Standardização e Ataraxia

Há uma conexão entre a ataraxia na fantasia futurista e as tendências para certas involuções já existentes no cotidiano das sociedades penetradas pela indústria cultural e a cultura de massa

Deve-se levar em conta que a pesquisa sobre o materi-al e a finalidade da arte não se esgota na descoberta do vazio de significação nem se limita ao aspecto do mera-mente existente que ali aflora no déjà vu.

A Standardização através da des-subjetivação leva também à ataraxia cujo primeiro momento foi menciona-do ao notar a ausência de emoção projetada na fantasia futurista.

Isso porque a fantasia futurista glorifica o cotidiano da vida acentuando-lhe a transcendência, mas o faz deixando na sombra a conexão material do espiritual, a qual, por contra, apoiada no desejo, na busca de satisfação, na se-xualidade vem a ser vivida como ansiedade pelos indiví-duos humanos.

Na verdade essa aparente desatenção para com a cone-xão material apenas desenvolve a imagem de apatia que a fantasia futurista tece ao estender a Standardização aos temas da felicidade e da sexualidade.

Neste ponto, pode ver que aprofundando através da análise da fantasia futurista a reflexão sobre o material da arte e literatura de avant-garde encaminha-se na direção que reencontra o pensamento artístico de Marcel Proust.

Com efeito, é na obra desbravadora deste criador his-tórico, na série romanesca reunida em “A La Recherche du Temps Perdu” que o vazio de emoção configura um elemento fundamental, o foco mesmo das imagens e me-táforas da narrativa literária.

Tanto é assim que, em seu notável ensaio sobre Proust , Samuel Beckett insistirá no alcance neutraliza-dor sobre a vontade e sobre a própria auto-afirmação da consciência desempenhado pelo monólogo interior prous-tiano, sobretudo no início do segundo volume de “Le Temps Retrouvé” em que, ao conseguir o vazio de emo-ção, o narrador tem acesso ao êxtase artístico e o viven-cia mediante a intervenção da memória involuntária.

Certamente, a orientação freudiana (sem a psicanáli-se) de T.W. Adorno se distancia de Proust assim como a Libido não esgota o instinto do Eu.

Não que o narrador proustiano seja menos neurótico (Beckett classificará o seu infantilismo como ligado ao complexo de dominação) do que os estados considerados por T.W. Adorno como elementares na criação poético-literária, mas sim que o pensamento de Proust vê a fonte da obra de arte na individualidade mesma do artista e em sua fantasia, enquanto a Crítica da Cultura busca como disse nas significações culturais o foco irradiador das i-magens e metáforas literárias.

Desta forma, T.W. Adorno põe em relevo a conexão entre a ataraxia na fantasia futurista e as tendências para certas involuções já existentes no cotidiano das socieda-des penetradas pela indústria cultural e a cultura de mas-sa, aliás, é essa conexão que orienta toda a sua Crítica da Cultura, como pesquisa sobre os materiais da arte e reflexão estético-sociológica sobre a utopia negativa.

Com efeito, no prolongamento da Standardização pelo futurismo, a ataraxia, a impertubabilidade é produzida por extensão ao âmbito da relação da liberdade individual e dos tabus sexuais, notados estes no já mencionado culto do instrumento técnico separado de todo o destino obje-tivo e da afcção fetichista em possuir perfeitos equipa-mentos de toda a natureza.

A Função da Ataraxia

Segundo T.W. Adorno a função da ataraxia na utopia negativa rebaixa a idealização do meramente existente, ou melhor, da existência monádica ou atomizada dos indiví-duos, dando expressão (antierótica) à relação complemen-taria que existe entre coletivização e atomização.

Assim o núcleo de toda a relação entre seres humanos é amarrado por essa ataraxia ao êxtase sexual. Quer dizer, há na utopia negativa contradição envolvendo uma liber-dade (neutralizada em vazio de emoção) na qual os tabus sexuais perdem sua força e são substituídos pela autoriza-ção do antes proibido, ou se fixam em maneira vã por uma estéril constrição. O prazer mesmo degenera em mise-rável galhofa e em mera ocasião de narcisista satisfação por ter fisgado a esta ou àquele (…); o sexo se faz indiferente e irrelevante pela institucionalização da promiscuidade (…); se deseja a descarga fisiológica como elemento de higiene e a carga emocional que isso pode representar se deposita em conta do desperdício de energia sem utilidade social; o que há de evitar a todo o custo é deixar-se levar pela emoção. Tal a contradição em que desponta a ataraxia, certa im-perturbabilidade como vazio de sexualidade ou de emo-ção, um estado antierótico que T.W. Adorno analisará como construção do orgasmo organizado na fantasia futu-rista. .

No exame de tal contradição – uma liberdade neutrali-zada em vazio de emoção na qual os tabus sexuais per-dem sua força – deve-se distinguir na fantasia futurista a vertente marcada pelo puritanismo, que acolhe e elabora como inseparáveis o sentido religioso, por um lado e, por outro lado, a humilhação do sexo e a entrega sexual, e que se poderá detectar na cena romanesca do The Brave New World.

Desta forma encontra-se mais arraigado o dispositivo ideológico tornando localizado e restrito o assunto sobre sexo, o qual fora equivalente ao tema da libertinagem considerada como estímulo fisiológico, à maneira em que nas chamadas culturas masculinas os cavaleiros costu-mavam falar entre eles de mulheres e de erótica, mes-clando (a) – orgulho por terem conquistado soberania pa-ra tocar no tema tabu e, (b) – desprezo por este tema.

No romance de Aldous Huxley o dispositivo ideológico (que torna localizado e restrito o assunto sobre sexo) e o próprio fato do sexo estão mais sublimados e mais pro-fundamente reprimidos (reforçando o tabu, ou melhor, fi-xando-o em maneira vã por uma estéril constrição), sendo notado na questão da falsa felicidade, que sacrifica a i-déia de felicidade verdadeira.

Tanto mais que nesta vertente derivada do puritanismo a objeção anteposta à “era industrial” denuncia o relaxa-mento dos costumes e não tanto a desumanização. A in-dagação principal é saber se há felicidade possível sem proibições a destruir – como se a felicidade dimanante da violação de um tabu pudera justificar e legitimar o tabu mesmo, como ironiza T.W. Adorno (cf.ib.pág. 108).

Fungibilidade

Por contra, a inoperância de tal ideologia (que fixa o tabu em estéril constrição) influindo na fantasia futurista ao fazer sobressair que o rápido e prescrito câmbio de companhia erótica na utopia negativa deriva da cega e o-ficial organização do sexo, que converte o prazer em broma e o nega ao concedê-lo.

Ou seja, é o tabu mesmo que continua vigorando na impossibilidade de mirar cara a cara o prazer, de entre-gar-se plenamente a ele por meio da reflexão. Se esta proibição houvera sido quebrada, se o prazer se tivera li-berado já das malhas da instituição seria capaz de dis-solver a rigidez do The Brave New World como mundo da utopia negativa.

O princípio moral supremo desse mundo pintado na fantasia futurista, seu desiderato, sua culminação é de que qualquer um pertence a qualquer um: é a fungibi-lidade absoluta, que dissolve o homem como ser indi-vidual.

Mera mitologia, a fungibilidade destrói o último Em-Si do homem, seu último tabu e o determina como me-ro Para-Outro, como nulo.

Tendo em conta essa culminação, mas prosseguindo na desmontagem do dispositivo ideológico efetivo que, tornando localizado e restrito o assunto sobre sexo refor-ça ao contrário o tabu, sublinha nosso autor que a culmi-nada situação de anarquia sexual é incompatível com uma ordem totalitária, posto que o conceito de domínio pode definir-se como a disposição de uns sobre os de-mais e não como disposição total de todos sobre todos.

O homem que não é mais senão para outra coisa fica-ria sem dúvida alienado de sua mesmidade, porém seria também liberado da atadura da autoconservação que mantém unido o mundo da utopia negativa tanto quanto o mundo velho.

Segundo T.W. Adorno a pura fungibilidade corroeria o núcleo do poder e prometeria a liberdade em sentido ab-soluto. Dessa maneira sobressai a debilidade da concep-ção de conjunto que vincula o futurismo por um lado e, por outro lado, a ideologia derivada do puritanismo, e que vincula a ambos com o princípio moral da fungibilidade absoluta na utopia negativa.

Fragilidade composicional esta que T.W. Adorno exa-minará partindo da cena principal do romance da fantasia futurista de Aldous Huxley, a saber: o choque erótico dos dois mundos: o da personagem Lenina – que é o protótipo da mulher americana liberada – e o do “selvagem John” que a ama em modo lírico e puramente contemplativo e que, como uma relíquia do humano, pertence ao mundo que ficou às costas da cultura absoluta de massa, (um mundo pintado nessa fantasia como repugnante e defor-mado, à imagem das colônias nudistas em que o sexo se anula também mediante sua desocultação).

Fonte:

A UTOPIA NEGATIVA: LEITURAS DE SOCIOLOGIA DA LITERATURA

Jacob J. Lumier

(Primeira edição – online junto à Web de Eumed.net, BIBLIOTECA VIRTUAL de Derecho, Economía y Ciencias Sociales

Universidade de Málaga, Espanha)

COMUNICAÇÃO SOCIAL E DEFESA DA CONSTITUIÇÃO

COMUNICAÇÃO SOCIAL E DEFESA DA CONSTITUIÇÃO
Artigo de Alberto Dines para divulgar e promover.
Seqüestraram o Conselho de Comunicação Social. Com um Conselho de Comunicação Social-CCS ativo e vigilante, o Estado brasileiro, republicano e secular, jamais admitiria o seqüestro de seus bens – as concessões de rádio e TV – por confissões religiosas. A Constituição de 1988 (que em outubro completa 20 anos) não pode ser violada. Os constituintes não podem ser desobedecidos. Os instrumentos que conceberam não podem ser surrupiados e os dispositivos que votaram devem ser cumpridos integralmente.

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CONSTITUIÇÃO VIOLADA
Seqüestraram o Conselho de Comunicação Social
Por Alberto Dines em 18/3/2008
Do Observatório da Imprensa
O Congresso demorou 14 anos para cumprir o artigo 224 de Constituição que determina a criação do Conselho de Comunicação Social (CCS) como órgão auxiliar do Legislativo. O atraso não resultou da preguiça ou do excesso de trabalho dos nobres parlamentares. Foi resistência ostensiva de sucessivas Mesas Diretoras do Senado, às quais não interessava a existência de um fórum de consulta, cobranças e debate sobre mídia instalado dentro do parlamento, com todas as prerrogativas deste tipo de suporte. Mesmo na condição de “órgão auxiliar” do Congresso, o CCS seria fatalmente convertido num sistema de alto-falantes que certos coronéis associados a setores da mídia não gostariam de instalar no aparelho parlamentar.
Para se ter uma idéia da má vontade e contrariedade destes setores, basta examinar o primeiro texto publicado neste Observatório da Imprensa, 12 anos atrás (ver aqui).
Apesar do persistente trabalho de sabotagem, o Conselho foi criado graças ao espírito público e ao civismo de um grupo de senadores do PT e do PSDB (entre eles Artur da Távola, jornalista).
Regulação e auto-regulação
Escolhidos os nove conselheiros, eleito o presidente (o jurista José Paulo Cavalcanti Filho, com larga experiência em questões de direito da comunicação), o Conselho foi instalado com alguma pompa em 2002. Durante o seu primeiro mandato envolveu-se em questões da maior relevância: concentração da mídia, rádios comunitárias, TV digital etc.
Desprovido de qualquer tipo de poder, apenas porque existia e funcionava o CCS era um incômodo. A noção de que poderia ser acionado para esclarecer a sociedade nas questões relativas à comunicação social levou os mesmos setores – e senadores que postergaram a sua criação – a optar por sua liquidação.
Coveiro contratado: o ex-jornalista Arnaldo Niskier. Expert em trabalhos na sombra e em silêncio, o imortal conseguiu o milagre de esvaziar completamente o CCS ao longo do segundo mandato (2005-2006). No ano seguinte (2007), o órgão não se reuniu uma única vez e, em 2008, a Mesa do Senado sequer conseguiu indicar os seus integrantes.
Significa que o CCS é desnecessário ?
Significa que o CCS é utilíssimo, não fosse assim não seria sangrado em silêncio. O CCS tem condições para transformar-se num instrumento decisivo para provocar e subsidiar os debates relativos aos meios de comunicação. O CCS pode ser vital para disciplinar a espúria concessão de canais de rádio e TV a parlamentares, aberração que compromete toda a estrutura da nossa mídia eletrônica.
Embora sem o formato e desprovido dos poderes da FCC americana (Federal Communications Comission), o CCS poderia transformar-se na incubadeira de instrumentos e estatutos – reguladores ou auto-reguladores – exigidos por uma sociedade que está aprendendo a comunicar-se em alta velocidade.
Instrumentos surrupiados
Se o CCS funcionasse como já funcionou, alguns debates recentes teriam sido conduzidos com mais competência e algumas decisões tomadas com mais prudência. A TV digital foi uma delas.
Com um CCS vivo e vigilante, a criação da TV Brasil não teria transcorrido de forma tão melancólica e a oposição não teria desempenhado um papel tão contraproducente, inclusive para os seus próprios interesses.
Embora concebido para assessorar e enriquecer os trabalhos do Legislativo apenas, o CCS poderá desempenhar um papel crucial em matérias cogitadas por outros poderes. É preciso lembrar que a iniciativa de liquidar o entulho autoritário embutido na Lei de Imprensa partiu de um congressista, o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ). Será apreciada pelos magistrados do Supremo Tribunal Federal, mas se o CCS não estivesse em coma induzido, as ponderações expressas pelo ex-ministro da Justiça Miguel Reale Jr sobre o perigo de extinguir pura e simplesmente a famigerada lei poderiam suscitar reflexões mais amplas do que o corajoso – porém solitário – artigo que publicou na Folha de S.Paulo (para assinantes).
Com um CCS ativo e vigilante, o Estado brasileiro, republicano e secular, jamais admitiria o seqüestro de seus bens – as concessões de rádio e TV – por confissões religiosas.
A Constituição de 1988 (que em outubro completa 20 anos) não pode ser violada. Os constituintes não podem ser desobedecidos. Os instrumentos que conceberam não podem ser surrupiados e os dispositivos que votaram devem ser cumpridos integralmente.
Roubaram o nosso Conselho, chamem a polícia!

O Fórum Social Mundial – WSF2008 – e a Internet.

O Fórum Social Mundial – WSF2008 – e a Internet.

A primeira tarefa de quem deseja que exista comunicação e informação é escutar as pessoas. Nisto reside a primeira diferença fundamental com o sistema informativo comercial. Nesse não se trata de escutar, mas de se fazer escutar pelas pessoas. É um sistema vertical, no qual os que transmitem, pouco importa se pela imprensa escrita ou por meios eletrônicos, buscam que os cidadãos escutem e aceitem o que é transmitido.

Hoje chegamos a uma situação sem precedentes, em que o leitor é um mercado. Busca-se que ele escute, não que enxergue. A tarefa dos que estão neste trabalho e participam do caminho do FSM, pelo contrário, é escutar o que venha da infinidade de manifestações ao redor da Terra e saibam fazer de seus conteúdos e chamados as contribuições a nosso debate e a nossas buscas. É por isso que o tema da comunicação é um tema vital para o crescimento e força do movimento.

O formato descentralizado do FSM transportou a edição 2008 para o território da comunicação, embora sem as grandes tecnologias para transmissões simultâneas ou recursos para montar escritórios de imprensa nos continentes. E ao mesmo tempo existe um trabalho mundial de comunicação sendo feito, capaz de articular entrevistas coletivas simultâneas.

Em que se baseia essa comunicação?

As novas tecnologias de comunicação têm uma natureza contraditória. Mesmo que graças a elas se tenham criado corporações milionárias, e homens de riquezas sem precedentes, como Bill Gates, o êxito comercial dessas empresas se baseia no acesso e, portanto, na participação de um número sempre maior de pessoas.

É emblemática a diferença entre Bill Gates e Rupert Murdoch. As novas tecnologias permitem criar alianças que a informação nunca sonhou em estimular.

Não é por acaso que em Beijing, na Conferência Mundial da Mulher, os governos perderam o controle frente à plataforma das mulheres reunidas em alianças e organizações não-governamentais. Isto aconteceu porque centenas de organizações de mulheres, intercambiando entre si, chegaram a Beijing muito mais preparadas que as delegações governamentais.

O acesso [à rede Internet] aumentou, mesmo que continue desbalanceado entre o Norte e o Sul e por renda econômica. Isto permitiu que o primeiro Fórum Social Mundial visse chegar, não as 20 mil pessoas esperadas na hipótese mais otimista, e sim mais de 70 mil participantes. A grande diferença deveu-se à Internet, com a qual se conseguiu que, em poucos meses, milhares de pessoas soubessem da convocatória de Porto Alegre e, sempre graças à Internet, começaram seu processo de participação.

Sem internet, a mobilização deste ano seria um desastre. Teríamos atividades apenas nos países em que há gente do Conselho Internacional do FSM. No entanto, existem atividades onde sequer há cidadãos que tenham participado de alguma edição. São pessoas que se somaram ao movimento pela Internet, que se sentem parte do processo do FSM.

O desafio de nossa comunicação é poder recolher todo este grande pulmão de um novo renascimento mundial. Para isso, a existência de um mecanismo de intercâmbio, como a Ciranda, de trabalho informativo para a base, como Amarc, ou de criaçao e distribuição de notícias, como Inter Press Service, e níveis regionais como Alai, foram estimulados pelo caminho de participação que o FSM significa.

Existem centenas de publicações, associações, rádios e TVs, assim como milhares de jornalistas que se reconhecem no espaço ideal do FSM. É certamente um dos maiores déficits do processo não termos sabido articular e fortalecer esta realidade rica e forte do panorama informativo.

Assim, continua aberto o desafio de aumentar o intercâmbio e a comunicação entre as centenas de milhares de organizações que são a base ética e humana do processo. A comunicação até agora tem sido a gata borralheira do FSM. Basta dizer que todo o processo de informação e comunicação, de mobilização mundial, custou cerca de 100 mil dólares, algo que para Murdoch é uma cifra de cartão de crédito.
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Fonte: Engajamento ao FSM reflete diversidade e resistência. Entrevista por Ciranda.net , publicado na Revista Fórum, link
http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/NoticiasIntegra.asp?id_artigo=1748

BUSCADOR DA REVISTA DO TERCEIRO SETOR

Democracia tecnológica ou tecnologia democrática?

Por Cristina Charão, para a Rets

A Internet unindo o mundo na velocidade da luz. A digitalização criando ferramentas que produzem, de forma cada vez mais rápida, conteúdo em vários formatos. A convergência colocando em cada aparelho eletrônico a possibilidade de receber e distribuir estes conteúdos. Estas propriedades das novas tecnologias desenham um cenário de uso das mídias potencialmente mais democrático.

A questão que divide pesquisadores, intelectuais e ativistas é: por si só, tais qualidades transformarão este potencial em realidade? Em recente debate realizado pela Fundação Perseu Abramo em São Paulo, a resposta oscilou entre o otimismo a respeito dos feitos até agora alcançados pela disseminação das novas mídias e a perspectiva de que é preciso políticas públicas mais radicais para garantir que seu uso seja, de fato, democrático.

O jornalista Marcelo Tas, que na década de 80 foi um dos pioneiros da produção audiovisual independente, foi enfático: “Não é a ferramenta que é democrática, mas sim o uso que fazemos dela.”

Para Tas, a Internet e as novas tecnologias a ela associadas mudam a relação entre usuários e conteúdo. “Somos nós que vamos atrás, e não a televisão que nos joga sua programação. Essa é uma revolução maravilhosa”, disse. Porém, lembrando a distribuição do uso da rede mundial de computadores, o jornalista afirmou que esta nova forma de lidar com a informação e a cultura só se efetiva como democrática no momento em que o acesso às ferramentas for ampliado.

Mais otimista, o coordenador de Cultura Digital do Ministério da Cultura, Cláudio Prado, vê nesta observação de Tas uma marca do poder das novas tecnologias da informação. “A inclusão digital é uma demanda universal depois de apenas 15 anos de inventada a Internet. Isso é fantástico”, resumiu Prado.

O representante do MinC empolga-se, especialmente, com o fato de o acesso à rede estar aumentando nas camadas mais pobres da população. “É um fenômeno esta coisa de lanhouse em favela. Só na Rocinha (maior favela do Rio de Janeiro) são mais de 80”, comentou.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 21,9% da população brasileira com mais de 10 anos acessou alguma vez na vida a Internet. Este índice coloca o Brasil na 62ª posição em um ranking mundial de acesso à rede. O acesso domiciliar à Internet, ou seja, o acesso mais perene está ao alcance de apenas 11% da população, de acordo com número divulgados pelo Ibope. Ainda segundo o instituto de pesquisa, esta taxa cresceu cerca de 47% entre setembro 2006 e setembro de 2007.

Reação e Controle

Estes números, na opinião do pesquisador João Brant, evidenciam o quanto a democratização das mídias via uso das novas tecnologias ainda depende de ações de Estado, por exemplo, na área da inclusão digital. Membro do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e co-autor do livro “Comunicação digital e a criação dos commons”, Brant salienta que há ainda outras frentes de batalha. Segundo ele, estas brigas estão postas pela “reação conservadora”, natural em processos francamente democratizantes como a disseminação do uso das mídias digitais.

Expressões desta reação são as seguidas tentativas de colocar em pauta o controle das redes que, juntas, formam a grande rede mundial de computadores. “Hoje, o e-mail que eu envio para um amigo viaja pela rede na mesma velocidade que o vídeo da empresa X. Só que a empresa X está se dando conta e pode dizer: ‘Esta rede é minha e eu posso dizer o quê vai passar por ela e em que velocidade vai passar’”, explicou Brant.

A definição da neutralidade das redes como um princípio de funcionamento da Internet vem sendo pautada seguidamente dentro dos órgãos de regulação nacionais e também nos fóruns internacionais que discutem políticas de uso da rede mundial. A constituição de redes neutras, ou seja, livres de barreiras técnicas que selecionem o que pode e o que não pode circular pela Internet, exige manter a infra-estrutura das redes pulverizada e distante do domínio de grandes corporações.

Um outro tipo de reação conservadora é identificada pelo músico BNegão ao falar da forma como indústria fonográfica e grandes conglomerados da mídia tradicional reagem à multiplicação de experiências de distribuição da produção musical usando as novas tecnologias. “A gente vive essa doideira: ao mesmo tempo que você tem esta opção da internet, você tem os meios tradicionais cada vez mais fechados. Só alguns circulam nos meios tradicionais”, comentou o músico. “Antes, você fazia um show e todo mundo cobria. Hoje, pra sair um bloquinho (de texto) no jornal é uma loucura. No rádio, o jabá é absurdo.”

Outro modelo

O rapper carioca, ex-integrante do grupo Planet Hemp e ativo porta-voz do circuito musical alternativo do Rio, fala com a experiência de quem resolveu investir em novas formas de distribuição da produção artística. Todas as músicas do primeiro CD de sua banda, BNegão e os Seletores de Canais, estão disponíveis na íntegra no site do grupo para download. A venda do CD no seu formato tradicional, gravado de forma independente, é feita através de uma distribuidora também alternativa.

O “modelo de negócios” instaurado por BNegão mostra-se plenamente satisfatório. A venda de CDs e os convites para shows crescem junto com o acesso ao site da banda. Sua lógica, porém, contraria frontalmente aquela que rege o funcionamento da indústria fonográfica até hoje.

Segundo João Brant, o modelo era o da porta fechada. “A gravadora tinha a chave da porta, que era a gravação em si. Só que ela passava uma idéia de que seu papel era maior do que este. Dizia que era ela que sustentava a música brasileira. Quando cada um ganhou a chance de abrir a porta, viu-se que não é bem assim”, disse. Segundo Cláudio Prado, do MinC, o que se instaura no mercado cultural é um “novo mecenato”, com o usuário podendo deliberar se apóia ou não apóia tal ou tal artista.

A reação, como aponta BNegão, é ainda mais forte do que o boicote na mídia tradicional. Parte-se para a repressão direta. Ela lembra os episódios de prisão de jovens que baixam música pela Internet e a ameaça de processos deste tipo serem iniciados no Brasil. Mas o rapper ironiza os defensores deste modelo: “O que eu fico impressionado é com o pessoal do outro lado (das gravadoras) dizendo pra mim ‘Ah, você vai acabar comigo…’ E o cara ganha milhões! Quem está passando por crise é a indústria da música. A música vai muito bem, obrigada.”

* Marcelo Tas, Cláudio Prado, João Brant e BNegão participaram do debate “Comunicação digital: a tecnologia vai democratizar as mídias?”, parte da programação do “Ciclo de Debates Cultura e Democracia: acesso, tecnologia, tradição” promovido pela Fundação Perseu Abramo e SESC-SP entre os dias 30/10 e 1/11, em São Paulo.