Clamor por Direitos Humanos em Universidade Ibero-americana

Muitos colegas sociólogos estão alertando as lideranças internacionais a fim de que os Direitos Humanos sejam respeitados no uso da força que atinge os corpos universitários da Universidad Autónoma de Ciudad Juárez (UACJ).

Como se sabe, “Ciudad Juárez es una ciudad mexicana, es la urbe más grande del estado de Chihuahua, que se ubica frente a El Paso, Texas, Estados Unidos, a orillas del Río Bravo. Su población, de acuerdo con el Segundo Conteo de Población y Vivienda 2005 efectuado por el INEGI fue de 1,301,452 habitantes para la ciudad, y 1,313,338 habitantes en todo el municipio, con lo que se ubica como la séptima zona metropolitana más grande del país”.

Segundo o jornal La Jornada de cinco de Junho corrente, “universitarios y miembros de diversas organizaciones sociales protestaron ayer (04 de Junho) en Ciudad Juárez, en demanda de seguridad y de que se aclare la muerte de dos catedráticos y un estudiante de la Universidad Autónoma de Ciudad Juárez, así como la desaparición de dos alumnas“.

Segue abaixo a notícia na íntegra.

Aproximadamente dos mil personas, entre estudiantes y trabajadores académicos y administrativos de la Universidad Autónoma de Ciudad Juárez (UACJ), marcharon hoy en protesta por la violencia contra la comunidad de esa casa de estudios, ya que en seis meses recientes han sido asesinados los catedráticos Manuel Arroyo Galván y Gerardo González Guerrero, además del estudiante Jaime Alejandro Irigoyen Flores, y desaparecieron las alumnas Mónica Janeth Alanís Esparza y Lidia Ramos Mancha.

El ataque más reciente ocurrió la noche del pasado viernes, cuando hombres armados asesinaron a Arroyo Galván, maestro de la UACJ e integrante del Sistema Nacional de Investigadores del Consejo Nacional de Ciencia y Tecnología (Conacyt). Al doctor en ciencias sociales le dispararon mientras conducía su vehículo por la avenida Manuel Gómez Morín y prolongación Manuel J. Clouthier.

Sus compañeros marcharon hoy desde la megabandera hacia el puente libre o de Córdoba, apoyados por integrantes de la Organización Popular Independiente, fundada por Arroyo Galván, así como comunidades eclesiales de base y activistas que exigieron que se aclare el homicidio de este profesor y luchador social de 44 años de edad.

También pidieron que se investigue el homicidio del maestro de sicología Gerardo González Guerrero, asesinado a balazos en diciembre de 2008, y el de Jaime Alejandro Irigoyen Flores, alumno de la carrera de derecho victimado en enero.

Otra exigencia es la búsqueda de Mónica Janeth Alanís Esparza, de 18 años, estudiante de la carrera de administración, quien desapareció el 26 de marzo cuando se dirigía a hacer una tarea con compañeras.

También pidieron que se localice a Lidia Ramos Mancha, estudiante de Medicina de 17 años de edad, quien en diciembre pasado acudió al Instituto de Ciencias Biomédicas para conocer unas calificaciones y no se volvió a saber de ella. En la marcha participó su madre, María Dolores Mancha, quien explicó que ante la ineficacia de la Policía Ministerial Investigadora, su hijo mayor, Gerardo Ramos, emprendió una investigación por su cuenta.

Un grupo de estudiantes hizo sonar sus tambores, mientras otros pintaban sobre el pavimento siluetas humanas. Más tarde, durante el plantón en el puente ubicado en El Chamizal, los manifestantes leyeron artículos de la Constitución en repudio a la intervención militar en la frontera.

La columna regresó a la megabandera, donde los manifestantes encendieron velas y protestaron por la “simulación” del Ejército Mexicano de combatir el crimen organizado, pues los narcotraficantes “no han dejado de matarse”. Sentados en el césped, escucharon a los oradores y mensajes provenientes de otras ciudades de México y del mundo.

La noche del miércoles, al cumplirse cinco días de la muerte de Arroyo Galván, maestros y estudiantes del Instituto de Ciencias Sociales y Administración de la UACJ salieron a la calle para repudiar la ola de violencia en Juárez.

Con una manta que decía “Todos somos Manuel”, los manifestantes distribuyeron volantes en los que recordaron que Arroyo fue fundador de varias organizaciones sociales.

El martes pasado, el rector Jorge Quintana Silveyra se reunió con la procuradora de justicia del estado, Patricia González, quien sólo le dio a conocer que hay dos líneas de investigación.

El funcionario informó que, con la finalidad de recibir información anónima y confidencial que ayude a esclarecer el asesinato, la UACJ y la Procuraduría General de Justicia abrieron una liga en la página electrónica http://www.uacj.mx.

Fonte: Rubén Villalpando Corresponsal de La Jornada
Ciudad Juárez , Chihuahua, MEXICO, 4 de junio.

O Relatório da Hutchins Commission de 1947 (EUA) e a Responsabilidade Social da Mídia

A Responsabilidade Social aceita que a mídia deve servir ao sistema econômico e buscar a obtenção do lucro, mas subordina essas funções à promoção do processo democrático e ao esclarecimento do público (“o público tem o direito de saber”).

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COMISSÃO HUTCHINS: O velho (novo) paradigma faz 61 anos

Por Venício A. de Lima em 25/3/2008

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=478JDB001

Março é o mês de aniversário do famoso relatório da Hutchins Commission – “Uma imprensa livre e responsável” (A free and responsible press) – publicado em 1947, nos EUA. A Comissão, formada por 13 personalidades do mundo acadêmico e empresarial, financiada pelo grupo Time Life e pela Enciclopédia Britânica, foi presidida pelo então reitor da Universidade de Chicago, Robert M. Hutchins. Criada em 1942, no correr da Segunda Guerra Mundial, antecipando as mudanças que estavam por vir e respondendo a uma onda crescente de críticas à atuação da mídia, a Comissão tinha como objetivo principal definir quais eram as funções da mídia na sociedade moderna. Objeto de muitas críticas ao longo dos seus 61 anos, o relatório da Hutchins Commission deu origem à chamada teoria da responsabilidade social da mídia.

Responsabilidade social

A responsabilidade social (RS) não é um conceito novo e sua origem está associada à filosofia utilitarista que surge na Inglaterra e nos Estados Unidos no século 19, de certa forma derivada das idéias de Jeremy Bentham e John Stuart Mill.

Nos anos pós-Segunda Grande Guerra, a RS se constituiu como um modelo a ser aplicado às empresas em geral – e às empresas jornalísticas norte-americanas, em particular – e começou a ser introduzida por meio de códigos de auto-regulação estabelecidos para o comportamento de jornalistas e de setores como rádio e televisão. Esse modelo está ligado diretamente à defesa da liberdade, inclusive à liberdade de imprensa e ao desenvolvimento do capitalismo e dos direitos civis.

A RS se baseia na crença individualista de que qualquer um que goze de liberdade tem certas obrigações para com a sociedade – daí seu caráter normativo. Na sua aplicação à mídia, é uma evolução de outra teoria da imprensa – a libertária – que não se preocupava em garantir um fluxo de informação em nome do interesse público. A RS aceita que a mídia deve servir ao sistema econômico e buscar a obtenção do lucro, mas subordina essas funções à promoção do processo democrático e ao esclarecimento do público (“o público tem o direito de saber”).

Cinco pontos

O relatório da Hutchins Commission resumiu as exigências que os meios de comunicação teriam de cumprir em cinco pontos:

1. Propiciar relatos fiéis e exatos, separando notícias (reportagens objetivas) das opiniões (que deveriam ser restritas às páginas de opinião);

2. Servir como fórum para intercâmbio de comentários e críticas, dando espaço para que pontos de vista contrários sejam publicados;

3. Retratar a imagem dos vários grupos com exatidão, registrando uma imagem representativa da sociedade, sem perpetuar os estereótipos;

4. Apresentar e clarificar os objetivos e valores da sociedade, assumindo um papel educativo; e, por fim,

5. Distribuir amplamente o maior número de informações possíveis.

Esses cinco pontos se tornariam a origem dos critérios profissionais do chamado “bom jornalismo” – objetividade, exatidão, isenção, diversidade de opiniões, interesse público – adotado nos Estados Unidos e presente nos Manuais de Redação de boa parte dos jornais nas democracias liberais.

Lições contemporâneas

Em livro lançado recentemente nos EUA (The Big Picture – Why Democracies need Journalistic Excellence; Routledge, 2008) o jornalista Jeffrey Scheuer chama a atenção para o fato de que o relatório da Hutchins Commission estabeleceu um precedente ajudando a legitimar a crítica da mídia como uma atividade importante das democracias maduras. Além disso, o relatório talvez tenha sido responsável por uma mudança fundamental de paradigma no jornalismo: da liberdade de imprensa para a responsabilidade da imprensa.

Teria essa mudança de paradigma de fato ocorrido? Ela chegou ao Brasil?

Talvez o jornalismo brasileiro ainda tenha algo a aprender com o velho relatório da Hutchins Commission. Talvez já seja tempo de os empresários de mídia – que hoje incluem os donos, controladores e gerentes de provedores de internet – se darem conta de que os tempos são outros e a consciência dos direitos individuais e coletivos avança e ganha força dia a dia em camadas cada vez mais amplas de nossa população.

O sucesso empresarial da indústria privada das comunicações – da qual fazem parte as empresas de telecomunicações, seja através da distribuição de conteúdo ou do provimento de tecnologia – está cada vez mais ligado ao respeito aos direitos de comunicação do cidadão consumidor. Talvez seja tempo de pensar menos no surrado “escudo” da ameaça “de fora” à liberdade de imprensa e pensar mais na responsabilidade social daqueles que escolheram a mídia como atividade profissional e empresarial.

Com 61 anos de idade, o velho relatório da Hutchins Commission – “Uma imprensa livre e responsável” – permanece novo, válido e atual, pe
lo menos entre nós.

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Artigo reproduzido do Website Observatório da Imprensa por Jacob (J.) Lumier

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=478JDB001

Estudo sobre a responsabilidade social no Brasil.

A preocupação com as questões do meio ambiente é relativamente recente na consciência social, mas progrediu muito em diversos setores da sociedade, inclusive no meio empresarial. Por ora, no entanto, há poucos indícios do surgimento de uma cultura realmente nova caracterizada por um diálogo crítico e autocrítico entre a economia e a sociedade a respeito das questões ambientais.

Instituto de Pesquisas das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social – UNRISD

A economia política da responsabilidade empresarial noBrasil: as dimensões social e ambiental

por

Paola Cappellin e Gian Mario GiulianiResumo

Janeiro de 2005

O discurso e as práticas associadas à responsabilidade social e ambientaldas empresas (RSAE) vêm se intensificando e desenvolvendo rapidamente nosúltimos anos.

Este documento descreve a agenda da RSAE no Brasil, examina sua história, identifica os fatores e os atores que estimularam as empresas a adotar iniciativas dessa natureza, e se interroga sobre seus efeitos concretos para o desenvolvimento social sustentável.

O interesse mundial pela RSAE cresceu muito na década de 1990 e estendeu-se aos países em desenvolvimento por via de processos, políticas e instituições relacionadas com a globalização.

Mas muitos países em desenvolvimento também têm uma história própria de iniciativas de RSAE.

O desejo de melhorar o desempenho social das empresas no Brasil aumentou significativamente nos anos 80, graças principalmente às inquietações dos atores e aos contextos internos.

Um fator decisivo foi a difusão de certos valores e princípios éticos ligados à democratização e a um pensamento religioso progressista.

O processo de democratização também abriu caminho para a expansão das organizações da sociedade civil e dos movimentos sociais preocupados com os impactos sociais e ambientais das atividades das empresas.

Um setor da comunidade empresarial desempenhou um papel fundamental nessas mudanças, as associações empresariais, que não só representavam osi nteresses econômicos de seus membros, mas se colocavam questões filosóficas e culturais, entre elas as das relações entre as empresas e a sociedade.

Partindo de uma posição crítica com relação à atitude tradicional do empresariado, essas associações procuraram despertar a consciência social das empresas e estimular atividades filantrópicas.

O círculo dos atores e instituições que preconizava a RSAE ampliou-se consideravelmente na década de 1990. Partidos políticos, organizações não-governamentais, sindicatos, meios de comunicação de massa, governos locais, consumidores e acionistas engajaram-se nessas ações, assim como algumas entidades empresariais, diretores e empresas de visão mais proativa.

Mas há diferenças fundamentais de visão entre as organizações da sociedade civil. Os sindicatos, por exemplo, consideram as empresas como as grandes responsáveis pela deterioração das condições de trabalho e reclamam a universalização dosdireitos trabalhistas, enquanto muitas organizações não-governamentais tendem a incentivar ações sociais voluntárias empresariais.

A impulsão favorável à RSAE recebeu ainda o reforço das influências e pressões internacionais ligadas à gestão além-fronteiras das companhias multinacionais, da militância da sociedade civil mundial, da certificação ambiental e das normas e leis internacionais relacionadas com o trabalho, o meio ambiente e os direitos humanos.

Outra mudança importante ocorreu nos anos 90. No momento em que as companhias buscavam reestruturar-se para aumentar sua competitividade no mercado internacional, alguns diretores – e especialistas em gestão de empresas se deram conta de que as iniciativas de RSAE podiam ser usadas para reduzir custos, aumentar as vantagens competitivas e administrar os riscos e a reputaçãode suas empresas.

As repercussões internacionais de uma imagem desfavorável levaram as empresas brasileiras a priorizar uns poucos problemas específicos, entre os quais a pobreza, a violência, o trabalho infantil, a educação e a proteção do meio ambiente. Além disso, alguns segmentos do mundo dos negócios,principalmente as grandes empresas dos setores mais dinâmicos da economia, colocaram-se na dianteira das ações sociais, procurando fechar algumas das brechas abertas pela fragilidade, real ou percebida, do setor público.

A RSAE tornou-se assim parte de uma estratégia mais ampla de legitimidade, uma maneira de limpar a imagem maculada dos empresários e das empresas que muitos consideravam responsáveis pela concentração da riqueza e pelo caráter cada vez mais especulativo dos investimentos financeiros.

Em outraspalavras, os empresários brasileiros utilizaram-se da RSAE para restabelecer a confiança dos trabalhadores, aumentar sua competitividade e, sobretudo consolidar a fidelidade dos consumidores e a aceitação da coletividade.

Em uma época de mercados de trabalho flexíveis e de desregulação dos custos da mão de obra, a responsabilidade social permitiu às empresas amenizar um pouco os efeitos dessas políticas e processos. Com a ampliação da agenda de RSAE durante a década de 1990 um número cada vez maior de grandes empresas se interessaram por diversas iniciativas que iam além dos limites da filantropia e incluíam o bem-estar social, a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento comunitário. Tais atividades seconcentravam habitualmente em doações e ações sociais voltadas para as comunidades locais em que as empresas haviam se instalado.

Em outraspalavras, as empresas e entidades empresariais dirigiram suas ações sociais para fora de seus muros. Entretanto, com a intensificação da reestruturação industrial, as ações sociais foram redirecionadas para dentro, isto é, para investimentos na qualificação dos trabalhadores e para a modernização das técnicas de produção usadas nos locais de trabalho, sobretudo nos setores metalúrgico, químico, têxtil e de construção civil.

Os investimentos orientados para os trabalhadores visavam primordialmente o aumento da produtividade. Por outro lado, essas iniciativas contribuíram para reduzir os problemas tradicionais das fábricas brasileiras, como os acidentes de trabalho, o analfabetismo, as doenças, o absenteísmo e a baixa adesão aos objetivos da empresa.

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Se é possível constatar que as empresas adotam cada vez mais iniciativas de responsabilidade social e ambiental, a dinâmica da responsabilidade social empresarial (RSE) e da responsabilidade ambiental empresarial (RAE) são muito diferentes entre si.

A RSE surgiu num contexto de desregulamentação e deterioração das normas e direitos do trabalho. Embora o discurso e prática da RSE tenham se disseminado, as empresas e suas associações fazem pressão sobre o Estado para que os direitos trabalhistas e as normas de trabalho sejam excluídos da legislação nacional e transferidos para a órbita da negociação coletiva direta.

Juntamente com a desregulamentação da legislação trabalhista de caráter universal, as grandes empresas cortam empregos formais e salários.

Vista nesse contexto geral, a RSE mais parece uma “abordagem paliativa” para aliviar a consciência pesada.

A responsabilidade ambiental das empresas (RAE), por sua vez, apóia-se em sistemas de controle definidos pela legislação nacional e por acordos internacionais, além das pressões da sociedade civil, e é fortalecida por determinados nichos de negócios. Mas concluir daí que as empresas estão se convertendo à causa ecológica é simplificar em excesso um processo que é bem complexo e envolve diferentes atores e dinâmicas.

A preocupação com as questões do meio ambiente é relativamente recente na consciência social, mas progrediu muito em diversos setores da sociedade, inclusive no meio empresarial. Por ora, no entanto, há poucos indícios do surgimento de uma cultura realmente nova caracterizada por um diálogo crítico e autocrítico entre a economia e a sociedade a respeito das questões ambientais.

Na realidade, os progressos obtidos na Responsabilidade Ambiental das Empresas são frágeis. As relações entre as empresas e as organizações não-governamentais preocupadas com o meio ambiente permanecem tênues, e certos grupos empresariais continuam a reivindicar uma atenuação da rigidez das leis ambientais, principalmente no que diz respeito à conservação florestal e às restrições à produção e comercialização de produtos transgênicos (ou geneticamente modificados).

A perspectiva da RSAE depende, em última análise, de um contexto institucional que reúna condições legais, políticas e comerciais. Alguns sinais parecem indicar que o Brasil poderá reunir essas condições. É provável que o momento favorável aos dois tipos de responsabilidade ganhe impulso, sobretudo porque uma série de atores e instituições – antigos e novos, nacionais e internacionais – têm se empenhado ativamente em promovê-la.

Os mercados de bens e serviços ambientais continuam a expandir-se, e as recentes mudanças políticas indicam que o Estado brasileiro poderá vir a desempenhar um papel mais proativo no desenvolvimento econômico e social.

No novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a agenda da RSAE faz parte de uma pauta maior de questões em que as políticas públicas universalizantes voltaram a ocupar o centro do modelo brasileiro de desenvolvimento econômico e social. O governo também anuncia uma nova cultura de consenso social e uma nova relação entre a regulação voluntária e a normatividade estatal.

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Paola Cappellin e Gian Mario Giuliani, Doutores em Sociologia pelaUniversidade de Paris X – Nanterre, são professores do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) do Instituto de Filosofia eCiências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Brasil.
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Texto reproduzido por Jacob (J.) Lumier

Cientista político propõe incentivo ao voto



Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD

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São Paulo, 15/09/2006


Cientista político propõe incentivo ao voto


Cícero Araújo, da USP, defende que punição pelo não comparecimento às urnas deve ser substituída por ações de estímulo à participação

http://www.pnud.org.br/administracao/entrevistas/index.php?id01=2273&lay=apu

As punições impostas aos eleitores que não comparecem às urnas nas eleições devem ser, gradualmente, substituídas por iniciativas que estimulem a população a votar, defende o cientista político e filósofo Cícero Araújo, colaborador do livro Reforma Política no Brasil e debatedor desta semana do Fórum de Debates Interativo sobre a Reforma Política. Para ele, o incentivo seria a melhor maneira de convencer os grupos marginalizados — principalmente os de baixa escolaridade — a participar das eleições.

“Acredito que, gradualmente, medidas positivas de incentivo ao comparecimento eleitoral devem substituir a punição. Digamos, algo como ‘ações afirmativas’ eleitorais dirigidas a esses grupos [marginalizados]”, afirma Araújo. Segundo ele, as ações de estímulo ao voto são importantes porque “esses grupos, por sua própria marginalização, já tendem a considerar que a participação política não faz muita diferença em suas vidas. Com a abstenção, essa percepção difusa apenas acaba reforçando a marginalização, pois a representação política tende a advogar ainda menos as causas dos que não participam”, argumenta.

Pós-doutor em Ciência Política pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology) e mestre em Filosofia pela USP (Universidade de São Paulo), Araújo se diz a favor do voto obrigatório, “por questões práticas e não de princípio”. Ele admite, no entanto, que a obrigatoriedade mascara o verdadeiro nível de apoio ao regime político. “Para o problema da sustentação real de uma democracia representativa, o melhor mesmo é contar com o apoio consciente e espontâneo dos cidadãos, e não com artifícios para produzir altos índices de comparecimento”, destaca.

Na entrevista que concedeu à PrimaPagina, por e-mail, o professor ainda fala sobre voto alienado e abstenção como forma de protesto. Confira abaixo os principais os principais trechos.

O sr. é contra ou a favor do voto obrigatório no Brasil?

Cícero Araújo — Circunstancialmente sou a favor, por razões práticas e não de princípio.

Apesar de todo a alarde da opinião pública sobre os parlamentares envolvidos em escândalos de corrupção, as pesquisas e o histórico das eleições anteriores indicam que muitos deles devem se reeleger. Em seu artigo no livro “Reforma Política no Brasil”, o sr. diz que a “consciência do eleitor, sua espontaneidade, digamos assim, define a qualidade de seu voto”. O sr. acha que se o voto não fosse obrigatório as chances de os parlamentares acusados de corrupção se reelegerem seriam menores?

Araújo — Não creio. Para quem está disposto a “vender”, o voto facultativo apenas poderá ser uma oportunidade para aumentar seu preço na praça dos corruptores. O que, aliás, só vai ressaltar o problema do dinheiro nas campanhas eleitorais.

Em seu artigo, o sr. afirma que “ao induzir o voto leviano e alienado”, a obrigatoriedade “provoca a ampliação das práticas clientelísticas na relação candidato-eleitor”. Esses problemas diminuiriam com o voto facultativo? Como?

Araújo — A “ampliação” a que me refiro tem a ver com o oferecimento aos candidatos (através de um subsídio do Estado, via obrigatoriedade) de um contingente de eleitores que, não tendo claro as razões de seu comparecimento forçado às urnas, acabam por torná-lo presa fácil dos compradores de votos. Esse contingente talvez fosse menor no caso do voto facultativo (daí o uso que fiz da palavra “ampliação”), mas não significa que o clientelismo venha a ser eliminado.

O sr. alerta que, com o voto facultativo, os grupos marginalizados da sociedade tendem a participar menos das eleições e, com isso, perderem representação política. Por quê?

Araújo — Esses grupos, por sua própria marginalização, já tendem a considerar que a participação política não faz muita diferença em suas vidas. Com a abstenção, essa percepção difusa apenas acaba reforçando a marginalização, pois a representação política tende a advogar ainda menos as causas dos que não participam.

O sr. afirma que os grupos desfavorecidos, principalmente de baixa escolaridade, tendem a não votar. Seriam necessárias condições sociais específicas para tornar o voto facultativo viável? Que condições seriam essas?

Araújo — Acredito que, gradualmente, medidas positivas de incentivo ao comparecimento eleitoral devem substituir a punição. Digamos, algo como “ações afirmativas” eleitorais dirigidas a esses grupos.

A adoção do voto facultativo poderia aumentar os riscos de fraude nas eleições?

Araújo — Esses riscos não seriam tão maiores do que os já existem com o voto obrigatório. O problema mais grave, como disse antes, vai recair sobre a questão da desigualdade de oportunidades políticas, com o aumento da influência do dinheiro para induzir o caminho das urnas.

Mesmo com o voto obrigatório, a abstenção no Brasil aproxima-se da casa dos 20%. Por que esse número é tão expressivo?

Araújo — As razões principais, penso, não têm a ver com o problema da obrigatoriedade. É uma soma de fatores: insatisfação (protesto) com (contra) o sistema político, dificuldade de enxergar diferenças entre candidatos e partidos, e pura e simples indiferença.

Votos em branco, nulos e abstenções somaram 28,1% nas eleições presidenciais de 2002. A adoção do voto facultativo alteraria de alguma maneira esse quadro?

Araújo — Creio que com o voto facultativo esses números tendem a diminuir. A abstenção, é claro, pode aumentar. Mas quem for às urnas tenderá a fazê-lo porque tem mais claro qual a sua opção, entre as alternativas apresentadas.

No livro, o sr. destaca como “ponto crucial” o fato de, nas eleições, a quantidade não substituir a qualidade. Qual a conclusão que podemos tirar disso em relação à obrigatoriedade do voto?

Araújo — Quando falo da questão da qualidade, tenho em vista os que argumentam que altos índices de comparecimento sinalizam apoio vigoroso a um regime político. Não acho que esse é um bom argumento para a obrigatoriedade do voto. Os antigos países socialistas exibiam altíssimos índices de comparecimento. E o que acabou se constatando não foi o apoio vigoroso ao regime, mas uma forma sutil de indiferença e alienação. Para o problema da sustentação real de uma democracia representativa, o melhor mesmo é contar com o apoio consciente e espontâneo dos cidadãos, e não com artifícios para produzir altos índices de comparecimento, que aliás acabam ajudando a mascarar a verdadeira situação.

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Notícia/Entrevista reproduzida do website do PNUD por Jacob (J.) Lumier