El derecho internacional de los derechos humanos

El movimiento internacional de los derechos humanos se fortaleció con la aprobación de la Declaración Universal de Derechos Humanos por parte de la Asamblea General de las Naciones Unidas el 10 de diciembre de 1948. Redactada como “un ideal común por el que todos los pueblos y naciones deben esforzarse”, en la Declaración, por primera vez en la historia de la humanidad, se establecen claramente los derechos civiles, políticos, económicos, sociales y culturales básicos de los que todos los seres humanos deben gozar. A lo largo de los años lo establecido en la Declaración ha sido ampliamente aceptado como las normas fundamentales de derechos humanos que todos deben respetar y proteger. La Declaración Universal, junto con el Pacto Internacional de Derechos Civiles y Políticos y sus dos protocolos facultativos, y el Pacto Internacional de Derechos Económicos, Sociales y Culturales, forman la llamada “Carta Internacional de Derechos Humanos”. 

Una serie de tratados internacionales de derechos humanos y otros instrumentos adoptados desde 1945 han conferido una base jurídica a los derechos humanos inherentes y han desarrollado el conjunto de derechos humanos internacionales. En el plano regional se han adoptado otros instrumentos que reflejan las preocupaciones específicas en materia de derechos humanos de la respectiva región, y en los que se establecen determinados mecanismos de protección. La mayoría de los Estados también ha adoptado constituciones y otras leyes que protegen formalmente los derechos humanos fundamentales. Si bien los tratados internacionales y el derecho consuetudinario forman la columna vertebral del derecho internacional de derechos humanos, otros instrumentos, como declaraciones, directrices y principios adoptados en el plano internacional contribuyen a su comprensión, aplicación y desarrollo. El respeto por los derechos humanos requiere el establecimiento del estado de derecho en el plano nacional e internacional.

El derecho internacional de los derechos humanos establece las obligaciones que los Estados deben respetar. Al pasar a ser partes en los tratados internacionales, los Estados asumen las obligaciones y los deberes, en virtud del derecho internacional, de respetar, proteger y realizar los derechos humanos. La obligación de respetarlos significa que los Estados deben abstenerse de interferir en el disfrute de los derechos humanos, o de limitarlos. L a obligación de protegerlos exige que los Estados impidan los abusos de los derechos humanos contra individuos y grupos. La obligación de realizarlos significa que los Estados deben adoptar medidas positivas para facilitar el disfrute de los derechos humanos básicos.

A través de la ratificación de los tratados internacionales de derechos humanos, los gobiernos se comprometen a adoptar medidas y leyes internas compatibles con las obligaciones y deberes dimanantes de los tratados. En caso de que los procedimientos judiciales nacionales no aborden los abusos contra los derechos humanos, existen mecanismos y procedimientos en el plano regional e internacional para presentar denuncias o comunicaciones individuales, que ayudan a garantizar que las normas internacionales de derechos humanos sean efectivamente respetadas, aplicadas y acatadas en el plano local.

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O problema da possibilidade da estrutura

 

O problema da possibilidade da estrutura e a classificação dos grupos estruturados como Sedes específicas do conhecimento

Por Jacob (J.) Lumier

 

O conceito de estrutura, em sociologia diferencial, não minimiza a variabilidade, mas acentua a escala dos tempos sociais, e o faz na medida em que põe em relevo o fato de o conjunto social, por mais complexo que seja, preceder, virtualmente ou atualmente, todos os equilíbrios, hierarquias, escalas, de que depende o tipo de estrutura. Em consequência, as tendências e os equilíbrios que constituem o caráter estruturável de um grupo nem sempre são conseguidos, levando a constatar que existem grupos “apenas estruturáveis”.

Sumário

Preliminares. 1

A classificação das hierarquias que definem o tipo de sociedade. 1

As hierarquias múltiplas. 1

As hierarquias em unificação. 1

Passagem do grupo à história. 1

O caráter estruturável de um grupo. 1

Os agrupamentos estruturáveis. 1

Os grupos estruturados. 1 (descrição e classificação)

 

 

 

O conceito de estrutura, em sociologia diferencial, não minimiza a variabilidade, mas acentua a escala dos tempos sociais, e o faz na medida em que põe em relevo o fato de o conjunto social, por mais complexo que seja, preceder, virtualmente ou atualmente, todos os equilíbrios, hierarquias, escalas, de que depende o tipo de estrutura. Em consequência, as tendências e os equilíbrios que constituem o caráter estruturável de um grupo nem sempre são conseguidos, levando a constatar que existem grupos “apenas estruturáveis”.

 

 

Preliminares

 

Este artigo pressupõe a leitura dos seguintes textos do autor: (a) “Os tempos sociais, a sociologia e a história”< https://leiturasociologica.wordpress.com/os-tempos-sociais-a-sociologia-e-a-historia/ >; (b) “ Pluralismo Descontinuísta: Primeira Parte” < https://leiturasociologica.wordpress.com/2016/09/20/pluralismo-descontinuista-e-desdogmatizacao/ >(sobre o método tipológico no estudo da realidade social); (c) “A sociologia dos agrupamentos particulares como quadros sociais do conhecimento” <https://leiturasjlumierautor.wordpress.com/2017/04/18/a-sociologia-dos-agrupamentos-particulares/ >. Devem ter em conta, igualmente, que, em sociologia, os quadros conceituais operativos são relacionais, e se definem uns pelos outros.

No caso presente, o conceito de estrutura é relacional do método tipológico, é um quadro dialético, favorece a descrição dos tempos sociais, e não deve ser reduzido às tipologias, que são construídas para chegar à explicação sociológica, a qual é mais ou menos conjectural.

O tipo sociológico reflete o ideal do equilíbrio tendencial entre as diversas hierarquias em uma sociedade, sua construção não reduz nem absorve o problema dos equilíbrios reais, cuja formação se expressa na estrutura social. Os problemas que devem ser esclarecidos são igualmente problemas reais e não artificiais, tais com a duração da estrutura e a sua possibilidade em face da variabilidade que caracteriza a realidade social. Assim, por exemplo, a “ordem” das condutas, dos procedimentos, dos fatos, sua relativa coerência são aspectos reais das hierarquias na estrutura social.

 

A classificação das hierarquias que definem o tipo de sociedade

 

Se trata de incluir no estudo da estruturação, a compreensão de que as manifestações da sociabilidade, como fenômenos microssociológicos, são elementos anestruturais, portanto, incapazes, por si próprios, de formar hierarquias dos patamares de realidade. Ou seja, as formas da sociabilidade, embora não unifiquem, como vimos, atualizam no seu seio os degraus objetivados da realidade, aos quais Gurvitch chamará “níveis múltiplos”, constatando que, entre esses níveis, se trata de relações inteiramente variáveis, alternando e combinando, por um lado, graus de cristalização e, por outro lado, graus de espontaneidade, e assim constituindo forças dinâmicas de mudança.  Em palavras simples, a partir desses níveis assim compreendidos como níveis múltiplos, se afirma o conhecimento de que não existe tipo de sociedade que alcance uma coesão sem choques; de que nada se resolve nunca numa sociedade, pelo menos não definitivamente, só há graus de coesão e de disparidade.

Portanto, as hierarquias em que esses níveis múltiplos tomam parte são também hierarquias múltiplas, que variam em cada sociedade e em tal ou qual tipo de estrutura, seja estrutura parcial ou global, e nas quais a descontinuidade prevalece.  O estudo desses níveis e dessas hierarquias múltiplas permite avançar na explicação sociológica do que Gurvitch chama “pluridimensionalidade da realidade social” , suas “ordens sobrepostas” ,e , se as camadas seccionadas podem se afirmar como sendo mais cristalizadas e oferecer um suporte mais sólido à estruturação do que jamais poderão fazê-lo as manifestações da sociabilidade, cabe sublinhar que elas nada representam, e não passam de aspectos difusos da matéria social dinâmica, independentes do grau de valor e de realidade, somente limitados aos graus de dificuldade para acessá-los.  Dessa maneira, a teoria sociológica constrói seu objeto na medida em que delimita a realidade social em níveis mais ou menos construídos para estabelecer “conceitos” ou quadros operativos eficazes em vista de dar contas da pluridimensionalidade da realidade social.

O estudo das combinações móveis dessas camadas seccionadas somente tem lugar se for feito antes que intervenha sua unificação no determinismo sociológico parcial regendo os agrupamentos particulares e as classes sociais. Note-se que, para esse autor, a anterioridade desse estudo das camadas seccionadas se resguarda da arbitrariedade do chamado “corte epistemológico” praticado nas metodologias abstratas, exatamente por verificar a dialética dos níveis de realidade como combinada a essa outra dialética das três escalas.

Desse modo, se poderá diferenciar  dez patamares em profundidade, seguintes:  1)- a superfície morfológica e ecológica;  2)- os aparelhos organizados;  3)- os modelos sociais;  4)- as condutas coletivas regulares;  5)- as tramas dos papéis sociais;  6)- as atitudes coletivas;  7)- os símbolos sociais;  8)- as condutas coletivas inovadoras;  9)-as idéias e valores coletivos;  10)- os estados mentais e atos psíquicos coletivos   -cabendo sublinhar que é maior a dificuldade de acesso quanto mais profundo ou espontâneo é o nível estudado.

Para aclarar o arranjo dessas camadas subjacentes, suas combinações móveis em hierarquias específicas múltiplas, a sociologia diferencial leva em conta que as alterações nesses planos de conjunto estão na origem das mudanças fundamentais no interior das estruturas,  e que, portanto, igualmente a estas, as camadas subjacentes se movem nos tempos sociais , por meio dos quais admitem princípios de equilíbrio, isto é: admitem graus diversos de mediação entre o contínuo e o descontínuo, entre o quantitativo e o qualitativo, o reversível e o irreversível, constituindo sequências de microdeterminismos sociológicos que se combatem e sofrem desajustes nas cadências dos seus movimentos, mas que , nada obstante, chegam a arranjos em hierarquias múltiplas e variadas, por efeito da dialética entre a escala do microssocial, a escala do parcial  e a escala do global, de tal sorte que as hierarquias figuram como criações do esforço de unificação.

Temos, então, para simplificar, que os princípios de equilíbrio constituindo sequências microssociológicas, estão na base das hierarquias de que, por sua vez, as estruturas configuram as dinâmicas de formação de equilíbrio ao darem nascimento aos tempos sociais.

 

As hierarquias múltiplas

 

As hierarquias múltiplas implicam uma formação dinâmica de equilíbrio no interior de uma estrutura social, uma formação que não chega a estar pronta e acabada em suas posições relativas, mas em vias de se fazer conforme a escala dos tempos sociais da própria estrutura. Pode dizer que as hierarquias múltiplas acentuam a permanência das mudanças fundamentais ocorrentes no interior da estrutura.

Por sua vez, os tempos sociais, pela variabilidade que precipitam, alteram a formação de unidade do tipo de sociedade global, alteram a combinação das hierarquias que definem o tipo.

Devem observar a classificação de Gurvitch sobre as hierarquias de que depende o tipo de estrutura. Essa classificação consiste em uma aplicação da visão de conjunto (veja a exposição sobre essas hierarquias em sua obra “Determinismos Sociais e Liberdade Humana: em direção ao estudo sociológico dos caminhos da liberdade”, Rio de Janeiro, Forense, 1968, 361 pp., traduzido da 2ª edição francesa de 1963. (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1955). 

A série das hierarquias específicas e múltiplas compreendem as escalas ramificadas nas quais o elemento hierárquico assenta-se na distribuição [efetividade da multiplicidade dos tempos sociais] e não na pressão do conjunto [unificação dos tempos].

Tais hierarquias múltiplas são as seguintes: 1)- a combinação das manifestações da sociabilidade, como atualizando-se no conjunto e nos agrupamentos particulares;   2)- a acentuação dos  patamares em profundidade da realidade social, como atualizando-se no conjunto, na escala do parcial, e no microssocial;   3)- a escala dos modos de divisão do trabalho e dos modos de acumulação , que também se atualizam nas classes sociais, e não só nas sociedades globais;   (4)- a hierarquia das regulamentações sociais (também chamados “controles sociais”);   5)-  a escala dos tempos sociais , hierarquizando-se, combinando-se, interpenetrando-se, entrechocando-se de diferentes maneiras, pois, como já foi dito, a duração de uma estrutura nunca é um repouso, mas, no dizer de Gurvitch (ibid, ibidem), é uma “procissão através de vias tortuosas abertas pela multiplicidade dos tempos sociais”.

 

As hierarquias em unificação

A série das hierarquias em unificação com preeminência do elemento de contenção são as seguintes:

1)- a hierarquia dos agrupamentos funcionais, às vezes em competição com as hierarquias das classes sociais e das respectivas organizações.  Nota-se que  essa competição lhe imprime um acentuado fator de variação, em virtude do que a hierarquia dos agrupamentos funcionais desfruta de um estatuto ambíguo e pode ser considerada também entre as hierarquias múltiplas [o elemento hierárquico assenta-se na distribuição e não na pressão do conjunto], já que ainda não constitui as formas particulares dos  conjuntos;   2)- a combinação dos modelos, signos, sinais, símbolos, ideias, valores, em breve, das obras de civilização cimentando a estrutura social global, notando-se que essa hierarquia constitui o momento fundamental na formação de unidade;   3)- a hierarquia dos determinismos sociais, compreendendo a dialética entre o microssocial, o parcial e o global, cuja unificação dá a forma particular do determinismo sociológico global.

 

Passagem do grupo à história

Do fato de o conjunto social preceder todas as hierarquias, temos não somente que o problema chamado “passagem do grupo à história” releva da pluridimensionalidade da realidade social e se examina no âmbito do estudo das camadas seccionadas, que, conforme dissemos, é um estudo empreendido  antes que intervenha a unificação das mesmas  nos determinismos sociológicos parciais regendo os agrupamentos particulares e as classes sociais,  mas, em consequência, temos que as tendências e os equilíbrios que constituem o caráter estruturável de um grupo nem sempre são conseguidos e os grupos não chegam a se tornar estruturados, mostrando ser real o problema da possibilidade da estrutura .

 

O caráter estruturável de um grupo

O caráter estruturável de um grupo tem três proveniências, seguintes:   (1)- o fato de que a unidade do grupo se realiza mediante o arranjo de uma coesão particular entre  (a)- as manifestações da sociabilidade, por um lado, e (b)- por outro lado, as atitudes coletivas, incluindo suas expressões nas condutas regulares;    (2)- a existência de um princípio de equilíbrio entre as hierarquias múltiplas;    (3)- o fato de que a inserção do grupo em uma classe social ou em uma sociedade global tende a manifestar-se por um arranjo  (a)- de suas relações com os outros grupos e, (b)-, do papel e do lugar que o grupo tem na hierarquia particular dos agrupamentos que caracterizam uma sociedade global dada.

 

Os agrupamentos estruturáveis

Em consequência da observação dessas proveniências, se pode formular a definição de que os agrupamentos são estruturáveis porque:  1)-  manifestam tendência para estabelecer um arranjo virtual das hierarquias múltiplas, ou seja, uma “ordem particular”;  2)-  manifestem tendência para pôr em relevo a posição, o papel e as relações do grupo com o “exterior”, ou seja, um “espírito de corpo”.

Todavia, como dizíamos, do fato de o conjunto social preceder todas as hierarquias, resulta que as tendências e os equilíbrios que constituem o caráter estruturável de um grupo e que viemos de enumerar nem sempre são conseguidos.  Daí que existam grupos estruturados, como os idosos, os grupos de juventude, certas profissões (embora estes grupos sejam habitualmente desorganizados, têm expressão em diferentes organizações), e existam também grupos “apenas estruturáveis”, como os diferentes públicos, as minorias étnicas, os produtores, os consumidores, as indústrias, os grupos de geração.

Nota que o nível organizado, em relação ao equilíbrio da estrutura, é só uma questão de expressão, não indispensável, ainda que todo o grupo organizado seja ao mesmo tempo estruturado, já que, em contrapartida, um grupo pode ser não somente estruturável sem ser organizado, como pode também ser estruturado e não ter organização própria.

Do ponto de vista do interesse na sociologia do conhecimento, que apreciamos neste ensaio, são os grupos estruturados que oferecem planos de referência mais precisos (ver a este respeito e das análises que se seguirão, a obra de Gurvitch intitulada “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, já citada).  Tanto é assim que, pela abordagem da análise gurvitcheana, o conhecimento opera como um elemento cimentador da estrutura, fazendo com que os grupos estruturados sejam sedes específicas do conhecimento.

 

         Os grupos estruturados

Visando exatamente pôr em relevo o caráter específico dessas sedes do conhecimento, a análise gurvitcheana dá privilégio aos agrupamentos sociais caracterizados no seguinte: (I) – segundo seu modo de acesso seja aberto, condicionado, fechado; (II) – segundo suas funções, destacando a família, os grupos de localidade de pequena envergadura, as fábricas; (III) – os blocos de grupos multifuncionais, como o Estado e a Igreja.

(I) – Os grupos abertos, como já mencionamos, incluem, além dos grupos de fato (diferentes públicos, grupos de idade, etc.) as multidões, as manifestações públicas ou não públicas, as reuniões, certos grupos filantrópicos, etc.   Evidentemente, esses grupos não representam focos ou sedes específicas do conhecimento.  Todavia, é admitido a exceção dos grupos de jovens e dos grupos das pessoas de idade, na medida em que constituem unidades coletivas reais, como nas sociedades patriarcais ou, simplesmente, nas sociedades tradicionais, visto que os anciãos podem ser considerados como os únicos portadores do conhecimento esotérico ou do conhecimento cuja difusão é aceite, fazendo predominar, como intermediários, o sistema cognitivo da sociedade global sobre todo outro saber nessas sociedades,  tornando-se, imperceptivelmente, grupos fechados.

(I-1)- Quanto a esses grupos fechados , quer se trate de uma casta de sacerdotes, de um grupo feudal, da nobreza de armas, ou da nobreza de toga, da camada mais alta da burguesia (que recruta somente por nascimento ou por herança), de trustes, ou de cartéis, nacionais ou internacionais, produzem um saber específico, oposto ao da sociedade global, um saber que,(a)- mesmo formando sistemas cognitivos, estes se reduzem a certos conhecimentos políticos, a certos conhecimentos técnicos, ou a outros tantos de senso comum, sendo que a combinação de tais conhecimentos varia segundo o caráter dos grupos fechados e o das conjunturas ante as quais se encontram;  (b)- um saber que manifesta uma tendência ao hermético e esotérico, ainda que a forma racional triunfe por completo e conduza ao cálculo aperfeiçoado de balanços financeiros complexos …

(I-2)- No que concerne os grupos de acesso condicionado, em que a análise gurvitcheana do interesse na sociologia do conhecimento contempla os grupos profissionais privilegiados, aqueles que exigem títulos ou diplomas, como o professorado, a magistratura, ou os que são submetidos a um controlador organizado, como o conselho de medicina, a ordem dos advogados, etc.   Gurvitch descreve a situação dos estabelecimentos de ensino superior, cujo acesso é por cooptação ou por concurso, notando que essas instituições são sedes específicas de conhecimentos científicos, técnicos, ou de conhecimentos filosóficos.  Considerados como conhecimentos propriamente universitários, ou que constituem matéria de ensino e pesquisa, esses conhecimentos se caracterizam todos pela acentuação das formas de conhecimento, com predomínio das formas conceitual, simbólica, positiva, coletiva e racional, sem excluir que o saber concebido e ensinado nas universidades continua sendo em parte esotérico , hermético e tradicional, “defeito” este que,  segundo o nosso autor, se corrige pelo espírito competitivo, embora seja certo que toda a inovação se faça com lentidão e não se impõe sem grandes precauções.   Quanto ao papel do conhecimento estratégico ou político e do conhecimento de senso comum nesse sistema cognitivo, nota-se que estes conhecimentos restam muito abaixo dos níveis dos conhecimentos ensinados , já que, quando se trata de estabelecer questões administrativas, se  requerem qualidades e conhecimentos  de uma classe completamente distinta.  Enfim, o conhecimento de outro e dos Nós-outros , quer dizer,  dos colegas e dos estudantes,  não se atualiza no seio da universidade se a comunidade não consegue  predominar sobre a massa e a comunhão.

(II)-     Na análise da família-matrimônio como sede de conhecimentos , deve-se levar em conta o seguinte:  (1)- que, como já sublinhamos, todo o grupo muda de caráter  segundo o tipo de sociedade global em que está incluído e segundo a classe social em que está inserido;    (2)- o estado de harmonia ou de desacordo no seio da família;   (3)- as influências exteriores dos outros grupos;  (4)- a mobilidade social;  (5)- que, em nossa época, a família não revela grande riqueza ao estudo do saber, encontrando-se habitualmente como um grupo  demasiado submetido e aberto  à influência cognitiva  das classes e sociedades globais em que está inserido.  Dessa maneira, considerando o papel do conhecimento de outro e dos Nós-outros, nota-se que essa classe de conhecimento predomina sobre as demais se a situação familiar é de harmonia:  é, então, conhecimento entre marido e mulher, entre pais e filhos, e conhecimento entre os filhos.  Se, todavia, aparecem na família os desacordos, os problemas de qualquer classe, os membros deixam de entender-se e se dividem em campos opostos, o que leva a desprezar o conhecimento dos demais.  Quanto ao conhecimento de senso comum, se supõe que os pais o transmita aos filhos e o apliquem eles mesmos para um funcionamento sem tropeços da família. Entretanto, nota-se que, nas condições atuais de vida, esse conhecimento de senso comum está mais limitado e dá espaço às influências contrárias ao saber viver da família, influências estas que podem se exercer sobre os pais desde os locais de trabalho, desde a participação nos sindicatos, etc., e sobre os filhos, desde os estabelecimentos de ensino e desde os companheiros.   Somente as famílias dos meios de classe média, ou as camponesas, continuam cultivando essa classe de conhecimento.  Já o conhecimento político dispõe de mais espaço nas famílias.  Há o sentido restrito de um conhecimento da estratégia a que devem recorrer os pais para a educação e a formação dos seus filhos e, reciprocamente, pelo lado dos filhos, há o sentido de um conhecimento dos meios de lograr de seus pais o máximo de liberdade.  Caso se tome o conhecimento político em seu sentido mais geral e habitual, que implica tomadas de posição estritamente políticas e o conhecimento das regras estratégicas a observar no que concerne à sociedade global, nota-se a perda de lugar desse conhecimento em relação ao tempo em que estava submetido a uma tradição longínqua e contínua, efeito de uma mobilidade muito reduzida da situação de classe das famílias (os filhos seguindo as posições dos pais).   Observa-se que, no século XX, por um lado, a mobilidade se tornou maior e, por outro lado, em um mesmo nível social, a continuidade dos conhecimentos políticos se rompe amiúde.  Todavia, essa diminuição progressiva da influência da família continua sendo limitada. Enfim, nota-se a importância crescente de certos conhecimentos técnicos, ainda que em nível rudimentar, no funcionamento da família: o manejo dos artefatos domésticos e das máquinas a motor exige um mínimo de informação.

(II-1)-       A análise  e descrição  dos grupos locais de pouca envergadura, tais como povoados, lugarejos, vilas ou aldeias, leva em conta o seguinte:   (1)- a delimitação desses grupos como grupos funcionais se faz com precisão porque suas “obras a realizar” são sempre multifuncionais e bem diferenciadas, pois se trata de assegurar a regulamentação e a administração da boa vizinhança, bem como a realização de distintas atividades econômicas e administrativas , ou de estabelecer as relações com outros grupos locais da mesma classe, etc.;  (2)- esses grupos tendem normalmente a favorecer a atuação em seu seio das comunidades em detrimento das massas e das comunhões , sendo, porém, eles próprios inconfundíveis com as comunidades que atualizam em seu seio, além disso, esses grupos , em conjunturas históricas especiais, como guerras, revoluções , movimentos de libertação, etc., são incapazes de resistir ao surgimento de comunhões ou à dissolução da comunidade em massa.

A classe de conhecimento mais preeminente nos grupos locais de pouca envergadura é o conhecimento perceptivo das relações com o exterior, isto é, o mundo exterior que esses grupos conhecem está imbricado nas perspectivas dos jardins, hortas, campos, bosques, estradas e caminhos de comunicação com as localidades vizinhas e os lugarejos onde se fazem os mercados.  Segundo os termos da análise gurvitcheana, trata-se de amplitudes egocêntricas e concêntricas imprimindo o caráter específico desse conhecimento, portanto, um conhecimento voltado para a ambiência particular desses grupos. Isso quer dizer que o mundo exterior tende a se afrouxar, perdendo poder de atração ou de pressão como o que vem de fora, embora seja digno de notar as perspectivas ou amplitudes difusas das relações com as cidades, com o Estado e sua capital, como lugar de organização administrativa e política.

Nota-se ainda que a penetração pelos Estados, Igrejas, e sociedades globais se faz sentir na aplicação pelos grupos locais de conceptualizações e de medidas para os tempos, como os tempos cíclicos das estações do ano e os de longa duração, bem como na aplicação de conceptualizações para as amplitudes das relações com o exterior, ocorrendo, então, que os grupos locais rechaçam suas amplitudes e seus tempos concretos, aos quais, todavia, permanecem vinculados.  No que concerne ao conhecimento de senso comum, esses grupos são seu último refúgio.  Já o conhecimento de outro e dos Nós-outros são marcados pelos estereótipos provenientes da sociedade global, com a televisão e o rádio tendo parte importante nisto.  O conhecimento político dos grupos locais de pouca envergadura compreende a tática própria para manter boas relações com os vizinhos, compreende também a participação na vida política do país, através das eleições municipais, as legislativas, etc., participação esta que, aliás, se faz notar exatamente a partir dos grupos locais de pequena envergadura.

(II-2)-       A análise gurvitcheana das fábricas e o saber, privilegiando os grupos de operários, favorece o interesse pelo conhecimento político que apresenta caráter específico.   São distinguidos três níveis dessa classe do saber: (a) – um nível particularizado, entendido como “tática de adaptação ao humor dos companheiros de equipe, ao humor dos capatazes ou ao dos engenheiros”.   Tática de adaptação esta que vem unida a uma espécie de conhecimento de senso comum, em relação não com a tradição, mas com o ambiente específico da fábrica.  Dessa maneira, esse conhecimento político particularizado pode às vezes entrar em conflito com: (b) –  o conhecimento político em nível proletário ou nacional e, por conseguinte, com a atitude dos sindicatos e dos organismos de representação operária.  Entre estes dois aspectos, há (c) – o terceiro nível de conhecimento político das fábricas: o modo de expressão do descontentamento, a fatiga e a oposição espontânea ao regime autoritário das fábricas.  Note-se que essa modalidade do conhecimento político contribui para reconciliar e combinar as outras duas.  Sem dúvida, há que levar em conta o igualmente específico conhecimento perceptivo do mundo exterior, cujo lugar é muito importante na fábrica, como conhecimento que os operários têm do mundo próprio da oficina, da fábrica, da empresa, cuja característica básica está em que os objetos dessa percepção, os locais, as máquinas, as oficinas, incluindo as oficinas dos diretores e dos engenheiros, são objetos tão próximos e ao mesmo tempo estão tão longe dos operários.   Além disso, são também objetos desse mundo exterior que os operários conhecem, as perspectivas e as correspondentes cadências em que se desenvolvem os esforços e a vida dos operários em equipe; bem como as distâncias, incluindo os percursos para falar aos seus chefes; as máquinas a usar; o tempo a sacrificar, como a locomoção domicílio-trabalho-domicílio.

Enfim, completando sua análise desse sistema cognitivo,  Gurvitch situa a submissão dos trabalhadores às máquinas, à administração dos técnicos especialistas e aos diretores das fábricas,  no âmbito  do conhecimento de outro e dos Nós-outros, o qual, exatamente  por esses mesmos  fatos, fica em último lugar, tornando-se um conhecimento de aspectos padronizados, um conhecimento de expectativas, como o comportamento, que, então, é o que se nota nos companheiros, como, por exemplo, o comportamento em relação ao trabalho, o comportamento a respeito do sindicato, ou  durante uma greve , ficando distanciadas, nesse conhecimento de expectativas ou de comportamentos, as pessoas próprias dos companheiros, situação de “estranhamento” esta que poderia mudar em um regime  de gestão autocontrolada.  Nota-se ainda que a forma do conhecimento político acentua o especulativo, o simbólico, e até o mitológico, sem perder, todavia, seu aspecto racional, calculador e adequado, enquanto as demais classes de conhecimento em foco nas fábricas atualizam, ao lado das formas adequada e racional, a forma empírica, a positiva, e a forma coletiva, o que, sublinha nosso autor, torna bem diferenciado o aspecto específico do conhecimento político dos operários das fábricas.

***

 

 

As Relações Humanas e a insuficiência de sua Psicologia Social

Notas críticas sobre a mentalidade resignada.

 

(Em revisão)

 

Por

Jacob (J.) Lumier

 

 

O problema é que a matéria das relações humanas nas organizações tem sido apreciado frequentemente na mais ampla desconsideração de qualquer referência ao mundo das ideias e valores, para, em lugar disso, deixar prevalecer o imaginário psicologista[i]

 

 Um standard do mundo da comunicação

 

A adoção da gestão de relações humanas foi afirmada em reação aos procedimentos de administração que associavam, exclusivamente, o melhor aproveitamento da capacidade física dos indivíduos, inclusive pela automação, ao aumento da produção. Trouxe um avanço na capacidade de compreensão das teorias de administração com a valorização de alguns aspectos do ambiente organizacional, como fatores característicos de relações humanas, que deveriam ser tomados em conta, seguinte: (a) o comportamento do indivíduo está condicionado às normas padrões sociais, e os indivíduos agem em vista de obter recompensas sociais; (c) a empresa deve  ser vista como um conjunto de grupos sociais informais, cuja estrutura nem sempre coincide com a organização formal; (d)  se reconhece a existência de grupos sociais que se mantêm em constante interação social dentro da empresa. (e) Da mesma forma, os elementos emocionais e mesmo irracionais passam a merecer maior atenção.

Trata-se de uma orientação com procedência no behaviorismo, o qual estabeleceu a noção de comportamento para designar as condutas observadas a partir de certos modelos de motivação e de êxito. Se preconizou, por essa razão, que as condutas dos indivíduos poderiam ser conduzidas pela ação administrativa.

Esta última, por sua vez, teria sua principal referência na busca do que chamam “sinergia”, uma união harmoniosa, em relação a que assinalam a importância do entrosamento que deve existir entre todos os níveis hierárquicos de uma organização: entre o presidente, diretores, gerentes, supervisores, assistentes e auxiliares. Todos sem exceção devem trabalhar em constante comunicação e harmonia, sempre coligados aos objetivos principais da companhia.

Em que pese o avanço na capacidade de compreensão das teorias de administração, as relações humanas são vistas de um ponto de vista dirigista, fortemente limitadas a uma psicologia atomista, em que os indivíduos são tomados em interações do tipo “ Eu – Tu”, sem que a mediação do todo seja tomada em consideração. Daí que um crítico perspicaz como Wright Mills, tenha descrito a psicologia social das instituições em termos que correspondem a um imaginário psicologista [ii].

Vê-se dessa forma um jogo individualista com caráter social atomista, assim definido exatamente por carecer de intermediação, por não reagir em função de seu conjunto, já que é um composto artificial de três imagens pessoais hipostasiadas, que recobrem a realidade social e exaurem o indivíduo, a saber: (1) a “pessoa” que alguém “pensa” ou se representa que é; (2) a que os outros “pensam” que ela é; (3) a que julga ou supõe que os outros “pensam” que ela seja [iii].

Nessa coleção de imagens hipostasiadas da pessoa, em que se atribui uma existência substancial ao que é ficcional, o aspecto interpessoal das relações sociais vem a ser restringido a uma atividade mental, a qual, nesse caso, é constatada em avaliações arbitradas nas preferências subjetivas, ou veleidades, projetadas como representações de outros, inclusive as auto avaliações, que, aquém das aspirações coletivas presentes de modo espontâneo na vida social, refletem apenas o caráter preestabelecido das regulamentações e das condutas previamente hierarquizadas no modelo dos aparelhos organizados [iv]. Daí a influência ampla dessa psicologia gerencial a que chamam “relações humanas nas empresas”.

Embora esse imaginário seja frequentemente supervalorizado nas técnicas utilizadas para treinamentos de funcionários, é também muito cultivado nos ambientes difundidos pela mídia e aplicado como modelo de relações humanas, as quais, dessa forma, passam a ser entendidas como gestão de pessoas que se propõe obter do grupo lealdade, dinamismo e comprometimento com os objetivos da organização. Acreditam que reconhecer as relações humanas é identificar a motivação das pessoas para poder conduzi-las com planejamento, informação, arbitragem, controle, recompensa, estímulos, disciplinas e todas as ferramentas e recursos utilizáveis em uma administração de recursos humanos.

O imaginário psicologista, pode também ser observado a partir do público da televisão e seus reality shows, onde, frequentemente, os personagens, inclusive das novelas líderes em audiência, sempre com suscetibilidade, sofrem uma ansiedade que pode ser descrita como interação mais ou menos lúdica das três pessoas hipostasiadas, as quais são como disse afirmadas sem um meio termo que as implique umas pelas outras, já que a noção de grupo nesse caso é meramente formal.

Na medida em que configura um standard do mundo da comunicação, o imaginário psicologista pode ser igualmente detectado na variedade de seriados “hollywoodianos” que fomentam o modelo de um ambiente organizado sob controles tecnológicos. Filmes em que, apesar dos desafios e eventuais peripécias, encontramos invariavelmente um pequeno grupo de personagens principais trocando avaliações uns dos outros, suas preferências e auto avaliações, à maneira dos antigos e influentes psicodramas e dinâmicas de grupo, que promovem a técnica de estimação dos ajuizamentos de valor portados por cada membro de um grupo sobre cada um dos outros, à margem do todo.

A referência do atomismo social

As teorias de relações humanas são formalistas e, como tais, refutadas, dado que tomam por base uma psicologia interpessoal atomista, e promovem a mencionada técnica de estimação dos ajuizamentos de valor portados por cada membro de um grupo sobre cada um dos outros (sociodrama ou psicodrama), e valorizam a imitação.

A realidade social não admite redução a uma poeira de indivíduos idênticos, mas, ao contrário disso, todas as interações, inter-relações, relações com outrem (interpessoais e intergrupais) ou interdependências pressupõem e são sempre fundadas sobre interpenetrações, integrações, participações diretas, fusões parciais em os Nós-outros (atuais ou virtuais), sempre concebidos como totalidades.

Psicodrama e sociodrama são esforços de autores que, embora tenham ultrapassado os erros de Hobbes, pensador este há muito superado, permaneceram parcialmente em desvantagem devido a um psicologismo individualista que os levou a reduzir a realidade social a relações de preferência e de repugnância interpessoais e intergrupais.

O erro de Hobbes não foi ter procurado os elementos microscópicos e irredutíveis de que é composta qualquer unidade coletiva, mas foi, sim, tê-los encontrado fora da realidade social, nos indivíduos isolados e idênticos.

Desse modo se estabeleceu a referência do atomismo social, como o conjunto das concepções individualistas e contractualistas que reduzem a realidade social a uma poeira de indivíduos idênticos [v]. Tal é a referência do psicologismo individualista que situa aos representantes do psicodrama no mesmo nível do formalismo social, com a equivocada redução de qualquer sociabilidade à simples interdependência e interação recíproca.

Nesta limitada orientação, se preconiza como disse que, ao nível psicológico da realidade social, qualquer interesse está concentrado sobre a psicologia interpessoal em detrimento da psicologia coletiva propriamente dita, com desprezo das funções intelectuais e voluntárias em favor do aspecto exclusivamente emotivo da preferência e da repugnância, com o aspecto mais significante da aspiração sendo aí deixado de lado.

 

Uma reflexão crítica à mentalidade resignada

Indiferente à realidade social que esconde de si, nesse imaginário psicologista, a consciência mantém-se mais ou menos fechada sobre si mesma, com tendência à introspecção, lança imagens ao exterior de onde as recebe, de tal sorte que essa perpétua interação de imagens de pessoas e autoimagens, trocadas entre indivíduos atomizados e a beira de alternativas excludentes – ou participar da dinâmica imaginária ou assumir o risco da exclusão –  gira como uma condenação, isto é, diretamente centrada na ansiedade da natureza humana, à margem das ali desprezadas aspirações coletivas.

Embora conformada ao que é preestabelecido na hierarquia organizacional, trata-se certamente de uma mentalidade vinculada à modernização dos procedimentos ou melhoramento dos controles técnicos e tecnológicos no mundo da produção, que se projeta para fora e se fixa nos símbolos padronizados do utilitarismo doutrinário – “o que é utilitário é bom para todos, logo, uma norma é legitima se favorece o que é utilitário”.

Nessa mentalidade tecnocrata, mas conformada, tem-se uma falsa compreensão das relações humanas efetivas nos diversos ambientes além do mundo da organização, tais como o mundo da família e vizinhança, o espaço público, os ambientes sociais e educativos, etc. Falsa compreensão porque, ao invés de percebidos como integrantes de um todo, no caso um Nós-outros, os outros, naquela mentalidade, são reduzidos como disse ao imaginário (psicologista) de cada um, desprovidos estes de integração funcional no todo, carentes de intermediação.

Daí, dessa atomização dos indivíduos, provém a pouca relevância atribuída às experiências efetivas que o grupo acumulou, deixando-se como negligenciáveis, juntamente com a sintaxe existente, o mencionado histórico (acervo) de suas práticas, de seus modelos e seus procedimentos anteriormente desenvolvidos em plano de uma organização.

 

Nem o sistema nem o mercado

Desta forma, em face da recorrência de concepções social-atomistas do tipo da referida “mentalidade resignada”, que tendem como disse para reduzir as relações humanas e sociais ao “imaginário psicologista”, devem compreender que o indivíduo e as relações humanas e sociais efetivas não são identificadas nem ao sistema nem ao mercado; não se reduzem à busca de vantagem diferencial que caracteriza o mercado, nem à hierarquia das desigualdades de posição econômica que alicerça o sistema.

Continua

 

***

 

 

 

POSTAGEM SEGUNDA PARTE

 

 

Relações humanas, modernização e sociabilidade

 

Como se vê, do ponto de vista que predomina nessa matéria, chamada, na esteira do behaviorismo, “ciência do comportamento”, o que designam por “relações humanas” não passa de uma gestão, um modelo de gerenciamento da competitividade entre os indivíduos que se encontram submetidos ao domínio da vantagem diferencial, como categoria de estratificação social econômica, promovida pela hierarquia industrial financeira.

 

el hecho de que las personas tengan interés propio cuando participan en las relaciones sociales no significa busca del lucro, no significa que están allá para ganar más dinero. Ese interés expresa su aspiración al bien estar y puede ser el deseo de realizar obras, participar y ampliar sus conocimientos y experiencias.

Por un lado, como factor que torna jerárquicas las desigualdades, el control capitalista se basa en la recurrencia de la estandarización por vía de extensión de la mercaderización de las relaciones humanas, en cuanto que, por otro lado, y en la medida en que expresa el conjunto de las manifestaciones de sociabilidad, el pluralismo social efectivo se profundiza y torna más consecuente el contrapeso que limita la absorción de las aspiraciones en la categoría de ventaja.

Pueden suponer que la ideología neoliberal en su lema de que “no existe sociedad” (habrá solamente el mercado) incorpora una proyección de la supresión de la reciprocidad en el proceso de unilateralización a impulsar la generalización de las necesidades (que alimenta el mercado en escala global). Por contra, saben que esa ideología no resiste al cotejo de los hechos sociales. La sociedad vive en la consciencia colectiva (la auto-preservación no es solamente instinto individual, sino sentimiento colectivo) y existe en estado de realidad social. Sin embargo, el hecho de que las personas tengan interés propio cuando participan en las relaciones sociales no significa busca del lucro, no significa que están allá para ganar más dinero. Ese interés expresa su aspiración al bien estar y puede ser el deseo de realizar obras, participar y ampliar sus conocimientos y experiencias.

El sociólogo no limita el estudio de las relaciones sociales al punto de vista del control capitalista. Pero es preciso tener en cuenta que hay sí ambigüedad entre sociedad e individuo: ora es la perspectiva individual que hace prevalecer su libertad, ora es la sociedad que impone sus exigencias y engranajes.

Hay un pluralismo social efectivo. La sociedad es un macrocosmos de agrupamientos y formas de sociabilidad y cada agrupamiento tiene obras a realizar, como la moralidad, la educación, el conocimiento, el derecho, aunque el mismo sea un marco social con funciones económicas, basta recordar el ejercicio de la responsabilidad social en las empresas.

 

Os programas de melhoria organizacional.

 

  • Em relação à tecnificação dos controles hierárquicos, que atinge as relações humanas nas organizações, notam certos programas de melhoramento em que prevalece a tentativa para desmontar as sintaxes existentes e impor os esquemas previamente definidos.

 

 

O sociólogo põe em questão a primazia lógica na concepção e no modo de intervenção dos programas de melhoria ou melhoramento organizacional. Quer dizer, não é o conteúdo desses programas em seus propósitos de benfeitorias que suscitam análise sociológica, nem os Standards ou padrões organizacionais que os inspiram, a título de presumidas teorias administrativas.

Trata-se de algo mais amplo. Do ponto de vista sociológico diferencial, nos programas de melhoramento organizacional há um desejo voltado para remanejar e manipular o conhecimento já aplicado nas sintaxes em vigor social, já aplicado nas maneiras de agir e pensar em uso nas ambiências onde as práticas gerenciais se desenvolveram e foram assimiladas no histórico dos planejamentos (acervo de procedimentos).

Falam aqui de “desejo” e não “vontade” para sublinhar que tal desiderato manipulador não é necessariamente calculado ou proposital, mas decorre em parte do utilitarismo doutrinário, e em parte provém de uma exigência da própria automação com seu domínio lógico, que, ambos, compõem a mentalidade de modernização industrial e agroindustrial dominante nas hierarquias organizacionais.

Daí a relevância utilitarista das pesquisas ou levantamentos de informações como ferramentas para a tecnificação do saber, e para a consequente imposição de esquemas prévios, no molde dos formulários que intervêm sobre a compreensão das funções (atribuições, tarefas, hierarquias), e que exige do grupo ativo a submissão aos mapeamentos previamente definidos e muitas vezes estranhos aos vocabulários operativos em uso, contra o que se opõe o sociólogo.

Lembre-se que, no histórico da sociologia, tal orientação diferencial crítica em oposição ao utilitarismo doutrinário tem como disse ascendência em Émile Durkheim.

Com efeito. Caso não participasse das questões públicas e, em sua obra “Da Divisão do Trabalho Social” [vi] , não houvesse assumido oposição sociológica ao utilitarismo doutrinário, anteriormente promovido por Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873) que gozavam de excepcional prestígio nos meios progressistas da época, como se sabe, Durkheim não seria suscitado à descoberta original do quadro da sociologia da vida moral, a que chegou passando por uma reflexão aprofundada junto com a filosofia de Kant.

Como sabe, fora-lhe essencial sua recusa da “utilidade” como critério último das ações humanas e como base mensurável de análise das questões políticas, sociais e econômicas. Da mesma maneira, ao repelir toda a tentativa em estabelecer um absoluto para a vida moral com imposição aos fatos sociais, tornou-se igualmente indispensável repelir a pretensão utilitarista em reduzir o valor de uma norma unicamente a sua utilidade como critério de felicidade para o maior número. 

 

Pluralismo e Sociabilidade

 

O primeiro desafio para uma compreensão ampliada das relações humanas será ultrapassar a reificação estabelecida nesse termo como modelo de gestão de pessoas e recuperar a percepção do pluralismo social efetivo.

Todo o mundo sabe que os indivíduos mudam de atitude em função dos grupos aos quais pertencem. Os papéis sociais que assumem ou os personagens que encarnam mudam segundo os círculos sociais diferentes a que pertencem. Um pai ou um marido muito autoritário, por exemplo, pode, simultaneamente, desempenhar o papel de um colega particularmente atencioso. Em cada grupo, um indivíduo desempenha um papel social diferente: é ajustador, vendedor, professor…, por outro lado, esse mesmo indivíduo pode desempenhar, nesses grupos, papéis umas vezes sem brilho, outras vezes brilhantes; umas vezes subordinados, outras vezes dominantes; os mesmos indivíduos e os mesmos grupos podem, segundo estruturas e conjunturas sociais variadas, desempenhar papéis muito diferentes e até opostos. Por outro aspecto, existe a variabilidade: os agrupamentos particulares mudam de caráter e não apenas de posições; assumem identidades e diferenças não assumidas em tipos ou subtipos de sociedades diferentes. Na medida em que participam da mudança em eficácia que se opera no interior das estruturas, os grupos, mais do que se deslocarem conforme trajetórias apenas exteriores, se movem nos tempos sociais. Da mesma maneira, as manifestações da sociabilidade tanto quanto as classes sociais mudam de caráter em função das sociedades globais em que estão integrados; inversamente, as sociedades globais se modificam de cima a baixo sob a influência da mudança de hierarquia e de orientação das primeiras.

Desta forma, vê-se que, antes de sua conotação técnica gerencial, a sintaxe do termo “relações humanas” repousa na experiência da sociabilidade, que implica tanto o pluralismo social efetivo quanto a variabilidade. Bem entendido: a sociabilidade como realidade bem delimitada e precisa, cuja característica ressaltante consiste no fato de que existe uma fusão parcial entre as obrigações de uns e as prerrogativas de outros.

Trata-se, na sociabilidade, de um fato que se reconhece a posteriori como indispensável, detectado já no século XVIII por Montesquieu, ao pôr em relevo o sistema de freios e contrapesos, e, posteriormente, por Durkheim, de quem se aprende que a vida em sociedade seria impossível sem a mínima acomodação moral, reconhecida na aludida fusão parcial entre as obrigações de uns e as prerrogativas de outros, a qual é espontaneamente atualizada nas formas de sociabilidade como os Nós-outros – suas expressões na massa, na comunidade e na comunhão – e os Outrem (relações com os outros).

***

 

A referência das ideias e valores e a formação de um sentimento coletivo

 

Os Nós-outros formam um quadro microssocial privilegiado no domínio das significações, dos símbolos, das ideias e valores, dos atos mentais.

 

Caminhando no sentido da sociabilidade, cabe ao sociólogo examinar as significações práticas encaradas, vividas ou desejadas pelos sujeitos – quer tais significações impliquem comportamentos, gestos, modelos, papéis sociais ou atitudes coletivas – para solucionar a questão do que exatamente as exteriorizações ou manifestações coletivas recobrem. 

E só se chega a essa resolução mediante a interpretação das ideias e valores ali implicados, quer dizer, pela aplicação das correlações funcionais que caracterizam a existência do mundo das ideias e valores na realidade social.

De fato, é por via das correlações funcionais que se alcança o psiquismo coletivo, o plano dos atos (intuições e juízos) e estados mentais; o nível das dinâmicas espontâneas das avaliações coletivas, das opiniões, carências, satisfações, esforços, sofrimentos e ideais – cabendo notar que nessas dinâmicas entra em foco justamente o mundo das ideias e valores, inclusive a aspiração ao bem-estar ; o desejo individual e coletivo de realizar obras, participar e ampliar seus conhecimentos e experiências.

 

O mundo das ideias e valores ultrapassa os modelos de êxito

 

Posto que o sociólogo não representa ou projeta os valores, mas os descobre segundo critérios de efetividade, o mundo das ideias e valores é estudado em sociologia diferencial como a camada da realidade social que provoca a coincidência, por um lado, dos quadros de referências lógicas e dos quadros de referências estimativas, e, por outro lado, dos quadros sociais.

Uma consequência dessa efetividade do mundo das ideias e valores, está em que, por exemplo, a aceitação ou a rejeição dos modelos de verificação dos determinismos científicos, por parte de pensadores individuais e de elites técnicas, constitui uma das conjunturas nas quais fatores extra lógicos possivelmente sociológicos podem intervir e influir sobre a validade do pensamento de uma elite [vii]. As proposições dos problemas sofrem a influência dos “contextos sociais” através da mediação dos próprios conceitos operacionalizados nas formulações dos pensadores, os quais existem como significados socialmente condicionados.

Desse modo, o mundo dos valores viabiliza as correlações funcionais entre algumas ideias e valores e os tipos sociais, notadamente os tipos de estruturas sociais (p.ex. as correlações observadas nos tipos de sociedades que dão à luz o capitalismo nos séculos XVII e XVIII e explicam o iluminismo [viii]).

 

As relações humanas em sentido ampliado ultrapassam as suas esquematizações estabelecidas nos modelos de êxito, e cobram consequências nas condutas efervescentes, que, diferenciadas na formação de um sentimento coletivo, muitas vezes afloram em reuniões, assembleias, debates.

 

Um mundo de ideias e valores é descoberto por trás das condutas, das atitudes, dos modelos, dos papéis sociais, inclusive por trás dos símbolos sociais e suas esquematizações cristalizadas em nível dos aparelhos organizados, fato esse que torna indispensável tomar em consideração esse mundo de ideias e valores no estudo das relações humanas.

Tanto mais que essas relações humanas em sentido ampliado ultrapassam as suas esquematizações estabelecidas em modelos de êxito e distribuição de vantagens, e cobram consequências nas condutas efervescentes, que, diferenciadas na formação de um sentimento coletivo, muitas vezes afloram em reuniões, assembleias, debates, seja no âmbito das empresas e aparelhos organizados, seja em nível de agrupamentos de localidades ou demais agrupamentos funcionais.

No âmbito da formação de um sentimento coletivo, nota-se em sociologia que a consciência de classe, assim como as ideologias fazem parte da produção de imagens, da produção de símbolos, ideias, ou obras culturais em que as classes se reconhecem e por quem se recusam reciprocamente. A consciência de classe é uma determinação psíquica incluída na realidade das classes sociais, que engloba os traços gerais da classe considerada, enquanto o psiquismo de classe compreende as particularidades momentâneas locais, como a função de representação.

Em sentido amplo, não há criação de um simbolismo social novo sem a afirmação de ideias e valores que dão a motivação e, mais que isto, a inspiração para as condutas coletivas efervescentes, iluminando-as para que favoreçam a reestruturação; tornando-as forças luminosas e não “correntes cegas”, ao contrário dos que resistem à mudança pelo espontaneísmo social e coletivo.

O sociólogo nota que essas condutas efervescentes, com inspiração na afirmação de ideias e valores – inclusive a aspiração ao bem-estar ; o desejo individual e coletivo de realizar obras, participar e ampliar seus conhecimentos e experiências – quando afirmadas pelos Nós-outros das comunhões ativas ou ativistas – como o são as diversas seitas ou as formações dos partidários obstinados de diversas filiações (religiosos, culturais, políticos, espiritualistas, pacifistas, naturalistas, ecologistas, naturistas, preservacionistas, humanistas, filantrópicos, socialistas-utopistas, comunitaristas [ix], etc.) – manifestam a sua independência em relação aos símbolos, afastando-os, destruindo-os, substituindo-os por criações novas – notadamente em conjunturas ou situações de transição, em escala global ou no interior de grupos e de classes sociais, e isto geralmente sendo afirmado contra os aparelhos organizados.

 

Imitação e Sentimento Coletivo

 

Há quem sustente que o termo “relações humanas” não é reduzido a uma técnica gerencial de pessoas com caráter impositivo, projetada para salvaguardar os interesses de uma organização econômica. O termo teria sua referência em uma aplicação da psicologia interpessoal, cuja categoria central nesse caso seria a imitação, de tal sorte que as relações humanas poderiam ser induzidas por condutas preestabelecidas em regulamentos sem que isso implique um controle coercitivo.

Sem embargo, é preciso levar em conta que a psicologia interpessoal é parte do problema da formação de um sentimento coletivo.

Embora a imitação tenha procedência na consciência coletiva, predomina nesta última a oposição sociológica entre fusão ou interpenetração das consciências e a sua simples interação ou interdependência.

O fenômeno essencial da psicologia coletiva e que a insere no domínio da sociologia é a imanência recíproca e a dialética entre as consciências coletivas e as consciências individuais. A psicologia interpessoal, por sua vez, é como disse parte do problema da formação de um sentimento coletivo.

Portanto, seria ilegítimo designar por imitação a submissão aos modos e aos costumes, assim como a participação na efervescência coletiva. Ambos os casos tratam de manifestações da consciência coletiva.

Na efervescência dos grupos não há nem modelo nem cópia, mas fusão de certo número de estados psíquicos no seio de outro que deles se distingue, e que é o estado coletivo: em vez de imitação se deveria falar de criação, visto que desta fusão resulta algo novo – resulta um sentimento coletivo – sendo este processus o único pelo qual o grupo tem a capacidade de criar.

O fato de alguém se conformar com os modos e costumes, nada tem a ver com imitação, que, neste caso, é somente aparente: o ato reproduzido é tal, não por se ter verificado na nossa presença, ou com o nosso consentimento. Por exemplo, nossa adesão à regra se dá em virtude do respeito inspirado pelas práticas coletivas, e também por causa da pressão da coletividade sobre os Nós-outros, para evitar a dissidência. Ao contrário de imitação, conformar-se com os costumes é estar consciente da existência da consciência coletiva e inclinar-se perante ela.

 

A Imitação e as Relações com os outros

 

É falsa a pressuposição de que as consciências individuais perfeitamente isoladas podem entrar em contato independentemente de qualquer recurso à consciência coletiva. É igualmente falso que a reprodução imitativa pode não ser reduzida a fenômenos de reprodução automática ou “contágios” – aplicáveis aos animais como ao homem, e que se afirmam fora da vida social. Sem embargo, tal reprodução imitativa pode ser fundamentada em signos e símbolos [x].

A respeito dessa terceira pressuposição, podemos dizer que, ao se imitar, por exemplo, não o “espirro” ou o temor de outro, mas sim os seus gestos, as suas condutas conscientes, as suas opiniões, os seus atos refletidos, os seus juízos, etc. a imitação pressupõe a comunicação das consciências por meio de sinais e símbolos – e essa comunicação simbólica pressupõe por sua vez a fusão ou a interpenetração prévia das consciências, isto é: pressupõe uma consciência [coletiva] que dê aos signos simbólicos significações idênticas para os participantes.[xi]

►Mas não é tudo. Gurvitch sublinha que nenhum contato, nenhuma interdependência, nenhuma imitação distinta do simples “contágio” são possíveis entre as consciências individuais de outra forma que não seja no plano ou no horizonte da consciência coletiva. Durkheim se equivoca quando, por efeito de sua argumentação contra Gabriel Tarde, levando-o a reduzir a imitação à reprodução automática, chega à conclusão de que a psicologia interpessoal é inexistente e não passa de outro nome para a psicologia individual tradicional.

Por contra, na atualidade, já se reconhece dentro da sociologia uma psicologia interpessoal e intergrupal, em conexão com a psicologia coletiva. Nota-se que a existência dos Nós-outros, por um lado, dos vários Eu (diferenciados na reflexão sobre a experiência de cada um como personagens em seus círculos e papéis sociais) e de outrem, por outro lado, leva a reconhecer as relações mentais com os outros, isto é, as relações psíquicas entre o Eu, Tu, Ele, sublinhando que essas relações mentais pressupõem a realidade muito mais complexa e rica das próprias manifestações da sociabilidade, como os Nós-outros em seu conjunto em ato.

Desta forma, o estudo da imitação põe o problema da realidade do outro, o alter ego, assim como o problema da validade dos signos e símbolos, cuja solução conduz necessariamente ao estudo sociológico dos Nós-outros na vida dos grupos sociais, e ao estudo dos atos e estados mentais que são manifestações da consciência coletiva.

Notem que a imitação e o alter ego resultante são igualmente um aspecto ou direcionamento da mesma atividade mental, no caso as preferencias subjetivas. Em consequência, não há dualismo com o imaginário psicologista. Neste último, o aspecto interpessoal das relações sociais vem a ser limitado às séries de avaliações arbitradas nas preferências subjetivas ou veleidades projetadas sobre os outros, da mesma maneira que a imitação.

 

 

Quadro microssocial

 

►Representando um dos primeiros focos da dialética na realidade social os Nós-outros formam um quadro microssocial privilegiado no domínio das significações, dos símbolos, das ideias e valores, dos atos mentais. Dão foco às atitudes e estas, por sua vez, são conjuntos, configurações sociais (Gestalten) virtuais ou atuais que implicam dentre outros níveis um quadro social grupal ou global, em que os símbolos sociais se manifestam e escalas particulares de valores são aceites ou rejeitadas [xii].

 

Note-se que o diferencial da colocação do mundo dos valores em perspectiva sociológica é a constatação de que os Nós-outros são constituídos em quadros sociais e não se dissolvem em um gênero abstrato, em um conjunto sem ligação entre exemplares idênticos, o que aconteceria se existisse identidade entre os Eu participantes [xiii].

 

Daí a indispensabilidade do estudo sociológico dos Nós-outros [xiv].

 

►A microssociologia foi fundada e desenvolvida por Georges Gurvitch a partir da crítica imanente a Durkheim e aos seus “tipos de solidariedade” [xv].

Sendo entrelaçada em fato aos estados mentais, a “solidariedade” ou, em termos mais adequados, a sociabilidade constitui o complexo fundamental da consciência coletiva, portanto exprime o fato social indiscutível da interpenetração virtual ou atual das várias consciências coletivas ou individuais, sua fusão parcial verificada em uma psicologia coletiva dentro da sociologia.

 

Fusão Parcial das consciências

 

►Descrevendo desta forma a fusão como resultante, a microssociologia estuda a sociabilidade em dois tipos: (a) – a sociabilidade por fusão parcial nos Nós-outros, cujos graus são a Massa, a Comunidade, a Comunhão; (b) – a sociabilidade por oposição parcial entre “Eu, Tu, ele, aquele”, que são as formas de relações com outrem.

Um Nós-outros constitui um todo irredutível à pluralidade dos seus membros, mas imanente às suas partes – daí representar um dos primeiros focos da dialética na realidade social, cuja variabilidade é da competência do sociólogo pôr em relevo. 

Essa imanência recíproca varia p. ex. caso se trate de Nós-outros semiconscientes ou de Nós-outros conscientes, Nós-outros passivos ou Nós-outros ativos, Nós-outros em luta ou Nós-outros em paz.

A força de atração exercida pelos Nós-outros sobre os Eu que neles participam encontra-se em relação de proporcionalidade direta com a intensidade da fusão constituindo esses Nós-outros.

A força de pressão exercida pelos Nós-outros sobre os seus membros encontra-se, pelo contrário, em relação de proporcionalidade inversa com a intensidade da fusão.

Evidentemente, tratam-se forças psicossociológicas diferenciadas e não-equivalentes de tal sorte que as resultantes dessas variações na atração e na pressão têm qualidades diferentes e caracterizam as formas de sociabilidade concorrentes.

No caso das massas a pressão encontra-se no máximo – em consequência a fusão não atinge mais do que um grau muito fraco em intensidade e em profundidade.

No caso das comunhões a atração está no máximo e a pressão no mínimo – em consequência as fusões são mais intensas e mais profundas.

As variações não são limitadas às massas ou às comunhões. Caso consiga integrar uma porção maior ou menor do que existe de mais interno e de mais pessoal nos Eu e nos outros, um Nós-outros afirma-se como um foco de intimidade e calor, cujos graus, porém, podem descer muito baixo ao ponto de reduzi-lo ao estado de pura virtualidade e afrouxar a participação dos membros em passividade quase completa – a própria fusão pode ser inconsciente ou não se realizar além da superfície.

Gurvitch observa que se existisse identidade entre os Eu participantes em os Nós-outros, estes não poderiam como disse constituir-se em quadro social (o “todo concreto”) e tenderiam a dissolverem-se num gênero abstrato, num “conjunto sem ligação entre exemplares idênticos”.

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Os Eu participantes não idênticos [xvi]

 

►A interpenetração ou fusão parcial pressupõe ao mesmo tempo uma dessemelhança e uma semelhança (uma afinidade).  Essa afinidade torna-se mais forte na medida em que cresce a dessemelhança e que ao mesmo tempo se intensifica a participação no conjunto.   Portanto, as fusões parciais nos Nós-outros não podem atingir em imanência e em intensidade os graus que impulsionam no sentido da individualização ou no sentido da afinidade crescente dos Eu que nela participam. Tal a impossibilidade em afirmarem-se identidade entre os Eu participantes.

Na sociologia diferencial as ligações dos Nós-outros às intuições coletivas neles virtualmente implicadas afirmam-se em casos precisos e não em maneira geral, não se podendo ligá-los todos às intuições coletivas atuais – já que as semelhanças e as próprias dessemelhanças podem tomar as manifestações as mais variadas.

Quer dizer, é a imagem da interpenetração e da fusão parcial de várias consciências entreabertas (admitindo uma escala infinita de graus de abertura) que faz melhor sobressair o aspecto mental de um Nós-outros.

Os casos em que as intuições coletivas se tornam atuais exigem, além do mais alto grau em fusão e em atração (para os participantes), como nas comunhões, o seguinte:

(a) – que essas comunhões, no “estado de vigília, de efervescência e de excitação”, se apreendam e se reafirmem em si próprias (como, p.ex., no caso das comunhões situadas perante situações inesperadas, ou tomadas numa luta exacerbada com outras comunhões que ameaçam a sua existência);

(b) – que essas comunhões consigam apreender ideias e valores novos, ou criar obras coletivas inéditas.

No primeiro caso, Gurvitch nota que a atualidade das intuições coletivas pode ser verificada pelo fato de que as mesmas ultrapassam os signos e os símbolos (os quais contribuem para essa intensificação da fusão em um Nós-outros).

Entretanto, é admitida a raridade das intuições coletivas atuais.  Quer dizer, não se encontra com frequência os Nós-outros no estado efervescente e excitado apreendendo-se e confirmando-se como tais, ou conseguindo entrever ou criar novas ideias e valores e suscitar situações totalmente inéditas.

 

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A afinidade de realidade social e esfera simbólica

 

Neste ponto, devemos retornar ao problema do simbolismo.

Em sua definição descritivo-compreensiva do pensamento simbólico como dotando o homem da nova capacidade para reajustar constantemente seu mundo humano, a análise filosófica [xvii] afirma o ponto de vista da mobilidade e da variabilidade levando-nos a relembrar que a variabilidade é pesquisada com prioridade em sociologia.

Quer dizer, os símbolos são estudados em sociologia como símbolos sociais, portanto, existindo como representações que só em parte exprimem os conteúdos significados, e servem de mediadores entre os conteúdos e os agentes coletivos e individuais que os formulam e para os quais se dirigem, tal mediação consistindo em favorecer a mútua participação dos agentes nos conteúdos e desses conteúdos nos agentes. Os símbolos sociais constituem tanto uma representação incompleta, uma expressão inadequada, quanto um instrumento de participação.

Segundo Georges Gurvitch [xviii], os símbolos sociais revelam velando e ao velarem revelam, na mesma maneira em que, impelindo para a participação direta no significado, travam-na.

Portanto, os símbolos constituem uma forma de comportamento diante dos obstáculos, sendo possível dizer que a função simbólica é inseparável do homem tomado coletiva ou individualmente, de tal sorte que os Eu, Nós-outros, grupos, classes sociais, sociedades globais são construtores inconscientes ou conscientes dos símbolos variados.

Na análise sociológica da esfera simbólica do mundo humano acentuam-se as seguintes constatações: (1) – a imensa variabilidade decorrente da ambiguidade fundamental do simbólico; (2) – os planos subjacentes da realidade social ela própria são dependentes do simbolismo na medida em que, justamente, simbolizam o todo indecomponível dessa realidade seccionada; (3) – ao mesmo tempo, os símbolos sociais mais especialmente ligados às obras de civilização [xix] funcionam como argamassa de colagem, juntando as descontinuidades entre os níveis seccionados; (4) – os símbolos se apoiam em experiências coletivas e atos criadores dos Nós-outros , grupos, sociedades, que (a) – constituem uniões prévias, as quais, por sua vez, tornando possível a comunicação, (a1) – ultrapassam a esfera simbólica tornando-a igualmente possível.

Nada obstante, cabe lembrar que em sociologia não se procede a reduções que não sejam procedimentos dialéticos. Constata-se que a esfera simbólica não passa de uma camada em profundidade da realidade social dentre outras.

A redução das ideias e valores e das obras de civilização ao plano do pensamento simbólico é característica da análise filosófica. Esta as destaca da realidade social e do empirismo efetivo, visando desse modo estudá-las mediante a acentuação de sua autonomia relativa como formas simbólicas dotadas de diferenças específicas.

Cabe, pois, à sociologia esclarecer que a mobilidade provém exatamente do caráter mediador dos símbolos impeli;ndo para a participação direta no significado [xx].

Desta forma, nos resultados da análise e descrição sociológica observa-se que os símbolos são muito mais indispensáveis aos Nós-outros que na realidade social servem de focos às intuições intelectuais.

Por sua vez, os Nós-outros que servem de focos às ações inovadoras e criadoras (intuições da vontade) são os menos dependentes de qualquer simbolismo.

Entretanto, posta a raridade das intuições coletivas atuais, já que como disse não se encontra com frequência os Nós-outros no estado efervescente e excitado apreendendo-se e confirmando-se como tais, ou conseguindo entrever ou criar novas ideias e valores e suscitar situações totalmente inéditas, compreende-se que a maior parte dos Nós-outros existentes na realidade social implica, portanto, unicamente intuições coletivas virtuais e não atuais.  Significando que:

¶Um grande número de Nós-outros permanece em estado inconsciente ou de sono e podem mesmo uma vez tornados conscientes persistir na sua passividade.

¶O elemento mental dos Nós-outros pode consistir na atualidade não dos atos (intuição e juízo), mas de estados; p.ex.: (a) os Nós-outros podem servir exclusivamente de quadros sociais à percepção ou representação coletivas, à memória coletiva, etc.; (b) eles podem afirmar-se como focos de sofrimentos e de satisfações, (c) focos de atração e de repulsão, (d) de tristeza ou de alegria coletivas; (e) focos enfim de veleidades e de esforços coletivos.

Em todos esses casos o papel desempenhado pela esfera simbólica no funcionamento dos Nós-outros permanece importante.

 

A Identificação heteropática

 

►Neste sentido compreende-se melhor a questão da identificação dos Eu participantes em um Nós-outros.

Certamente é indispensável distinguir nitidamente entre a sociabilidade por fusão parcial nos Nós-outros e os fenômenos patológicos de identificação heteropática e idiopática.

Gurvitch examina este problema a respeito dos argumentos de Durkheim em favor da coincidência total entre consciência coletiva e consciência individual pelo predomínio exclusivo da solidariedade mecânica [xxi].

Observa que o mesmo vale unicamente como um argumento que tem em vista a identificação heteropática – excluindo então a identificação idiopática, que seria o aniquilamento da consciência coletiva na consciência individual.

Sem embargo, a identificação heteropática com a consciência coletiva sendo admitida, repelida fica, todavia, que tal identificação possa servir de base para explicar a realidade específica da consciência coletiva. Isto porque tal identificação só é possível na medida em que a consciência coletiva já exista!

Estudado em psicologia infantil, no fenômeno da identificação em vez de duas ou mais consciências só uma resta; (a) na identificação heteropática se afirma a consciência com a qual nos identificamos; (b) na identificação idiopática se afirma a consciência do sujeito que identifica consigo próprio a Outrem ou a um Nós-outros [xxii].

Note-se que o fenômeno da identificação nada tem a ver nem com a identidade dos conteúdos nem com a identidade das próprias consciências, nem, finalmente com a ligação das consciências por uma participação recíproca [xxiii] .

►Apesar dessa distinção o sociólogo admite que em alguns agrupamentos e sociedades se manifestem casos intermediários, isto é, casos onde a separação entre o aspecto mental dos Nós-outros e os fenômenos de identificação é menos nitidamente acentuada que noutros casos.  Assim, nos são dados os exemplos seguintes:

Os Nós-outros constituídos por membros de seitas em êxtase místico, por iniciados nos mistérios antigos, por fiéis de um chefe político, por participantes em multidões exaltadas, podem um pouco aproximar-se dos fenômenos de identificação patológica, respectivamente, do homem com o seu Deus, com o seu Chefe, com o seu Herói, com o seu Pai, etc.

Nota-se que o psiquismo dos Nós-outros onde predominam estados emotivos está mais sujeito ao deslize para esses fenômenos de identificação do que a mentalidade dos Nós-outros onde predominam os estados intelectuais ou voluntários.  Bem entendido, os Nós-outros que servem de focos aos atos mentais estão mais preservados do que os Nós-outros que servem exclusivamente de quadros aos estados mentais.

 

A mediação comunicativa

 

Em acordo com a teoria sociológica de Georges Gurvitch compreende-se que todos os Nós-outros se encontram fundados em intuições coletivas no estado virtual (não traduzidas em juízos): “sem a presença das intuições coletivas virtuais, a existência dos Nós-outros seria impossível, como seria impossível a ação dos símbolos que facilitam o funcionamento dos Nós-outros e levam os seus membros à participação”.

Com efeito, a análise sociológica mostra que “a própria imanência dos Eu ao Nós-outros e dos Nós-outros ao Eu não pode efetuar-se se não for a partir de uma base intuitiva, mais não seja que virtual; é nisso precisamente que consiste em última análise a fusão parcial ou interpenetração”.

Ao mesmo tempo, quaisquer que sejam, todos os Nós-outros funcionam como precedendo qualquer mediação comunicativa por meio de sinais e símbolos, que poderia em seguida contribuir para sua conservação, sua consolidação e o seu reforço – o exemplo da língua impondo-se aqui.

 ***

 

 

 

 

 

 

 

Notas

 

[i] O imaginário psicologista é reconhecido nas chamadas “discussões de relação” (DR), tidas por psicólogos como dificuldades para a autoajuda das pessoas.

[ii] Cf. Wright Mills, Charles e Gerth, Hans: Caráter e estrutura social: a psicologia das instituições sociais, tradução Zwinglio Dias, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1973, 508 págs).

[iii] Ver Nota i.

[iv]  Ibid. ibidem.

[v] El atomismo en la filosofía social de Hobbes es subsidiario del contractualismo. El atomismo social dispensa tal ligación. La visión de la sociedad como constituida por individuos para la realización de fines que son primariamente fines individuales se aplica al atomismo social tanto cuanto al utilitarismo. De ahí se hablar que “no existe tal cosa como sociedad”. De ahí que esa proposición proyecte tanto el atomismo social cuanto el utilitarismo. Cf. Mark Redhead: Charles Taylor: Thinking and Living Deep Diversity, Rowman & Littlefield, 2002. Apud Lumier, Jacob (J.): “La Sociología, los Derechos Humanos y la Deconstrucción de las Desigualdades”, Madrid, Bubok Publishing, 2014.

[vi] Durkheim, Émile  [1858-1917 : De la division du travail social. (1893), Op. Cit.

[vii] Wright Mills, Charles (1916 – 1962): ‘Consecuencias Metodológicas de la Sociología del Conocimiento’, in Horowitz, I.L. (organizador): ‘Historia y Elementos de la Sociología del Conocimiento – tomo I ’, artigo extraído de Wright Mills, C.: ‘Power, Politcs and People’, New York, Oxford University Press, 1963; tradução Noemi Rosenblat, Buenos Aires, EUDEBA, 3ªedição, 1974, pp.143 a 156.

[viii] Ver Lumier, Jacob (J.): “O Sociólogo e a Sociologia”, Ebook Issuu 43 págs. Novembro 2009, link: http://sociologia-jl.blogspot.com/2009/12/o-sociologo-e-sociologia-ebook-issuu.html

[ix] “Comunitaristas” é um termo que se refere aos praticantes do sentimento comunitário em oposição à conduta particularista.

[x] Aspecto este desenvolvido pelo notável psicólogo social americano G.H. Mead em sua obra “Mind, Self and Society”, de 1934.

[xi] Em sociologia, a consciência coletiva exprime o fato social indiscutível da interpenetração virtual ou atual das várias consciências coletivas ou individuais, sua fusão parcial verificada em uma psicologia coletiva.

[xii] Cf. Gurvitch, Georges (1894-1965): “A Vocação Actual da Sociologia – vol. I: na senda da sociologia diferencial”, tradução da 4ª edição francesa de 1968 por Orlando Daniel, Lisboa, Cosmos, 1979, 587 págs. (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1950), p.217.

[xiii] A sociologia dialética combate o preconceito filosófico que afirma um Eu genérico idêntico em todos, legado dos filósofos do século XVIII como Rousseau e Kant.  Cf. Gurvitch, Georges: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, trad. Mário Giacchino, Caracas, Monte Avila, 1969, 289 pp (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1966).

[xiv] Ver Lumier, Jacob (J.): “A Dialética Sociológica, o Relativismo Científico e o Ceticismo de Sartre“, Ebook Issu 50 págs. Nov. 2009 link:

http://sociologia-jl.blogspot.com/2009/12/dialetica-sociologica-o-relativismo.html

[xv] Ver Lumier, Jacob (J.): “A Microssociologia na Formação Social”, E-book Issu, …

[xvi] Alguns dicionaristas reconhecem que em acepção substantiva e não pronominal, para designar a presença individual tomada pelo aspecto de sua consciência ou de sua subjetividade, o plural de Eu, além da forma Nós-outros, admite a forma “Eus” que, todavia, não adotamos.

[xvii] Cf. Cassirer, Ernst: “La Philosophie des Formes Simboliques (La Conscience Mythique)”, versão francesa por Jean Lacoste, Paris, Les Éditions du Minuit, 1972, 342 pp., (1ªedição em Alemão: 1925).

[xviii] Gurvitch, Georges et al.: “Tratado de Sociologia“, volumes 1 e 2, revisão Alberto Ferreira, Porto, Iniciativas Editoriais, 1964 (vol.1), 1968 (vol.2). (1 as edições em Francês: Paris, PUF, 1957, 1960, respectivamente).

[xix] Os símbolos da linguagem, conhecimento, moralidade, arte, religião, direito, incluindo as idéias e valores que essas obras de civilização implicam (mediante redução ao plano do pensamento, a análise filosófica as estuda em sua autonomia relativa como formas simbólicas dotadas de diferenças específicas).

[xx] Ver Lumier, Jacob (J). “Cultura e consciência coletiva-2“, Web da OEI, Junho 2009, pdf 169 págs. link: http://www.oei.es/cienciayuniversidad/spip.php?article388

[xxi] Gurvitch, Georges (1894-1965): “A Vocação Actual da Sociologia” – vol. 1 e vol. 2, Lisboa, Cosmos, 1968 / 1979.

[xxii] Os papéis sociais podem ser reificados e tornarem-se alheios ao reconhecimento, de tal sorte que o setor da autoconsciência que foi objetivado num papel é então também apreendido como uma fatalidade inevitável, podendo o indivíduo estranhado negar qualquer responsabilidade no círculo das suas relações (no sentido da identificação idiopática afirmando a consciência do sujeito que identifica consigo próprio a Outrem ou a um Nós-outros). Quer dizer, “a reificação dos papéis estreita a distância subjetiva que o indivíduo pode estabelecer entre si e o papel que desempenha”. Cf. Berger, Peter e Luckmann, Thomas: “A Construção Social da Realidade: tratado de sociologia do conhecimento”, trad. Floriano Fernandes, Rio de Janeiro, editora Vozes, 1978, 4ª edição, 247 págs. (1ª edição em Inglês, New York, 1966).

[xxiii] Igualmente, a alternativa entre a identidade dos conteúdos das consciências e a identidade dessas mesmas consciências tampouco pudera servir para explicar a realidade específica da consciência coletiva, haja vista o seguinte: (a) – é evidente que a identidade de certos conteúdos e mesmo de todos os conteúdos das consciências individuais não as faz em modo algum fundirem-se em uma nova unidade; (b) – nenhum individualista jamais negou a presença de certos conteúdos idênticos nas consciências particulares, o que não impediu que elas fossem consideradas como isoladas umas em relação às outras.

La estratificación social en entornos capitalistas

 

La Sociología, los Derechos Humanos y la Deconstrucción de las Desigualdades:

Estudio crítico sobre la estratificación social en entornos capitalistas.

 

Versión en libro del paper completo de Abril 2013 presentado a la International Sociological Association –ISA con el siguiente título: “La sociología en la universalización de los derechos humanos y sociales a través de la deconstrucción de las desigualdades” – “Sociology in the universalization of human and social rights through deconstruction of inequalities”. Abstract #30864

Por

 

Jacob (J.) Lumier

 

Autor de Ensayos Sociológicos con trabajos difundidos en la Web de la Organización de Estados Iberoamericanos para la Educación, la Ciencia y la Cultura – OEI y junto a la página del Ministerio de Educación de Brasil (Domínio Público).

 

Websitio Produção Leituras do Século XX

http://www.leiturasjlumierautor.pro.br

 

Río de Janeiro / RJ, Brasil, Agosto 2014

 

 

La sociología, los DDHH y La deconstrucción de las desigualdades

Jacob (J.) Lumier

 

 

Epígrafe

 

Karl Marx dijo una vez — en los tiempos del capitalismo embrionario, salvaje y con todo aún no domado, aún demasiado iletrado como para descifrar lo escrito en la pared— que los trabajadores no pueden liberarse sin liberar al resto de la sociedad. Ahora, en los tiempos del capitalismo triunfante, se podría decir que, sin prestar ya atención a los escritos de ninguna pared (ni a las paredes mismas, si a eso vamos), el resto de la sociedad humana no puede ser liberado de su miedo ambiente y de su impotencia a menos que su parte más pobre sea liberada de su penuria. [Bauman, La sociedad individualizada].

 

 

 

Presentación

 

En presencia del desafío de satisfacer la demanda actual por una sociología con provecho en la deconstrucción de las desigualdades, entendidas estas últimas como obstáculos a la universalización de los derechos humanos y sociales, este documento destaca la necesidad de superar la tendencia utilitarista en estudios sobre la estratificación social en entornos capitalistas.

Desarrolla una comprensión sociológica en torno a la constatación de que los focos de los derechos humanos son las libertades humanas esenciales [i], comprendidas por ellas mismas y, debido a este hecho, son más de lo que serían las variables lógicas. Por esta vía, articula el punto de vista del pluralismo efectivo de la realidad social con los conjuntos prácticos abiertos a la creación colectiva, cuya variabilidad ultrapasa la reproducción de los paradigmas del sistema.

De este punto de partida, el autor tiene en vista explicitar como la sociología pudiera contribuir para los Derechos Humanos con la deconstrucción de las desigualdades; elabora sobre la crítica a las proyecciones de una jerarquía de posiciones, sean estas basadas en autoridad y prestigio, o centradas en la busca de ventaja diferencial.

Sostiene el reconocimiento de que, una vez situados en la sociabilidad como aspectos de la vida espontánea del Derecho – por tanto incluidos en el ambiente micro-sociológico que reproduce el equilibrio parcial entre las prerrogativas de unos y las obligaciones de otros –, juntamente con las demás manifestaciones da consciencia  (tales como la lenguaje y la intervención del conocimiento), los Derechos Humanos toman parte de las fuerzas productivas en sentido lato y, de esta forma, desempeñan un papel constitutivo en los  propios marcos sociales.

En ámbito específico de la teoría sociológica, se profundiza la descubierta por Henri Lefebvre (1901 – 1991) de la ruptura de la reciprocidad que ligaba los intereses particulares y el interés general en el espacio público.

 

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Sumário

Epígrafe 9

Presentación 10

Desigualdades, Crecimiento y Deconstrucción. 15

Para allá de la tendencia utilitarista 15

La crítica al enfoque economicista por la ventaja diferencial 17

Reificación y función de representación en el psiquismo de la estructura de clases  19

El saber economicista y el psiquismo de la clase burguesa 19

Unilateralización y generalización de las necesidades 21

El deseo de pose 22

La sabiduría de frialdad 25

La insuficiencia de la tendencia utilitarista y la Deconstrucción 26

La Opulencia versus la Pobreza 29

La deconstrucción de las desigualdades 30

El Control Capitalista 32

La Confusión de las Aspiraciones 32

Las desigualdades de Referencia 32

Las desigualdades neoliberales 33

Contribución social de los sectores más opulentos 34

Pluralismo social y Sentimiento colectivo 36

Las desigualdades sociales como obstáculos 37

La percepción de los derechos en contexto de desigualdades 37

La Mirada micro-sociológica 39

La micro-sociología en el procesamiento de las desigualdades sociales 41

La micro-sociología en la formación social 42

Pluralismo social efectivo 43

Derechos Humanos y Solidaridad 53

La posibilidad de la estructura 54

Grupo y Estructura 55

Pluridimensionalidad de la Realidad Social 57

Deconstrucción y Recuperación de las Aspiraciones 58

El problema sociológico de los valores 60

Valores e Ideales 62

La sociología de la vida moral: Lo Deseable 64

Lo Deseable 65

Conclusión 67

Perfil del autor Jacob (J.) Lumier 71

Notas de Fim 73

 

 Desigualdades, Crecimiento y Deconstrucción.

Si en razón de la especialización de las funciones se nota que la división del trabajo en las sociedades industriales segrega desigualdades, lo mismo no se pudiera decir para la diferenciación de tres clases afirmadas en el espacio público y en las ideas. El esquema de que hay una clase del trabajo, otros con la pose y los desfavorecidos con la necesidad en estado puro es un esquema que sobrepasa las determinaciones económicas de las relaciones de producción, ni debiera ser tratada como un reflejo. Antes de esto, revela-se un esquema cuya base es la psicología colectiva, específicamente, el psiquismo de la estructura de clases.

Para allá de la tendencia utilitarista

En los estudios sobre las desigualdades se hace notar tendencia orientada a la sociología de las organizaciones económicas en la que se concentra la atención en las cualidades reificadas como “capital cultural”, “capital humano” (incluyendo el “capital intelectual”), y “capital social”. Existe la opinión de que, en el entorno capitalista, la sociología debe verificar la causa motriz de las desigualdades y describir el funcionamiento del sistema que los utiliza para el desarrollo.

Trata-se de tendencia utilitarista que sirve a la enseñanza de administración con  aplicación en pesquisas circunscritas a los ambientes de los agrupamientos de localidad, cuyo servicio en escala global es todavía dudoso por no disponer de metodología crítica para esquivar la reificación de los papeles y posiciones socias. Sin embargo, a pesar de su afinidad con el estado de cosas del actual modelo productivista, la tendencia utilitarista tuvo el mérito de haber puesto en relieve la categoría economicista de ventaja diferencial, como criterio en la descripción del sistema de desigualdades en estratos económicos y sociales, aplicable a todas las cosas que cuentan puntos en un curriculum vitae o en portfolios.

Como sabe el fuerte ascenso del neoliberalismo después de los años noventa implicó mayor empeño en ventaja diferencial, que sobrepasó los muros del mundo corporativo y adquirió contorno de ideología económica [ii], con impacto negativo en las pesquisas sobre desigualdades y estratificación social en ambiente capitalista. Negativo en razón de que la ventaja diferencial está muy lejos de lo que se verifica como determinismos sociales y, como cualquier mistificación, contradice la explicación en sociología, se agarra en las mentalidades como el fetiche del precio – en sentido de la teoría del fetichismo de la mercadoría como personificación del capital, descubierta en sociología económica por Karl Marx.

De esta forma, la ventaja diferencial es puesta contra la solidariedad en las relaciones con los otros, y genera condicionamiento para las relaciones de distanciamiento en detrimento de la aproximación.

En consecuencia, la simple descripción de la distribución y busca de ventaja diferencial en los estudios de estratificación en ambiente capitalista revela-se insuficiente delante de la  actual demanda por una sociología con provecho para deconstruir las desigualdades como obstáculos a la universalización de los Derechos Humanos y Sociales.

No se trata únicamente una cuestión de servicio. Sobrepasar la insuficiencia de la tendencia utilitarista implica reconocer que el tratamiento sociológico positivo no está limitado a la representación de las desigualdades como reflejo de las ineluctables relaciones de producción en régimen capitalista. Por el contrario, la base de las desigualdades es verificada en psicología colectiva, más específicamente en el psiquismo de la estructura de clases.

La crítica al enfoque economicista por la ventaja diferencial

Desde el punto de vista economicista enfocado en la ventaja diferencial[iii], el término “desigualdades sociales” viene cargado de pre-significaciones económicas para disfrazar la hegemonía del capitalismo financiero organizado y hacer creer en la “economía de mercado” [iv] que ya no prevalece en el mundo estandarizado.

De esta forma, describe-se únicamente el desempeño del control capitalista financiero, con la proyectada dinámica de las desigualdades sociales siendo fomentada en facto por las jerarquías industriales y financieras, tomadas (a) como agencias pero no de supuesta concurrencia que, en realidad, no pasa del incentivo material segregado por las políticas económicas para la controlada distribución lucrativa de los productos,  (incentivo para las actividades empresariales o programas de competitividad); (b) pero sí agencias reproductoras del  Siempre Igual de la producción en masa [v].

De ahí, al envés de crítica a la hegemonía burguesa por el capitalismo financiero organizado y dirigista, con su mundo estandarizado, el análisis enfocado en la ventaja diferencial llega  a la “conclusión” previamente establecida de que el sistema de las organizaciones empresariales incluye la dinámica de las desigualdades en estratificación por niveles de rendimiento como factor positivo del desarrollo.

Trata-se de reducción por el utilitarismo normativo [vi] en que el marco de referencia global del capitalismo con su mundo estandarizado ven a ser substituido por un de sus fetiches, esto es, la “ventaja diferencial”. De esta forma, nada más hace que reencontrar la ilusión de los neo-liberales al proclamar su delirio pro mercaderización [vii] de las relaciones humanas (tornándolas factores del lucro) de que “no existe la sociedad, sino únicamente el mercado[viii].

 

Reificación y función de representación en el psiquismo de la estructura de clases [ix]

 

Veja a obra La Sociología, los Derechos Humanos y la Deconstrucción de las Desigualdades: Estudio crítico sobre la estratificación social en entornos capitalistas. Tecle aqui


 

Notas

[i] Universal Declaration of Human Rights – Preamble.

[ii] Vea el influente libro “Competitive Advantage“, del economista Michael E. Porter, adelante.

[iii] La aplicación de la categoría de la ventaja diferencial tiene base en el libro del influente especialista Porter, Michael E: Competitive Advantage: Creating and sustaining superior performance, New York, Free Press; London, Collier Macmillan, 1985; Versión portuguesa: Vantagem Competitiva: Criando e sustentando um desempenho superior, Rio de Janeiro, Campus, 1990.

[iv] Habiendo perdido la connotación liberal, el termino mercado se limita a designar un aspecto del orden monetaria y especulativa regulada y protegida por el Estado e incorporada en el sistema de las bancas centrales, aunque preserve la circulación controlada de mercaderías, en la que el valor de cambio dá lugar al precio inflacionario.

[v] Cf. Adorno, T. W. (1903 – 1969): “Prismas: la Critica de la Cultura y la Sociedad”, traducción de Manuel Sacristán, Barcelona, Ariel, 1962, 292 pp. (Original en Alemán: Prismen. Kulturkritik und Gesellschaft. Berlin, Frankfurt A.M. 1955).

[vi] En la medida en que ha puesto en pauta la cuestión de los criterios de valor de una norma relacionada a su utilidad como imagen de felicidad para el mayor número, el utilitarismo doctrinario y normativo de Jeremy Bentham (1748-1832) y John Stuart Mill (1806 – 1873), que gozaba excepcional prestigio en los medios progresistas de la época, suscitó como saben reacciones en varios medios intelectuales, especialmente entre los sociólogos diligentes como Émile Durkheim (1858 – 1917), que en su conocida obra datada de 1893 intitulada “De la division du travail social”, allí contestó acertadamente el eudemonismo, como señaló Gurvitch. Esencial su recusa de la “utilidad” como criterio último de las acciones humanas y como base mensurable de análisis de las cuestiones políticas, sociales y económicas.

De la misma manera, al repeler sea cual sea la tentativa en establecer un absoluto para la vida moral con imposición a los hechos sociales, se ha tornado igualmente indispensable al notable sociólogo repeler como eudemonismo la pretensión utilitarista en reducir el valor de una norma únicamente a su utilidad como criterio de felicidad para el mayor número.

Oposición sociológica tanto más consecuente cuanto se sabe que el utilitarismo liberal está lejos de ser una propuesta inconsistente. La idea de que una de las funciones de la política es promocionar el bien-estar humano encuentra en lo mismo una justificación teórica adecuada (la democracia puede ser vista como una especie de Utilitarismo aplicado, en la medida en que, siendo el gobierno de la mayoría, defenderá los intereses del mayor número).

[vii] La mercaderización es un concepto con largo empleo en la crítica de la sociedad. En este trabajo es utilizado para designar el control capitalista en ámbito de la psicología colectiva, como mercaderización de las relaciones humanas, pero deben tener cuenta que hay una tendencia para la mercaderización de la sociedad, como es observado en el siguiente texto: (…) “El valor de uso es transformado en valor de cambio cuando sólo puede realizarse pasando por su tamiz, por su lógica. El valor de cambio no es sólo el valor de un intercambio sino la conversión del valor de uso en valor de cambio. Esto significa que sólo puedo satisfacer mis necesidades y deseos si se encuentran en el mercado, en el esquema de la oferta y la demanda. Si no hay encuentro, no hay satisfacción. La “sociedad de mercado” no es una sociedad “con” mercado, sino una sociedad cuyos enteros modos de funcionar (político, cultural, religioso, etc.) pasan por los parámetros mercantiles. La mercaderización de la sociedad es la universalización de la excepción mercantil (la excepción por la cual la oferta y la demanda no se corresponden sino bajo una asimetrización por la que uno u otro polo sale perdiendo).” (…) Cf: Jorge Iacobsohn: “El marketing como ideología”. Internet, Revista “Bajo Control” (25/11/2010) http://bajocontrol.over-blog.es/article-el-marketing-como-ideologia-61689499.html (verificado en 2 de Abril 2013).

 

[viii] Ese lema neoliberal releva de la siguiente proposición de Margaret Thatcher (1925 – 2013): “There is no such thing as society (…).” Cf. The Downing Street Years, Harper Collins, London 1993, p. 626.

[ix] Mi exposición más detallada de este punto está en “Karl Marx e a Sociologia do Conocimento – 2ª edição ampliadahttp://www.bubok.es/libros/221823/Karl-Marx-e-a-Sociologia-do-Conocimento–2-edicao-ampliada