários sobre o relativismo científico (Bérgson, Einstein).

Certamente, visamos pôr em relevo a vertente sociológica weberiana a que se liga e se contrapõe Ernst Bloch e centramos nossa leitura nas análises dialéticas em múltiplos níveis enfocando a crise então verificada na Alemanha.

Assinalamos notadamente que, ao pesquisar o psiquismo coletivo dos “de baixo“, Ernst Bloch chega à descoberta de uma orientação fenomenológica indispensável à crítica do processus de formação do mundo moderno, aportando novos conhecimentos sobre a problemática dos modos de produção pré-capitalistas, com esclarecimentos indispensáveis que, todavia, restam pouco explorados [5] na pesquisa histórica.

Em modo mais amplo, as observações de leitura reunidas neste nosso trabalho contribuem para a reflexão do sociólogo sobre as linhas de pesquisa dialética alternativa ao legado de Max Weber, de que a obra de Ernst Bloch constitui inesgotável manancial [6].

Daí os capítulos elaborados sobre a leitura de “Thomas Münzer, Teólogo de la Revolución[7], que é um ensaio sobre a importância das insurgências campesinas e da cultura do gótico tardio para a compreensão das superestruturas do capitalismo em modernização. Sendo nesse ensaio de 1921 que Ernst Bloch põe em obra a análise dialética orientada para a totalidade múltipla.

Finalmente, cabe acrescentar que alguns textos nesta coletânea são inéditos, outros contam versões anteriores publicadas junto ao OpenFSM [8], que ora foram corrigidas e aperfeiçoadas. Eventualmente, ocorreram algumas repetições [9].

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Maio de 2009

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Jacob (J.) Lumier



[1] Ernst (Simon) Bloch: Ludwigshafen, 1885-Tubinga, 1977. Exílio estadunidense (1938-1949) onde elaborou sua monumental obra “O Princípio Esperança” (publicada entre 1954 e 1959).

[2] Historiadores renomados observaram que o posicionamento de Ernst Bloch nos debates com Georges Lukacs, por exemplo, acentuavam a subjetividade. Cf. Lowy, Michael: ‘Para una Sociología de los Intelectuales Revolucionarios: La evolución politica de Lukacs-1909/1929’, tradução Ma. Dolores Pena, México, Siglo Veintiuno editores, 1978, 309pp. (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1976).

[3] Bachelar, Gaston: “La Dialectique de la Durée”, Paris, Press Universitaire de France – PUF, 1972, 151 pp., 1ª edition 1936.

[4] Ver Gurvitch, Georges (1894-1965): “Dialectique et Sociologie”, Flammarion, Paris 1962, 312 pp., Col. Science.

[5] Por ter acordado regressar para a Alemanha Comunista em 1948, Ernst Bloch sofreu o esquecimento. Primeiro, em virtude de sua oposição, que o levou desde 1957 ao afastamento da vida acadêmica, tendo sido excluído da RDA em 1961. Segundo, o fato de haver regressado dos EUA e, ao contrário dos grandes intelectuais igualmente exilados, ter aceito integrar-se na RDA, também lhe valeu um esquecimento no pensamento europeu, já que só em 1976 teve sua grande obra reconhecida e publicada em Paris.

[6] Ao utilizarmos as edições francesas e espanholas das obras de Ernst Bloch estamos secundados por Walter Benjamim, que verteu Baudelaire ao alemão por reconhecer a legitimidade das pesquisas sobre textos em versões traduzidas.

[7] Cf. Bloch, Ernst: Thomas Münzer, Teólogo de la Revolución (“Thomas Münzer als Theologe der Revolution”, München 1921) Editorial Ciencia Nueva, Madrid, 1968.

[8] OpenFSM is a platform for social activism provided by the World Social Forum. Cf. A Home Page “Reflexão e Crítica”.

[9] A primeira versão deste trabalho encontra-se difundida na Web da OEI, sob o título Crítica da Cultura e Comunicação Social.

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Metodologia e Sociologia – Ebook Issuu

Este artigo tem um aspecto acadêmico. A alternativa fenomenologia ou sociologia foi colocada como crítica à sociologia diferencial no século 20 notadamente diante da crescente influência internacional nos meios universitários de seu incentivador Georges Gurvitch , o fundador da microssociologia .
Vários autores como veremos colocam estes termos fenomenologia ou sociologia, em forma de alternativa, para lançar dúvida sobre o alcance empírico da aplicação da idéia tridimensional em teoria sociológica.
Sabe-se por contra que é uma aquisição da teoria sociológica na tradição do realismo de Saint-Simon e do jovem Marx a constatação de que a realidade é em ato, é a realidade de alguém, logo, inseparável da experiência humana. Daí que ao elaborar sobre a realidade social o sociólogo já está aplicado sobre materiais empíricos.

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A Dialética Sociológica, o Relativismo Científico e o Ceticismo de Sartre – Ebook Issuu

Este artigo investiga a dialética sociológica no âmbito da cultura científica do século XX tendo em conta por um lado a reflexão sobre as conseqüências metodológicas dos avanços em microfísica e por outro lado a reação da filosofia sartreana da história, como obstáculo.

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Karl Marx e a Sociologia do Conhecimento – Ebook Issu

A sociologia do conhecimento traz consigo para dentro do campo sociológico a pesquisa em psicologia coletiva. Da mesma forma que a introdução do problema da consciência coletiva por Emile Durkheim (1858-1917) acentuou essa ligação, a descoberta por Karl Marx (1818-1883) da realidade social por trás do fetichismo da mercadoria trouxe à luz o problema da dialética das alienações e com isto consolidou a pesquisa em psicologia coletiva como aquisição sociológica. Neste artigo tecemos comentários em vista de tornar acessível a leitura de Marx desde o ponto de vista da sociologia do conhecimento.

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