Estatus e expectativas de cidadania – Observatório da Imprensa

Estatus e expectativas de cidadania – | Observatório da Imprensa |

Jacob (J.) Lumier em 29/09/2009 na edição 557

A insuficiência na compreensão da cidadania deve-se ao hábito de definir esse termo em um esquema de análise prévio como, por exemplo, o estatus, as práticas e as instituições. Desta forma, aceitam-se reduzir as expectativas de cidadania ao nível mental, representações que os indivíduos projetam quando perguntados sobre o que esperam de tal ou qual medida social.

Frequentemente prevalece o ponto de vista do desenvolvimento e a mídia passa a mensagem de representações sobre o que as pessoas esperam de seus representantes ou dirigentes, se os aprovam mais ou menos, de tal sorte que o conceito de cidadania e a capacidade dos eleitores para os direitos civis e políticos resta subentendida em maneira indiferenciada, como um modelo a mais para a pesquisa de opinião.

Cidadania é mais do que um objeto de preferências subjetivas individuais a escolher entre alternativas preestabelecidas, e se as sondagens e enquetes têm o mérito de valorizar a opinião coletiva restringem as expectativas ao plano do modelo de representação de interesses, passando a crença de que a sustentação de um regime democrático depende exclusivamente dos representantes políticos.

A orientação que ali é exercida sofre a influência das metodologias aplicadas aos estudos de mercado em detrimento do caráter sociológico implicado na cidadania, ao passo que a sociologia é tanto mais solicitada nesta matéria, em que se tratam atitudes coletivas que ultrapassam os limites das abordagens conceitualistas.

Conceito de cidadania

Com efeito, posto que a língua utilizada pela coletividade constitua um sistema de símbolos, no qual tomam parte as metodologias de pesquisa, os conceitos de análise e interpretação sociológica revelam-se mais bem dotados para os estudos de cidadania porque levam em conta a inadequação da função simbólica.

A língua utilizada pela coletividade como sistema de símbolos serve ao mesmo tempo de resposta antecipada às questões postas e de expressão incompleta das significações e idéias compreendidas pela coletividade, que fala tal língua e a utiliza em seu próprio pensamento.

Aliás, o fato de as mentalidades e as consciências coletivas e individuais utilizarem um vasto aparelho simbólico prova o caráter social da vida mental, o caráter social do elemento psíquico.

Ao levar em conta a inadequação da função simbólica, a sociologia reconhece em especial a afirmação do significado em sua autonomia relativa a respeito do significante, quer dizer, o sociólogo compreende os símbolos sociais como presenças intencionalmente introduzidas e invocadas para indicar carências.

O conceito de cidadania só será adequadamente desenvolvido se levar em conta tal inadequação, o que pode ser conseguido com a colocação das expectativas de cidadania em perspectiva de ação, isto é, em perspectiva das eleições e do ato de votação.

O estado psicossocial

As expectativas de cidadania se verificam a posteriori lá onde a identificação participativa dos eleitores é constatada (veja aqui meu artigo anterior, link: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=556CID005). Ou seja, se há identificação participativa dos eleitores a razão operativa compreende retroativamente que as expectativas de cidadania estão em vias de efetuação.

O artigo 25 ICCPR (veja aqui http://www2.ohchr.org/english/law/ccpr.htm) tem interesse especial para dirimir dúvidas por ser um documento internacional que faz menção expressa e traz a compreensão justa do perfil do cidadão.

Trata-se do dispositivo assegurando a todo o cidadão o direito e a oportunidade de votar sem restrições irracionáveis em periódicas eleições genuínas, o qual se completa com a exigência de que seja garantida livre expressão da vontade dos eleitores (Art.25, ICCPR: “Every citizen shall have the right and the opportunity…”).

A noção de expectativas de cidadania deve ser tirada deste artigo.

O cidadão é ali reconhecido como estando naturalmente, sem impactos nem constrangimentos, em direito de esperar ter acesso e exercer o direito e a oportunidade de votar… Tal a expectativa de cidadania, que se afirma antes como uma orientação integrada ao esforço coletivo do que disposição de conduta na extensão de papéis ou círculos sociais.

O que diferencia o indivíduo que se eleva à cidadania é o estado psicossocial, o modo de ser e agir (a) em direito de esperar… (b) ter acesso e exercer o direito e a oportunidade de votar… (c) sem restrições irracionáveis em periódicas eleições genuínas, sendo garantida livre expressão da vontade dos eleitores.

(…)

Ler o artigo completo teclando no link acima

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Europa Solidária sem Fronteiras faz a crítica da Rio +20

Rio+20 : « The future we don’t want » – celui où conduit la destruction sociale et écologique capitaliste
19 juin 2012

Vingt ans après le premier Sommet de la Terre, l’ONU revient à Rio pour une nouvelle conférence placée sous le signe de « l’économie verte ». Intitulé « The Future we want », le projet de résolution ne dresse aucun bilan des décisions prises en 1992. Quant aux perspectives, la propagande officielle veut faire croire qu’elles combinent respect des contraintes écologiques et justice sociale… Les textes révèlent un tout autre projet : l’aide massive aux entreprises pour s’accaparer et piller encore plus systématiquement les ressources naturelles, aux frais de la collectivité. Inspiré par la Banque Mondiale et l’Agence Internationale de l’Energie, notamment, The Future we want est un document radicalement ultralibéral. Il implique plus d’austérité, de misère et d’inégalités sociales, ainsi qu’une intensification dangereuse des dégradations environnementales. Un double constat qui renforce l’urgence d’un combat écosocial pour une alternative au productivisme capitaliste.

Un bon moyen d’escamoter le bilan d’une politique consiste à aligner alternativement des aspects positifs et négatifs, en restant dans le vague et sans intégrer les deux dimensions. C’est à ce vieux truc éculé que recourt le projet de résolution pour Rio+20. Il affirme au paragraphe 10 que « les vingt ans écoulés depuis le Sommet de la Terre en 1992 ont vu progrès et changement », puis ajoute au suivant que « le développement non soutenable a accru le stress sur les ressources naturelles limitées de la Terre ». Et ainsi de suite pendant quelques paragraphes. Faut-il croire qu’on se rapproche de l’objectif en s’en éloignant ?

 Cachez cet échec…

Puisque l’ONU n’évalue pas ses décisions, faisons-le nous-mêmes. Le sommet de 1992 avait notamment adopté la convention cadre sur les changements climatiques (CCNUCC) – d’où le protocole de Kyoto est péniblement issu. Deux années auparavant, le Groupe d’experts Intergouvernemental sur l’Evolution du Climat (GIEC) avait été formé. Le quatrième rapport (2007) de cette instance a confirmé les précédents : pour que la température de surface de la Terre ne dépasse pas trop 2°C de hausse par rapport à 1780, les émissions de gaz à effet de serre doivent commencer à baisser au plus tard en 2015 pour diminuer en quarante ans de 50 à 85% au niveau mondial, et de 80 à 95% dans les pays développés, par rapport à 1990. (En réalité, il serait prudent d’opter pour la partie haute de ces fourchettes, car le réchauffement progresse plus vite qu’indiqué par les modèles.)

Faut-il encore démontrer que ce n’est pas dans ce sens-là que nous sommes engagés ? Globalement et tous gaz confondus, les émissions ont cru d’au moins 25% depuis vingt ans. De plus, leur rythme d’augmentation annuel a triplé pour dépasser les 3% depuis 2000 (3,4% en 2011). Les objectifs plus que symboliques de Kyoto ne sont même pas respectés. Pour juguler le réchauffement, il faudrait d’urgence un nouvel accord international contraignant, volontariste et solidaire, tenant dûment compte du principe (inscrit dans la CCNUCC) des responsabilités communes mais différenciées des différents pays et groupes de pays. Mais la concurrence intercapitaliste qui fait rage, surtout depuis la crise financière de 2008, en rend la conclusion plus que douteuse.

Le sommet de Copenhague en 2009 a été un échec retentissant. Ceux de Cancun et Durban, en 2010 et 2011, n’ont fait qu’aligner de belles intentions – pour endormir la contestation- tout en accentuant les pseudo-solutions libérales basées sur la création d’un marché du carbone. Résultat : il n’est d’ores et déjà plus possible de rester au-dessous de 2°C de hausse de la température. Sur base des promesses des Etats (mais seront-elles respectées ?) on s’oriente en réalité vers un réchauffement compris entre 3,5 et 4°C d’ici la fin du siècle, voire davantage.

Ce n’est pas de changement mais de basculement climatique qu’il s’agit. Il aura des conséquences graves et irréversibles sur le niveau des océans, la productivité agricole, l’approvisionnement en eau, la biodiversité, la santé… Des centaines de millions d’êtres humains en subiront les conséquences, en premier lieu les pauvres dans les pays pauvres. Dans le projet de résolution, ce constat d’échec est balayé sous le tapis en trois phrases creuses : on répète que « le changement climatique est un des plus grands défis de notre temps », on « se félicite du résultat de la Conférence de Durban », et on exprime « une profonde préoccupation pour les pays en développement, qui sont particulièrement vulnérables ».

Le paragraphe 70 du projet de résolution est le seul à proposer des objectifs chiffrés et des échéances précises. On y lit ceci : « Nous proposons d’améliorer l’efficience énergétique à tous les niveaux en vue de doubler son taux annuel d’augmentation d’ici 2030 et de doubler la part des énergies renouvelables dans le mix énergétique d’ici 2030 ». Repris des scénarios de l’Agence Internationale de l’Energie, ces objectifs relatifs ne garantissent évidemment pas une réduction absolue des émissions globales de (50 à) 80%. Tout dépend de l’évolution de la demande d’énergie. Or l’AIE mise sur un doublement en trente ans… et ajoute que la part des fossiles restera prédominante.

L’amélioration de l’efficience énergétique et de la part des renouvelables ne sont que des moyens pour atteindre des objectifs – notamment limiter la hausse de la température à tel niveau, d’où découle la nécessité de réduire les émissions de gaz à effet de serre dans telle proportion. Le sommet de Cancun a adopté l’objectif de limiter la hausse de température à 2°C, voire 1,5°C… sans préciser les moyens à mettre en œuvre. Pour Rio+20, c’est l’inverse : le projet de résolution détermine des moyens… sans avoir fixé d’objectif.

 Economie verte

Pourquoi ce cafouillage ? Parce que la préoccupation du sommet n’est pas « d’éradiquer la pauvreté dans le cadre d’un développement soutenable », comme dit la propagande onusienne. Il est d’ouvrir des débouchés à l’énorme masse de capitaux excédentaires qui tournent dans le ciel comme des vautours, à la recherche de profit. La spéculation sur les monnaies, sur les dettes et sur les matières premières ne suffisant plus à assouvir leur appétit, les grands groupes misent de plus en plus sur l’industrie verte et sur la transformation des ressources naturelles en marchandises. Vendre les biens et des services que la nature met à notre disposition – transformer ces valeurs d’usage en valeurs d’échange, tel est leur objectif.

C’est dans ce cadre qu’a émergé le nouveau concept à la mode : la dite « économie verte ». Sa définition est tellement fumeuse [1] que certains n’y ont vu qu’une nouvelle étiquette sur la vieille bouteille du développement durable. Erreur. Comme dit le rapport que le PNUE a édité pour Rio+20, « ce concept ne remplace pas le développement durable, néanmoins il est de plus en plus largement reconnu que la réalisation du développement durable dépend presqu’entièrement d’une bonne approche économique (…). Le développement durable demeure un but vital à long terme, mais pour l’atteindre un verdissement de l’économie est nécessaire » [2].

En d’autres termes, l’insoutenabilité du développement n’est pas due au franchissement des limites écologiques : elle découle simplement du fait que les décideurs n’avaient pas compris la nécessité de commencer par adopter « une bonne approche économique ». Plutôt que de perdre du temps à chercher des « compromis » entre le social, l’environnemental et l’économique – comme le recommande le « développement durable » –, il suffit de se concentrer sur l’économie, de la verdir, et le reste en découlera « presqu’entièrement ». Le PNUE l’écrit noir sur blanc : « l’inévitabilité d’un compromis entre durabilité environnementale et progrès économique constitue l’idée fausse la plus répandue » car « il existe de multiples opportunités d’investissement, et donc d’augmentation de la richesse et des emplois, dans de nombreux secteurs verts ».

Une brève mise en perspective éclairera la portée de cette citation. Il y a quarante ans, le Club de Rome plaidait pour une « croissance zéro ». Son rapport soulevait de nombreuses critiques, souvent justifiées (car les auteurs flirtaient avec Malthus), mais il avait l’avantage de dire l’évidente impossibilité d’une croissance matérielle illimitée dans un monde fini. Quinze ans plus tard, le rapport Brundlandt tentait de résoudre la question en avançant la notion de développement durable. Une réponse inconsistante – elle ne mettait en cause ni le productivisme inhérent au capital, ni le productivisme bureaucratique de l’URSS –, mais les limites restaient présentes, à travers l’insistance sur la consommation prudente des ressources. A Rio en 1992, cette insistance était diluée dans la théorie des « compromis inévitables » entre les « trois piliers ». « L’économie verte » représente un nouveau glissement : désormais, foin de compromis, on laisse faire le business. Le capital refuse de se plier aux limites des ressources, ce sont les ressources qui doivent se plier sans limites aux besoins du capital.

La percée du concept d’économie verte constitue donc une victoire pour les idéologues néolibéraux. Depuis plus de vingt ans, ils mènent bataille contre l’idée même de limites au développement (pour les plus fanatiques d’entre eux) et contre la nécessité de « compromis » entre l’économie et les autres « piliers ». Un de leurs arguments est que l’appropriation et l’exploitation capitalistes des ressources dans un cadre réglementaire clair garantiraient leur utilisation écologiquement soutenable et socialement utile. La Banque Mondiale met ces idées en pratique avec zèle à travers ses multiples fonds et projets « verts ». Récemment, elle y a également consacré un rapport [3]. Le PNUE se rallie complètement à cette doctrine.

Cependant, il y a loin de la coupe aux lèvres. Plusieurs problèmes se posent. 1°) Une proportion importante de l’industrie verte n’est que potentiellement rentable ; la plupart des sources d’énergie renouvelables, en particulier, ne sont pas compétitives par rapport aux fossiles, et ne le seront pas dans les quinze à vingt années qui viennent. 2°) Des masses de capitaux colossales sont bloquées dans le système énergétique actuel, où les investissements sont de long terme ; deux exemples : le coût global du remplacement des centrales électriques fossiles et nucléaires est estimé entre 15 et 20 trillions de dollars (un quart à un tiers du PIB mondial !), et les réserves prouvées de combustibles fossiles – qui font partie des actifs des lobbies du charbon, du gaz et du pétrole – sont cinq fois supérieures au budget carbone que l’humanité peut encore se permettre de brûler (c’est la « bulle du carbone »)… 3°) une bonne part des ressources naturelles sont propriétés publiques ou n’appartiennent à personne, et ne sont pas mesurables en termes monétaire.

  Enclosures , le retour

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O Voto Obrigatório Como Controle Capitalista (Cyberactivism)

A luta contra a imposição do voto obrigatório e pela supressão da figura jurídica extravagante do “eleitor faltoso” se integra na luta contra o neo-liberalismo na medida em que a recorrência de imposição releva em última instância do fetichismo da mercadoria. Ao invés de suscitar um problema de análise crítico-histórica em busca do aperfeiçoamento das práticas democráticas, a recorrência de imposição do voto obrigatório vai passando sem que saiba ao certo o por quê.

Entretanto, a decisão de não interrompê-la acontece, mas o que não se sabe ao certo é a que razão se deve atribuí-la. E nisto consiste o mistério da coisa recorrente: sua ausência de saber. A recorrência de imposição do voto obrigatório não  é interrompida em atenção de um cálculo cuja lógica tampouco se sabe de onde procede, como é o caso da categoria da vantagem. Não se ultrapassa o voto obrigatório porque não tem vantagem nisto; porque o “cálculo risco x benefício” pesa contra a interrupção da recorrência do voto obrigatório. Simples assim.

Se a economia vai bem, se as reclamações dos eleitores não assustam, ainda que os absenteístas e correlatos sejam quase um quarto dos inscritos; se o voto obrigatório atende ao contencioso dos grupos em luta pelos altos cargos; se nossa democracia tem transparência; se os investidores internacionais estão circulando a contento seus dolares por aqui, e o mais importante: se estamos lucrando sem a interrupção da recorrência de imposição, então para que aperfeiçoar nossa democracia eleitoral com o voto facultativo sem restrições, e correr algum risco de que isto possa ter algum reflexo nas transações financeiras ou causar frisson em um mercado nervoso como as bolsas de valores?

Tal o fetichismo da mercadoria, tal o exagero do neo-liberalismo: pouco importa se as especificidades da história parlamentar são destruídas pela busca de vantagem; para que colocar o anti-absenteísmo em discussão? para que debater se a extensão do compromisso pela sustentação de um regime democrático releva da competência dos eleitores e não somente de seus representantes. Para que  incrementar a participação dos eleitores com o reconhecimento do alcance profundo do movimento Diretas Já, de 1983/4, sua relevância na afirmação da cidadania e na elevação da capacidade política dos eleitores. Para que, se não tem vantagem nisto?

Vantagem é extensão da categoria “preço” a todos os setores da sociedade indiscriminadamente. Daí que seja assinalado como fetiche da mercadoria. Nenhum objeto pode escapar a essa intromissão. Pode-se buscar vantagem em qualquer coisa: é isto que o neo-liberalismo ensina: só há mercado; o Estado deve defender unicamente o sistema financeiro, a economia do lucro desenfreado, da cobiça exacerbada, das bonificações milionárias e não os direitos sociais, e não os direitos de cidadania e não as políticas públicas. Por isto, por caracterizar-se como luta contra um fetiche da mercadoria, contra a busca de vantagem no âmbito da questão do aperfeiçoamento eleitoral democrático, a luta contra a imposição do voto obrigatário e pela supressão da figura jurídica do eleitor faltoso integra-se no conjunto das lutas sociais e da defesa da cidadania.

Jacob (J.) Lumier (28 de Julho 2012)

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Fonte: Cyberactivism Blog

Leia também:  O Imbróglio do Voto Obrigatório

O Voto Obrigatório, a Mídia e a Globalização Neoliberal

Declaração Final da Cúpula dos Povos

Declaração final

Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental
Em defesa dos bens comuns, contra a mercantilização da vida

Movimentos sociais e populares, sindicatos, povos, organizações da sociedade civil e ambientalistas de todo o mundo presentes na Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, vivenciaram nos acampamentos, nas mobilizações massivas, nos debates, a construção das convergências e alternativas, conscientes de que somos sujeitos de uma outra relação entre humanos e humanas e entre a humanidade e a natureza, assumindo o desafio urgente de frear a nova fase de recomposição do capitalismo e de construir, através de nossas lutas, novos paradigmas de sociedade.

A Cúpula dos Povos é o momento simbólico de um novo ciclo na trajetória de lutas globais que produz novas convergências entre movimentos de mulheres, indígenas, negros, juventudes, agricultores/as familiares e camponeses, trabalhadore/as, povos e comunidades tradicionais, quilombolas, lutadores pelo direito a cidade, e religiões de todo o mundo. As assembléias, mobilizações e a grande Marcha dos Povos foram os momentos de expressão máxima destas convergências.

As instituições financeiras multilaterais, as coalizações a serviço do sistema financeiro, como o G8/G20, a captura corporativa da ONU e a maioria dos governos demonstraram irresponsabilidade com o futuro da humanidade e do planeta e promoveram os interesses das corporações na conferencia oficial. Em constraste a isso, a vitalidade e a força das mobilizações e dos debates na Cúpula dos Povos fortaleceram a nossa convicção de que só o povo organizado e mobilizado pode libertar o mundo do controle das corporações e do capital financeiro.

Há vinte anos o Fórum Global, também realizado no Aterro do Flamengo, denunciou os riscos que a humanidade e a natureza corriam com a privatização e o neoliberalismo. Hoje afirmamos que, além de confirmar nossa análise, ocorreram retrocessos significativos em relação aos direitos humanos já reconhecidos. A Rio+20 repete o falido roteiro de falsas soluções defendidas pelos mesmos atores que provocaram a crise global. À medida que essa crise se aprofunda, mais as corporações avançam contra os direitos dos povos, a democracia e a natureza, sequestrando os bens comuns da humanidade para salvar o sistema economico-financeiro.

As múltiplas vozes e forças que convergem em torno da Cúpula dos Povos denunciam a verdadeira causa estrutural da crise global: o sistema capitalista patriarcal, racista e homofobico.

As corporações transnacionais continuam cometendo seus crimes com a sistematica violação dos direitos dos povos e da natureza com total impunidade. Da mesma forma, avançam seus interesses através da militarização, da criminalização dos modos de vida dos povos e dos movimentos sociais promovendo a desterritorialização no campo e na cidade.

Da mesma forma denunciamos a divida ambiental histórica que afeta majoritariamente os povos oprimidos do mundo, e que deve ser assumida pelos países altamente industrializados, que ao fim e ao cabo, foram os que provocaram as múltiplas crises que vivemos hoje.

O capitalismo também leva à perda do controle social, democrático e comunitario sobre los recursos naturais e serviços estratégicos, que continuam sendo privatizados, convertendo direitos em mercadorias e limitando o acesso dos povos aos bens e serviços necessarios à sobrevivencia.

A dita “economia verde” é uma das expressões da atual fase financeira do capitalismo que também se utiliza de velhos e novos mecanismos, tais como o aprofundamento do endividamento publico-privado, o super-estímulo ao consumo, a apropriação e concentração das novas tecnologias, os mercados de carbono e biodiversidade, a grilagem e estrangeirização de terras e as parcerias público-privadas, entre outros.

As alternativas estão em nossos povos, nossa historia, nossos costumes, conhecimentos, práticas e sistemas produtivos, que devemos manter, revalorizar e ganhar escala como projeto contra-hegemonico e transformador.

A defesa dos espaços públicos nas cidades, com gestão democrática e participação popular, a economia cooperativa e solidaria, a soberania alimentar, um novo paradigma de produção, distribuição e consumo, a mudança da matriz energética,  são exemplos de alternativas reais frente ao atual sistema agro-urbano-industrial.

A defesa dos bens comuns passa pela garantia de uma série de direitos humanos e da natureza, pela solidariedade e respeito às cosmovisões e crenças dos diferentes povos, como, por exemplo, a defesa do “Bem Viver” como forma de existir em harmonia com a natureza, o que pressupõe uma transição justa a ser construída com os trabalhadores/as e povos.

Exigimos uma transição justa que supõe a ampliação do conceito de trabalho, o reconhecimento do trabalho das mulheres e um equilíbrio entre a produção e reprodução, para que esta não seja uma atribuição exclusiva das mulheres. Passa ainda pela liberdade de organização e o direito a contratação coletiva, assim como pelo estabelecimento de uma ampla rede de seguridade e proteção social, entendida como um direito humano, bem como de políticas públicas que garantam formas de trabalho decentes.

Afirmamos o feminismo como instrumento da construção da igualdade, a autonomia das mulheres sobre seus corpos e sexualidade e o direito a uma vida livre de violência. Da mesma forma reafirmamos a urgência da distribuição de riqueza e da renda, do combate ao racismo e ao etnocídio, da garantia do direito a terra e território, do direito à cidade, ao meio ambiente e à água, à educação, a cultura, a liberdade de expressão e democratização dos meios de comunicação.

O fortalecimento de diversas economias locais e dos direitos territoriais garantem a construção comunitária de economias mais vibrantes. Estas economias locais proporcionam meios de vida sustentáveis locais, a solidariedade comunitária, componentes vitais da resiliência dos ecossistemas. A diversidade da natureza e sua diversidade cultural associada é fundamento para um novo paradigma de sociedade.

Os povos querem determinar para que e para quem se destinam os bens comuns e energéticos, além de assumir o controle popular e democrático de sua produção. Um novo modelo enérgico está baseado em energias renováveis descentralizadas e que garanta energia para a população e não para as corporações.

A transformação social exige convergências de ações, articulações e agendas a partir das resistências e alternativas contra hegemônicas ao sistema capitalista que estão em curso em todos os cantos do planeta. Os processos sociais acumulados pelas organizações e movimentos sociais que convergiram na Cúpula dos Povos apontaram para os seguintes eixos de luta:

  • Contra a militarização dos Estados e territórios;
  • Contra a criminalização das organizações e movimentos sociais;
  • Contra a violência contra as mulheres;
  • Contra a violência as lesbicas, gays, bissexuais, transexuais e transgeneros;
  • Contra as grandes corporações;
  • Contra a imposição do pagamento de dívidas econômicas injustas e por auditorias populares das mesmas;
  • Pela garantia do direito dos povos à terra e território urbano e rural;
  • Pela consulta e consentimento livre, prévio e informado, baseado nos princípios da boa fé e do efeito vinculante, conforme a Convenção 169 da OIT;
  • Pela soberania alimentar e alimentos sadios, contra agrotóxicos e transgênicos;
  • Pela garantia e conquista de direitos;
  • Pela solidariedade aos povos e países, principalmente os ameaçados por golpes militares ou institucionais, como está ocorrendo agora no Paraguai;
  • Pela soberania dos povos no controle dos bens comuns, contra as tentativas de mercantilização;
  • Pela mudança da matriz e modelo energético vigente;
  • Pela democratização dos meios de comunicação;
  • Pelo reconhecimento da dívida histórica social e ecológica;
  • Pela construção do DIA MUNDIAL DE GREVE GERAL.

Voltemos aos nossos territórios, regiões e países animados para construirmos as convergências necessárias para seguirmos em luta, resistindo e avançando contra os sistema capitalista e suas velhas e renovadas formas de reprodução.

Em pé continuamos em luta!

Rio de Janeiro, 15 a 22 de junho de 2012.
Cúpula dos Povos por Justiça Social e ambiental em defesa dos bens comuns, contra a mercantilização da vida.

Enlace para a fonte de publicação na Web da Cúpula dos Povos