Crítica aos Paradigmas de Localização

Crítica aos Paradigmas de Localização

Apresentação

(Variabilidade ou Imposição ?)

 

 

Os tipos de sociedade industrial são calcados na observação da divisão do trabalho: a grande oficina e suas engrenagens.

Para ultrapassar os dogmatismos e os preconceitos, a teoria sociológica se faz precedida do estudo dialético dos determinismos sociais (as engrenagens), a fim de colocar em relevo não só a análise dos níveis de realidade cujas hierarquias múltiplas integram as estruturas [i], mas, o concurso da liberdade humana interveniente nesses determinismos, de maneira realista e não simplesmente lógica ou matemática, isto é, pondo em relevo a variabilidade.

A “tradição” intelectual da sociologia que se nutre em Saint-Simon (e no “jovem” Marx) é notadamente sociologia diferencial (voltada para o estudo das variações nos quadros sociais) e não apenas sociologia sistemática (limitada ao estudo das regularidades tendenciais), estando melhor “aparelhada” que esta última para isolar os preconceitos filosóficos inconscientes e desmontar os dogmatismos.

►Entretanto, o que faz passar despercebida a indispensabilidade da dialética em sociologia é a proliferação de estudos e teorias formalistas de papéis sociais, nas quais prevalece a valorização do paradigma de Hobbes (Thomas Hobbes, 1588 —1679) para explicar as desigualdades sociais. Diz-se equivocadamente que as posições são dotadas de soberania: os homens que as ocupam estabelecem a lei para seus súditos e, notadamente, exercem o controle de sanções, isto é, a suposta capacidade de garantir a conformidade à lei [ii].

Diz-se ademais, e ainda equivocadamente, que, de essa noção de posições dotadas de soberania – ou noção de “poder” e sanções –, se deve concluir o seguinte: (a) – há sempre resistência a essas posições dotadas de soberania, cuja eficiência e legitimidade são precárias; (b) – o grupo dos que ocupam tais posições será supostamente o mais forte e a sociedade – assim supostamente regida pelo princípio de obediência – se mantém unida pelo exercício de sua força, isto é, pela coação. É a chamada “solução hobbesiana para o problema hobbesiano da ordem”.

Daí que o problema das desigualdades sociais torna-se derivado e se resume em estabelecer o elo perdido entre a sanção do comportamento individual e a desigualdade das posições sociais” [iii], “elo perdido” este que a filosofia social encontra como contido na noção de “norma social”, a saber: “as expectativas de papéis são apenas normas sociais concretizadas” ou “instituições”.

Diz-se, então, equivocadamente, que é útil reduzir a estratificação social à existência de normas sociais reforçadas por sanções, já que essa explicação demonstraria a “natureza derivativa” do problema das desigualdades [iv].

Por sua vez, ao invés de levar aos determinismos sociais, essa derivação teria a suposta vantagem de reconduzir a pressupostos tais como a existência de normas e a necessidade de sanções que “podem ser considerados como axiomáticos”, isto é, que dispensariam uma análise maior!

Com poucas palavras: porque há normas e porque as sanções são supostamente necessárias para impor conformidade à conduta humana (diferenciação avaliadora), tem que haver desigualdade de classes entre os homens.

Nota-se por essa “teoria da coação” (ou de “repressão”) que a variabilidade da estratificação fica absolutamente fora de cogitação na aplicação do paradigma de Hobbes, tornando consequentemente desprovida de valor ou sem aplicação metodológica alguma a discussão de “universais sociológicos” neste marco axiomático preferido pelos formalistas.

►Mas não é tudo. Será em conseqüência da teoria de papéis sociais decorrente dessa visão axiomática impositiva que certos autores formalistas serão questionados por promoverem a reificação [v] nas relações sociais e humanas.

Com efeito, diz-se que “todo o segmento de posição estabelece uma relação (necessária) entre o ocupante da posição e um ou mais grupos de referência”.

À continuidade, então, fica estabelecido “um conjunto de grupos de referência, cada um dos quais impõe ordens e é capaz de sancionar o comportamento da pessoa”, seja positivamente, seja negativamente.

Daí, “a questão da natureza da sociedade se transforma na questão de saber “como os grupos de referência formulam e sancionam as expectativas das posições que definem” [vi].

Pode-se ver que, sendo tomada separadamente dos Nós, e de todas as relações com outrem atuantes nesses Nós grupais, a indicada “relação necessária” surge como atributo impositivo do “segmento (geométrico) de posição”, revela-se uma força de imposição lógica e exteriorizada.

Será em razão dessa formulação conceitualista que, como se sabe, certos autores se verão na circunstância embaraçosa de esclarecer se os enunciados da suas teorias de papéis sociais seriam de molde a favorecer a reificação, haja vista que, nessas teorias formalistas, o indivíduo se personaliza na medida em que é constrangido a enquadrar-se nessa suposta “relação necessária (lógica)”, que lhe é imposta como um valor por força da objetivação conceitual do grupo vinculado ao segmento de posição [vii].

Tal é o método axiomático das teorias que buscam o “lugar” das desigualdades, isto é, aplicam e desenvolvem os paradigmas de localização, no caso, os esquemas de filosofia social tirada como disse de Thomas Hobbes (1588 —1679).

 

►Por contra, como se sabe é indevida a confiança que se tem no absoluto da localização porque, antes de constituir uma exigência propriamente epistemológica, essa localização encontra-se na base da linguagem como tal, sendo toda a sintaxe de “essência topológica”.

Há uma limitação das atribuições realísticas que pretendem empregar as palavras “posição” e “movimento” fora do terreno em que foram definidas ou onde esses termos são definíveis, isto é, nas equações de incerteza descobertas na Física Quântica e tornadas características de todo a atitude científica contemporânea nutrida da teoria da relatividade de Albert Einstein (1879 — 1955).

Neste ensaio levamos em conta a compreensão da revolução de Heisenberg [viii] que derruba por terra a objeção de que noções tão fundamentais como “posição e movimento” (velocidade) têm sentido universal.

Segundo Bachelar, as qualidades geométricas incluindo a posição e a velocidade não têm direito algum a serem chamadas qualidades primeiras.  Só há qualidades secundárias, uma vez que toda a qualidade é solidária de uma relação (de incerteza) que, junção das intuições contrárias, faz girar as duas intuições fundamentais: a corpuscular e a ondulatória [ix].

Desta forma, tendo em conta a aplicação em sociologia da dialética relativista complexa [x], elaboramos sobre o fato social comprovado de que, antes de se ligarem aos papéis sociais, as expectativas ligam-se ao esforço coletivo, incluindo-se neste último o histórico das iniciativas, dos projetos e métodos, das tentativas e das próprias realizações do grupo.

Resgatamos a afirmação espontânea do equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros, como foco da vida do Direito, que se inclui nas manifestações da sociabilidade e no consequente pluralismo social efetivo (a multiplicidade dos Nós e das relações com outrem é irredutível), como um dado empírico que derruba por terra os axiomas tirados da filosofia social de Hobbes.

O pluralismo social efetivo como “sistema de freios e contrapesos” [xi] se descreve a partir da constatação de que a realidade social é integrada. Isto significa que a afirmação espontânea do equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros é uma característica da realidade social dos Nós, como manifestações concretas da consciência coletiva ao nível da experiência humana [xii].

Ou seja, não há pólos heterogêneos na realidade que não sejam relativos, toda a polarização dos contrários, dos contraditórios ou até antagônicos revela-se dialética, intermediada ou interpenetrada. Por mais que sejam polarizadas as antinomias guardam um setor intermediado e não chegam a romper totalmente a reciprocidade de perspectiva, cuja exasperação constitui o limite mais extremado, para além do qual a realidade social se abisma.

Como dado empírico implicando procedimentos de verificação dos determinismos sociais, tais como as correlações funcionais e as integrações diretas nos conjuntos práticos [xiii] dentre outros recursos de método, a afirmação espontânea do equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros (espontânea porque não imposta) diferencia-se no conjunto dos psiquismos individuais e coletivos lá onde esses psiquismos transferem suas energias subjetivas para a realidade de conjunto, por efetividade do próprio conjunto prático, de tal sorte que a realidade social toda inteira vem a ser penetrada de aspiração aos valores (subjetividade coletiva).

Por efetividade desse determinismo de conjunto tem-se que a realidade social é integrada e se compreende a soberania social, isto é, a afirmação espontânea (espontânea porque não imposta) do mencionado equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros.

►Destas observações decorre que realidade social ex­clui o chamado “princípio de obediência à ordem”, que é caracte­rístico das consciências fechadas sobre si mesmas, intros­pectivas. O fato de que o mundo de realidade social ultra­passa qualquer imposição de condutas preestabelecidas constitui importante diferencial da sociologia, a quem re­pugna o paradigma da filosofia social de Thomas Hobbes (1588 – 1679), acolhido em especial pelos cientistas políti­cos, notadamente o falso postulado da natureza heterogê­nea, levando ao atomismo que fragmenta a realidade so­cial em uma poeira de indivíduos isolados (“o homem é o lobo do homem”), suportes de reflexos condicionados.

Todavia, não se pense que a exclusão do chamado “princípio de obediência à ordem” seja decorrente de um voluntarismo abstrato. Pelo contrário. Inicialmente é pre­ciso ter em conta o contexto histórico em que Émile Dur­kheim (1858 – 1917) desenvolverá seu conceito de “amor­fismo social” [xiv], isto é, a decadência não só do Es­tado, como pacto ou bloco de localidades (“instituições parlamentares”), mas também do Contrato que o representava como segurança jurídica para o indivíduo no final do século XIX.

Tal é o contexto privilegiado no curso da Segunda Re­volução Industrial iniciada na segunda metade do século XIX (desenvolvimentos dentro da indústria química, elé­trica, de petróleo e de aço), com destaque para os suces­sos do período datado de 1885 a 1914 (Paz Armada), quando o “neo-imperialismo” levou à contraposição da Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália), por um lado, e da “Tríplice Entente” (Rússia, França e Inglaterra), por outro lado.

Como se sabe, a significação sociológica de tal deca­dência do Estado está em que a mesma se faz em pro­veito do direito social autônomo, que impulsionará o desenvolvimento da estrutura de classes no começo do século XX. Quer dizer, em conseqüência da decadência do Estado, as relações coletivas produzirão sem a imposição estatal – isto é, em soberania social – os acordos, as con­venções e os contratos coletivos no mundo do trabalho e da produção industrial. Portanto, será neste sentido histó­rico-sociológico que a realidade social exclui como disse o chamado “princípio de obediência à ordem”.

Mas não é tudo. Tendo em conta as imanentes forças psicossociológicas de pressão e de atração, a integração no conjunto da realidade social ultrapassa qualquer força de imposição, qualquer força previamente definida que se imponha logicamente do exterior, ainda que chamada a distribuir prestígio e influência.

Embora tenha níveis objetivados, a realidade social não é um lugar, é mais do que simples extensão (res extensa) [xv], é realidade em ato, em vias de se fazer e se atualiza na multiplicidade dos quadros sociais cujo conjunto em sua não-determinação prévia não é, pois, reduzido à história das civilizações (embora participem das estruturas como elementos anestruturais, os quadros microssociológicos são não-históricos) [xvi].

Neste sentido, o realismo relativista sociológico é con­forme a dialética complexa de que, tendo em vista o pensamento probabilitário, comentou Gastón Ba­chelard ao sustentar que temos necessidade de mudar o real de lugar e que a função realista é cada vez mais móvel: as revoluções frutuosas do pensamento ci­entífico são crises que obrigam a uma “reclassificação profunda do realismo” [xvii].

Nos presentes artigos elaboro uma reflexão crítica às ori­entações centradas nas categorias de posição e movi­mento, visando dimensionar o alcance da mirada sociológica diferencial em face dos antigos paradigmas de locali­zação.

Rio de Janeiro, Janeiro de 2011

Jacob (J.) Lumier

 

Categorias: sociologia, psicologia coletiva, comunicação social, ensaios críticos, história, metodologia científica, análise e interpretação.

 

***

 

 

[i] Sobre o conceito de estrutura social e as hierarquias múltiplas vejam Nota Complementar no final deste livro.

[ii] Dahrendorf, Ralf (1929 – 2009): “Ensaios de Teoria da Sociedade”, Rio de Janeiro, Zahar – Edusp, 1974, 335 pp. (1ª edição em Inglês, Stanford, EUA, 1968). pp.141 a 173.

[iii] Ibidem, pág. 193

[iv] Ibidem, pág. 196

[v] A reificação da realidade social surge como a questão de saber até que ponto uma ordem institucional ou alguma parte dela é apreendida como uma faticidade não humana, ou inversamente, se o homem em certa organização ainda conserva a noção de que, embora objetivado, o mundo social foi feito pelos homens e, portanto, pode ser refeito por eles. Veja Berger, Peter e Luckmann, Thomas: “A Construção Social da Realidade: Tratado de Sociologia do Conhecimento”, Trad. Floriano Fernandes, Rio de Janeiro, Editora Vozes, 1978, 4ªedição, 247 pp. (1ª edição em Inglês, New York, 1966).

[vi] Dahrendorf, Ralf (1929 – 2009): “Ensaios de Teoria da Sociedade”, op. cit., págs. 62/63.

[vii] Ibidem, págs. 106/126

[viii] As equações de incerteza foram defendidas por Werner Karl Heisenberg (1901-1976) em 1927.

[ix] Bachelard, Gastón (1884 -1962): “Le nouvel esprit scientifique” (1934)

[x] Vejam os tópicos que se seguem, em especial “Os procedimentos Dialéticos do Hiperempirismo”.

[xi] Na mesma medida em que viabiliza a funcionalidade das políticas públicas como ação de integração social, será este equilíbrio dinâmico entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros que o sistema de freios e contrapesos como conceito de técnica constitucional visa configurar em sua aplicação ao pluralismo mais concreto dos agrupamentos particulares em suas disputas de interesses no âmbito da história parlamentar.

[xii] Vejam Gurvitch, Georges (1894-1965): “Dialectique et Sociologie”, Paris, Flammarion, 1962, 312 pp., col. Science.

[xiii] Como se verá adiante, os conjuntos práticos são não-inertes, não apenas lógi­cos, mas em alteração, cujas probabilidades admitem um fator imponderável levando a previsibilidade científica a admitir uma verificação a-posteriori.

[xiv] Émile Durkheim, Le suicide. Étude de sociologie (1897). Paris: Les Presses universitaires de France, 2 éme édition, 1973, 463 pp. Col: Bibliothèque de philoso­phie contemporaine. Cf: p. 421 segs.

[xv] Vejam as análises de Georges Gurvitch sobre as extensões ou amplitudes concretas em “Determinismos Sociais e Liberdade Humana”, Rio de Janeiro, Forense, 1968, 361 pp., traduzido da 2ª edição francesa de 1963. (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1955).

[xvi] Se a realidade social é frequentemente tida como um lugar ou uma localização é porque a apreensão original do mundo social é consideravelmente reificada. Veja Berger, Peter e Luckmann, Thomas: “A Construção Social da Realidade: tratado de sociologia do conhecimento”, trad. Floriano Fernandes, Rio de Janeiro, editora Vozes, 1978, 4ª edição, 247 pp. (1ª edição em Inglês, New York, 1966), págs. 124/132.

[xvii] Bachelard, Gaston (1884 -1962): “Le Nouvel Esprit Scientifique. Paris, PUF, 10e édition, 1968. Collection : Nouvelle encyclopédie philosophique, 181 pages./// O Novo Espírito Científico”, São Paulo, ed. Abril 1974, coleção “Os Pensadores”, vol.XXXVIII, pp.247 a 338 (1ª edição em Francês, Felix Alcan 1934). Cf. pág. 315.

A revolução do empirismo na base da atitude científica

 

Sumário

A Crítica do Pensamento Fechado. 2

A psicologia científica receptiva. 4

A experiência da probabilidade. 7

A revolução de Heisenberg. 12

 

 

No fundo, a pouca sensibilidade para com o realismo relativista sociológico não passa do que em sociologia se designa por “resistência à mudança social”.  A perspectiva de superação da dialética dogmática que está contida nessa orientação que vincula dialética e experiência põe em questão velhas crenças epistemológicas.

 

A Crítica do Pensamento Fechado

 

Para J. P. Sartre, em seu racionalismo original, a dialética hiperempírica desenvolvida por G. Gurvitch é tida como manifestação empírica em sentido restritivo ou particularista e, portanto, como não sendo dialética propriamente dita. Nesse raciocínio, uma vez que as condições da experiência passam por alterações, a dialética sociológica também se tornaria outra, o que, supostamente, se esta pretensão fosse cabível, invalidaria sua universalidade e lhe imprimiria um caráter transitório, tido arbitrariamente por indesejado.

A coisa não é bem assim. Não deve esquecer que um pensamento não se apreende no vazio, fora das particularidades. O posicionamento de Sartre, representativo dos intelectuais acorrentados à vertente hegeliano-marxista da dialética, pode ser reconhecido como “pensamento fechado”, obstáculo à “revolução relativista”, já que está fixado de antemão, e despreza qualquer consideração do “novo espírito científico”, o qual, como se sabe, está posto em obra na microfísica, na teoria quântica e na mecânica ondulatória, já antes dos anos de 1930.

Nesta perspectiva – e compreendendo a epistemologia “não coisista” correspondente à microfísica e a seu objeto elementar, como “não-sólido” – a retificação dos conceitos realizada pela Relatividade, como disposição da mentalidade científica do século XX, é a prova do incremento psicológico que faz avançar a história dinâmica do pensamento. No dizer de Bachelard: “é no momento em que um conceito muda de sentido que ele tem mais sentido”; é então “um acontecimento da conceptualização”.  Não se pode crer na permanência das formas racionais, na impossibilidade de um novo método do pensamento.  “O que faz a estrutura não é a acumulação; a massa dos conhecimentos imutáveis não tem a importância funcional que se supõe”.

Se o pensamento científico é uma objetivação, “deve-se concluir que as retificações e as extensões são dele as verdadeiras molas”.  “Ao realizar o “incremento psicológico”, o pensamento não-newtoniano absorve a mecânica clássica e dela se distingue; produz uma convicção que se prova como progresso” (cf. “O Novo Espírito Científico”, op.cit, p.274).

 

A psicologia científica receptiva

 

A perspectiva que marca “o alargamento do pensamento científico” é aquela que encontra “o real como um caso particular do possível”.  Antes de haver desenvolvimento das antigas doutrinas -no estudo das relações epistemológicas da ciência física contemporânea e da ciência newtoniana- há, muito antes, “o envolvimento dos antigos pensadores pelos novos, há encaixes sucessivos (ib.p.277)”.

Em seu comentário das análises de Werner Heisenberg, em que, considerando que “as duas imagens ‘corpúsculos e ondas’ não chegam verdadeiramente a se reunir” e que são instrutivas como “duas fontes de analogias”, Bachelard nos lembra como sabido que “todo estudo sobre relações que implicam a probabilidade exige uma visão de elementos muito numerosos”, visão essa que implica espaço rico em dimensões, que ele chama “espaços de configuração”, cujo número de dimensões ultrapassa o número três, característico do espaço intuitivo.

Esses espaços de configuração valem para dar “um esquema de um conjunto múltiplo”, já que são “quase naturais para os estudos da probabilidade” (ib.p.296).  Acresce, nesses últimos, que a “revolução do empirismo” operada pela mecânica ondulatória, leva a “tornar indireto o que era direto, a encontrar o mediato no imediato, o complexo no simples”.  Na expressão de Louis de BROGLIE, na mecânica ondulatória, “não se concebe mais o ponto material como uma entidade estática só interessando uma região ínfima do espaço, mas como o centro de um fenômeno periódico inteiramente espalhado a sua volta” (apud Bachelar, op. Cit, p.291).

O aspecto significante das análises e comentários de Bachelard que se aplica mais diretamente nos debates interessando o pensamento probabilitário em teoria sociológica, é a sua tese de que o novo espírito científico contradiz a maneira habitual de designar dogmaticamente as noções de base, as quais eram tidas -ou ainda o são- como sentenças que representam experiências e valem como os então chamados “registros ou protocolos de laboratório”, isto é, os enunciados cujo valor científico está em poderem ser testados por observação.

Bachelard nos mostra que as noções iniciais devem ser solidarizadas numa definição orgânica, ligadas a casos complexos.  Quer dizer, há uma correlação essencial das noções.   Mais e mais se impõe, por exemplo, a reciprocidade entre a noção de força e a noção de energia.  Na teoria quântica, nada de absoluto sustenta a ideia de força, ela não é aqui a noção primitiva.

A explicação científica tende a colher, em sua base, elementos complexos e a não construir senão sobre elementos condicionais, a simplicidade só é admitida a título provisório e para funções bem especificadas. Essa preocupação em preservar aberto o corpo de explicação é característica de uma psicologia científica receptiva, guardando uma espécie de dúvida recorrente aberta para o passado de conhecimentos certos (teme-se sempre que um postulado possa sutilmente se ajuntar à ciência e desdobrá-la).

Cientificamente, pensa-se o verdadeiro como retificação histórica de um longo erro; pensa-se a experiência como retificação da ilusão comum e primeira (ib.p.334). Sem dúvida, essas proposições de Bachelard apoiam-se em sua análise do problema do determinismo, isto é, a análise crítica da confusão constante do determinismo e da causalidade, bem como do conflito entre o determinismo e o indeterminismo (cf.ib.pp.302 a 312).

 

A experiência da probabilidade

 

Nessa análise notamos a noção de determinismo topológico, que corresponde a ligações funcionais e que opera no vir a ser sobre conjuntos gerais, sendo a partir dessa noção que se esclarece a confusão do determinismo e da causalidade e, a partir desse esclarecimento, por sua vez, fica aberta a questão do conflito entre determinismo e indeterminismo.  Tal a sequência da análise psicopedagógica (termo do próprio Bachelard) aplicada aos os conceitos fundamentais da epistemologia.

Com efeito, esse determinismo das ligações funcionais serve a Bachelard para pôr em foco da sua análise a compreensão de que a correspondência dos fenômenos costuma ser e pode ser pensada, ou tomada em consideração metodológica, sem que as variações dessa correspondência, “todas as variações”, sejam devidamente medidas pelo cientista.  “É na correspondência de sinal a sinal que o cientista encontra as lições primeiras do determinismo (e não na ligação de numero a número) ”. Ou seja, essas ligações funcionais são de ordem qualitativa, assimilando o caráter muito mais geral da causalidade em relação ao determinismo como previsão, que é de ordem quantitativa (da causa ao efeito há uma ligação que, até certo ponto, subsiste a despeito das desfigurações parciais da causa e do efeito).           Além das verificações métricas, muitas vezes dispersadas, há, portanto, lugar para as verificações do determinismo topológico, o qual nos mostra que um fenômeno não se desfigura numa ligeira variação dos seus traços, não se encaixa no indeterminismo senão parcialmente.

A posse dessa compreensão permite a Bachelard estudar a “psicologia do indeterminismo”, partindo do pensamento probabilitário até chegar às consequências do princípio de Heisenberg, levando à concepção de um método de individuação, em que os objetos de uma lei estatística se distinguem por sua pertinência a certo grupo, superando os termos contraditórios em que, nas probabilidades estatísticas, uma propriedade é afirmada de uma classe de objetos e negada aos objetos considerados separadamente.

Para Bachelard, quem fala de indeterminismo fala de comportamentos imprevisíveis ou imponderáveis; fala do desconhecimento sobre o tempo em que se efetuam os fenômenos de choque; fala da enorme pluralidade desses fenômenos (originariamente estudados na teoria cinética dos gases), revelando uma espécie de fenômeno geral pulverizado, onde os fenômenos elementares são estritamente independentes uns dos outros. Ora, é justamente aí que pode intervir o cálculo das probabilidades, como fundamentado na independência absoluta dos elementos (em sociologia essa independência é característica dos fenômenos sociais totais, que são completos e soberanos[Gurvitch]).

É essa independência dos elementos que define a linha de conceitos que, acima do indeterminismo de base, entronizou a probabilidade no pensamento científico, com seu componente especulativo, sua disposição em correr o risco de fracassar para realizar a obra do conhecimento.  Ou seja, se houvesse a menor dependência, haveria uma perturbação na informação probabilitária, e seria preciso um esforço sempre difícil para levar em conta uma interferência entre ligações de dependência real e as leis de estrita probabilidade.             Segundo Bachelard, foi em assimilar essa noção das leis do acaso, as ligações probabilitárias dos fenômenos sem ligação real, de que se ocupou o pensamento científico contemporâneo, caracterizado por uma multiplicidade nas hipóteses de base, nas hipóteses em que métodos estatísticos diferentes têm uma eficácia limitada (Bachelard nos lembra como contraditórios, mas prestantes em diferentes partes da física, os princípios da estatística de Bose-Einstein, por um lado, e por outro lado, os da estatística de Fermi).

Desse modo, “o positivismo do provável”, no dizer de Bachelard, é bastante difícil de situar entre “o positivismo da experiência” e “o positivismo da razão”.  Para esse autor, ainda que “a fenomenologia probabilitária” mostre as qualidades se exprimindo umas pelas outras e mesmo supondo uma base mecânica na teoria científica, a verdadeira força explicativa reside na composição das probabilidades.

Quer dizer, é preciso sempre vir a aceitar a experiência da probabilidade, mesmo que a probabilidade se apoie sobre a ignorância das causas.  Há uma grande diferença em dizer que um elétron está em qualquer parte no espaço, mas não sei onde, não posso saber onde, e dizer que todo o ponto é um lugar igualmente provável para o elétron. Esta última afirmação contém, além da primeira, a garantia de que, se executo um número muito grande de observações, os resultados serão distribuídos regularmente em todo o espaço. Tal o caráter todo positivo do conhecimento provável.

Além disso, que o provável tampouco é assimilável ao irreal, nos mostra a noção de uma “causalidade provável”: o acontecimento que possui a maior probabilidade matemática acontecerá na natureza com frequência maior correspondente.  O tempo se encarrega de realizar o provável, tornar efetiva a probabilidade. 

E Bachelard vai mais longe ainda: “que haja coincidência entre a probabilidade medida, é talvez a prova mais delicada, mais sutil, mais convincente da permeabilidade da natureza à razão”. Quer dizer, a realidade auxiliada pela duração acaba sempre por incorporar o provável ao ser.

 

A revolução de Heisenberg

 

Seja como for, “as formas prováveis, os objetos dotados de qualidades hierárquicas que a ciência moderna nos habituou a manejar, não têm uma permanência absoluta”. Daí que, prossegue Bachelard, “o caminho do nosso aprendizado com a física atual nos leve mais além da ‘física dos sólidos’ e nos alimente pela instrução que poderíamos receber dos fluidos, das massas, dos aglomerados”.

Será nesse caminho que Bachelard entende situar-se com sua análise um nível acima do in-determinismo de base e, por essa via, nos levar à compreensão psicopedagógica do determinismo topológico dos procedimentos gerais, que aceita ao mesmo tempo as flutuações e as probabilidades.

Com efeito, os fenômenos tomados em sua “indeterminação elementar” podem, portanto, ser compostos pela probabilidade e desse modo assumir “figuras de conjunto”, sendo sobre essas figuras que atua a causalidade, como ligação qualitativa subsistente. A partir deste ponto, a análise que se lê na obra de Bachelard pauta-se sobre a apreciação dos postulados de Reichenbach (“La Philosophie Scientifique”, 1932), quem tivera indicado as “relações exatas” da ideia de causa e da ideia de probabilidade, a partir da compreensão de que, nas leis deterministas ou predicíveis, estamos na impossibilidade de levar em conta todos os fatores variáveis que intervenham; se, contudo, podemos fazer excelentes previsões, devemo-lo à noção de probabilidade, que exprime uma lei para os fatores não considerados no cálculo.

Em resumo: pode haver convergência da experiência com o determinismo (admitindo-se em pensamento todas as condições variáveis do fenômeno), mas “definir o determinismo de outro modo que como uma perspectiva convergente de probabilidade é cometer um erro insigne”. Neste ponto, Bachelard elabora, em sua obra, sobre a assertiva de Reinchenbach, segundo a qual “coisa alguma prova a-priori que a probabilidade de toda a espécie de fenômeno tenha necessariamente uma convergência com a unidade, isto é: corrobore previamente o determinismo”. Daí que as leis causais podem ser reduzidas a leis estatísticas; ou que pode haver leis estatísticas sem convergência causal, as quais dariam lugar a uma física não-causal, em que pontifica Heisenberg.

Segundo Bachelard, “a revolução de Heisenberg” –afastada a negação dogmática das teses do determinismo clássico- tende a estabelecer uma “indeterminação objetiva”, superando a independência com que os erros sobre “as variáveis independentes” eram tratados: com o princípio de incerteza se trata de uma correção objetiva dos erros. Ou seja, para encontrar o lugar de um elétron é preciso iluminá-lo mediante um fóton.  O encontro do fóton e do elétron modifica o lugar do elétron e, além disso, modifica a frequência do fóton, de tal sorte que, em microfísica, não há método de observação sem a ação dos procedimentos do método sobre o objeto observado.

Há, pois, uma interferência do método e do objeto que Bachelard qualifica “interferência essencial”, corroborando sua compreensão do determinismo topológico dos procedimentos gerais. Neste ponto, Bachelard enfoca como decorrência a “limitação das atribuições realísticas”, as quais pretendem empregar as palavras “posição” e “velocidade” fora do terreno em que foram definidas ou onde são definíveis (pelas relações de incerteza).

É nos dito que, desde a revolução de Heisenberg, a objeção de que noções tão fundamentais têm sentido universal, já não procedem.  As qualidades geométricas, incluindo a posição e a velocidade, não têm direito algum a ser chamadas qualidades primeiras.  Só há qualidades secundárias, uma vez que toda a qualidade é solidária de uma relação (de incerteza) que faz girar as duas intuições fundamentais: a corpuscular e a ondulatória, com o domínio da física atômica apresentando-se como “o lugar de junção das intuições contrárias”.

Nota ainda Bachelard, seguindo a Heisenberg, que a pretensão das atribuições realísticas no domínio epistemológico, a favor de tratar as noções fundamentais como noções universais, nutre-se na “confiança indevida que temos no absoluto da localização”.  Confiança indevida porque essa localização, antes de constituir uma exigência propriamente epistemológica, encontra-se na base da linguagem como tal, sendo toda sintaxe de “essência topológica”.  Ou seja, é uma expressão do “pensamento falado”, sendo contra esses arroubos que deve reagir o pensamento científico.

Assim o emprego do termo “na realidade”, que revela essa confiança indevida no absoluto da localização, aparece a Bachelard como uma “desinteligência da designação objetiva”, já que a comunicação se refere a um grupo de átomos, de tal sorte que é preciso falar de uma “realidade coletiva”. Com efeito, o procedimento pelo qual cada objeto individual (cada sólido) era conhecido por sua localização no espaço e no tempo limitava esse objeto, que só podia ser objeto de uma lei mecânica, já que era concebido como entidade separa e distinta: é a individuação mecânica.

Os objetos de uma lei estatística, pelo contrário, podem ser dados por um método de individuação inteiramente diferente, no qual as qualidades individuais se definem por integração no conjunto. Seu único traço distintivo pode ser sua pertinência a certo grupo.  Só se distinguem dos objetos exteriores a seu grupo, não se distinguem dos objetos interiores.  A lei estatística é estabelecida na suposição de que um membro do grupo é tão apropriado quanto qualquer outro para satisfazer certas condições. O indivíduo se encontra por definição como membro do grupo.

E Bachelard conclui que, no domínio epistemológico, é preciso substituir ao artigo definido o artigo in-definido e limitar-se a uma compreensão finita no objeto elementar, em relação precisamente à sua extensão bem definida (por integração no conjunto).  Atinge-se o real por sua pertinência a uma classe. É ao nível da classe ou grupo do objeto que é preciso procurar as propriedades do real. Tal é a interpretação da “perda súbita da individualidade no objeto elementar”, observada na nova física do século XX por Langevin e Plank.

Por sua vez, Bachelard prossegue, nos dizendo que Marcel Boll assinala a importância da perda súbita da individualidade no objeto elementar, com os seguintes termos: “Da mesma forma em que o conceito antropomórfico de força foi eliminado pela relatividade einsteiniana, assim é preciso renunciar à noção de objeto, de coisa, pelo menos num estudo do mundo da física atômica.

A individualidade é um apanágio da complexidade, e um corpúsculo isolado é simples demais para ser dotado de individualidade. Essa orientação da ciência atual em contraste com a noção de ‘coisa’ parece ajustar-se não somente à mecânica ondulatória, mas também às novas estatísticas, e ainda à teoria do campo unitário (Einstein), que se esforça para sintetizar a gravitação e o eletromagnetismo” (cf.Boll, Marcel: “L’ Idée Génerale de la Mécanique Ondulatoire et de ses Premiéres Explications”, 1923, p.23; apud Bachelard, op.cit., p.312).

Para concluir, temos então que, na obra de Bachelard, é a própria função realista que a ciência põe em questão. “O produto instrumental” (elétron, campo, corrente, etc.) é inscrito como sujeito lógico e não mais substancial do pensamento científico. Os traços substanciais que sobram são traços a apagar; indicam um realismo ingênuo a reabsorver. Assim há um realismo persistente que é característica essencial do pensamento humano.

Mas há também o fato de que nos esforçamos para sublimar nossas noções realistas. Segundo Bachelard, “temos necessidade de mudar o real de lugar”. É o que ocorre na ciência atual.  A função realista deveria ter mais do que qualquer outra a estabilidade; a explicação substancialista deveria conservar a permanência; todavia, a função realista é cada vez mais móvel; uma mudança bem escolhida do sistema de referência suprime a gravitação, confirmando que as revoluções frutuosas do pensamento científico são crises que obrigam a uma “reclassificação profunda do realismo” (ib.p.315).

 

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