Efetivismo na Teoria Sociológica: nova versão

Comunicación presentada al Congreso Iberoamericano de Educación: Metas 2021 – OEI

Buenos Aires (Argentina) 13-15 de septiembre de 2010.

Resumo

Paralelamente ao seu desenvolvimento como critério de teoria moral no início do século XX e sua afirmação em filosofia matemática juntamente com o construtivismo, o efetivismo revela-se uma atitude teorética cujo alcance ultrapassa as questões matemáticas em teoria dos conjuntos e abre o caminho para a construção de teorias sociológicas dialéticas, que ultrapassam as orientações formalistas e superam a separação entre a análise estrutural e a análise histórica. Sem embargo, a concepção dinâmica da experiência moral efetiva tirada de Henri Bergson (1859-1941), na medida em que dignifica a liberdade consciente e tem repercussão na Democracia com o reconhecimento das liberdades humanas essenciais, serve à sociologia para desenvolver uma compreensão diferencial dos valores efetivos que o desvio místico do filósofo não reencontrara. Deste ponto de vista, sustentamos neste trabalho que as plataformas dos Direitos Humanos, por inseparáveis dos direitos sociais, contemplam a individualidade concreta e ultrapassam o subjetivismo idealista centrado na imagem de um Eu genérico idêntico em todos, cultivado pelo saber dominante.

Efetivismo e Sociologia na Teoria Sociológica: nova versão
Uma reflexão em vista dos Direitos Humanos e Sociais [i]

por

Jacob (J.) Lumier

Sumário

Efetivismo e Sociologia. 1

O efetivismo como atitude na construção da teoria sociológica. 2

A questão da reificação da realidade social 2

O efetivismo em filosofia matemática. 3

Os conjuntos matemáticos tornam-se conjuntos práticos 5

A Influência dos Fatores Extralógicos 6

A Dimensão pragmática da linguagem.. 7

As influências sócio históricas 8

Segunda Parte

O efetivismo como caráter humano das liberdades 9

Ideologia de competição e de produção econômica. 10

A individualidade concreta. 12

O fortalecimento da liberdade de expressão. 13

A concepção dinâmica de qualquer moralidade efetiva. 15

A teoria da intuição da vontade. 16

As liberdades humanas essenciais 17

A leitura sociológica. 19

Durkheim.. 20

A sociologia da vida moral em Durkheim.. 21

A conjunção dos valores 22

Índice. 24

 

 

O efetivismo como atitude na construção da teoria sociológica.

 

A questão da reificação da realidade social

 

Os universos simbólicos são passíveis de cristalização segundo processos de objetivação, sedimentação e acumulação do conhecimento. Levam a um mundo de produtos teóricos que, todavia, não perde suas raízes no mundo humano, de tal sorte que os universos simbólicos se definem como produtos sociais que têm uma história.

Se quisermos entender o significado, temos de entender a história da sua produção em termos de objetivação, sedimentação e acumulação do conhecimento.

Na descrição do universo simbólico, Peter Berger e Thomas Luckmann observam a “função nômica”, que põe cada coisa em seu lugar certo, permitindo ao indivíduo retornar à realidade da vida cotidiana [ii].

Desta forma, a análise dos processos de legitimação tem em conta que nas objetivações em que as teorias são observadas com a função nômica, surge a questão de saber até que ponto uma ordem institucional ou alguma parte dela é apreendida como uma faticidade não-humana, sendo essa a questão da reificação da realidade social.

Indaga-se ali se o homem ainda conserva a noção de que, embora objetivado, o mundo social foi feito pelos homens e, portanto, pode ser refeito por eles. É a reificação como grau extremo do processo de objetivação, extremo esse no qual o mundo objetivado perde a inteligibilidade e se fixa como uma faticidade inerte. Os significados humanos são tidos, então, em opacidade, como produtos da natureza das coisas.

► A questão da reificação da realidade social não reduz a reflexão sobre o método para a construção especial de uma teoria científica, embora nos esclareça o suficiente para repelir a orientação epistemológica do influente filósofo da ciência Karl Popper [iii]·.

Com efeito, sem desenvolver uma compreensão da reificação, mas tratando a construção de teorias científicas na concepção de um mundo não-humano dos produtos, incluindo neste os acervos do conhecimento, as bibliotecas, os livros, os recursos técnicos, as teorias e argumentos científicos, Karl Popper  promoveu a exigência artificial para a sociologia em separar análise estrutural e análise histórica, assumida por sociólogos influentes como Ralf Dahrendorf [iv] e Anthony Giddens [v], para exemplificar.

 

O efetivismo em filosofia matemática

 

Método altamente formal, o conjecturalismo epistemológico radical resume-se em  reconstruir criticamente situações de problema, afirmando-as notadamente em contraposição a toda a orientação (subjetivista) que pretenda reviver intuitivamente alguma experiência pessoal, como R. G. Collingwood [vi], citado por Popper.

Esse formalismo excessivo, caracterizado no desejado critério da “refutabilidade necessária” de toda a teoria científica, encontrou reação em seus próprios seguidores, tanto que Dahrendorf reconhece que “a refutação de teorias anteriores só tem razão de ser quando serve de ponto de partida para novas teorias” [vii].

Acontece que, em sua reflexão especial sobre a construção de uma teoria científica, o sociólogo não deve submeter suas teorias deterministas conjecturais ou probabilitárias à influência dos popperianos, nem precisa limitar-se ao “conjecturalismo radical”.

Na história do pensamento matemático constam certas orientações que esclarecem bem a procedência, na realidade, da construção de uma teoria científica, notando-se em especial o efetivismo.

Paralelamente ao seu desenvolvimento como critério de teoria moral no início do século XX, o efetivismo veio a ser afirmado em filosofia matemática[viii].

Caracterizado como atitude na elaboração de teorias científicas que foi sustentada pelos chamados construtivistas, o efetivismo consiste em aceitar (1) – que há um conteúdo para os objetos matemáticos; (2) – que o mesmo é verificado a posteriori e, portanto, (3) – se confunde ao critério que define os números como objetos matemáticos, a saber, (4) – que se pode construí-los efetivamente.

Reconhece-se inclusive uma hermenêutica do formalismo, que os construtivistas situam na exibição efetiva e explícita dos objetos matemáticos [ix]. É o ponto de vista efetivista pelo qual se deve fazer a economia do inconstruível: deve-se destruir ou ignorar o que não se pode construir efetivamente. Daí sua recusa das orientações que supõem a apreensão imediata e simultânea de conjuntos infinitos por nosso pensamento [x].

 

Os conjuntos matemáticos tornam-se conjuntos práticos

 

Como se sabe, o construtivismo e o efetivismo são concepções marcadas por escrúpulos ontológicos extremos aos quais, sem embargo, é aplicável uma regra prática. Se, em princípio, nessas concepções “não se deve multiplicar as entidades sem necessidade”, o efetivismo e o construtivismo afirmam-se como atitudes pragmatistas e utilitaristas porque admitem flexibilizar tal princípio quando a necessidade parece inevitável e conduz a resultados dos quais não se pode prescindir.

Daí que, embora recusem as construções que supõem a apreensão imediata e simultânea por nosso pensamento de conjuntos infinitos, os construtivistas admitem que a atualidade do infinito e os resultados globais em teoria dos números são úteis em tão alto grau que não se pode em absoluto dispensar de apreendê-los “quase – ontologicamente” [xi].

Seja como for, o debate em filosofia das matemáticas entre construtivistas e formalistas deixa ver em favor do efetivismo que o formalismo por si só é insuficiente para distinguir nossa lógica habitual entre a multiplicidade formal das lógicas.

Vale dizer, as limitações sintáticas se fazem presentes nesse debate. Não só é necessário distinguir a lógica habitual, mas há carência de argumentos de ordem intuitiva e semântica para ultrapassar certos modelos estandardizados da aritmética ou da axiomática da teoria dos conjuntos.

Nesse sentido, o efetivismo revela-se uma atitude teorética cujo alcance ultrapassa as questões matemáticas em teoria dos conjuntos e abre o caminho para a construção de teorias sociológicas [na medida em que estas disponham argumentos de ordem intuitiva e semântica].

Daí, se o efetivismo é a atitude que consiste em aceitar (1) – que há um conteúdo para os objetos matemáticos; (2) – que o mesmo é verificado a posteriori e, portanto, (3) – se confunde ao critério que define os números como objetos matemáticos, a saber, (4) – que se pode construí-los efetivamente: a descrição e a análise dos determinismos sociais e sociológicos, por sua vez, entendidos como operações efetivas [em vias de se realizarem] que ensejam a integração dos fatos particulares nos planos de conjuntos práticos, atende, com certeza, à atitude do efetivismo.

Os determinismos sociais são operadores no sentido usual do termo em análise matemática, isto é, símbolos de uma operação que se efetua sobre uma variável ou sobre uma função. Todavia, como ensina Georges Gurvitch [xii], a qualificação “positivista” é incabível porque se tratam de funções dialéticas e não apenas estritamente lógicas, como dialético é o efetivo esforço coletivo.

Por sua vez, explorando este caminho onde os conjuntos matemáticos tornam-se conjuntos práticos, não-inertes, C. Wright Mills questionou o “Preconceito contra a Sociologia do Conhecimento” exatamente em razão do desprezo pelas sintaxes existentes [inclusive os argumentos de ordem intuitiva e semântica] na realidade social [xiii].

 

A Influência dos Fatores Extra lógicos

 

►Com efeito, em relação ao problema da escolha ou “eleição” dos modelos de verificação na prática científica, a aceitação ou a rejeição dos mesmos por parte de pensadores individuais e de elites constitui, no dizer de Wright Mills, uma das conjunturas nas quais fatores extra lógicos possivelmente sociológicos podem intervir e influir sobre a validade do pensamento de uma elite.

Embora, sem dispor dos termos sociológicos precisos de quadros sociais do conhecimento e de coeficientes existenciais do conhecimento (introduzidos por Gurvitch), Wright Mills está a nos mostrar exatamente algum aspecto básico do que esses termos sociológicos designam.

 

A Dimensão pragmática da linguagem

 

Daí prossegue articulando a compreensão que lhes corresponde, e avança duas considerações para esclarecer a mediação observada nas correlações funcionais integrando a atividade científica no conjunto da vida social.

Na primeira consideração de análise sociológica, Wright Mills constata que as referidas indagações ou seleções e proposições dos problemas sofrem a influência dos “contextos sociais” através da mediação dos próprios conceitos operacionalizados nas formulações dos pensadores, já que os conceitos existem como “significados socialmente condicionados”.

Trata-se de reconhecer que, como semântica e sintaxe, a linguagem é inseparável de sua dimensão pragmática, na qual se inclui a dimensão sociológica. Desta sorte, em face de certas indagações ou seleções e proposições dos problemas, é legítimo admitir haver uma influência do inter-relacionamento entre os conceitos culturalmente disponíveis, por um lado, e, por outro lado, aquilo que se toma como problemática de investigação científica.

Em suma, existem correlações funcionais interligando os significados culturais e as problemáticas selecionadas pelos pesquisadores, sendo por meio dessas correlações que as indagações científicas são introduzidas no conjunto da vida social.

 

As influências sócio históricas

 

Na segunda consideração de análise sociológica, Wright Mills sustenta uma “teoria social da percepção”, segundo a qual, na busca de verificação dos elementos empíricos, os conceitos existentes condicionam os resultados da indagação, porquanto são esses conceitos que constituem estruturalmente “o mundo de objetos estruturados tecnicamente na linguagem especializada”, o mundo no qual se busca a verificação.

Daí, Wright Mills afirma em realismo sociológico que “elites técnicas diferentes possuem capacidades de percepção diferentes”, e que “as dimensões observacionais de qualquer modelo de verificação sofrem a influência da linguagem seletiva de quem o aplica”, com as “influências sócio históricas” se fazendo sentir por meio dessa linguagem.

Desta forma, ficam desautorizados os que, preconceituosamente, negam a relevância da sociologia do conhecimento para a epistemologia, tanto mais se considerarmos o impacto dessa “teoria social da percepção” nas condições da verdade como simples correspondência da experiência e dos fatos.

 

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Segunda Parte

O efetivismo como caráter humano das liberdades

 

Alguns comentaristas ingênuos tecem críticas superficiais sobre a moralidade implícita na defesa dos Direitos Humanos, alegando uma orientação abstrata, como se os movimentos pela promoção dos Direitos Humanos tivessem carência de realismo em suas campanhas.

Deixando de lado aqueles comentários ostensivamente provocativos e maliciosos, que visam somente lançar confusão para evitar o controle pela opinião pública das funções de autoridade, não será sem interesse acentuar algumas observações para sustentar que a dignidade moral implícita nos Direitos Humanos tem foco na individualidade concreta.

Com efeito, o posicionamento político por trás da “etiqueta de orientação abstrata” é conservador no sentido bem definido de pretender que os Direitos Humanos não passem de plataformas da classe burguesa.

Como se sabe, desde sua formação no século XVII até os dias atuais, a classe burguesa sempre manifestou um conhecimento político muito eficaz, como tática e afirmação de um ideal, que se cristalizou em doutrinas elaboradas – desde Hobbes, Spinoza, Rousseau até o neoliberalismo e o solidarismo dos finais do século XIX.

Todavia, a característica do conhecimento político da burguesia é ter sido capaz de manter-se moderado até as primeiras décadas do século XX. Para isso apoiou-se nos mitos da paz, igualdade de possibilidades, progresso técnico ilimitado, igualdade dos interesses de todos e, por fim, o mito da abundância.

Embora invocados com prudência e cautela, os mitos políticos da burguesia mostram o valor da redução do conhecimento de outro ao conceito genérico da pessoa humana, tomado como conceito idêntico para todos, de que se nutre o subjetivismo idealista (Rousseau, Kant).

Aliás, o conhecimento político moderado deve-se a que a burguesia sempre tratou de evitar comprometer-se, mantendo-se como agente político circunspecto, já que, finalmente, sempre teve mais a perder que a ganhar em toda a crise ou revolução, fazendo-se facilmente reservada e conservadora onde seus interesses econômicos não estejam gravemente ameaçados e onde não se questiona sua existência.

 

Ideologia de competição e de produção econômica

 

Para compreender a expressão intelectual dessa mentalidade, deve-se observar que será a formação de grupos de interesse na Renascença, prolongando-se em disputas políticas no Ancien Regime, que possibilitará o surgimento e a elaboração das doutrinas políticas modernas – começando na Inglaterra, com Thomas Morus (“Utopia”, 1516) e Francis Bacon (“Nova Atlântida”, inconclusa).

Posteriormente, nos séculos XVII e XVIII, serão os escritos de Hobbes e de Locke que correspondem às aspirações da classe burguesa ascendente como quadro social do conhecimento que, finalmente, só então triunfará. Na França: a influência dos fisiocratas, enciclopedistas, Turgot e J.J. Rousseau será marcante desde o começo e durante a revolução, e suas doutrinas tratam tanto do fim ideal quanto da tática a empregar para alcançá-lo, tipificando o conhecimento político não somente implícito ou tácito, mas dotado de formulação coerente. Na Holanda: o “Tratado Político” (1675-1677) de Spinoza já faz pressentir, segundo os estudiosos, certos elementos do pensamento de Rousseau.

A sociologia do conhecimento nas sociedades globais que dão à luz o capitalismo nos séculos XVII e XVIII nos mostra um ambiente muito novo e imprevisto impulsionado, como é sabido, pelo advento do começo do capitalismo e do maquinismo; pelo descobrimento do Novo Mundo, etc.

Nesse ambiente, o conhecimento de outro no Ancien Régime se encontra em grande dispersão pelos diferentes meios relacionados com a atualização da sociabilidade das massas, com a política de nivelação do absolutismo e com a desintegração dos grupos herdados da sociedade feudal, estando em nítida regressão a identificação do conhecimento de outro ao “espírito de corpo”.

Junto ao conhecimento de senso comum nas sociedades globais que dão à luz o capitalismo, surge um novo conhecimento de outro, servindo de compensação parcial para o rebaixamento desse mesmo conhecimento de outro como de indivíduos concretos, que predominava no “espírito de corpo”.

Aliás, esse rebaixamento é bem observado no fato que tanto na classe proletária nascente como na classe burguesa ascendente, ambas penetradas da ideologia de competição e de produção econômica, o conhecimento de outro é quase nulo.

Então, o novo conhecimento de outro que surge, vem afirmando uma tendência para universalizar a pessoa humana. Tendência esta que se relaciona a Rousseau, com sua teoria da Vontade Geral idêntica em todos, e a Kant, este, com seu conceito de “Consciência Transcendental” e de “Razão Prática”, que chega à afirmação da “mesma dignidade moral” em todos os homens [xiv].

 

A individualidade concreta

 

►Acontece que a orientação dos Direitos Humanos tem igualmente fontes mais recentes que contemplam, não o outro em geral, mas o indivíduo específico, o homem diferente de seus semelhantes, em que a individualidade concreta tem sua dignidade moral devidamente reconhecida.

Basta lembrar o movimento pelos Direitos Civis e, no histórico deste, o Discurso das Quatro Liberdades, de F. D. Roosevelt, para constatarmos a orientação dos Direitos Humanos como bem concreta e realista.

Com efeito, a realidade social-histórica descoberta detrás do salto tecnológico da cibernética tem por referência principal a extensão dos Direitos Civis e Políticos nos EUA, na sequência da March for Jobs and Freedom, ocorrida no início dos anos sessenta.

O salto tecnológico da cibernética fez acentuar a liberdade de expressão, com os meios de comunicação de massa desempenhando um papel essencial para repercutir e projetar em ampla escala as manifestações de comportamento, os fatos políticos e as condutas efervescentes ligadas às aspirações coletivas.

Desta sorte, os eventos dos anos sessenta revelam a função de comunicação social prevalecendo sobre as ideologias, tornadas estas mensagens de mídia, incluindo o anticapitalismo ou anti-imperialismo.

 

O fortalecimento da liberdade de expressão

 

Como se sabe, a “Marcha sobre Washington para a criação de emprego e liberdade” foi um grande comício político que teve lugar em Washington, DC, em 28 de agosto de 1963, com grande repercussão nos meios de comunicação desde a sua convocação. Martin Luther King, Jr. aí pronunciou seu histórico “I Have a Dream”: discurso de promoção da harmonia racial proclamada no Lincoln Memorial durante a marcha. Cerca de 250.000 pessoas participaram na marcha, estima-se que 200.000 fossem afro-americanos e 50.000 eram brancos.

Essa marcha que constitui o acontecimento de mais alta significação para a história da segunda metade do século XX, reanimando por todo o mundo as condutas efervescentes ligadas às aspirações coletivas democráticas, tem ao seu crédito a Lei de Direitos Civis (1964) e a Lei dos Direitos de Votação Nacional (1965) consagrando a cidadania sem discriminação.

Do ponto de vista da “nova” sociologia do conhecimento, o que se observa é o fenômeno da radicalização dos intelectuais no século XX, favorecendo uma atitude anticapitalista.

A evolução política dos intelectuais – no sentido estrito de criadores de produtos ideológico-culturais – se insere como se sabe em um marco mais vasto de radicalização da capa dos trabalhadores intelectuais em geral, nos países capitalistas avançados e no terceiro mundo. A causa (singular) principal desse fenômeno é a proletarização dessa capa social.

Trata-se de um fenômeno já observado desde o início dos anos de 1930 por Antônio Gramsci em sua obra “Os Intelectuais e a Organização da Cultura” e que se torna patente depois da segunda guerra mundial, quando se produz o “salto qualitativo” no desenvolvimento do capitalismo.

A radicalização anticapitalista dos trabalhadores intelectuais no século XX se torna nítida quando a extensão massiva do capital ao setor chamado terciário, e as transformações ligadas à terceira revolução industrial (automatização, informática) produziram uma industrialização e estandardização generalizada de todos os setores da atividade humana [xv].

Deste modo, o fortalecimento da liberdade de expressão suscita ou convoca a consciência da irracionalidade da civilização técnica, notada a partir da inelutável especialização, favorecendo em consequência a revalorização dos direitos sociais, inclusive nas mídias.

Trata-se da liberdade de expressão no sentido mais efetivo de liberdade intelectual – para lembrar o conceito desdogmatizador de Spinoza – que se exerce com anterioridade histórica em relação às mídias e não em dependência destas. Vale dizer, liberdade de expressão orientada para o efetivismo como elemento das liberdades, como caráter humano das liberdades.

 

A concepção dinâmica de qualquer moralidade efetiva

 

De fato, paralelamente à sua afirmação como atitude construtivista em teoria dos conjuntos matemáticos, o efetivismo diferencia-se lá onde é afirmada a concepção dinâmica da experiência moral.

Como se sabe do ponto de vista sociológico, o conhecimento dos critérios morais concretiza-se como uma reflexão posterior sobre o ato moral diretamente vivido, sobre os valores entrevistos no calor da própria ação.

Essa ação moral criadora dos seus próprios critérios está em oposição direta a qualquer crença no progresso automático, notando-se que a especificidade da experiência moral assim reconhecida se verifica exatamente como reconhecimento, como ação participante nos variados graus do esforço ou, em uma só sentença: “é a vontade de olhos abertos nas trevas”.

Na leitura sociológica, a base dessa experiência moral específica é a teoria da intuição da vontade orientada pelas suas próprias luzes, à qual se chega pela concepção dinâmica de qualquer moralidade efetiva em três níveis: (a) como ultrapassagem contínua do adquirido; (b) como recriação permanente dos Nós e de Outrem; (c) como moralidade de ação e de aspiração participando na liberdade criadora pelo próprio esforço incessante dos Nós.

Concepção dinâmica esta resumida na fórmula de Henri Bergson (1859 – 1941) segundo a qual “para que a consciência se destacasse do ‘já feito’ e se aplicasse ao que ‘se está a fazer’ seria necessário que, voltando-se e retorcendo-se sobre si mesma, a faculdade de ver constituísse uma só unidade com o ato de querer”.  Na ação livre, ao lançar-se para frente, tem-se a consciência dos motivos e dos móveis tornando-se ambos idênticos.

A teoria da intuição da vontade

 

Essa teoria da intuição da vontade é não só a base da especificidade da experiência moral, mas essa especificidade mesma é a liberdade consciente.  Quer dizer, assim como há diferentes espessuras da duração e variadas intensidades da liberdade, há também diferentes graus da vontade consciente, a qual se torna cada vez mais livre à medida que: (a) ultrapassa a escolha entre as alternativas, mediante o exercício da decisão; (b) ultrapassa a própria decisão voluntária, mediante o exercício da vontade propriamente criadora.

Desta forma, a moral da criação que se tira de Bergson encontra fundamento para prosseguir a sua realização nas diferentes camadas (paliers) em profundidade da realidade social.  É a liberdade situada no âmago da vida humana consciente. Enfim, sabe-se que o desvio místico de Bergson deve-se ao não ter ele encontrado na sua análise da liberdade consciente o problema dos valores de civilização, “esses escalões que dirigem a elevação libertadora” [xvi] .

No âmbito da política da Democracia, o ponto de vista da ação moral criadora dos seus próprios critérios pode ser constatado no célebre Discurso das Quatro Liberdades de Franklin Delano Roosevelt [xvii]·: Liberdade de Expressão, Liberdade de Culto, Liberdade para Querer, Liberdade contra o medo (Four Freedoms: Freedom of Speech, Freedom of Worship, Freedom from Want, and Freedom from Fear).

 

As liberdades humanas essenciais

Nesse discurso vem a ser introduzido em nível de doutrina e análise a convicção de que as liberdades buscadas na Democracia devem ser compreendidas como liberdades humanas essenciais.

O ponto de vista da ação moral criadora dos seus próprios critérios é constatado nos dois trechos fundamentais seguintes:

Primeiro: na passagem afirmando que a liberdade essencial é irrenunciável e não pode ser trocada por uma segurança temporária: “Those, who would give up essential liberty to purchase a little temporary safety, deserve neither liberty nor safety”;

Segundo: na passagem em que as liberdades humanas essenciais são compreendidas à luz dos dias vindouros sob a mirada voltada para um mundo fundado justamente sobre as quatro liberdades humanas essenciais, ou seja, são compreendidas sob a mirada de suas próprias luzes: In the future days, which we seek to make secure, we look forward to a world founded upon four essential human freedoms.

E na sequência são enunciadas as quatro liberdades que se compreendem por elas próprias por serem liberdades humanas essenciais: § The first is freedom of speech and expression – everywhere in the world. §    The second is freedom of every person to worship God in his own way – everywhere in the world. §    The third is freedom from want – which, translated into world terms, means economic understandings which will secure to every nation a healthy peacetime life for its inhabitants – everywhere in the world. §    The fourth is freedom from fear – which, translated into world terms, means a world-wide reduction of armaments to such a point and in such a thorough fashion that no nation will be in a position to commit an act of physical aggression against any neighbor – anywhere in the world.

E a conclusão realista: That is no vision of a distant millennium. It is a definite basis for a kind of world attainable in our own time and generation.

►Em face dessas convicções desse modo formuladas não há negar que os Direitos Humanos têm foco na individualidade concreta e que são inseparáveis dos Direitos Sociais.

As quatro liberdades humanas essenciais deixam claro que, no termos do próprio Discurso FDR Four Freedoms Speech 1941, “não há nada misterioso a respeito das bases de uma democracia sã e forte”. E o Discurso prossegue no seguinte:

As coisas básicas esperadas por nosssa gente de seus sistemas politicos e econômicos são singelas. Tais coisas são: A igualdade de oportunidade para a juventude e para outros; Os trabalhos para os que podem trabalhar; A seguridade para os que a necessitam; A terminação do privilégio especial para os poucos; A conservação de liberdades civis para todos; O gozo dos frutos do progresso científico em um amplo e constante aumento do nível de vida.

Estas são as coisas singelas e básicas que nunca devem ser perdidas de vista na confusão e complexidade incrível de nosso mundo moderno. A força interior e duradoura de nossos sistemas econômicos e políticos depende do grau em que eles sejam capazes de satisfazer a estas expectativas [xviii].

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 A leitura sociológica

 

Na leitura sociológica a base da experiência moral específica é a referida teoria da intuição da vontade orientada pelas suas próprias luzes, à qual se chega pela concepção dinâmica de qualquer moralidade efetiva em três níveis: (a) como ultrapassagem contínua do adquirido; (b) como recriação permanente dos Nós e de Outrem; (c) como moralidade de ação e aspiração participando na liberdade criadora pelo próprio esforço incessante dos Nós.

Há diferentes graus da vontade consciente, a qual se torna cada vez mais livre à medida que: (a) ultrapassa a escolha entre as alternativas, mediante o exercício da decisão; (b) ultrapassa a própria decisão voluntária, mediante o exercício da vontade propriamente criadora. Daí como disse o problema dos valores de civilização, “esses escalões que dirigem a elevação libertadora”.

 

Durkheim

 

►Em seu pensamento objetivo, Durkheim compreende os ideais em maneira descritiva como obstáculos (apreendidos, no sentido em que comparativamente o são as amplitudes concretas do conhecimento perceptivo do mundo exterior), supondo o critério sociológico de sua resistência justamente à penetração pela subjetividade coletiva como o complexo psicossociológico das significações humanas (ou “coletividade de aspiração”, no dizer de Durkheim, que aí inclui as crenças coletivas), levando-o a conceber aqueles ideais exatamente como os termos motores dessas aspirações, seus focos irradiadores.

Diferentes dos valores baseados no critério da utilidade, como os valores econômicos costumam mostrarem-se, aqueles outros valores chamados culturais, compreendidos por Durkheim como valores ideais ou fundados nos ideais, podem ser definidos do ponto de vista da sociologia da vida moral (considerada esta última em sua autonomia e em sua especificidade) em termos de (a) instrumentos de comunhão social (no sentido da mais intensa imanência recíproca entre o individual e o coletivo na sociabilidade de um Nós o mais constrito), e (b) princípios de incessante regeneração justamente para a vida nos ideais, podendo ser comparados a ímãs que atraem e merecem atrair a “vontade”. como esforços humanos convergentes.

 

A sociologia da vida moral em Durkheim

 

Como se sabe, a orientação para a sociologia da vida moral em Durkheim compreende dentre outros aspectos o seguinte: (a) a objetividade dos valores propriamente culturais não se reduz à sua mera coletividade ou recorrência em grande número; (b) as principais obras de civilização como a religião, a moral, o direito, a arte são sistemas de valores culturais; (c) a validade objetiva dos valores culturais consiste na sua referência ao nível de realidade mais profundo dos ideais.

A afirmação dos valores como sendo objetivos está em que as coisas e as pessoas às quais tais valores são atribuídos atendam à condição de serem coisas e pessoas que estão postas em contato com os ideais por efeito do estado mental de afetividade coletiva (sentimento do desejável ou sensibilidade indefinida, incluindo as propensões, tendências, preferências, e todo o conjunto das orientações afetivas do psiquismo, por diferença dos atos mentais como as intuições e os juízos).

Tal é o efeito (imãs da vontade) que qualifica propriamente a subjetividade coletiva como aspiração (aos valores), notando-se o aspecto de imãs da vontade que os valores assumem neste contacto com os ideais. Os ideais tomados por si não são representações intelectuais abstratas, frias, mas como dissemos essencialmente motores.

 

A conjunção dos valores

 

►Durkheim alcançou as bases da sociologia da vida moral, sobretudo pelo aproveitamento original que tirou de sua reflexão junto com a filosofia de Kant, levando-o como se sabe a introduzir em diferença deste último que a ignorou, como já foi dito, a noção do desejável na análise dos valores.

Com efeito, é para a funcionalidade dos valores ideais, sua característica estritamente sociológica de instrumentos de comunhão social (no sentido acima definido) e princípios de incessante regeneração da vida nos ideais se afirmando indispensavelmente por meio da afetividade coletiva, que é orientada a utilização do termo desejável na seguinte formulação durkheimiana: qualquer valor pressupõe a apreciação de um sujeito em referência de uma sensibilidade indefinida – é o desejável, qualquer desejo sendo um estado interior.

Definição descritiva esta que não só torna extensível a característica do desejável a qualquer valor para além dos valores ideais (qualquer valor tendo assim alguma participação nos ideais), mas, por esta via os engloba igualmente na noção de funcionalidade expressa na fórmula acima mencionada a respeito destes últimos (“qualquer valor pressupõe a apreciação de um sujeito em referência de uma sensibilidade indefinida”), fórmula esta pela qual a sociologia elimina radicalmente a pretensão de um absoluto eudemonista por estranho à afetividade coletiva.

Como admitem seus continuadores, em sua aplicação exclusiva à sociologia da vida moral, a concepção de Durkheim deveria conduzir ao estudo empírico das correlações funcionais entre os valores morais e os conjuntos sociais.

Para esse desdobramento apontaria sua fórmula acima de que “qualquer valor pressupõe a apreciação de um sujeito em referência de uma sensibilidade indefinida”, isto é, pressupõe a experiência com afetividade coletiva de uma busca suscitada pelo desejável.  Além disso, o estudo empírico das correlações funcionais entre os valores morais e os conjuntos sociais se encontra favorecido notadamente em razão do seguinte: (1) Durkheim chega a opor para fins de análise os valores ditos culturais a outros valores, insistindo ao mesmo tempo na variedade infinita e na particularização de todos os valores sem exceção; (2) põe em relevo o papel que desempenham os valores na formação da própria realidade social.

Daí que, enfim, seus continuadores possam completar a concepção durkheimiana com a constatação das flutuações dos valores, os quais se juntam e se interpenetram depois de se terem diferenciados – a chamada conjunção dos valores, que Georges Gurvitch atribui a Celestin Bouglé [xix].

 

Índice

 

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Agrupamento(s), alienação, burguesia, campesinato, campesino, capitalismo, ciência, civilização, classe (burguesa, proletária, subalterna, camponesa), classes (médias, sociais,), classes [do conhecimento], coeficiente [existencial do conhecimento], cognitivo(a)(s) [sistema, juízos, tendências], coletivo(a)(s), complementaridade, comunicação, comunidade, conhecimento, consciência, contraditórios, controle, culturalismo, determinismo, direito, Durkheim, epistemologia, Estado, estratificação, estruturação, experiência, falso saber, Gestalt, globais, grupo(s), história, humano(a)(s)  [esforço, luta, significações, direitos], ideologia, intermediação, internet, Karl Marx, liberdade, massa, Max Weber, mentalidade, microssociologia, modernização, moral, Nós, objeto, outrem, procedimentos, psicologia, psiquismo, quadros sociais, realidade histórica, realidade social, realismo, reciprocidade, regulamentações, reificação, saber, Saint-Simon, sentimento, símbolos, sociedade, sociologia, sociólogo, subjetividade, subjetivismo, superestrutura, tecnificação, técnica, tecnologia, tipo, utilitarismo, variabilidade, variação, valor.

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Referências Bibliográficas e Notas

[i] Comunicación al Congreso Iberoamericano de Educación: Metas 2021  Buenos Aires (Argentina) 13-15 de septiembre de 2010.

[ii] Cf. Berger, Peter e Luckmann, Thomas: “A Construção Social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento”, trad. Floriano Fernandes, Rio de janeiro, editora Vozes, 1978, 4ª edição, 247 pp. -1ªedição em Inglês, New York, 1966. Ver as págs. 247 sq.

[iii] Popper, Karl: ‘Conhecimento Objetivo: uma abordagem evolucionária’, tradução Milton Amado, São Paulo/Belo Horizonte, EDUSP/editora Itatiaia, 1975, 394 pp, traduzido da edição inglesa corrigida de 1973 (1ª edição em Inglês: Londres, Oxford University Press, 1972).

[iv] Dahrendorf, Ralf: “Las Classes Sociales y su  Conflicto en la Sociedad  Industrial”, trad. Manuel Troyano, Madrid, ed. Rialp, 1970, 339 pp. (1ª edição em Alemão, Stuttgard, 1957).

[v] Giddens, Anthony: “As Novas Regras do Método Sociológico: uma crítica positiva das sociologias compreensivas”, trad. Ma. José Lindoso, revisão Eurico Figueiredo, Rio de Janeiro, Zahar, 1978, 181 pp. (1ª edição em Inglês, Londres, 1976). Do mesmo autor: “A Estrutura de Classes das Sociedades Avançadas”, trad. Márcia Bandeira, revisão Edson de Oliveira, Rio de Janeiro, Zahar, 1975, 368 pp. (1ª edição em Inglês, Londres 1973).

[vi] Collingwood, R.G.: “A Ideia de História”, trad. Alberto Freire, Lisboa, Ed. Presença, 1972, 401 pp. (1ª edição em Inglês, 1946).

[vii] Dahrendorf, Ralf: “Las Classes Sociales y su  Conflicto en la Sociedad  Industrial”, op.cit. pág: 112.

[viii] Os nomes historicamente representativos do efetivismo em matemática são Émile Borel (1871- 1956) y Henri Léon Lebesgue (1875 – 1941).

[ix] Os construtivistas estimam que somente os números reais efetivamente exibidos ou não implícitos são suscetíveis de serem conhecidos, ou conhecidos com precisão.

[x] Os conjuntos infinitos não-apreensíveis têm equivalente em sociologia diferencial lá onde se constatam as atitudes coletivas em suas ambiências imponderáveis. Cf. Gurvitch, Georges: Dialectique et Sociologie, Paris, Flammarion, 1962, 312 págs., col.  Science. Sem embargo, esse autor admite que o recurso da dialética complexa é aqui aplicável exatamente porque as atitudes são dificilmente apreendidas, e isso, só em parte.[modificado em 18/10/2018]

[xi] Peccatte, Patrick: “La Consistance Rationnelle Critique de la raison démarcative”, Saint-Étienne: Aubin éditeur, 1996, Versão E-book, 188 págs. pdf, 12 Dezembro 2001, http://peccatte.karefil.com/CR/CR.PDF. Este autor reconhece que o construtivismo permanece muito presente e estimulante na filosofia contemporânea das matemáticas.

[xii] Gurvitch, Georges (1894-1965): “Determinismos Sociais e Liberdade Humana: em direção ao estudo sociológico dos caminhos da liberdade”, trad. Heribaldo Dias, Rio de Janeiro, Forense, 1968, 361pp., traduzido da 2ªedição francesa de 1963. (1ªedição em Francês: Paris, PUF, 1955).

[xiii] Wright Mills, C.: ‘Consecuencias Metodológicas de la Sociología del Conocimiento’, in Horowitz, I.L. (organizador): ‘Historia y Elementos de la Sociología del Conocimiento – tomo I’, artigo extraído de Wright Mills, C.: ‘Power, Politcs and People’, New York, Oxford University Press, 1963; tradução Noemi Rosenblat, Buenos Aires, EUDEBA, 3ªedição, 1974, pp.143 a 156.

[xiv]  O subjetivismo idealista perpetuou-se como preconceito filosófico inconsciente nas teorias que, sem crítica, acolhem um estruturalismo lógico (a priori) na base de toda a sociedade e da própria língua.

[xv]  A análise e a crítica da cultura standardizada está desenvolvida nas obras de T.W. Adorno. Cf. Adorno, Theodor. W.: “Notas de Literatura”, tradução Manuel Sacristán, Barcelona, Editora Ariel, 1962, 134 pp., ver págs. 109 sq. ///“Prismas: la Critica de la Cultura y la Sociedad”, tradução de Manuel Sacristán, Barcelona, Ariel, 1962, 292 pp. (Original em Alemão: Prismen. Kulturkritik und Gesellschaft. Berlin, Frankfurt A.M. 1955).

[xvi] Esta leitura de Bergson foi proposta por Georges Gurvitch em sua obra “A Vocação Actual da Sociologia” –vol.II: “antecedentes e perspectivas”, tradução da 3ª edição francesa de 1968 por Orlando Daniel, Lisboa, Cosmos, 1986, 567 pp. (1ª edição em francês: Paris, PUF, 1957).

[xvii] FDR Four Freedoms Speech 1941 – President Franklin D. Roosevelt: The Annual Message to Congress.January 6, 1941/ versão automática em castelhano reproduzida por Jacob (J.) Lumier in acervo da Biblioteca Virtual do JL’Blogs: “Discurso das Quatro Liberdades-1941”

link: http://sociologia-jl.blogspot.com/2007/04/view-blog-authority.htm

[xviii] FDR Four Freedoms Speech 1941 – President Franklin D. Roosevelt: The Annual Message to Congress.January 6, 1941. op.cit. Versão provisória ao Português feita pelo autor.

[xix] Esta análise e interpretação têm lastro em Gurvitch, G. (1894-1965): “A Vocação Actual da Sociologia –vol.II: antecedentes e perspectivas”, op cit.

 

 

 

 

Crítica aos Paradigmas de Localização

Crítica aos Paradigmas de Localização

Apresentação

(Variabilidade ou Imposição ?)

 

 

Os tipos de sociedade industrial são calcados na observação da divisão do trabalho: a grande oficina e suas engrenagens.

Para ultrapassar os dogmatismos e os preconceitos, a teoria sociológica se faz precedida do estudo dialético dos determinismos sociais (as engrenagens), a fim de colocar em relevo não só a análise dos níveis de realidade cujas hierarquias múltiplas integram as estruturas [i], mas, o concurso da liberdade humana interveniente nesses determinismos, de maneira realista e não simplesmente lógica ou matemática, isto é, pondo em relevo a variabilidade.

A “tradição” intelectual da sociologia que se nutre em Saint-Simon (e no “jovem” Marx) é notadamente sociologia diferencial (voltada para o estudo das variações nos quadros sociais) e não apenas sociologia sistemática (limitada ao estudo das regularidades tendenciais), estando melhor “aparelhada” que esta última para isolar os preconceitos filosóficos inconscientes e desmontar os dogmatismos.

►Entretanto, o que faz passar despercebida a indispensabilidade da dialética em sociologia é a proliferação de estudos e teorias formalistas de papéis sociais, nas quais prevalece a valorização do paradigma de Hobbes (Thomas Hobbes, 1588 —1679) para explicar as desigualdades sociais. Diz-se equivocadamente que as posições são dotadas de soberania: os homens que as ocupam estabelecem a lei para seus súditos e, notadamente, exercem o controle de sanções, isto é, a suposta capacidade de garantir a conformidade à lei [ii].

Diz-se ademais, e ainda equivocadamente, que, de essa noção de posições dotadas de soberania – ou noção de “poder” e sanções –, se deve concluir o seguinte: (a) – há sempre resistência a essas posições dotadas de soberania, cuja eficiência e legitimidade são precárias; (b) – o grupo dos que ocupam tais posições será supostamente o mais forte e a sociedade – assim supostamente regida pelo princípio de obediência – se mantém unida pelo exercício de sua força, isto é, pela coação. É a chamada “solução hobbesiana para o problema hobbesiano da ordem”.

Daí que o problema das desigualdades sociais torna-se derivado e se resume em estabelecer o elo perdido entre a sanção do comportamento individual e a desigualdade das posições sociais” [iii], “elo perdido” este que a filosofia social encontra como contido na noção de “norma social”, a saber: “as expectativas de papéis são apenas normas sociais concretizadas” ou “instituições”.

Diz-se, então, equivocadamente, que é útil reduzir a estratificação social à existência de normas sociais reforçadas por sanções, já que essa explicação demonstraria a “natureza derivativa” do problema das desigualdades [iv].

Por sua vez, ao invés de levar aos determinismos sociais, essa derivação teria a suposta vantagem de reconduzir a pressupostos tais como a existência de normas e a necessidade de sanções que “podem ser considerados como axiomáticos”, isto é, que dispensariam uma análise maior!

Com poucas palavras: porque há normas e porque as sanções são supostamente necessárias para impor conformidade à conduta humana (diferenciação avaliadora), tem que haver desigualdade de classes entre os homens.

Nota-se por essa “teoria da coação” (ou de “repressão”) que a variabilidade da estratificação fica absolutamente fora de cogitação na aplicação do paradigma de Hobbes, tornando consequentemente desprovida de valor ou sem aplicação metodológica alguma a discussão de “universais sociológicos” neste marco axiomático preferido pelos formalistas.

►Mas não é tudo. Será em conseqüência da teoria de papéis sociais decorrente dessa visão axiomática impositiva que certos autores formalistas serão questionados por promoverem a reificação [v] nas relações sociais e humanas.

Com efeito, diz-se que “todo o segmento de posição estabelece uma relação (necessária) entre o ocupante da posição e um ou mais grupos de referência”.

À continuidade, então, fica estabelecido “um conjunto de grupos de referência, cada um dos quais impõe ordens e é capaz de sancionar o comportamento da pessoa”, seja positivamente, seja negativamente.

Daí, “a questão da natureza da sociedade se transforma na questão de saber “como os grupos de referência formulam e sancionam as expectativas das posições que definem” [vi].

Pode-se ver que, sendo tomada separadamente dos Nós, e de todas as relações com outrem atuantes nesses Nós grupais, a indicada “relação necessária” surge como atributo impositivo do “segmento (geométrico) de posição”, revela-se uma força de imposição lógica e exteriorizada.

Será em razão dessa formulação conceitualista que, como se sabe, certos autores se verão na circunstância embaraçosa de esclarecer se os enunciados da suas teorias de papéis sociais seriam de molde a favorecer a reificação, haja vista que, nessas teorias formalistas, o indivíduo se personaliza na medida em que é constrangido a enquadrar-se nessa suposta “relação necessária (lógica)”, que lhe é imposta como um valor por força da objetivação conceitual do grupo vinculado ao segmento de posição [vii].

Tal é o método axiomático das teorias que buscam o “lugar” das desigualdades, isto é, aplicam e desenvolvem os paradigmas de localização, no caso, os esquemas de filosofia social tirada como disse de Thomas Hobbes (1588 —1679).

 

►Por contra, como se sabe é indevida a confiança que se tem no absoluto da localização porque, antes de constituir uma exigência propriamente epistemológica, essa localização encontra-se na base da linguagem como tal, sendo toda a sintaxe de “essência topológica”.

Há uma limitação das atribuições realísticas que pretendem empregar as palavras “posição” e “movimento” fora do terreno em que foram definidas ou onde esses termos são definíveis, isto é, nas equações de incerteza descobertas na Física Quântica e tornadas características de todo a atitude científica contemporânea nutrida da teoria da relatividade de Albert Einstein (1879 — 1955).

Neste ensaio levamos em conta a compreensão da revolução de Heisenberg [viii] que derruba por terra a objeção de que noções tão fundamentais como “posição e movimento” (velocidade) têm sentido universal.

Segundo Bachelar, as qualidades geométricas incluindo a posição e a velocidade não têm direito algum a serem chamadas qualidades primeiras.  Só há qualidades secundárias, uma vez que toda a qualidade é solidária de uma relação (de incerteza) que, junção das intuições contrárias, faz girar as duas intuições fundamentais: a corpuscular e a ondulatória [ix].

Desta forma, tendo em conta a aplicação em sociologia da dialética relativista complexa [x], elaboramos sobre o fato social comprovado de que, antes de se ligarem aos papéis sociais, as expectativas ligam-se ao esforço coletivo, incluindo-se neste último o histórico das iniciativas, dos projetos e métodos, das tentativas e das próprias realizações do grupo.

Resgatamos a afirmação espontânea do equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros, como foco da vida do Direito, que se inclui nas manifestações da sociabilidade e no consequente pluralismo social efetivo (a multiplicidade dos Nós e das relações com outrem é irredutível), como um dado empírico que derruba por terra os axiomas tirados da filosofia social de Hobbes.

O pluralismo social efetivo como “sistema de freios e contrapesos” [xi] se descreve a partir da constatação de que a realidade social é integrada. Isto significa que a afirmação espontânea do equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros é uma característica da realidade social dos Nós, como manifestações concretas da consciência coletiva ao nível da experiência humana [xii].

Ou seja, não há pólos heterogêneos na realidade que não sejam relativos, toda a polarização dos contrários, dos contraditórios ou até antagônicos revela-se dialética, intermediada ou interpenetrada. Por mais que sejam polarizadas as antinomias guardam um setor intermediado e não chegam a romper totalmente a reciprocidade de perspectiva, cuja exasperação constitui o limite mais extremado, para além do qual a realidade social se abisma.

Como dado empírico implicando procedimentos de verificação dos determinismos sociais, tais como as correlações funcionais e as integrações diretas nos conjuntos práticos [xiii] dentre outros recursos de método, a afirmação espontânea do equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros (espontânea porque não imposta) diferencia-se no conjunto dos psiquismos individuais e coletivos lá onde esses psiquismos transferem suas energias subjetivas para a realidade de conjunto, por efetividade do próprio conjunto prático, de tal sorte que a realidade social toda inteira vem a ser penetrada de aspiração aos valores (subjetividade coletiva).

Por efetividade desse determinismo de conjunto tem-se que a realidade social é integrada e se compreende a soberania social, isto é, a afirmação espontânea (espontânea porque não imposta) do mencionado equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros.

►Destas observações decorre que realidade social ex­clui o chamado “princípio de obediência à ordem”, que é caracte­rístico das consciências fechadas sobre si mesmas, intros­pectivas. O fato de que o mundo de realidade social ultra­passa qualquer imposição de condutas preestabelecidas constitui importante diferencial da sociologia, a quem re­pugna o paradigma da filosofia social de Thomas Hobbes (1588 – 1679), acolhido em especial pelos cientistas políti­cos, notadamente o falso postulado da natureza heterogê­nea, levando ao atomismo que fragmenta a realidade so­cial em uma poeira de indivíduos isolados (“o homem é o lobo do homem”), suportes de reflexos condicionados.

Todavia, não se pense que a exclusão do chamado “princípio de obediência à ordem” seja decorrente de um voluntarismo abstrato. Pelo contrário. Inicialmente é pre­ciso ter em conta o contexto histórico em que Émile Dur­kheim (1858 – 1917) desenvolverá seu conceito de “amor­fismo social” [xiv], isto é, a decadência não só do Es­tado, como pacto ou bloco de localidades (“instituições parlamentares”), mas também do Contrato que o representava como segurança jurídica para o indivíduo no final do século XIX.

Tal é o contexto privilegiado no curso da Segunda Re­volução Industrial iniciada na segunda metade do século XIX (desenvolvimentos dentro da indústria química, elé­trica, de petróleo e de aço), com destaque para os suces­sos do período datado de 1885 a 1914 (Paz Armada), quando o “neo-imperialismo” levou à contraposição da Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália), por um lado, e da “Tríplice Entente” (Rússia, França e Inglaterra), por outro lado.

Como se sabe, a significação sociológica de tal deca­dência do Estado está em que a mesma se faz em pro­veito do direito social autônomo, que impulsionará o desenvolvimento da estrutura de classes no começo do século XX. Quer dizer, em conseqüência da decadência do Estado, as relações coletivas produzirão sem a imposição estatal – isto é, em soberania social – os acordos, as con­venções e os contratos coletivos no mundo do trabalho e da produção industrial. Portanto, será neste sentido histó­rico-sociológico que a realidade social exclui como disse o chamado “princípio de obediência à ordem”.

Mas não é tudo. Tendo em conta as imanentes forças psicossociológicas de pressão e de atração, a integração no conjunto da realidade social ultrapassa qualquer força de imposição, qualquer força previamente definida que se imponha logicamente do exterior, ainda que chamada a distribuir prestígio e influência.

Embora tenha níveis objetivados, a realidade social não é um lugar, é mais do que simples extensão (res extensa) [xv], é realidade em ato, em vias de se fazer e se atualiza na multiplicidade dos quadros sociais cujo conjunto em sua não-determinação prévia não é, pois, reduzido à história das civilizações (embora participem das estruturas como elementos anestruturais, os quadros microssociológicos são não-históricos) [xvi].

Neste sentido, o realismo relativista sociológico é con­forme a dialética complexa de que, tendo em vista o pensamento probabilitário, comentou Gastón Ba­chelard ao sustentar que temos necessidade de mudar o real de lugar e que a função realista é cada vez mais móvel: as revoluções frutuosas do pensamento ci­entífico são crises que obrigam a uma “reclassificação profunda do realismo” [xvii].

Nos presentes artigos elaboro uma reflexão crítica às ori­entações centradas nas categorias de posição e movi­mento, visando dimensionar o alcance da mirada sociológica diferencial em face dos antigos paradigmas de locali­zação.

Rio de Janeiro, Janeiro de 2011

Jacob (J.) Lumier

 

Categorias: sociologia, psicologia coletiva, comunicação social, ensaios críticos, história, metodologia científica, análise e interpretação.

 

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[i] Sobre o conceito de estrutura social e as hierarquias múltiplas vejam Nota Complementar no final deste livro.

[ii] Dahrendorf, Ralf (1929 – 2009): “Ensaios de Teoria da Sociedade”, Rio de Janeiro, Zahar – Edusp, 1974, 335 pp. (1ª edição em Inglês, Stanford, EUA, 1968). pp.141 a 173.

[iii] Ibidem, pág. 193

[iv] Ibidem, pág. 196

[v] A reificação da realidade social surge como a questão de saber até que ponto uma ordem institucional ou alguma parte dela é apreendida como uma faticidade não humana, ou inversamente, se o homem em certa organização ainda conserva a noção de que, embora objetivado, o mundo social foi feito pelos homens e, portanto, pode ser refeito por eles. Veja Berger, Peter e Luckmann, Thomas: “A Construção Social da Realidade: Tratado de Sociologia do Conhecimento”, Trad. Floriano Fernandes, Rio de Janeiro, Editora Vozes, 1978, 4ªedição, 247 pp. (1ª edição em Inglês, New York, 1966).

[vi] Dahrendorf, Ralf (1929 – 2009): “Ensaios de Teoria da Sociedade”, op. cit., págs. 62/63.

[vii] Ibidem, págs. 106/126

[viii] As equações de incerteza foram defendidas por Werner Karl Heisenberg (1901-1976) em 1927.

[ix] Bachelard, Gastón (1884 -1962): “Le nouvel esprit scientifique” (1934)

[x] Vejam os tópicos que se seguem, em especial “Os procedimentos Dialéticos do Hiperempirismo”.

[xi] Na mesma medida em que viabiliza a funcionalidade das políticas públicas como ação de integração social, será este equilíbrio dinâmico entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros que o sistema de freios e contrapesos como conceito de técnica constitucional visa configurar em sua aplicação ao pluralismo mais concreto dos agrupamentos particulares em suas disputas de interesses no âmbito da história parlamentar.

[xii] Vejam Gurvitch, Georges (1894-1965): “Dialectique et Sociologie”, Paris, Flammarion, 1962, 312 pp., col. Science.

[xiii] Como se verá adiante, os conjuntos práticos são não-inertes, não apenas lógi­cos, mas em alteração, cujas probabilidades admitem um fator imponderável levando a previsibilidade científica a admitir uma verificação a-posteriori.

[xiv] Émile Durkheim, Le suicide. Étude de sociologie (1897). Paris: Les Presses universitaires de France, 2 éme édition, 1973, 463 pp. Col: Bibliothèque de philoso­phie contemporaine. Cf: p. 421 segs.

[xv] Vejam as análises de Georges Gurvitch sobre as extensões ou amplitudes concretas em “Determinismos Sociais e Liberdade Humana”, Rio de Janeiro, Forense, 1968, 361 pp., traduzido da 2ª edição francesa de 1963. (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1955).

[xvi] Se a realidade social é frequentemente tida como um lugar ou uma localização é porque a apreensão original do mundo social é consideravelmente reificada. Veja Berger, Peter e Luckmann, Thomas: “A Construção Social da Realidade: tratado de sociologia do conhecimento”, trad. Floriano Fernandes, Rio de Janeiro, editora Vozes, 1978, 4ª edição, 247 pp. (1ª edição em Inglês, New York, 1966), págs. 124/132.

[xvii] Bachelard, Gaston (1884 -1962): “Le Nouvel Esprit Scientifique. Paris, PUF, 10e édition, 1968. Collection : Nouvelle encyclopédie philosophique, 181 pages./// O Novo Espírito Científico”, São Paulo, ed. Abril 1974, coleção “Os Pensadores”, vol.XXXVIII, pp.247 a 338 (1ª edição em Francês, Felix Alcan 1934). Cf. pág. 315.

A revolução do empirismo na base da atitude científica

 

Sumário

A Crítica do Pensamento Fechado. 2

A psicologia científica receptiva. 4

A experiência da probabilidade. 7

A revolução de Heisenberg. 12

 

 

No fundo, a pouca sensibilidade para com o realismo relativista sociológico não passa do que em sociologia se designa por “resistência à mudança social”.  A perspectiva de superação da dialética dogmática que está contida nessa orientação que vincula dialética e experiência põe em questão velhas crenças epistemológicas.

 

A Crítica do Pensamento Fechado

 

Para J. P. Sartre, em seu racionalismo original, a dialética hiperempírica desenvolvida por G. Gurvitch é tida como manifestação empírica em sentido restritivo ou particularista e, portanto, como não sendo dialética propriamente dita. Nesse raciocínio, uma vez que as condições da experiência passam por alterações, a dialética sociológica também se tornaria outra, o que, supostamente, se esta pretensão fosse cabível, invalidaria sua universalidade e lhe imprimiria um caráter transitório, tido arbitrariamente por indesejado.

A coisa não é bem assim. Não deve esquecer que um pensamento não se apreende no vazio, fora das particularidades. O posicionamento de Sartre, representativo dos intelectuais acorrentados à vertente hegeliano-marxista da dialética, pode ser reconhecido como “pensamento fechado”, obstáculo à “revolução relativista”, já que está fixado de antemão, e despreza qualquer consideração do “novo espírito científico”, o qual, como se sabe, está posto em obra na microfísica, na teoria quântica e na mecânica ondulatória, já antes dos anos de 1930.

Nesta perspectiva – e compreendendo a epistemologia “não coisista” correspondente à microfísica e a seu objeto elementar, como “não-sólido” – a retificação dos conceitos realizada pela Relatividade, como disposição da mentalidade científica do século XX, é a prova do incremento psicológico que faz avançar a história dinâmica do pensamento. No dizer de Bachelard: “é no momento em que um conceito muda de sentido que ele tem mais sentido”; é então “um acontecimento da conceptualização”.  Não se pode crer na permanência das formas racionais, na impossibilidade de um novo método do pensamento.  “O que faz a estrutura não é a acumulação; a massa dos conhecimentos imutáveis não tem a importância funcional que se supõe”.

Se o pensamento científico é uma objetivação, “deve-se concluir que as retificações e as extensões são dele as verdadeiras molas”.  “Ao realizar o “incremento psicológico”, o pensamento não-newtoniano absorve a mecânica clássica e dela se distingue; produz uma convicção que se prova como progresso” (cf. “O Novo Espírito Científico”, op.cit, p.274).

 

A psicologia científica receptiva

 

A perspectiva que marca “o alargamento do pensamento científico” é aquela que encontra “o real como um caso particular do possível”.  Antes de haver desenvolvimento das antigas doutrinas -no estudo das relações epistemológicas da ciência física contemporânea e da ciência newtoniana- há, muito antes, “o envolvimento dos antigos pensadores pelos novos, há encaixes sucessivos (ib.p.277)”.

Em seu comentário das análises de Werner Heisenberg, em que, considerando que “as duas imagens ‘corpúsculos e ondas’ não chegam verdadeiramente a se reunir” e que são instrutivas como “duas fontes de analogias”, Bachelard nos lembra como sabido que “todo estudo sobre relações que implicam a probabilidade exige uma visão de elementos muito numerosos”, visão essa que implica espaço rico em dimensões, que ele chama “espaços de configuração”, cujo número de dimensões ultrapassa o número três, característico do espaço intuitivo.

Esses espaços de configuração valem para dar “um esquema de um conjunto múltiplo”, já que são “quase naturais para os estudos da probabilidade” (ib.p.296).  Acresce, nesses últimos, que a “revolução do empirismo” operada pela mecânica ondulatória, leva a “tornar indireto o que era direto, a encontrar o mediato no imediato, o complexo no simples”.  Na expressão de Louis de BROGLIE, na mecânica ondulatória, “não se concebe mais o ponto material como uma entidade estática só interessando uma região ínfima do espaço, mas como o centro de um fenômeno periódico inteiramente espalhado a sua volta” (apud Bachelar, op. Cit, p.291).

O aspecto significante das análises e comentários de Bachelard que se aplica mais diretamente nos debates interessando o pensamento probabilitário em teoria sociológica, é a sua tese de que o novo espírito científico contradiz a maneira habitual de designar dogmaticamente as noções de base, as quais eram tidas -ou ainda o são- como sentenças que representam experiências e valem como os então chamados “registros ou protocolos de laboratório”, isto é, os enunciados cujo valor científico está em poderem ser testados por observação.

Bachelard nos mostra que as noções iniciais devem ser solidarizadas numa definição orgânica, ligadas a casos complexos.  Quer dizer, há uma correlação essencial das noções.   Mais e mais se impõe, por exemplo, a reciprocidade entre a noção de força e a noção de energia.  Na teoria quântica, nada de absoluto sustenta a ideia de força, ela não é aqui a noção primitiva.

A explicação científica tende a colher, em sua base, elementos complexos e a não construir senão sobre elementos condicionais, a simplicidade só é admitida a título provisório e para funções bem especificadas. Essa preocupação em preservar aberto o corpo de explicação é característica de uma psicologia científica receptiva, guardando uma espécie de dúvida recorrente aberta para o passado de conhecimentos certos (teme-se sempre que um postulado possa sutilmente se ajuntar à ciência e desdobrá-la).

Cientificamente, pensa-se o verdadeiro como retificação histórica de um longo erro; pensa-se a experiência como retificação da ilusão comum e primeira (ib.p.334). Sem dúvida, essas proposições de Bachelard apoiam-se em sua análise do problema do determinismo, isto é, a análise crítica da confusão constante do determinismo e da causalidade, bem como do conflito entre o determinismo e o indeterminismo (cf.ib.pp.302 a 312).

 

A experiência da probabilidade

 

Nessa análise notamos a noção de determinismo topológico, que corresponde a ligações funcionais e que opera no vir a ser sobre conjuntos gerais, sendo a partir dessa noção que se esclarece a confusão do determinismo e da causalidade e, a partir desse esclarecimento, por sua vez, fica aberta a questão do conflito entre determinismo e indeterminismo.  Tal a sequência da análise psicopedagógica (termo do próprio Bachelard) aplicada aos os conceitos fundamentais da epistemologia.

Com efeito, esse determinismo das ligações funcionais serve a Bachelard para pôr em foco da sua análise a compreensão de que a correspondência dos fenômenos costuma ser e pode ser pensada, ou tomada em consideração metodológica, sem que as variações dessa correspondência, “todas as variações”, sejam devidamente medidas pelo cientista.  “É na correspondência de sinal a sinal que o cientista encontra as lições primeiras do determinismo (e não na ligação de numero a número) ”. Ou seja, essas ligações funcionais são de ordem qualitativa, assimilando o caráter muito mais geral da causalidade em relação ao determinismo como previsão, que é de ordem quantitativa (da causa ao efeito há uma ligação que, até certo ponto, subsiste a despeito das desfigurações parciais da causa e do efeito).           Além das verificações métricas, muitas vezes dispersadas, há, portanto, lugar para as verificações do determinismo topológico, o qual nos mostra que um fenômeno não se desfigura numa ligeira variação dos seus traços, não se encaixa no indeterminismo senão parcialmente.

A posse dessa compreensão permite a Bachelard estudar a “psicologia do indeterminismo”, partindo do pensamento probabilitário até chegar às consequências do princípio de Heisenberg, levando à concepção de um método de individuação, em que os objetos de uma lei estatística se distinguem por sua pertinência a certo grupo, superando os termos contraditórios em que, nas probabilidades estatísticas, uma propriedade é afirmada de uma classe de objetos e negada aos objetos considerados separadamente.

Para Bachelard, quem fala de indeterminismo fala de comportamentos imprevisíveis ou imponderáveis; fala do desconhecimento sobre o tempo em que se efetuam os fenômenos de choque; fala da enorme pluralidade desses fenômenos (originariamente estudados na teoria cinética dos gases), revelando uma espécie de fenômeno geral pulverizado, onde os fenômenos elementares são estritamente independentes uns dos outros. Ora, é justamente aí que pode intervir o cálculo das probabilidades, como fundamentado na independência absoluta dos elementos (em sociologia essa independência é característica dos fenômenos sociais totais, que são completos e soberanos[Gurvitch]).

É essa independência dos elementos que define a linha de conceitos que, acima do indeterminismo de base, entronizou a probabilidade no pensamento científico, com seu componente especulativo, sua disposição em correr o risco de fracassar para realizar a obra do conhecimento.  Ou seja, se houvesse a menor dependência, haveria uma perturbação na informação probabilitária, e seria preciso um esforço sempre difícil para levar em conta uma interferência entre ligações de dependência real e as leis de estrita probabilidade.             Segundo Bachelard, foi em assimilar essa noção das leis do acaso, as ligações probabilitárias dos fenômenos sem ligação real, de que se ocupou o pensamento científico contemporâneo, caracterizado por uma multiplicidade nas hipóteses de base, nas hipóteses em que métodos estatísticos diferentes têm uma eficácia limitada (Bachelard nos lembra como contraditórios, mas prestantes em diferentes partes da física, os princípios da estatística de Bose-Einstein, por um lado, e por outro lado, os da estatística de Fermi).

Desse modo, “o positivismo do provável”, no dizer de Bachelard, é bastante difícil de situar entre “o positivismo da experiência” e “o positivismo da razão”.  Para esse autor, ainda que “a fenomenologia probabilitária” mostre as qualidades se exprimindo umas pelas outras e mesmo supondo uma base mecânica na teoria científica, a verdadeira força explicativa reside na composição das probabilidades.

Quer dizer, é preciso sempre vir a aceitar a experiência da probabilidade, mesmo que a probabilidade se apoie sobre a ignorância das causas.  Há uma grande diferença em dizer que um elétron está em qualquer parte no espaço, mas não sei onde, não posso saber onde, e dizer que todo o ponto é um lugar igualmente provável para o elétron. Esta última afirmação contém, além da primeira, a garantia de que, se executo um número muito grande de observações, os resultados serão distribuídos regularmente em todo o espaço. Tal o caráter todo positivo do conhecimento provável.

Além disso, que o provável tampouco é assimilável ao irreal, nos mostra a noção de uma “causalidade provável”: o acontecimento que possui a maior probabilidade matemática acontecerá na natureza com frequência maior correspondente.  O tempo se encarrega de realizar o provável, tornar efetiva a probabilidade. 

E Bachelard vai mais longe ainda: “que haja coincidência entre a probabilidade medida, é talvez a prova mais delicada, mais sutil, mais convincente da permeabilidade da natureza à razão”. Quer dizer, a realidade auxiliada pela duração acaba sempre por incorporar o provável ao ser.

 

A revolução de Heisenberg

 

Seja como for, “as formas prováveis, os objetos dotados de qualidades hierárquicas que a ciência moderna nos habituou a manejar, não têm uma permanência absoluta”. Daí que, prossegue Bachelard, “o caminho do nosso aprendizado com a física atual nos leve mais além da ‘física dos sólidos’ e nos alimente pela instrução que poderíamos receber dos fluidos, das massas, dos aglomerados”.

Será nesse caminho que Bachelard entende situar-se com sua análise um nível acima do in-determinismo de base e, por essa via, nos levar à compreensão psicopedagógica do determinismo topológico dos procedimentos gerais, que aceita ao mesmo tempo as flutuações e as probabilidades.

Com efeito, os fenômenos tomados em sua “indeterminação elementar” podem, portanto, ser compostos pela probabilidade e desse modo assumir “figuras de conjunto”, sendo sobre essas figuras que atua a causalidade, como ligação qualitativa subsistente. A partir deste ponto, a análise que se lê na obra de Bachelard pauta-se sobre a apreciação dos postulados de Reichenbach (“La Philosophie Scientifique”, 1932), quem tivera indicado as “relações exatas” da ideia de causa e da ideia de probabilidade, a partir da compreensão de que, nas leis deterministas ou predicíveis, estamos na impossibilidade de levar em conta todos os fatores variáveis que intervenham; se, contudo, podemos fazer excelentes previsões, devemo-lo à noção de probabilidade, que exprime uma lei para os fatores não considerados no cálculo.

Em resumo: pode haver convergência da experiência com o determinismo (admitindo-se em pensamento todas as condições variáveis do fenômeno), mas “definir o determinismo de outro modo que como uma perspectiva convergente de probabilidade é cometer um erro insigne”. Neste ponto, Bachelard elabora, em sua obra, sobre a assertiva de Reinchenbach, segundo a qual “coisa alguma prova a-priori que a probabilidade de toda a espécie de fenômeno tenha necessariamente uma convergência com a unidade, isto é: corrobore previamente o determinismo”. Daí que as leis causais podem ser reduzidas a leis estatísticas; ou que pode haver leis estatísticas sem convergência causal, as quais dariam lugar a uma física não-causal, em que pontifica Heisenberg.

Segundo Bachelard, “a revolução de Heisenberg” –afastada a negação dogmática das teses do determinismo clássico- tende a estabelecer uma “indeterminação objetiva”, superando a independência com que os erros sobre “as variáveis independentes” eram tratados: com o princípio de incerteza se trata de uma correção objetiva dos erros. Ou seja, para encontrar o lugar de um elétron é preciso iluminá-lo mediante um fóton.  O encontro do fóton e do elétron modifica o lugar do elétron e, além disso, modifica a frequência do fóton, de tal sorte que, em microfísica, não há método de observação sem a ação dos procedimentos do método sobre o objeto observado.

Há, pois, uma interferência do método e do objeto que Bachelard qualifica “interferência essencial”, corroborando sua compreensão do determinismo topológico dos procedimentos gerais. Neste ponto, Bachelard enfoca como decorrência a “limitação das atribuições realísticas”, as quais pretendem empregar as palavras “posição” e “velocidade” fora do terreno em que foram definidas ou onde são definíveis (pelas relações de incerteza).

É nos dito que, desde a revolução de Heisenberg, a objeção de que noções tão fundamentais têm sentido universal, já não procedem.  As qualidades geométricas, incluindo a posição e a velocidade, não têm direito algum a ser chamadas qualidades primeiras.  Só há qualidades secundárias, uma vez que toda a qualidade é solidária de uma relação (de incerteza) que faz girar as duas intuições fundamentais: a corpuscular e a ondulatória, com o domínio da física atômica apresentando-se como “o lugar de junção das intuições contrárias”.

Nota ainda Bachelard, seguindo a Heisenberg, que a pretensão das atribuições realísticas no domínio epistemológico, a favor de tratar as noções fundamentais como noções universais, nutre-se na “confiança indevida que temos no absoluto da localização”.  Confiança indevida porque essa localização, antes de constituir uma exigência propriamente epistemológica, encontra-se na base da linguagem como tal, sendo toda sintaxe de “essência topológica”.  Ou seja, é uma expressão do “pensamento falado”, sendo contra esses arroubos que deve reagir o pensamento científico.

Assim o emprego do termo “na realidade”, que revela essa confiança indevida no absoluto da localização, aparece a Bachelard como uma “desinteligência da designação objetiva”, já que a comunicação se refere a um grupo de átomos, de tal sorte que é preciso falar de uma “realidade coletiva”. Com efeito, o procedimento pelo qual cada objeto individual (cada sólido) era conhecido por sua localização no espaço e no tempo limitava esse objeto, que só podia ser objeto de uma lei mecânica, já que era concebido como entidade separa e distinta: é a individuação mecânica.

Os objetos de uma lei estatística, pelo contrário, podem ser dados por um método de individuação inteiramente diferente, no qual as qualidades individuais se definem por integração no conjunto. Seu único traço distintivo pode ser sua pertinência a certo grupo.  Só se distinguem dos objetos exteriores a seu grupo, não se distinguem dos objetos interiores.  A lei estatística é estabelecida na suposição de que um membro do grupo é tão apropriado quanto qualquer outro para satisfazer certas condições. O indivíduo se encontra por definição como membro do grupo.

E Bachelard conclui que, no domínio epistemológico, é preciso substituir ao artigo definido o artigo in-definido e limitar-se a uma compreensão finita no objeto elementar, em relação precisamente à sua extensão bem definida (por integração no conjunto).  Atinge-se o real por sua pertinência a uma classe. É ao nível da classe ou grupo do objeto que é preciso procurar as propriedades do real. Tal é a interpretação da “perda súbita da individualidade no objeto elementar”, observada na nova física do século XX por Langevin e Plank.

Por sua vez, Bachelard prossegue, nos dizendo que Marcel Boll assinala a importância da perda súbita da individualidade no objeto elementar, com os seguintes termos: “Da mesma forma em que o conceito antropomórfico de força foi eliminado pela relatividade einsteiniana, assim é preciso renunciar à noção de objeto, de coisa, pelo menos num estudo do mundo da física atômica.

A individualidade é um apanágio da complexidade, e um corpúsculo isolado é simples demais para ser dotado de individualidade. Essa orientação da ciência atual em contraste com a noção de ‘coisa’ parece ajustar-se não somente à mecânica ondulatória, mas também às novas estatísticas, e ainda à teoria do campo unitário (Einstein), que se esforça para sintetizar a gravitação e o eletromagnetismo” (cf.Boll, Marcel: “L’ Idée Génerale de la Mécanique Ondulatoire et de ses Premiéres Explications”, 1923, p.23; apud Bachelard, op.cit., p.312).

Para concluir, temos então que, na obra de Bachelard, é a própria função realista que a ciência põe em questão. “O produto instrumental” (elétron, campo, corrente, etc.) é inscrito como sujeito lógico e não mais substancial do pensamento científico. Os traços substanciais que sobram são traços a apagar; indicam um realismo ingênuo a reabsorver. Assim há um realismo persistente que é característica essencial do pensamento humano.

Mas há também o fato de que nos esforçamos para sublimar nossas noções realistas. Segundo Bachelard, “temos necessidade de mudar o real de lugar”. É o que ocorre na ciência atual.  A função realista deveria ter mais do que qualquer outra a estabilidade; a explicação substancialista deveria conservar a permanência; todavia, a função realista é cada vez mais móvel; uma mudança bem escolhida do sistema de referência suprime a gravitação, confirmando que as revoluções frutuosas do pensamento científico são crises que obrigam a uma “reclassificação profunda do realismo” (ib.p.315).

 

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