A Presença Da Classe Burguesa No Saber

 

Notas para a Sociologia do Conhecimento Científico e do Filosófico [i].

Sumário

A Presença Da Classe Burguesa No Saber. 1

O Coeficiente Social Do Conhecimento.. 1

A História E A Sociologia. 2

A Filosofia E A Ciência. 3

Os Papéis Sociais Da Classe Burguesa. 3

A Consciência De Classe Otimista Da Burguesia. 4

 

 

Em todo o conhecimento científico interferem os coeficientes sociais do conhecimento, precipitando as variações do saber em função dos quadros sociais, variações tanto mais fortes quanto maior seja o desenvolvimento do próprio conhecimento científico.

 

Em relação ao conhecimento científico, a análise sociológica enfatiza o equívoco das pretensões da ciência em ser desvinculada dos quadros sociais.

 

 

O Coeficiente Social Do Conhecimento

Como sabido, o conhecimento científico parte de quadros operativos essencialmente construídos, justificados pelos resultados conseguidos, que chamam a uma verificação experimental.

A ciência busca a união do conceitual e do empírico e, se cultiva a pretensão de ser desvinculada será, talvez, porque é uma classe de conhecimento que tende ao desinteresse, ao “nem rir nem chorar” de Spinoza, ao aberto, à acumulação, à organização e ao equilíbrio.

Observa que o conhecimento científico ocupou um lugar predominante no sistema do conhecimento somente nas estruturas capitalistas, particularmente nas estruturas do capitalismo competitivo.

Aliás, é nas sociedades industriais que o conhecimento científico entrou em competição com o conhecimento filosófico e o ultrapassou.

Nota-se igualmente que em todo o conhecimento científico intervêm os coeficientes sociais do conhecimento, precipitando as variações do saber em função dos quadros sociais, variações tanto mais fortes quanto maior seja o desenvolvimento do próprio conhecimento científico.

Na apreciação desta situação, se observa inicialmente que a intervenção dos coeficientes sociais do conhecimento nas ciências exatas e nas ciências da natureza pode ser analisada sob as quatro linhas seguintes:

Primeiro: o coeficiente social do conhecimento intervém através da experiência e da experimentação, que são sempre essencialmente humanas e não apenas lógicas, e sofrem a influência do humano;

Segundo: o coeficiente social do conhecimento intervém também através da conceituação, a qual, geralmente, está avançada em face da experimentação. Quer dizer, toda a hipótese nova traz a marca da estrutura da sociedade em que se elaborou, como, aliás, já nos esclareceu C. Wright Mills [ii].

Ademais, a respeito do fato de que o coeficiente social do conhecimento intervém, igualmente, através da conceituação, acrescenta como exemplos significativos o seguinte:

(a) – a correspondência ideológica entre o darwinismo e a concorrência, tomada esta última como princípio em ação na sociedade da época;

(b) – em maneira menos evidente que a anterior, e em estado inconsciente, observa-se a correspondência entre as incertezas na microfísica e os limites à capacidade de controle que a mesma faz aparecer, e que provêm da energia atômica, como fator de explosão das estruturas sociais globais.

Terceiro:

O coeficiente social do conhecimento intervém através da importância das organizações privadas e públicas no planejamento da pesquisa científica, importância esta que é muito notada. Assim, na época da energia atômica e da eletrônica, a pesquisa exige laboratórios ou organismos de investigação e experimentação em muito vasta envergadura, com extensão internacional.

Quarto:

Os coeficientes sociais do conhecimento intervêm através da vinculação que se estabelece entre as ciências e a realidade social.  Ou seja, independentemente do fato de que a realidade social tanto pode dominar as ciências, por efeito das forças de produção nas quais as ciências se integram, quanto pode ser dominada por elas, os conhecimentos científicos exigem os meios adequados para a difusão dos seus resultados, estando entre estes meios de difusão o ensino, a vulgarização, as edições de bolso, o rádio ou a televisão.

A História E A Sociologia

No que concerne à história e à sociologia, menos comprometidas e menos ideológicas que as outras ciências do homem, voltadas estas últimas que são para sistematizar em vista de metas práticas, sustentam que as primeiras não podem liberar-se de certos coeficientes ideológicos.

Na história e na sociologia, os coeficientes sociais do conhecimento intervêm a duplo título:

(a) – em vinculação com a organização crescente da pesquisa e com a constituição cada vez mais relativista do aparato conceitual operativo;

(b) – em vinculação com o tema mesmo a estudar – os temas coletivos reais -, pois as sociedades, as classes, os grupos, os Nós-outros estão em movimento dialético e são penetrados de significados humanos.

Desta forma, a sociologia do conhecimento que é capaz de pôr em evidência os coeficientes sociais, e, desse modo, diminuir a sua importância, torna-se duplamente solicitada neste campo, alcançando a sociologia da sociologia.

A Filosofia E A Ciência

Quanto à sociologia do conhecimento filosófico, nota que a filosofia e a ciência possuem um umbral metodológico comum que é a purificação prévia, a dura prova, o ordálio do hiperempirismo dialético [iii] que libera tanto a ciência quanto a filosofia de todo o pré-conceito ou pré-judicação e provoca a demolição de todo o quadro conceitual operativo mumificado.

Entretanto, a dialética do hiperempirismo torna a sociologia da filosofia mais difícil do que a sociologia do conhecimento científico, já que prudência maior é exigida diante do fato de que se trata da cristalização em doutrinas e escolas filosóficas, que ressurgem a cem ou a mil anos de distância, e em tipos de sociedades completamente diferentes. Nada obstante, a reinterpretação dessas doutrinas e a modificação de seu sentido podem evidentemente conceber-se em uma perspectiva sociológica.

Quanto à análise das variações hierárquicas das classes do conhecimento em função dos tipos de sociedades, tem-se que o conhecimento filosófico só ocupou o primeiro lugar na cidade antiga, por um lado e, por outro lado, nas sociedades dos primórdios do capitalismo, onde está na base do “século das luzes”.  Em nossa época, a filosofia se encontra suplantada pelo conhecimento técnico e pelo conhecimento político.

No conhecimento filosófico, que é favorecido pela classe burguesa, nota-se a combinação de racionalismo e de voluntarismo em Descartes, de racionalismo e empirismo em Bacon, e as filosofias do Século das Luzes como marcas indiscutíveis da classe burguesa.

Neste ponto, duas posições gurvitchianas datadas dos anos 60 são a destacar: primeiro: que ainda não teria chegado o tempo de empreender com proveito o estudo aprofundado da sociologia das doutrinas filosóficas; segundo: que a maioria das doutrinas filosóficas elaboradas desde os fins do século XIX e aos começos do século XX já não têm sinais de relações diretas com a classe burguesa.

 

Os Papéis Sociais Da Classe Burguesa

Em relação à classe burguesa, como quadro social do conhecimento, nota-se, inicialmente, uma série de papéis desempenhados segundo as conjunturas particulares e as épocas: (a) papel de vanguarda revolucionária, primeiro; (b) papel de classe moderadora e conciliadora, por etapas; (c) de classe conservadora ou reacionária, mais tarde; e, (d) no início dos anos de 1960, em que temia as revoluções sociais, o papel de “classe fascistizante”, com diferentes matizes.

A análise sociológica explica essa série de papéis sociais por um conjunto de critérios que, todavia, considera insuficientes, a saber: (a) a propriedade dos meios de produção, (b) a propriedade das fontes de matérias primas e de capitais financeiros, a que se soma como elementos constitutivos da classe burguesa, (c) a tendência à dominação dos mercados interiores, coloniais, internacionais ou dos “mercados comuns”.

É preciso levar em conta que a classe burguesa se abriu muito a todos os grupos prósperos, trazendo para junto do patronato os magnatas das altas finanças e do comércio de envergadura, as profissões liberais, os altos funcionários da burocracia administrativa e técnica das empresas industriais, dos bancos, dos trustes e cartéis, por fim.  Tal é o conjunto de frações que desempenham papel predominante na vida da burguesia sob o regime do capitalismo organizado e dirigista.

A Consciência De Classe Otimista Da Burguesia

A análise sociológica remarca a distinção de uma consciência de classe otimista da burguesia, observada em períodos anteriores à sua degenerescência no capitalismo dirigista da primeira parte do século XX, isto é, uma consciência caracterizada pela confiança em um progresso técnico e econômico ilimitado; pela confiança na harmonia dos interesses de todos, na universalidade dos benefícios do capitalismo e da civilização urbana.

De início, a análise sociológica faz notar a tendência para a interpenetração e para a equivalência dos conhecimentos científico, técnico e perceptivo do mundo exterior, o que se compreende se observarmos o seguinte:

1) – foi o advento da burguesia o que fez progressarem as ciências, com as ciências da natureza e as ciências exatas em primeiro lugar, e o fez tanto diretamente quanto pela intermediação do Estado e seus estabelecimentos de ensino;

2) – é a burguesia que, dominando o Estado, lhe impôs a quantificação mais forte e mais eficaz das amplitudes e dos tempos, levando ao pé da letra a máxima de que “tempo é dinheiro”, notando-se, entre parêntesis, que essa quantificação serviu de laço entre o conhecimento perceptivo do mundo exterior e o conhecimento científico, com tendência para unificá-los;

3) – a chegada ao poder da classe burguesa no século XVIII trouxe, como mudança em permanência alcançando o interior das estruturas, o fato de que a sociedade industrial passa a experimentar uma união entre conhecimento científico da natureza e o conhecimento técnico.

Até então, antes da chegada ao poder da burguesia, com a sociedade industrial ainda em seus começos no século XVII, nota-se que essa mesma sociedade se inclinava para desenvolver-se fora das ciências, diretamente nas fábricas e nas práticas de trabalho que elas suscitavam.

Por sua vez, a mudança levando à união do científico e do técnico é comprovada pela seguinte análise sociológica:

3.1) – no momento inicial, o saber burguês situa o mundo exterior nas amplitudes prospectivas, as que “localizam adiante”, notando-se uma correspondência entre estas e os interesses imediatos dos empresários, referidos sobretudo à expansão econômica e à evolução técnica [iv] [Ver Notas Complementares].

3.2) – ocorre que a qualidade prospectiva das amplitudes é impossível sem a intervenção dos meios técnicos e, por sua vez, esses meios técnicos não podem evoluir com a rapidez suficiente sem a ajuda do conhecimento científico;

3.3) – Desta forma, se afirma a tendência para a união de ciência e técnica.

Quer dizer, (a) – o conhecimento perceptivo do mundo exterior produzido pela classe burguesa, ao situar o mundo sempre para adiante, acentuou o fato da mudança social em permanência e, (b) – posto que isto terminou por corresponder às perspectivas da expansão econômica e da evolução da técnica, podemos (c) – confirmar a maneira pela qual as amplitudes prospectivas e projetivas do saber burguês tiveram a ver (c1) – com a conquista de novos mercados, notadamente os coloniais;  (c2) – com a busca de mão de obra  e das riquezas naturais , tais como os minerais, o petróleo, o carvão, etc.; e, finalmente, (c3) – com a colocação nova dos capitais e com as organizações industriais nacionais e internacionais, incluindo os trustes e cartéis.   4) – Acresce que nesse conhecimento do mundo exterior próprio da classe burguesa, as amplitudes e os tempos se orientam no mesmo sentido, e são medidos com os mesmos padrões quantitativos do “tempo é dinheiro”: 4.1) – as amplitudes se afrouxam e se ajustam sem dificuldade graças à intervenção dos meios de comunicação; qualidade essa que, 4.2) – se combina aos tempos identificados à circulação dos capitais e aos investimentos, ao ciclo da produtividade das empresas, à duração do trabalho e do comércio. 5) – Com a decadência da classe burguesa desde o final do século XIX enfrentando mais forte resistência da classe proletária, crises econômicas mais graves, guerras de descolonização, advento dos regimes coletivistas a partir das revoluções sociais, o conhecimento do mundo exterior mostra que este mundo passa a estar imbricado em amplitudes e tempos mais egocêntricos e agitados, que não se submetem às medidas quantitativas e são refratárias aos estudos científicos ou às soluções técnicas.

6) – Assim se chega ao conhecimento que a classe burguesa tem do exterior na segunda metade do século XX, em que: a) – as amplitudes difusas resultam das incertezas ligadas à sorte das estruturas sociais de tipo capitalista; b) – as amplitudes concêntricas e projetivas são relativas à inclusão nos blocos internacionais, em conflito ou em concorrência pacífica.

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Notas

[i] Comentário sobre os resultados da pesquisa de Georges Gurvitch (1894-1965) divulgados em: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, op. cit.

[ii] Wright Mills, C.: ‘Consecuencias Metodológicas De La Sociología Del Conocimiento’, in Horowitz, I.L. (organizador): ‘Historia Y Elementos De La Sociología Del Conocimiento – Tomo I’, artigo extraído de Wright Mills, C. : ‘Power, Politcs And People’, New York, Oxford University Press, 1963 ; tradução Noemi Rosenblat, Buenos Aires, Eudeba, 3ªedição, 1974, pp.143 a 156.

[iii] Cf.Gurvitch, Georges (1894-1965): “Dialectique et Sociologie”, Flammarion, Paris 1962, 312 pp., Col. Science.

[iv] Veja do autor desta página  “A Sociologia dos Sistemas Cognitivos“, http://www.bubok.es/libros/251124/A-Sociologia-dos-Sistemas-Cognitivos (versão PDF grátis).

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Os níveis da consciência alienada

Leiturasociologica's Weblog

PSICOLOGIA COLETIVA E SOCIOLOGIA:

Os níveis da consciência alienada na

teoria do fetichismo da mercadoria em Karl Marx

por

Jacob (J.) Lumier

Extraído de “Sociologia dos Sistems Cognitivos” (a ser divulgado em breve).

Neste artigo quero pôr em relevo que o ponto de vista da sociologia é indispensável para ultrapassar o dogmatismo que se projeta sobre a suposta redução do psiquismo coletivo à consciência de classe.

A psicologia coletiva em sua vinculação à sociologia pode ser bem assinalada nas análises que levam ao desocultamento da consciência alienada como fenômeno sociológico descoberto por Karl Marx.

Como se sabe, no“Rascunho da Contribuição à Crítica da Economia Política” (“Grundrisse..”) Marx elabora sobre o problema da consciência alienada em revolta epistemológica não só contra Hegel, mas contra a Economia Política.

Dois níveis são nitidamente distinguidos nessa elaboração de tal sorte que o aspecto propriamente sociológico da consciência alienada vai surgindo…

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PERSPECTIVA HIERÁRQUICA E INDIVIDUAÇÃO: Linhas mínimas sobre Kafka, Proust e a psicanálise na Crítica da Cultura de Theodor W. Adorno.

PERSPECTIVA HIERÁRQUICA E INDIVIDUAÇÃO:

Linhas mínimas sobre Kafka, Proust e a psicanálise

na Crítica da Cultura de Theodor W. Adorno.

Por

Jacob (J.) Lumier


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Neste artigo podemos ver alguns aspectos do enraizamento das hierarquias de prestígio e receio como complexos culturais onde a experiência de atribuir significações baseia-se mais nos gestos e condutas antes que em conceitos.

Podemos ver também que a esses complexos culturais corresponde uma individuação e uma cultura como meras aparências.

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Há uma interconexão metapsicológica na leitura dos romances de Proust assinalada em referência da segunda parte de “Le Temps Retrouvée”, lá onde prevalece o valor da notoriedade impulsionando a relação de prestígio dos frequentadores proustianos dos Salões parisienses, nos anos que precederam a década de Vinte.

Sobre essa referência, os autores afeitos à sociologia da vertente psicanalítica observam o que Theodor W. Adorno classificou de “um decisivo complexo”, designando o esnobismo como vontade de superar ou tornar sem importância o medo do tabu mediante o ingresso entre os iniciados (T.W.: “Prismas”, tradução Manuel Sacristán, Barcelona, Arial, 1962.).

Nas observações deste autor, por sua vez, será com referência à percepção desse “decisivo complexo” que se pode constatar não só a aproximação de Kafka a Proust, mas um certo paralelismo entre, por um lado, estes dois grandes artistas-escritores, através notadamente do primeiro, e por outro lado o pensamento de Freud na obra “Totem e Tabu”.

Com efeito, T.W. Adorno sustentará a aplicação da noção de tabu de um rei tirada de Freud como imprescindível para compreender aquilo que em Kafka move aos homens para unirem-se com outros mais altos.

Sua análise é suscitada pela questão de como chegar à interpretação do cosmos de Kafka e seu ponto de partida é a hipótese sobre o estatuto da linguagem nas obras deste, marcadas pela inversão da relação conceito/gesto, em que os gestos são resíduos, são os restos das experiências recobertas pelo significar: o gesto é “o assim é”, enquanto a língua “cuja configuração deve ser a verdade”, estando quebrada, é a não-verdade.

Deste ponto de vista em que o gesto prevalece sobre a língua tem lugar a abordagem etnológica, levando à aplicação da noção de tabu de um rei como a lógica da perspectiva hierárquica em psicanálise que se verifica no esnobismo proustiano, tomado como complexo, e em Kafka.

T.W. Adorno destaca a observação de Freud sobre a distribuição das pequenas diferenças de força mágica do tabu que fazem invejar e que são menos temíveis que as grandes diferenças, sendo por esta forma que a hierarquia do tabu se estabelece, ou melhor, a hierarquia do medo do tabu de um rei.

Assim o súdito que teme a grandiosa tentação do contato com o rei – o tabu deste é demasiado forte para o súdito por ser demasiado grande a diferença social entre ambos – pode suportar o rodeio através de um mediador próximo ao rei, tal como um ministro, ao qual não se sente movido a invejar tanto, configurando-se a hierarquia na medida em que o ministro, por sua parte, pode mitigar sua própria inveja do rei considerando o poder que ele próprio detém.

Mas não é tudo. Para caracterizar a orientação artística de Kafka em sua ligação com a psicanálise, T.W. Adorno nos oferece suas observações mais sociológicas sobre a atitude de Kafka em face do sofrimento, tomado este como estando cada vez mais submetido aos controles racionais do mundo da comunicação social. 

De início, comparando com a orientação de Freud em que a psicanálise é voltada para “o desmascaramento do mundo aparencial”, tendo em vista as entidades psíquicas como os atos falhos, os sonhos e os sintomas neuróticos – lembrando que dentre estes últimos se incluem os que acometem ao herói “K” ao crer que os vizinhos o estão observando desde as janelas ou ao ouvir ao telefone sua própria voz cantarolando – T.W. Adorno põe em relevo que em Kafka tais entidades psíquicas são tomadas como “o lixo da realidade”, os produtos do desperdício separados da sociedade evanescente pelo novo que se forma: tal o material único tomado por Kafka ao produzir sua arte. 

Quer dizer, como em toda a grande arte, a arte de Kafka “domina a ascese diante do futuro” sem esboçar todavia a imagem da sociedade nascente, mas “a monta com os produtos do desperdício”.

Em vez de sanar a neurose, “Kafka busca nela mesma a força salvadora que é a do conhecimento”; “as feridas que a sociedade ocasiona ao indivíduo são lidas por este como cifras da não-verdade social, como negativo da verdade. Sua potência é potência da decomposição”.

Ao desmantelar a decomposição arrancando pelo trato das entidades psíquicas a máscara conciliatória como auto-afirmação da consciência-controle que recobre o desmesurado sofrimento submetido aos controles racionais da civilização da maquinaria e da comunicação, “o artista não se limita como o faz a Psicologia a ficar junto ao sujeito, mas penetra até o meramente existente detectado no fundo subjetivo com a caída da consciência ao perder toda a auto-afirmação”.

Neste ponto, T.W. Adorno sugere a aplicação da abordagem de Kafka como exemplar à literatura que interpela a individuação burguesa, incluindo Proust e Joyce.

Quer dizer, com a arte de Kafka trata-se de subtrair a psicanálise não para ficar junto ao sujeito da Psicologia, mas para confrontar o especificamente psicológico notado na concepção que “faz derivar o indivíduo a partir de impulsos amorfos e difusos”, isto é faz derivar o Eu do Id (Isto) convertendo a pessoa de entidade substancial, de ser em vigência do anímico, em “mero princípio de organização de impulsos somáticos”, engenho.

A via artística de Kafka como atitude ante o sofrimento seria voltada para reinventar a psicanálise, tratando a esta em uma série experimental em vista de verificar o que aconteceria se as asserções da mesma “fossem certas não metafórica e mentalmente, mas sim materialmente”, tomando-a mais ao pé da letra que a própria psicanálise, mas, desta forma, pecando contra a sua regra de simples desmascaramento do mundo aparencial, desmascaramento pelo qual a psicanálise “prova à cultura e à individuação burguesa sua mera aparência”.

Desta constatação de que a arte de Kafka infringe o traçado da psicanálise para o desmascaramento, T.W. Adorno equipara nessa arte a caída da consciência uma vez desprovida de auto-afirmação à caída do sujeito como engenho, lembrando a imagem de mônada leibntziana fechada, sem janelas, mas tomando-a como o foco irradiador da narrativa de Kafka ou, no dizer mesmo de Adorno: “a mônada sem janelas prova ser lanterna mágica, mãe de todas as imagens, como em Proust e em Joyce”.

Acresce que, coerente com essa interpretação do foco da narrativa por monólogos irradiando-se de uma consciência-mônada, no cerne da individuação burguesa, posto o pecado contra o desmacaramento exercido pela psicanálise, T.W. Adorno acentua as experiências desprovidas de normas que em Kafka circunscrevem a própria norma como expressando o permanente déjà vu, que é o déjà vu de todos: o fim oculto da artede Kafka é a disponibilidade, a tecnificação e a coletivização do déjà vu (Adorno dá-nos como exemplo significativo dessas experiências desprovidas a cena em uma grande cidade no momento em que um veículo se precipitou sobre um outro, quando “inúmeras testemunhas se acercam e se declaram conhecidos”).

link: Linhas mínimas sobre Kafka, Proust e a psicanálise na crítica da cultura de Theodor W. Adorno

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