O problema da possibilidade da estrutura

 

O problema da possibilidade da estrutura e a classificação dos grupos estruturados como Sedes específicas do conhecimento

Por Jacob (J.) Lumier

 

O conceito de estrutura, em sociologia diferencial, não minimiza a variabilidade, mas acentua a escala dos tempos sociais, e o faz na medida em que põe em relevo o fato de o conjunto social, por mais complexo que seja, preceder, virtualmente ou atualmente, todos os equilíbrios, hierarquias, escalas, de que depende o tipo de estrutura. Em consequência, as tendências e os equilíbrios que constituem o caráter estruturável de um grupo nem sempre são conseguidos, levando a constatar que existem grupos “apenas estruturáveis”.

Sumário

Preliminares. 1

A classificação das hierarquias que definem o tipo de sociedade. 1

As hierarquias múltiplas. 1

As hierarquias em unificação. 1

Passagem do grupo à história. 1

O caráter estruturável de um grupo. 1

Os agrupamentos estruturáveis. 1

Os grupos estruturados. 1 (descrição e classificação)

 

 

 

O conceito de estrutura, em sociologia diferencial, não minimiza a variabilidade, mas acentua a escala dos tempos sociais, e o faz na medida em que põe em relevo o fato de o conjunto social, por mais complexo que seja, preceder, virtualmente ou atualmente, todos os equilíbrios, hierarquias, escalas, de que depende o tipo de estrutura. Em consequência, as tendências e os equilíbrios que constituem o caráter estruturável de um grupo nem sempre são conseguidos, levando a constatar que existem grupos “apenas estruturáveis”.

 

 

Preliminares

 

Este artigo pressupõe a leitura dos seguintes textos do autor: (a) “Os tempos sociais, a sociologia e a história”< https://leiturasociologica.wordpress.com/os-tempos-sociais-a-sociologia-e-a-historia/ >; (b) “ Pluralismo Descontinuísta: Primeira Parte” < https://leiturasociologica.wordpress.com/2016/09/20/pluralismo-descontinuista-e-desdogmatizacao/ >(sobre o método tipológico no estudo da realidade social); (c) “A sociologia dos agrupamentos particulares como quadros sociais do conhecimento” <https://leiturasjlumierautor.wordpress.com/2017/04/18/a-sociologia-dos-agrupamentos-particulares/ >. Devem ter em conta, igualmente, que, em sociologia, os quadros conceituais operativos são relacionais, e se definem uns pelos outros.

No caso presente, o conceito de estrutura é relacional do método tipológico, é um quadro dialético, favorece a descrição dos tempos sociais, e não deve ser reduzido às tipologias, que são construídas para chegar à explicação sociológica, a qual é mais ou menos conjectural.

O tipo sociológico reflete o ideal do equilíbrio tendencial entre as diversas hierarquias em uma sociedade, sua construção não reduz nem absorve o problema dos equilíbrios reais, cuja formação se expressa na estrutura social. Os problemas que devem ser esclarecidos são igualmente problemas reais e não artificiais, tais com a duração da estrutura e a sua possibilidade em face da variabilidade que caracteriza a realidade social. Assim, por exemplo, a “ordem” das condutas, dos procedimentos, dos fatos, sua relativa coerência são aspectos reais das hierarquias na estrutura social.

 

A classificação das hierarquias que definem o tipo de sociedade

 

Se trata de incluir no estudo da estruturação, a compreensão de que as manifestações da sociabilidade, como fenômenos microssociológicos, são elementos anestruturais, portanto, incapazes, por si próprios, de formar hierarquias dos patamares de realidade. Ou seja, as formas da sociabilidade, embora não unifiquem, como vimos, atualizam no seu seio os degraus objetivados da realidade, aos quais Gurvitch chamará “níveis múltiplos”, constatando que, entre esses níveis, se trata de relações inteiramente variáveis, alternando e combinando, por um lado, graus de cristalização e, por outro lado, graus de espontaneidade, e assim constituindo forças dinâmicas de mudança.  Em palavras simples, a partir desses níveis assim compreendidos como níveis múltiplos, se afirma o conhecimento de que não existe tipo de sociedade que alcance uma coesão sem choques; de que nada se resolve nunca numa sociedade, pelo menos não definitivamente, só há graus de coesão e de disparidade.

Portanto, as hierarquias em que esses níveis múltiplos tomam parte são também hierarquias múltiplas, que variam em cada sociedade e em tal ou qual tipo de estrutura, seja estrutura parcial ou global, e nas quais a descontinuidade prevalece.  O estudo desses níveis e dessas hierarquias múltiplas permite avançar na explicação sociológica do que Gurvitch chama “pluridimensionalidade da realidade social” , suas “ordens sobrepostas” ,e , se as camadas seccionadas podem se afirmar como sendo mais cristalizadas e oferecer um suporte mais sólido à estruturação do que jamais poderão fazê-lo as manifestações da sociabilidade, cabe sublinhar que elas nada representam, e não passam de aspectos difusos da matéria social dinâmica, independentes do grau de valor e de realidade, somente limitados aos graus de dificuldade para acessá-los.  Dessa maneira, a teoria sociológica constrói seu objeto na medida em que delimita a realidade social em níveis mais ou menos construídos para estabelecer “conceitos” ou quadros operativos eficazes em vista de dar contas da pluridimensionalidade da realidade social.

O estudo das combinações móveis dessas camadas seccionadas somente tem lugar se for feito antes que intervenha sua unificação no determinismo sociológico parcial regendo os agrupamentos particulares e as classes sociais. Note-se que, para esse autor, a anterioridade desse estudo das camadas seccionadas se resguarda da arbitrariedade do chamado “corte epistemológico” praticado nas metodologias abstratas, exatamente por verificar a dialética dos níveis de realidade como combinada a essa outra dialética das três escalas.

Desse modo, se poderá diferenciar  dez patamares em profundidade, seguintes:  1)- a superfície morfológica e ecológica;  2)- os aparelhos organizados;  3)- os modelos sociais;  4)- as condutas coletivas regulares;  5)- as tramas dos papéis sociais;  6)- as atitudes coletivas;  7)- os símbolos sociais;  8)- as condutas coletivas inovadoras;  9)-as idéias e valores coletivos;  10)- os estados mentais e atos psíquicos coletivos   -cabendo sublinhar que é maior a dificuldade de acesso quanto mais profundo ou espontâneo é o nível estudado.

Para aclarar o arranjo dessas camadas subjacentes, suas combinações móveis em hierarquias específicas múltiplas, a sociologia diferencial leva em conta que as alterações nesses planos de conjunto estão na origem das mudanças fundamentais no interior das estruturas,  e que, portanto, igualmente a estas, as camadas subjacentes se movem nos tempos sociais , por meio dos quais admitem princípios de equilíbrio, isto é: admitem graus diversos de mediação entre o contínuo e o descontínuo, entre o quantitativo e o qualitativo, o reversível e o irreversível, constituindo sequências de microdeterminismos sociológicos que se combatem e sofrem desajustes nas cadências dos seus movimentos, mas que , nada obstante, chegam a arranjos em hierarquias múltiplas e variadas, por efeito da dialética entre a escala do microssocial, a escala do parcial  e a escala do global, de tal sorte que as hierarquias figuram como criações do esforço de unificação.

Temos, então, para simplificar, que os princípios de equilíbrio constituindo sequências microssociológicas, estão na base das hierarquias de que, por sua vez, as estruturas configuram as dinâmicas de formação de equilíbrio ao darem nascimento aos tempos sociais.

 

As hierarquias múltiplas

 

As hierarquias múltiplas implicam uma formação dinâmica de equilíbrio no interior de uma estrutura social, uma formação que não chega a estar pronta e acabada em suas posições relativas, mas em vias de se fazer conforme a escala dos tempos sociais da própria estrutura. Pode dizer que as hierarquias múltiplas acentuam a permanência das mudanças fundamentais ocorrentes no interior da estrutura.

Por sua vez, os tempos sociais, pela variabilidade que precipitam, alteram a formação de unidade do tipo de sociedade global, alteram a combinação das hierarquias que definem o tipo.

Devem observar a classificação de Gurvitch sobre as hierarquias de que depende o tipo de estrutura. Essa classificação consiste em uma aplicação da visão de conjunto (veja a exposição sobre essas hierarquias em sua obra “Determinismos Sociais e Liberdade Humana: em direção ao estudo sociológico dos caminhos da liberdade”, Rio de Janeiro, Forense, 1968, 361 pp., traduzido da 2ª edição francesa de 1963. (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1955). 

A série das hierarquias específicas e múltiplas compreendem as escalas ramificadas nas quais o elemento hierárquico assenta-se na distribuição [efetividade da multiplicidade dos tempos sociais] e não na pressão do conjunto [unificação dos tempos].

Tais hierarquias múltiplas são as seguintes: 1)- a combinação das manifestações da sociabilidade, como atualizando-se no conjunto e nos agrupamentos particulares;   2)- a acentuação dos  patamares em profundidade da realidade social, como atualizando-se no conjunto, na escala do parcial, e no microssocial;   3)- a escala dos modos de divisão do trabalho e dos modos de acumulação , que também se atualizam nas classes sociais, e não só nas sociedades globais;   (4)- a hierarquia das regulamentações sociais (também chamados “controles sociais”);   5)-  a escala dos tempos sociais , hierarquizando-se, combinando-se, interpenetrando-se, entrechocando-se de diferentes maneiras, pois, como já foi dito, a duração de uma estrutura nunca é um repouso, mas, no dizer de Gurvitch (ibid, ibidem), é uma “procissão através de vias tortuosas abertas pela multiplicidade dos tempos sociais”.

 

As hierarquias em unificação

A série das hierarquias em unificação com preeminência do elemento de contenção são as seguintes:

1)- a hierarquia dos agrupamentos funcionais, às vezes em competição com as hierarquias das classes sociais e das respectivas organizações.  Nota-se que  essa competição lhe imprime um acentuado fator de variação, em virtude do que a hierarquia dos agrupamentos funcionais desfruta de um estatuto ambíguo e pode ser considerada também entre as hierarquias múltiplas [o elemento hierárquico assenta-se na distribuição e não na pressão do conjunto], já que ainda não constitui as formas particulares dos  conjuntos;   2)- a combinação dos modelos, signos, sinais, símbolos, ideias, valores, em breve, das obras de civilização cimentando a estrutura social global, notando-se que essa hierarquia constitui o momento fundamental na formação de unidade;   3)- a hierarquia dos determinismos sociais, compreendendo a dialética entre o microssocial, o parcial e o global, cuja unificação dá a forma particular do determinismo sociológico global.

 

Passagem do grupo à história

Do fato de o conjunto social preceder todas as hierarquias, temos não somente que o problema chamado “passagem do grupo à história” releva da pluridimensionalidade da realidade social e se examina no âmbito do estudo das camadas seccionadas, que, conforme dissemos, é um estudo empreendido  antes que intervenha a unificação das mesmas  nos determinismos sociológicos parciais regendo os agrupamentos particulares e as classes sociais,  mas, em consequência, temos que as tendências e os equilíbrios que constituem o caráter estruturável de um grupo nem sempre são conseguidos e os grupos não chegam a se tornar estruturados, mostrando ser real o problema da possibilidade da estrutura .

 

O caráter estruturável de um grupo

O caráter estruturável de um grupo tem três proveniências, seguintes:   (1)- o fato de que a unidade do grupo se realiza mediante o arranjo de uma coesão particular entre  (a)- as manifestações da sociabilidade, por um lado, e (b)- por outro lado, as atitudes coletivas, incluindo suas expressões nas condutas regulares;    (2)- a existência de um princípio de equilíbrio entre as hierarquias múltiplas;    (3)- o fato de que a inserção do grupo em uma classe social ou em uma sociedade global tende a manifestar-se por um arranjo  (a)- de suas relações com os outros grupos e, (b)-, do papel e do lugar que o grupo tem na hierarquia particular dos agrupamentos que caracterizam uma sociedade global dada.

 

Os agrupamentos estruturáveis

Em consequência da observação dessas proveniências, se pode formular a definição de que os agrupamentos são estruturáveis porque:  1)-  manifestam tendência para estabelecer um arranjo virtual das hierarquias múltiplas, ou seja, uma “ordem particular”;  2)-  manifestem tendência para pôr em relevo a posição, o papel e as relações do grupo com o “exterior”, ou seja, um “espírito de corpo”.

Todavia, como dizíamos, do fato de o conjunto social preceder todas as hierarquias, resulta que as tendências e os equilíbrios que constituem o caráter estruturável de um grupo e que viemos de enumerar nem sempre são conseguidos.  Daí que existam grupos estruturados, como os idosos, os grupos de juventude, certas profissões (embora estes grupos sejam habitualmente desorganizados, têm expressão em diferentes organizações), e existam também grupos “apenas estruturáveis”, como os diferentes públicos, as minorias étnicas, os produtores, os consumidores, as indústrias, os grupos de geração.

Nota que o nível organizado, em relação ao equilíbrio da estrutura, é só uma questão de expressão, não indispensável, ainda que todo o grupo organizado seja ao mesmo tempo estruturado, já que, em contrapartida, um grupo pode ser não somente estruturável sem ser organizado, como pode também ser estruturado e não ter organização própria.

Do ponto de vista do interesse na sociologia do conhecimento, que apreciamos neste ensaio, são os grupos estruturados que oferecem planos de referência mais precisos (ver a este respeito e das análises que se seguirão, a obra de Gurvitch intitulada “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, já citada).  Tanto é assim que, pela abordagem da análise gurvitcheana, o conhecimento opera como um elemento cimentador da estrutura, fazendo com que os grupos estruturados sejam sedes específicas do conhecimento.

 

         Os grupos estruturados

Visando exatamente pôr em relevo o caráter específico dessas sedes do conhecimento, a análise gurvitcheana dá privilégio aos agrupamentos sociais caracterizados no seguinte: (I) – segundo seu modo de acesso seja aberto, condicionado, fechado; (II) – segundo suas funções, destacando a família, os grupos de localidade de pequena envergadura, as fábricas; (III) – os blocos de grupos multifuncionais, como o Estado e a Igreja.

(I) – Os grupos abertos, como já mencionamos, incluem, além dos grupos de fato (diferentes públicos, grupos de idade, etc.) as multidões, as manifestações públicas ou não públicas, as reuniões, certos grupos filantrópicos, etc.   Evidentemente, esses grupos não representam focos ou sedes específicas do conhecimento.  Todavia, é admitido a exceção dos grupos de jovens e dos grupos das pessoas de idade, na medida em que constituem unidades coletivas reais, como nas sociedades patriarcais ou, simplesmente, nas sociedades tradicionais, visto que os anciãos podem ser considerados como os únicos portadores do conhecimento esotérico ou do conhecimento cuja difusão é aceite, fazendo predominar, como intermediários, o sistema cognitivo da sociedade global sobre todo outro saber nessas sociedades,  tornando-se, imperceptivelmente, grupos fechados.

(I-1)- Quanto a esses grupos fechados , quer se trate de uma casta de sacerdotes, de um grupo feudal, da nobreza de armas, ou da nobreza de toga, da camada mais alta da burguesia (que recruta somente por nascimento ou por herança), de trustes, ou de cartéis, nacionais ou internacionais, produzem um saber específico, oposto ao da sociedade global, um saber que,(a)- mesmo formando sistemas cognitivos, estes se reduzem a certos conhecimentos políticos, a certos conhecimentos técnicos, ou a outros tantos de senso comum, sendo que a combinação de tais conhecimentos varia segundo o caráter dos grupos fechados e o das conjunturas ante as quais se encontram;  (b)- um saber que manifesta uma tendência ao hermético e esotérico, ainda que a forma racional triunfe por completo e conduza ao cálculo aperfeiçoado de balanços financeiros complexos …

(I-2)- No que concerne os grupos de acesso condicionado, em que a análise gurvitcheana do interesse na sociologia do conhecimento contempla os grupos profissionais privilegiados, aqueles que exigem títulos ou diplomas, como o professorado, a magistratura, ou os que são submetidos a um controlador organizado, como o conselho de medicina, a ordem dos advogados, etc.   Gurvitch descreve a situação dos estabelecimentos de ensino superior, cujo acesso é por cooptação ou por concurso, notando que essas instituições são sedes específicas de conhecimentos científicos, técnicos, ou de conhecimentos filosóficos.  Considerados como conhecimentos propriamente universitários, ou que constituem matéria de ensino e pesquisa, esses conhecimentos se caracterizam todos pela acentuação das formas de conhecimento, com predomínio das formas conceitual, simbólica, positiva, coletiva e racional, sem excluir que o saber concebido e ensinado nas universidades continua sendo em parte esotérico , hermético e tradicional, “defeito” este que,  segundo o nosso autor, se corrige pelo espírito competitivo, embora seja certo que toda a inovação se faça com lentidão e não se impõe sem grandes precauções.   Quanto ao papel do conhecimento estratégico ou político e do conhecimento de senso comum nesse sistema cognitivo, nota-se que estes conhecimentos restam muito abaixo dos níveis dos conhecimentos ensinados , já que, quando se trata de estabelecer questões administrativas, se  requerem qualidades e conhecimentos  de uma classe completamente distinta.  Enfim, o conhecimento de outro e dos Nós-outros , quer dizer,  dos colegas e dos estudantes,  não se atualiza no seio da universidade se a comunidade não consegue  predominar sobre a massa e a comunhão.

(II)-     Na análise da família-matrimônio como sede de conhecimentos , deve-se levar em conta o seguinte:  (1)- que, como já sublinhamos, todo o grupo muda de caráter  segundo o tipo de sociedade global em que está incluído e segundo a classe social em que está inserido;    (2)- o estado de harmonia ou de desacordo no seio da família;   (3)- as influências exteriores dos outros grupos;  (4)- a mobilidade social;  (5)- que, em nossa época, a família não revela grande riqueza ao estudo do saber, encontrando-se habitualmente como um grupo  demasiado submetido e aberto  à influência cognitiva  das classes e sociedades globais em que está inserido.  Dessa maneira, considerando o papel do conhecimento de outro e dos Nós-outros, nota-se que essa classe de conhecimento predomina sobre as demais se a situação familiar é de harmonia:  é, então, conhecimento entre marido e mulher, entre pais e filhos, e conhecimento entre os filhos.  Se, todavia, aparecem na família os desacordos, os problemas de qualquer classe, os membros deixam de entender-se e se dividem em campos opostos, o que leva a desprezar o conhecimento dos demais.  Quanto ao conhecimento de senso comum, se supõe que os pais o transmita aos filhos e o apliquem eles mesmos para um funcionamento sem tropeços da família. Entretanto, nota-se que, nas condições atuais de vida, esse conhecimento de senso comum está mais limitado e dá espaço às influências contrárias ao saber viver da família, influências estas que podem se exercer sobre os pais desde os locais de trabalho, desde a participação nos sindicatos, etc., e sobre os filhos, desde os estabelecimentos de ensino e desde os companheiros.   Somente as famílias dos meios de classe média, ou as camponesas, continuam cultivando essa classe de conhecimento.  Já o conhecimento político dispõe de mais espaço nas famílias.  Há o sentido restrito de um conhecimento da estratégia a que devem recorrer os pais para a educação e a formação dos seus filhos e, reciprocamente, pelo lado dos filhos, há o sentido de um conhecimento dos meios de lograr de seus pais o máximo de liberdade.  Caso se tome o conhecimento político em seu sentido mais geral e habitual, que implica tomadas de posição estritamente políticas e o conhecimento das regras estratégicas a observar no que concerne à sociedade global, nota-se a perda de lugar desse conhecimento em relação ao tempo em que estava submetido a uma tradição longínqua e contínua, efeito de uma mobilidade muito reduzida da situação de classe das famílias (os filhos seguindo as posições dos pais).   Observa-se que, no século XX, por um lado, a mobilidade se tornou maior e, por outro lado, em um mesmo nível social, a continuidade dos conhecimentos políticos se rompe amiúde.  Todavia, essa diminuição progressiva da influência da família continua sendo limitada. Enfim, nota-se a importância crescente de certos conhecimentos técnicos, ainda que em nível rudimentar, no funcionamento da família: o manejo dos artefatos domésticos e das máquinas a motor exige um mínimo de informação.

(II-1)-       A análise  e descrição  dos grupos locais de pouca envergadura, tais como povoados, lugarejos, vilas ou aldeias, leva em conta o seguinte:   (1)- a delimitação desses grupos como grupos funcionais se faz com precisão porque suas “obras a realizar” são sempre multifuncionais e bem diferenciadas, pois se trata de assegurar a regulamentação e a administração da boa vizinhança, bem como a realização de distintas atividades econômicas e administrativas , ou de estabelecer as relações com outros grupos locais da mesma classe, etc.;  (2)- esses grupos tendem normalmente a favorecer a atuação em seu seio das comunidades em detrimento das massas e das comunhões , sendo, porém, eles próprios inconfundíveis com as comunidades que atualizam em seu seio, além disso, esses grupos , em conjunturas históricas especiais, como guerras, revoluções , movimentos de libertação, etc., são incapazes de resistir ao surgimento de comunhões ou à dissolução da comunidade em massa.

A classe de conhecimento mais preeminente nos grupos locais de pouca envergadura é o conhecimento perceptivo das relações com o exterior, isto é, o mundo exterior que esses grupos conhecem está imbricado nas perspectivas dos jardins, hortas, campos, bosques, estradas e caminhos de comunicação com as localidades vizinhas e os lugarejos onde se fazem os mercados.  Segundo os termos da análise gurvitcheana, trata-se de amplitudes egocêntricas e concêntricas imprimindo o caráter específico desse conhecimento, portanto, um conhecimento voltado para a ambiência particular desses grupos. Isso quer dizer que o mundo exterior tende a se afrouxar, perdendo poder de atração ou de pressão como o que vem de fora, embora seja digno de notar as perspectivas ou amplitudes difusas das relações com as cidades, com o Estado e sua capital, como lugar de organização administrativa e política.

Nota-se ainda que a penetração pelos Estados, Igrejas, e sociedades globais se faz sentir na aplicação pelos grupos locais de conceptualizações e de medidas para os tempos, como os tempos cíclicos das estações do ano e os de longa duração, bem como na aplicação de conceptualizações para as amplitudes das relações com o exterior, ocorrendo, então, que os grupos locais rechaçam suas amplitudes e seus tempos concretos, aos quais, todavia, permanecem vinculados.  No que concerne ao conhecimento de senso comum, esses grupos são seu último refúgio.  Já o conhecimento de outro e dos Nós-outros são marcados pelos estereótipos provenientes da sociedade global, com a televisão e o rádio tendo parte importante nisto.  O conhecimento político dos grupos locais de pouca envergadura compreende a tática própria para manter boas relações com os vizinhos, compreende também a participação na vida política do país, através das eleições municipais, as legislativas, etc., participação esta que, aliás, se faz notar exatamente a partir dos grupos locais de pequena envergadura.

(II-2)-       A análise gurvitcheana das fábricas e o saber, privilegiando os grupos de operários, favorece o interesse pelo conhecimento político que apresenta caráter específico.   São distinguidos três níveis dessa classe do saber: (a) – um nível particularizado, entendido como “tática de adaptação ao humor dos companheiros de equipe, ao humor dos capatazes ou ao dos engenheiros”.   Tática de adaptação esta que vem unida a uma espécie de conhecimento de senso comum, em relação não com a tradição, mas com o ambiente específico da fábrica.  Dessa maneira, esse conhecimento político particularizado pode às vezes entrar em conflito com: (b) –  o conhecimento político em nível proletário ou nacional e, por conseguinte, com a atitude dos sindicatos e dos organismos de representação operária.  Entre estes dois aspectos, há (c) – o terceiro nível de conhecimento político das fábricas: o modo de expressão do descontentamento, a fatiga e a oposição espontânea ao regime autoritário das fábricas.  Note-se que essa modalidade do conhecimento político contribui para reconciliar e combinar as outras duas.  Sem dúvida, há que levar em conta o igualmente específico conhecimento perceptivo do mundo exterior, cujo lugar é muito importante na fábrica, como conhecimento que os operários têm do mundo próprio da oficina, da fábrica, da empresa, cuja característica básica está em que os objetos dessa percepção, os locais, as máquinas, as oficinas, incluindo as oficinas dos diretores e dos engenheiros, são objetos tão próximos e ao mesmo tempo estão tão longe dos operários.   Além disso, são também objetos desse mundo exterior que os operários conhecem, as perspectivas e as correspondentes cadências em que se desenvolvem os esforços e a vida dos operários em equipe; bem como as distâncias, incluindo os percursos para falar aos seus chefes; as máquinas a usar; o tempo a sacrificar, como a locomoção domicílio-trabalho-domicílio.

Enfim, completando sua análise desse sistema cognitivo,  Gurvitch situa a submissão dos trabalhadores às máquinas, à administração dos técnicos especialistas e aos diretores das fábricas,  no âmbito  do conhecimento de outro e dos Nós-outros, o qual, exatamente  por esses mesmos  fatos, fica em último lugar, tornando-se um conhecimento de aspectos padronizados, um conhecimento de expectativas, como o comportamento, que, então, é o que se nota nos companheiros, como, por exemplo, o comportamento em relação ao trabalho, o comportamento a respeito do sindicato, ou  durante uma greve , ficando distanciadas, nesse conhecimento de expectativas ou de comportamentos, as pessoas próprias dos companheiros, situação de “estranhamento” esta que poderia mudar em um regime  de gestão autocontrolada.  Nota-se ainda que a forma do conhecimento político acentua o especulativo, o simbólico, e até o mitológico, sem perder, todavia, seu aspecto racional, calculador e adequado, enquanto as demais classes de conhecimento em foco nas fábricas atualizam, ao lado das formas adequada e racional, a forma empírica, a positiva, e a forma coletiva, o que, sublinha nosso autor, torna bem diferenciado o aspecto específico do conhecimento político dos operários das fábricas.

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Standardização e Ataraxia

Há uma conexão entre a ataraxia na fantasia futurista e as tendências para certas involuções já existentes no cotidiano das sociedades penetradas pela indústria cultural e a cultura de massa

Deve-se levar em conta que a pesquisa sobre o materi-al e a finalidade da arte não se esgota na descoberta do vazio de significação nem se limita ao aspecto do mera-mente existente que ali aflora no déjà vu.

A Standardização através da des-subjetivação leva também à ataraxia cujo primeiro momento foi menciona-do ao notar a ausência de emoção projetada na fantasia futurista.

Isso porque a fantasia futurista glorifica o cotidiano da vida acentuando-lhe a transcendência, mas o faz deixando na sombra a conexão material do espiritual, a qual, por contra, apoiada no desejo, na busca de satisfação, na se-xualidade vem a ser vivida como ansiedade pelos indiví-duos humanos.

Na verdade essa aparente desatenção para com a cone-xão material apenas desenvolve a imagem de apatia que a fantasia futurista tece ao estender a Standardização aos temas da felicidade e da sexualidade.

Neste ponto, pode ver que aprofundando através da análise da fantasia futurista a reflexão sobre o material da arte e literatura de avant-garde encaminha-se na direção que reencontra o pensamento artístico de Marcel Proust.

Com efeito, é na obra desbravadora deste criador his-tórico, na série romanesca reunida em “A La Recherche du Temps Perdu” que o vazio de emoção configura um elemento fundamental, o foco mesmo das imagens e me-táforas da narrativa literária.

Tanto é assim que, em seu notável ensaio sobre Proust , Samuel Beckett insistirá no alcance neutraliza-dor sobre a vontade e sobre a própria auto-afirmação da consciência desempenhado pelo monólogo interior prous-tiano, sobretudo no início do segundo volume de “Le Temps Retrouvé” em que, ao conseguir o vazio de emo-ção, o narrador tem acesso ao êxtase artístico e o viven-cia mediante a intervenção da memória involuntária.

Certamente, a orientação freudiana (sem a psicanáli-se) de T.W. Adorno se distancia de Proust assim como a Libido não esgota o instinto do Eu.

Não que o narrador proustiano seja menos neurótico (Beckett classificará o seu infantilismo como ligado ao complexo de dominação) do que os estados considerados por T.W. Adorno como elementares na criação poético-literária, mas sim que o pensamento de Proust vê a fonte da obra de arte na individualidade mesma do artista e em sua fantasia, enquanto a Crítica da Cultura busca como disse nas significações culturais o foco irradiador das i-magens e metáforas literárias.

Desta forma, T.W. Adorno põe em relevo a conexão entre a ataraxia na fantasia futurista e as tendências para certas involuções já existentes no cotidiano das socieda-des penetradas pela indústria cultural e a cultura de mas-sa, aliás, é essa conexão que orienta toda a sua Crítica da Cultura, como pesquisa sobre os materiais da arte e reflexão estético-sociológica sobre a utopia negativa.

Com efeito, no prolongamento da Standardização pelo futurismo, a ataraxia, a impertubabilidade é produzida por extensão ao âmbito da relação da liberdade individual e dos tabus sexuais, notados estes no já mencionado culto do instrumento técnico separado de todo o destino obje-tivo e da afcção fetichista em possuir perfeitos equipa-mentos de toda a natureza.

A Função da Ataraxia

Segundo T.W. Adorno a função da ataraxia na utopia negativa rebaixa a idealização do meramente existente, ou melhor, da existência monádica ou atomizada dos indiví-duos, dando expressão (antierótica) à relação complemen-taria que existe entre coletivização e atomização.

Assim o núcleo de toda a relação entre seres humanos é amarrado por essa ataraxia ao êxtase sexual. Quer dizer, há na utopia negativa contradição envolvendo uma liber-dade (neutralizada em vazio de emoção) na qual os tabus sexuais perdem sua força e são substituídos pela autoriza-ção do antes proibido, ou se fixam em maneira vã por uma estéril constrição. O prazer mesmo degenera em mise-rável galhofa e em mera ocasião de narcisista satisfação por ter fisgado a esta ou àquele (…); o sexo se faz indiferente e irrelevante pela institucionalização da promiscuidade (…); se deseja a descarga fisiológica como elemento de higiene e a carga emocional que isso pode representar se deposita em conta do desperdício de energia sem utilidade social; o que há de evitar a todo o custo é deixar-se levar pela emoção. Tal a contradição em que desponta a ataraxia, certa im-perturbabilidade como vazio de sexualidade ou de emo-ção, um estado antierótico que T.W. Adorno analisará como construção do orgasmo organizado na fantasia futu-rista. .

No exame de tal contradição – uma liberdade neutrali-zada em vazio de emoção na qual os tabus sexuais per-dem sua força – deve-se distinguir na fantasia futurista a vertente marcada pelo puritanismo, que acolhe e elabora como inseparáveis o sentido religioso, por um lado e, por outro lado, a humilhação do sexo e a entrega sexual, e que se poderá detectar na cena romanesca do The Brave New World.

Desta forma encontra-se mais arraigado o dispositivo ideológico tornando localizado e restrito o assunto sobre sexo, o qual fora equivalente ao tema da libertinagem considerada como estímulo fisiológico, à maneira em que nas chamadas culturas masculinas os cavaleiros costu-mavam falar entre eles de mulheres e de erótica, mes-clando (a) – orgulho por terem conquistado soberania pa-ra tocar no tema tabu e, (b) – desprezo por este tema.

No romance de Aldous Huxley o dispositivo ideológico (que torna localizado e restrito o assunto sobre sexo) e o próprio fato do sexo estão mais sublimados e mais pro-fundamente reprimidos (reforçando o tabu, ou melhor, fi-xando-o em maneira vã por uma estéril constrição), sendo notado na questão da falsa felicidade, que sacrifica a i-déia de felicidade verdadeira.

Tanto mais que nesta vertente derivada do puritanismo a objeção anteposta à “era industrial” denuncia o relaxa-mento dos costumes e não tanto a desumanização. A in-dagação principal é saber se há felicidade possível sem proibições a destruir – como se a felicidade dimanante da violação de um tabu pudera justificar e legitimar o tabu mesmo, como ironiza T.W. Adorno (cf.ib.pág. 108).

Fungibilidade

Por contra, a inoperância de tal ideologia (que fixa o tabu em estéril constrição) influindo na fantasia futurista ao fazer sobressair que o rápido e prescrito câmbio de companhia erótica na utopia negativa deriva da cega e o-ficial organização do sexo, que converte o prazer em broma e o nega ao concedê-lo.

Ou seja, é o tabu mesmo que continua vigorando na impossibilidade de mirar cara a cara o prazer, de entre-gar-se plenamente a ele por meio da reflexão. Se esta proibição houvera sido quebrada, se o prazer se tivera li-berado já das malhas da instituição seria capaz de dis-solver a rigidez do The Brave New World como mundo da utopia negativa.

O princípio moral supremo desse mundo pintado na fantasia futurista, seu desiderato, sua culminação é de que qualquer um pertence a qualquer um: é a fungibi-lidade absoluta, que dissolve o homem como ser indi-vidual.

Mera mitologia, a fungibilidade destrói o último Em-Si do homem, seu último tabu e o determina como me-ro Para-Outro, como nulo.

Tendo em conta essa culminação, mas prosseguindo na desmontagem do dispositivo ideológico efetivo que, tornando localizado e restrito o assunto sobre sexo refor-ça ao contrário o tabu, sublinha nosso autor que a culmi-nada situação de anarquia sexual é incompatível com uma ordem totalitária, posto que o conceito de domínio pode definir-se como a disposição de uns sobre os de-mais e não como disposição total de todos sobre todos.

O homem que não é mais senão para outra coisa fica-ria sem dúvida alienado de sua mesmidade, porém seria também liberado da atadura da autoconservação que mantém unido o mundo da utopia negativa tanto quanto o mundo velho.

Segundo T.W. Adorno a pura fungibilidade corroeria o núcleo do poder e prometeria a liberdade em sentido ab-soluto. Dessa maneira sobressai a debilidade da concep-ção de conjunto que vincula o futurismo por um lado e, por outro lado, a ideologia derivada do puritanismo, e que vincula a ambos com o princípio moral da fungibilidade absoluta na utopia negativa.

Fragilidade composicional esta que T.W. Adorno exa-minará partindo da cena principal do romance da fantasia futurista de Aldous Huxley, a saber: o choque erótico dos dois mundos: o da personagem Lenina – que é o protótipo da mulher americana liberada – e o do “selvagem John” que a ama em modo lírico e puramente contemplativo e que, como uma relíquia do humano, pertence ao mundo que ficou às costas da cultura absoluta de massa, (um mundo pintado nessa fantasia como repugnante e defor-mado, à imagem das colônias nudistas em que o sexo se anula também mediante sua desocultação).

Fonte:

A UTOPIA NEGATIVA: LEITURAS DE SOCIOLOGIA DA LITERATURA

Jacob J. Lumier

(Primeira edição – online junto à Web de Eumed.net, BIBLIOTECA VIRTUAL de Derecho, Economía y Ciencias Sociales

Universidade de Málaga, Espanha)