A Psicologia Coletiva Na Sociologia: Preliminares

 

Resumo

A introdução do problema da consciência coletiva por Emile Durkheim (1858-1917) trouxe a psicologia coletiva para o domínio da sociologia. A descoberta por Karl Marx (1818-1883) da realidade social, por trás da dialética das alienações, consolidou a pesquisa em psicologia coletiva como aquisição sociológica.

Entre a consciência coletiva e o nível das ideias, dos valores e ideais coletivos há uma interdependência a que frequentemente designamos por “cultura”. A realidade dos níveis culturais na vida coletiva – os níveis simbólicos e significativos, as ideias, os valores e os ideais – desempenha um papel de primeiro plano que ultrapassa a consideração dogmática dos níveis simbólicos como simples epifenômenos, projeções ou produtos, mas põe em relevo que a consciência coletiva os apreende, portanto afirma-se uma consciência situada no ser, intuitiva e capaz de se multiplicar em um mesmo quadro social.

Vale dizer: o mundo da cultura só pode ser apreendido por via da consciência coletiva. A apreensão do mundo da cultura por via da consciência coletiva só é possível graças ao fato de que essa consciência é capaz de se abrir, ultrapassando as suas crenças e assimilando as novas influências do ambiente social, bem como é capaz de se multiplicar no mesmo quadro social.

A teoria sociológica mostra que a consciência coletiva é estudada (a) não só nas suas manifestações na base morfológica da sociedade, nas condutas organizadas e regulares, nos modelos, signos, atitudes, funções sociais, símbolos, ideias, valores e ideais coletivos, obras de civilização, (b) principalmente nas estruturas e nos fenômenos não-estruturais, mas (c) igualmente em si própria (psiquismo), já que a consciência coletiva não se realiza inteiramente em qualquer desses elementos e pode extravasá-los em expressões imprevisíveis, inesperadas e até surpreendentes. Tanto a memória coletiva quanto a memória histórica pressupõem a consciência coletiva em ato, em suas correntes diretas, vividas.

Jacob (J.) Lumier

 

Sumário

Conhecimento e Quadros sociais 1

A consciência aberta como critério.. 1

Mundo da Cultura e Consciência Coletiva. 1

A contribuição da Gestalttheorie. 1

Os níveis da consciência coletiva. 1

Teorias de consciência aberta. 1

A Realidade Social em Ato.. 1

As classes de conhecimento.. 1

Vertente no efetivismo.. 1

O Coeficiente Existencial do Conhecimento. 1

O Fenômeno da Reificação.. 1

A descrição sociológica da alienação.. 1

A consciência alienada. 1

A compreensão sociológica dos valores. 1

A afetividade coletiva. 1

O desejável na análise dos valores. 1

A conjunção dos valores. 1

Bibliografia e Notas. 1

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Conhecimento e Quadros sociais

►Em sociologia é básico que nenhuma comunicação pode ter lugar fora do psiquismo coletivo – as consciências são intercomunicadas e isto constitui um fato existente. Todo o conhecimento é comunicável (com os mais diversos símbolos sociais) e a língua é somente um meio para reforçar a interpenetração e a participação em um todo.

A existência dos conhecimentos coletivos e suas hierarquias ou sistemas cognitivos é igualmente preponderante em sociologia, mas o sistema cognitivo é só um aspecto limitado da vida psíquica (psiquismo) que o excede em muito.

Por sua vez, incluindo as opiniões coletivas, as representações, as conceituações, o nível mental é estudado como sendo apenas um aspecto do conjunto social, tanto mais incerto quanto os indivíduos mudam de atitude em função dos grupos ou os personagens que os papéis sociais encarnam mudam segundo os círculos a que pertencem.

►Falsa é a teoria que imagina representar o conhecimento como abstraído do caráter comunicável ou reduzido ao único aspecto da função cerebral de cognição. São irredutíveis as “censuras sociais” como elemento de regulamentação presente em princípio nas obras de civilização.

Basta lembrar que a pessoa humana não permanece idêntica nas diferentes estruturas sociais. Como se sabe, vivente nas sociedades arcaicas, o homem “primitivo” é mais facilmente e mais frequentemente envolvido nos estados letárgicos e emocionais os mais intensos, como os estados catalépticos ou as histerias, justamente em razão de não estar sujeito à constrição das conceituações racionais, que, nas sociedades históricas, mantêm sob controle os estados emotivos característicos da natureza humana (ansiedade). Tal a base das censuras sociais [i].

Todas as obras de civilização: direito, moralidade, religião, arte, conhecimento, educação, etc. são existentes, funcionam como regulamentações sociais e segregam as censuras exercidas nos quadros sociais (os grupos têm obras a realizar). Desta sorte seria equivocado atribuir às obras de civilização uma independência e uma ineficácia muito maior do que as mesmas têm efetivamente na engrenagem complexa e constringente da realidade social e seus determinismos.

O psiquismo, as mentalidades diferenciadas são integradas e transferem à realidade social suas emanações subjetivas (daí a subjetividade coletiva como aspiração aos valores e que penetra a realidade social), para o que concorrem as regulamentações sociais pelo conhecimento, pelo direito (espontâneo ou organizado), pelas moralidades, pela educação, arte, religião[ii].

A consciência aberta como critério

►Conhecimento é todo o juízo que pretenda afirmar a verdade sobre alguma coisa. Por conhecimento devem entender-se os atos mentais em que se combinam a experiência imediata e mediata em diferentes graus com o juízo.

Quando se fala de mentalidades há que insistir na oposição entre estados mentais e atos mentais, tanto coletivos quanto individuais. No terreno desta oposição, os atos são as experiências mais ou menos imediatas que se observam na implicação mútua entre as “experiências de participar no real” (intuições intelectuais) e os juízos assim tornados cognitivos, de que as atitudes (interligadas às tomadas de consciência) são os focos privilegiados. Tratam-se das manifestações mais intensas da consciência aberta às influências do ambiente.

Por sua vez, os estados mentais intelectuais como as representações e a memória, assim como as opiniões coletivas (sempre vacilantes e incertas, a iludirem as chamadas pesquisas de opinião), contrariamente aos atos mentais, são manifestações da consciência apenas aberta.

Portanto, é preferencialmente através dos atos mentais que o conhecimento aceita a maior influência dos quadros sociais, variando com mais segurança em função dos mesmos.  Incluindo os juízos de realidade e os juízos de valor, vê-se daí a razão de os juízos cognitivos terem procedência coletiva.

Mundo da Cultura e Consciência Coletiva

►Neste ponto, como refutação à objeção de que os atos de juízo seriam individuais porque ligados tanto à reflexão quanto às palavras, cabe assinalar que a ação de refletir é debater o pró e o contra, é confrontar argumentos, é participar em um diálogo, em uma discussão, em um debate. Os conjuntos dos argumentos que são confrontados em um diálogo, ao invés de serem arrolados em um mundo de produtos tornados independentes dos homens formam em realidade o patrimônio coletivo, de tal sorte que “na reflexão pessoal figuram distintos ‘Eu’ que discutem entre eles”, uma “projeção do coletivo no individual”, não determinação abstrata de um fator social igualmente abstrato. Deste ponto de vista dos argumentos em cotejo, torna-se muito difícil negar a existência de juízos coletivos que reconhecem a veracidade de experiências e intuições coletivas e dão fundamento aos conhecimentos coletivos, dos quais, por sua vez, é testemunha toda a história das civilizações.

Sabemos que Durkheim e seus colaboradores já na primeira metade do século XX tomaram em consideração a existência de memórias coletivas múltiplas acentuando que as consciências individuais se revelam penetradas pelas memórias coletivas.

Durkheim ele próprio em debate com Gabriel Tarde ao insistir que não se pode desconhecer a descontinuidade e a contingência que diferenciam as esferas do real se posiciona sobre a referência das funções cerebrais na vida da consciência, como que antecipando a preocupação das chamadas ciências cognitivas.

Assim em seu estudo sobre Les Représentations Collectives et les Représentations Individuelles, estudo posteriormente inserido na sua obra Philosophie et Sociologie, pressentindo a dialética ao argumentar por analogia sobre a autonomia relativa nas relações entre a consciência coletiva e a consciência individual, Durkheim deixa claro sua recusa em reabsorver a consciência coletiva nas consciências individuais nos dizendo que isto equivaleria a reabsorver o pensamento na célula e retirar à vida mental toda a especificidade.

Certamente já se sabe hoje em dia que a descontinuidade diferenciando a consciência individual das células do cérebro não é idêntica àquela que diferencia a consciência coletiva da consciência individual. Segundo Gurvitch, e apesar de suas variadas implicações, o psíquico e o biológico ou orgânico pertencem a esferas do real mais ou menos disjuntas, admitindo sobreposição, enquanto que, pelo contrário, a consciência coletiva e a consciência individual são manifestações da mesma realidade estudada como fenômeno psíquico total.

A contribuição da Gestalttheorie

Deste ponto de vista sociológico, a pretendida redução da consciência individual à sensibilidade e da consciência coletiva à razão revela-se um pressuposto falso e que implica múltiplas contradições. A identificação da consciência individual como puramente sensível implica torná-la nula.

A contra-argumentação sociológica é inspirada na Gestalttheorie, a saber: (a) – toda a consciência não é somente uma tensão virtual do fechado em direção ao aberto, mas é ainda uma tensão entre as múltiplas sensações e a sua integração nas totalidades; (b) – ao fazer ver que as sensações particulares não passam de abstrações intelectuais de totalidades apreendidas intuitivamente a teoria psicológica das formas ou Gestalttheorie [iii] demonstra toda a impossibilidade na redução da consciência a sensações dispersas (redução imprópria esta que segundo Gurvitch reforçou a concepção da consciência individual fechada em Durkheim).

Sem embargo, Gurvitch afirma a evidência de que existem os elementos sensíveis da consciência coletiva, existem os sentidos coletivos de conservação e de defesa, os sentidos das paixões e das inclinações coletivas bem como, por sua vez, é evidente a existência das funções intelectuais na consciência individual (estados, opiniões, atos).

►Em relação à parte das consciências individuais na produção das riquezas culturais é certamente equivocado (a) tomar a consciência coletiva como um centro da memória coletiva, incluindo as recordações que passam de boca em boca nas correntes diretas, espontâneas, efetivamente vividas e que ultrapassariam sempre completamente a memória individual – tida esta como equivocadamente situada fora dos quadros sociais e portanto não podendo ser distinguida dos sonhos; (b) afirmar que a consciência coletiva acumularia as sucessivas aquisições da civilização, vale dizer: seria o reservatório da tradição e da continuidade entre as gerações a que o indivíduo só teria acesso por meio de uma educação que lhe é penosa, e que ele faria por etapas; (c) – imaginar a consciência coletiva como infinitamente mais rica que as consciências individuais não só porque ela supostamente conservaria as recordações, mas  (d) – porque a evocação dessas recordações sendo uma reconstrução faria ver a consciência individual como insuficiente para servir-lhe de referência, (e) referência esta que, portanto, deve apoiar-se inteiramente nos quadros sociais.

Tal descrição levando ao enriquecimento da consciência coletiva é artificial porque contempla não a memória coletiva – a qual pressupõe a consciência coletiva em ato, em suas correntes diretas, vividas – mas limita-se à memória histórica, como elemento retrospectivo e virtual acumulado na memória. Quer dizer, naquela descrição as obras de civilização exprimidas pelos diferentes sistemas simbólicos sucessivos são projetadas para a consciência coletiva e lhe são atribuídas. Tal o artifício.

Os níveis da consciência coletiva

Por contra, para que seja posto em relevo a parte das consciências individuais na produção das riquezas culturais e assim chegar a uma compreensão justa será bastante admitir (a) – que há multiplicidade de consciências coletivas e (b) – que as consciências individuais colaboraram com as consciências coletivas na criação das obras de civilização.

Segundo Georges Gurvitch, a consciência coletiva deve ser estudada (a) não só nas suas manifestações na base morfológica da sociedade, nas condutas organizadas e regulares, nos modelos, signos, atitudes, funções sociais, símbolos, idéias, valores e ideais coletivos, obras de civilização, (b) principalmente nas estruturas e nos fenômenos não-estruturais, mas (c) igualmente em si própria, já que a consciência coletiva não se realiza inteiramente em qualquer desses elementos e pode extravasá-los em expressões imprevisíveis, inesperadas e até surpreendentes.

A realidade dos níveis culturais na vida coletiva – os níveis simbólicos e significativos, as idéias, os valores e os ideais – desempenha um papel de primeiro plano que ultrapassa a consideração dogmática dos mesmos como simples epifenômenos, projeções ou produtos, mas põe em relevo que a consciência coletiva os apreende, portanto afirma-se uma consciência situada no ser, intuitiva e capaz de se multiplicar em um mesmo quadro social.

O mundo das obras de civilização (compreendendo em conjuntos a arte, a religião, o conhecimento, a moralidade, o direito, a educação) intervém na formação da realidade social e depende simultaneamente de todos os níveis em profundidade da realidade social, na mesma medida em que estes dependem do mundo das obras de civilização. Entre a consciência coletiva e o nível das ideias, dos valores e ideais coletivos há uma interdependência a que frequentemente designamos por “cultura”.

Teorias de consciência aberta

Ou seja, para ter clareza, o problema da autonomia da cultura deve ser considerado desde o ponto de vista das teorias de consciência aberta, no caso, em referência à imanência recíproca do individual e do coletivo. Esta abordagem torna possível distinguir, por um lado, as projeções da consciência coletiva, os seus estados mentais e os seus atos e, por outro lado, as obras de civilização, como a coletividade de certas idéias e certos valores que aspiram à validade, como cultura.

O mundo da cultura funciona como um obstáculo que resiste à consciência coletiva e se afirma como um nível específico da realidade social, de tal sorte que é suscetível de se apresentar a esta consciência como o seu dado. Nada obstante, esse nível é capaz de tornar-se um produto unilateral dessa consciência. Trata-se de uma aparente contradição e designa apenas que, em sua autonomia e com seus valores que aspiram à validade, o mundo da cultura só pode ser apreendido por via da consciência coletiva.

Por sua vez, a apreensão por via de consciência coletiva só é possível graças ao fato de que essa consciência é capaz de se abrir, ultrapassando as suas crenças e assimilando as novas influências do ambiente social, bem como é capaz de se multiplicar no mesmo quadro social.

A Realidade Social em Ato

►Ao estudar as variações do saber, “o sociólogo do conhecimento não deve colocar nunca, como já o mencionamos, o problema da validade e o valor propriamente dito dos signos, símbolos, conceitos, idéias, juízos”, mas deve apenas “constatar o efeito de sua presença, de sua combinação e de seu funcionamento efetivo”.

Colocar o saber em perspectiva sociológica ou apenas analisar a perspectivação sociológica do conhecimento como fato é descobrir as variações. A atitude do sociólogo do conhecimento nada tem a ver com “as ilusões introspectivas” com que alguns autores projetaram para a sociologia o “problema epistemológico” da psicologia.

►Em sociologia, estudam-se os sistemas cognitivos a partir dos tipos de sociedades globais decompondo-os segundo as classes do conhecimento que, por sua vez, podem ser (a) – mais profundamente implicados na realidade social – o conhecimento perceptivo do mundo exterior, o conhecimento de outro e o conhecimento de senso comum, estudados nesta seqüência; (b) – menos espontaneamente ligadas aos quadros sociais ou cuja ligação funcional requer o diálogo e o debate: como é o caso para o conhecimento técnico, o conhecimento político, o conhecimento científico e o conhecimento filosófico.

O conhecimento perceptivo do mundo exterior é privilegiado e dá conta das perspectivas recíprocas sem as quais não há funções estritamente sociais, enquanto os demais conhecimentos já são classes de conhecimento particular, já são funções correlacionadas dos quadros sociais (diferenciações sedimentadas na realidade histórica que a sociologia descreve nos tipos de agrupamentos ou de sociedades globais e suas estruturas) e pressupõem aquele conhecimento perceptivo do mundo exterior.

As classes de conhecimento

Onde se verifiquem as classes do conhecimento mais profundamente implicadas na realidade social (o conhecimento perceptivo do mundo exterior, o conhecimento de outro e o conhecimento de senso comum) descobre-se a simples manifestação dos temas coletivos – os Nós-outros, os grupos, as classes sociais, as sociedades.

Daí o saber como controle ou regulamentação social, ou seja: o conhecimento aparece como obstáculo ao avanço real desses temas de que tomamos consciência, é constringente como aquilo que suscita os esforços e faz participar no real, levando desse modo ambíguo (é obstáculo e faz participar) à configuração da funcionalidade dos quadros sociais como reciprocidade de perspectivas, aos quais são essas classes de conhecimento as mais espontaneamente ligadas.

Para compreender a noção de obstáculo em sua ambivalência dialética deve-se ter em conta o seguinte: (a) a sociologia do conhecimento só avança na medida em que se libera dos preconceitos filosóficos inconscientes e aprofunda nas correlações funcionais; (b) foi preciso descartar o preconceito filosófico herdado do século XVIII de uma consciência idêntica em todos, genérica, passando no crivo da crítica a falsa suposição uma estrutura lógica necessária na base de toda a sociedade.

Desta forma, foi preciso reconhecer a ambiguidade fundamental para equacionar o problema sociológico da relatividade do arcaico e do histórico na realidade social – haja vista os controles racionais não serem absolutos nem extirparem de uma vez por todas como disse a ansiedade e seus estados altamente emocionais ou catalépticos.

Vertente no efetivismo

Da mesma forma, a teoria sociológica admite uma vertente no efetivismo, caracterizado este como atitude na construção de teorias científicas sustentada pelos chamados construtivistas e que consiste em aceitar (1) – que há um conteúdo para os objetos matemáticos; (2) – que tal conteúdo é verificado a posteriori e, portanto, (3) – se confunde ao critério que define os números como objetos matemáticos, a saber, (4) – que se pode construí-los efetivamente.

Se os símbolos lógico-matemáticos são inertes, as funções de que se ocupa a sociologia são dialéticas (não-inertes), são os conjuntos práticos com conteúdo em avanço real (em vias de criação coletiva) que, em modo semelhante às teorias matemáticas, somente pode ser verificado a posteriori. Da mesma maneira, tal conteúdo em avanço se confunde ao critério que define os determinismos sociais [iv] como objetos sociológicos (daí dizer-se que a explicação em sociologia é tirada da própria realidade social em ato).

 

O Coeficiente Existencial do Conhecimento

 

►Para o sociólogo importa que ideias tão abstratas como as de tempo e de espaço estão a cada momento da sua história em relação íntima com a estrutura social correspondente. Da mesma maneira, se aprende com Durkheim que as categorias lógicas são sociais em segundo grau… não só a sociedade as institui, mas constituem aspectos diferentes do ser social que lhes servem de conteúdo… O ritmo da vida social é que se encontra na base da categoria do tempo; é o espaço ocupado pela sociedade que forneceu a matéria da categoria do espaço; foi a força coletiva que criou o protótipo do conceito de força eficaz, o elemento essencial da categoria de causalidade… O conceito de totalidade é, afinal, a forma abstrata do conceito de sociedade [v] .

Não se pensa que nossa disciplina seja complicada. Basta chegar à aceitação da existência de conhecimentos coletivos para que se transponha o umbral da sociologia do conhecimento – sem qualquer exigência de esoterismo intelectual para adentrar a disciplina, embora haja condições para chegar ao umbral da mesma.

O fato é que, exercendo a reflexão mediante o diálogo e o debate em torno dos temas coletivos reais como os Nós-outros, os grupos, as classes, as sociedades, já atualizamos em modo especial uma mentalidade coletiva, já nos encontramos em busca de colocar o conhecimento em perspectiva sociológica, já nos defrontamos com o problema sociológico do acordo ou desacordo do saber e do quadro social.

►Daí que a postura do sociólogo do conhecimento nada tem a ver com “as ilusões introspectivas” com que os epistemólogos projetam para a sociologia o “problema epistemológico” em psicologia.

Embora seja reconhecido que os quadros conceituais operativos da sociologia do conhecimento são passíveis de identificação aos quadros sociais, certos autores parecem avaliar isso negativamente e insistem em desconsiderar que essa identificação em perspectiva procede de uma dimensão mesma do conhecimento e não de alguma pretensa “estruturação ativa por parte do sociólogo”.

Tal identificação em perspectiva aos quadros sociais é como disse uma dimensão do próprio conhecimento que, todavia, além de reconhecer, o sociólogo compreende e operacionaliza como o coeficiente existencial do conhecimento, tirando daí, desta constatação de fato, seu procedimento básico de análise e interpretação.

Desta forma, a colocação do conhecimento em perspectiva sociológica favorece as ciências como atividade prática na medida em que pode certamente propiciar a diminuição da importância do coeficiente existencial do conhecimento pela tomada de consciência.

Neste sentido, a sociologia é privilegiada como pesquisa das variações do saber.

O coeficiente existencial do conhecimento inclui os coeficientes humanos (aspectos pragmáticos, políticos e ideológicos) e os coeficientes sociais (variações nas relações entre quadros sociais e conhecimento).

Fala-se de coeficiente no sentido preciso do fator numérico correspondente à quantificação ou ao grau com que, neste caso, a qualidade humana subjetiva pode interferir como variável funcional na objetividade dos juízos cognitivos e na verificação das proposições científicas.

O sociólogo não inventa, mas elabora sobre a constatação de uma significação humana básica, a saber: a força de atração do mundo dos produtos e demais recursos e instrumentos que compõem a base morfológica da sociedade. Os conjuntos práticos como disse não são inertes, nem o mundo dos produtos uma “matéria exterior” absolutamente heterogênea.

O Fenômeno da Reificação

Do ponto de vista sociológico será restritivo (des)qualificar como não-humano o mundo dos produtos, das infra-estruturas, sem dispor em contrapartida da compreensão em psicologia coletiva do fenômeno da reificação ou, mais amplamente, o fetichismo da mercadoria.

Com efeito, A sociologia do conhecimento traz consigo para dentro do campo sociológico a pesquisa em psicologia coletiva. Da mesma forma que a introdução do problema da consciência coletiva por Emile Durkheim (1858-1917) acentuou essa ligação, a descoberta por Karl Marx (1818-1883) da realidade social por trás do fetichismo da mercadoria trouxe à luz o problema da dialética das alienações e com isto consolidou a pesquisa em psicologia coletiva como aquisição sociológica, constatando duas formas da consciência coletiva ligada ao mundo da produção nas sociedades de tipo capitalista concorrencial e à classe burguesa em ascensão, a saber: a consciência alienada e a consciência mistificada ou ideológica.

A descrição sociológica da alienação

 ►A descrição sociológica da alienação nas obras de Karl Marx a começar por “A Ideologia Alemã” atende como se sabe ao seguinte esquema: em primeiro lugar, as forças produtivas surgem como absolutamente independentes [vi]. É a alienação econômica. Em segundo lugar, as relações sociais são alienadas porque subordinadas às relações de propriedade privada[vii]. Em terceiro lugar, a propriedade privada dos meios de produção, aliena não só os homens, mas também as coisas (é o dinheiro que desnatura particularmente a vida social). Em quarto lugar, o trabalho é alienado e as condições de existência do trabalhador se tornaram insuportáveis. Esta última alienação, que se manifesta no próprio fato da sujeição do trabalho transformado em mercadoria, torna o mesmo extremamente penoso [viii]. Em quinto lugar, a alienação ameaçando sujeitar ao mesmo tempo o homem e o grupo espreita as próprias classes sociais, incluindo a classe proletária: a classe torna-se cada vez mais independente em relação aos indivíduos que a compõe e move-se em novas correntes [ix]. É assim que, finalmente, os membros de uma classe encontram as suas condições de existência predestinadas, e vêem ser-lhes destinada pela classe a sua posição social e, por conseguinte, o seu desenvolvimento pessoal; eles são escravizados pela sua classe [x].

Observa-se neste caso tratar-se de novo da projeção do humano – englobando sociedade, grupo, indivíduo – para fora dele próprio, bem como se trata da sua perda e dissolução nessa projeção.

Então, há certa ambigüidade no conceito de alienação, pois não será possível aplicar a qualquer das classes em vida e em luta, muito menos ao proletariado, o critério da perda de realidade (desrealização) [xi]

►Já em “O Capital” [xii] nota-se melhor ainda o caráter socialmente arcaico da consciência alienada na análise sociológica da distinção anteriormente introduzida por Aristóteles entre o valor de uso e o valor de troca.  Contrariando a este último, o qual, como nos lembra Gurvitch, não notara que o valor de troca de uma mercadoria depende da quantidade de trabalho socialmente necessário para produzir esta mercadoria, Marx sublinha o que caracteriza especificamente os valores de troca das mercadorias em regime capitalista como sendo exatamente o fato de que essas mercadorias se tornaram “fetiches”.

No seu dizer: “É (…) uma relação social determinada dos homens entre si que reveste aqui para eles a forma fantástica de uma relação das coisas entre elas. É o que podemos chamar o “fetichismo” ligado aos produtos do trabalho, desde que eles se apresentem como mercadorias, fetichismo este inseparável do modo de produção que se designa por capitalismo” [xiii].

E Marx prossegue: “Formas que demonstram a primeira vista pertencerem a um período social em que a produção e as suas relações regem o homem ao invés de serem por ele regidas (o período das sociedades arcaicas e do mito do maná) parecem à consciência burguesa uma necessidade muito natural” [xiv].

A consciência alienada

A consciência alienada é, pois, a manifestação da sociedade capitalista no plano da produção espiritual (que Marx identifica ao sistema de Hegel e ao hegelianismo); sociedade esta que, por fundamentar-se no fetichismo da mercadoria e na incapacidade da estrutura social para dominar as forças produtivas que ela própria suscitou como aprendiz de feiticeiro, leva ao primado das forças produtivas materiais.

A consciência burguesa, ou a consciência dos economistas estudados por Marx, é uma consciência mistificada ou ideológica porque está impregnada pelas representações características de um período particular da sociedade em que a primazia cabe às forças materiais.

►A consciência alienada tem, pois, vários aspectos que Marx estuda na dialética das alienações compreendendo que o movimento dialético está ligado em primeiro lugar à praxis social. Com toda a razão Marx insistiu contra Hegel no fato de que a objetivação de modo algum devia confundir-se com a perda de si: sem objetivação as sociedades e as civilizações não poderiam subsistir. Nota-se desta forma que o “jovem” Marx distingue a alienação nos seguintes aspectos: a objetivação; a perda de si; a medida da autonomia do social; a exteriorização do social mais ou menos cristalizada; a medida da perda de realidade ou desrealização, de que dependem, em particular, as ideologias; a projeção da sociedade e dos seus membros para fora de si próprios e a sua dissolução nessa projeção ou perda de si.

Ainda que as aplicações exclusivamente sociológicas dessas distinções relativas ao conceito de alienação nem sempre se diferenciem das suas aplicações em sentido político -ligadas que são em Marx à aspiração à libertação total de certos aspectos da alienação- essas distinções, assim como “a dialética entre os diferentes sentidos do termo alienação” possuem um sentido sociológico muito preciso, que Gurvitch formulou no seguinte: “Trata-se dos graus de cristalização, de estruturação e de organização da vida social que podem entrar em conflito com os elementos espontâneos desta”, resultando pelo concurso de ideologias falazes na ameaça de dominação e sujeição que pesa sobre as coletividades e os indivíduos.

A compreensão sociológica dos valores

►Em seu pensamento objetivo Durkheim compreende os ideais em maneira descritiva como obstáculos (apreendidos), supondo o critério sociológico de sua resistência justamente à penetração pelo complexo psico-sociológico das significações humanas a que chamará “coletividade de aspiração“, incluindo aí as crenças coletivas. Desta forma, será levado a conceber os ideais exatamente como os termos motores dessas aspirações, seus focos irradiadores.

Diferentes dos valores baseados no critério da utilidade, como os valores econômicos costumam mostrarem-se, aqueles outros valores chamados culturais compreendidos por Durkheim como valores ideais ou fundados nos ideais podem ser definidos do ponto de vista da sociologia da vida moral (considerada esta última em sua autonomia e em sua especificidade) em termos de (a) instrumentos de comunhão social (no sentido da mais intensa imanência recíproca entre o individual e o coletivo na sociabilidade de um Nós-outros o mais constrito) e (b) princípios de incessante regeneração justamente para a vida nos ideais, podendo ser comparados a ímãs que atraem e merecem atrair a “vontade” ou esforços humanos convergentes.

Como se sabe, a orientação para a sociologia da vida moral em Durkheim compreende dentre outros aspectos o seguinte: (a) – a objetividade dos valores propriamente culturais não se reduz à sua mera coletividade ou recorrência em grande número; (b) – as principais obras de civilização como a religião, a moral, o direito, a arte são sistemas de valores culturais; (c) – a validade objetiva dos valores culturais consiste na sua referência ao nível de realidade mais profundo dos ideais.

A afetividade coletiva

A afirmação dos valores como sendo objetivos está em que as coisas e as pessoas às quais tais valores são atribuídos atendam à condição de serem coisas e pessoas que estão postas em contato com os ideais por efeito do estado mental de afetividade coletiva (sentimento do desejável ou “sensibilidade indefinida”, incluindo as propensões, tendências, preferências, e todo o conjunto das orientações afetivas do psiquismo, por diferença dos atos mentais como as intuições e os juízos).

Tal é o efeito (imãs da vontade) que qualifica propriamente a subjetividade coletiva como aspiração (aos valores), notando-se o aspecto de imãs da vontade que os valores assumem neste contato com os ideais. Os ideais tomados por si não são representações intelectuais abstratas, frias, mas como disse essencialmente motores.

O desejável na análise dos valores

►Durkheim alcançou as bases da sociologia da vida moral, sobretudo pelo aproveitamento original que tirou de sua reflexão junto com a filosofia de Kant, levando-o como se sabe a introduzir em diferença deste último que a ignorou a noção do desejável na análise dos valores.

Com efeito, é para a funcionalidade dos valores ideais, sua característica estritamente sociológica de instrumentos de comunhão social (no sentido acima definido) e princípios de incessante regeneração da vida nos ideais se afirmando indispensavelmente por meio da afetividade coletiva, que se refere a utilização do termo desejável na seguinte formulação durkheimiana: qualquer valor pressupõe a apreciação de um sujeito em referência de uma sensibilidade indefinida – é o desejável, qualquer desejo sendo um estado interior.

Definição descritiva esta que não só torna extensível a característica do desejável a qualquer valor para além dos valores ideais (qualquer valor tendo assim alguma participação nos ideais), mas, por esta via os engloba igualmente na noção de funcionalidade expressa na fórmula acima mencionada a respeito destes últimos (“qualquer valor pressupõe a apreciação de um sujeito em referência de uma sensibilidade indefinida”), fórmula esta pela qual a sociologia elimina radicalmente a pretensão de um absoluto eudemonista por estranho à afetividade coletiva.

Como admitem seus continuadores, em sua aplicação exclusiva à sociologia da vida moral, a concepção de Durkheim deveria conduzir ao estudo empírico das correlações funcionais entre os valores morais e os conjuntos sociais.

Para esse desdobramento apontaria sua fórmula acima de que “qualquer valor pressupõe a apreciação de um sujeito em referência de uma sensibilidade indefinida”, isto é, pressupõe a experiência com afetividade coletiva de uma busca suscitada pelo desejável.

Além disso, o estudo empírico das correlações funcionais entre os valores morais e os conjuntos sociais se encontra favorecido notadamente em razão do seguinte: (1) – Durkheim chega a opor para fins de análise os valores ditos culturais a outros valores, insistindo ao mesmo tempo na variedade infinita e na particularização de todos os valores sem exceção; (2) – põe em relevo o papel que desempenham os valores na formação da própria realidade social.

A conjunção dos valores

Daí que, enfim, seus continuadores possam completar a concepção durkheimiana com a constatação das flutuações dos valores, os quais se juntam e se interpenetram depois de se terem diferenciados – a conjunção dos valores (C. Bouglé).

Sem embargo, será sua concepção metamoral tomando a consciência coletiva como identificada ao Bem supremo que explica (a) – por que Durkheim envolveu seu método em um círculo vicioso entre chegar ao fato moral por indução ou por dedução – sendo esta última na verdade que constitui o seu raciocínio conceitualista; e (b) – limitando-se dessa maneira ao raciocínio exclusivamente lógico, sua metamoral explica igualmente por que se manteve estranho ao reconhecimento da existência das experiências morais coletivas e dos métodos de análise que, mediante procedimentos dialéticos tais como a colocação em reciprocidade de perspectiva, reconduzem a estas experiências variadas e só raramente imediatas (têm nos símbolos sociais os seus intermediários).

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Bibliografia

 

Bachelard, Gaston: “O Novo Espírito Científico”, São Paulo, editora Abril, 1974, coleção “Os Pensadores”, vol.XXXVIII, pp.247 a 338 (1ª edição em Francês, 1935).

Bachelard, Gaston: “La Dialectique de la Durée”, Paris, Press Universitaire de France-PUF, 1972, 151 pp., 1ªedition 1936.

Berger, Peter e Luckmann, Thomas: “A Construção Social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento”, trad. Floriano Fernandes, Rio de janeiro, editora Vozes, 1978, 4ª edição, 247 pp. -1ªedição em Inglês, New York, 1966. Ver as págs. 247 sq.

Dahrendorf, Ralf: “Las Classes Sociales y su  Conflicto em la Sociedad  Industrial”, trad. Manuel Troyano, Madrid, ed. Rialp, 1970, 339 pp. (1ª edição em Alemão, Stuttgard, 1957).

Giddens, Anthony: “As Novas Regras do Método Sociológico: uma crítica positiva das sociologias compreensivas”, trad. Ma. José Lindoso, revisão Eurico Figueiredo, Rio de Janeiro, Zahar, 1978, 181 pp. (1ª edição em Inglês, Londres, 1976).

Giddens, Anthony: “A Estrutura de Classes das Sociedades Avançadas”, trad. Márcia Bandeira, revisão Edson de Oliveira, Rio de Janeiro, Zahar, 1975, 368 pp. (1ª edição em Inglês, Londres 1973).

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Gurvitch, Georges: “A Vocação Actual da Sociologia – Vol.II: antecedentes e perspectivas”, tradução da 3ª edição francesa de 1968 por Orlando Daniel, Lisboa, Cosmos, 1986, 567 pp. (1ª edição em francês: Paris, PUF, 1957).

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Lumier, Jacob (J.): Psicologia e Sociologia: o Sociólogo como Profissional das Ciências Humanas, Web da OEI, febrero de 2008, pdf 170 págs. link http://www.oei.es/noticias/spip.php?article2005

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Stark, Werner: ‘Los Antecedentes de la sociología del Conocimiento’, in Horowitz (organizador) : ‘Historia y Elementos de la Sociología del Conocimiento – tomo I’, artigo extraído de Stark,W. :’The Sociology of  Knowledge’ , Glencoe, Illinois, The Free Press, 1958 ; tradução Arturo Napolitano, Buenos Aires, EUDEBA, 3ªedição, 1974, pp.3 a 23 (1ªedição em castelhano, 1964).

Wright Mills, Charles: ‘Consecuencias Metodológicas de la Sociología del Conocimiento’, in Horowitz, I.L. (organizador) : ‘Historia y Ele-mentos de la Sociología del Conocimiento – tomo I’, artigo extraído de Wright Mills, C. : ‘Power, Politcs and People’, New York, Oxford Univer-sity Press, 1963 ; tradução Noemi Rosenblat, Buenos Aires, EUDEBA, 3ªedição, 1974, pp.143 a 156.

 

***

Notas

[i] Quando se emprega a palavra “Nós-outros” houve percepção social de um tema coletivo real, tomada de consciência, uma orientação no mundo; quando se fala de “Nós-outros consumidores” houve um consenso mínimo, fruto das várias regulamentações sociais, unidade de atitude típica, mas não implica consenso sobre os posicionamentos e interesses que são variados e contraditórios. Evidentemente, houve uma experiência básica das censuras sociais quando o tema real “Nós-outros” se diferenciou e se colocou novamente como “Nós-outros consumidores”. Portanto, o termo “consenso” não substitui “censuras sociais”.

[ii] Nesse sentido de concorrer para a integração das mentalidades e afirmação da subjetividade coletiva, aplica-se o termo “regulamentação sociais”, reservando-se “controles sociais ou institucionais” para o aspecto coercitivo dos controles hierárquicos, como a internalização das normas de conduta. Lembrando que o termo “controle” aplica-se primordialmente à atividade dos supervisores nas fábricas, como fiscalização e controle das condutas exigidas no mundo da produção. As regulamentações sociais expressam um alcance ampliado e se referem às censuras propriamente sociais, as quais frequentemente são implícitas e favorecem ao indivíduo perceber seu pertencimento ao grupo. São as censuras relacionadas às maneiras de falar, vestir, conduzir-se nos ambientes, enfim, as influências para adotar certa maneira de pensar e de agir. Daí regulamentações pelo conhecimento, pela moralidade, pelo direito.

[iii] A compreensão de que as sensações particulares não passam de abstrações intelectuais de totalidades apreendidas intuitivamente, descoberta pela teoria psicológica das formas ou Gestalttheorie ao demonstrar toda a impossibilidade na redução da consciência a sensações dispersas, combinada às demais teorias de consciência aberta, tornou-se uma compreensão básica em ciências humanas e sua aplicação em sociologia deu lugar ao hiperempirismo dialético e à descoberta dos fenômenos psíquicos totais. Ver Gurvitch: “Dialectique et Sociologie”, Paris, Flammarion, 1962, 312pp., col. Science. Do mesmo autor: “Tratado de Sociologia – Vol.2”, Revisão: Alberto Ferreira, Iniciativas Editoriais, Porto 1968, (1ªedição Em Francês: PUF, Paris, 1960).

[iv] Os determinismos sociais são descritos em sociologia diferencial como operações de integração dos fatos ou manifestações particulares nos planos de conjuntos práticos.  Se os determinismos são operadores no sentido usual do termo em análise matemática, isto é, símbolos de uma operação que se efetua sobre uma variável ou sobre uma função, a qualificação “positivista” é incabível porque se trata de função dialética, como o é o esforço coletivo de unificação.

[v] Ver (Gurvitch, Georges (1894-1965): “Problemas de Sociologia do Conhecimento”, In Gurvitch (Ed.) et Al. ”Tratado de Sociologia – Vol.2”, Trad: Ma. José Marinho, Revisão: Alberto Ferreira, Iniciativas Editoriais, Porto 1968, págs.145 a 189 (1ªedição Em Francês: PUF, Paris, 1960).

[vi] Cf. “A Ideologia Alemã”, tradução francesa, ed.Molitor, vol. VI, p.240, apud G. Gurvitch, “A Vocação…”, vol. II, op.cit.

[vii] Ib.vol.VII, p.244, apud G. Gurvitch, “A Vocação…”, vol. II, op.cit.

[viii] Ib.vol.VII, p.215, 220, apud Gurvitch, op. cit.

[ix] Ib.p.225, apud Gurvitch, op. cit.

[x] Ib.p.224; apud Gurvitch, op. cit.

[xi] Cf. Gurvitch, G: “A Vocação Atual da Sociologia”, vol. II op.cit. pp.297, 298

[xii] Cf. Marx, Karl: ‘Le Capital-Livre I’, traduzido ao francês em 1872, por J. Roy, apresentação por Louis Althusser, Paris, Garnier-Flammarion, 1969, 699 pp. (1ª edição em Alemão: 1867).

[xiii] “Le Capital”, ed. Molitor p.85, apud Gurvitch, op.cit.

[xiv] Cf. ib.p.92, apud Gurvitch op.cit., pág. 347; ver igualmente: “Le Capital”, Livre I, ed. GF, pp.68-76.

 

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Fim do artigo “Psicologia Coletiva e Sociologia”: Preliminares

Mais informação em Jacob J. Lumier:  Formação do Sentimento Coletivo

 

 

Crítica aos Paradigmas de Localização

Crítica aos Paradigmas de Localização

Apresentação

(Variabilidade ou Imposição ?)

 

 

Os tipos de sociedade industrial são calcados na observação da divisão do trabalho: a grande oficina e suas engrenagens.

Para ultrapassar os dogmatismos e os preconceitos, a teoria sociológica se faz precedida do estudo dialético dos determinismos sociais (as engrenagens), a fim de colocar em relevo não só a análise dos níveis de realidade cujas hierarquias múltiplas integram as estruturas [i], mas, o concurso da liberdade humana interveniente nesses determinismos, de maneira realista e não simplesmente lógica ou matemática, isto é, pondo em relevo a variabilidade.

A “tradição” intelectual da sociologia que se nutre em Saint-Simon (e no “jovem” Marx) é notadamente sociologia diferencial (voltada para o estudo das variações nos quadros sociais) e não apenas sociologia sistemática (limitada ao estudo das regularidades tendenciais), estando melhor “aparelhada” que esta última para isolar os preconceitos filosóficos inconscientes e desmontar os dogmatismos.

►Entretanto, o que faz passar despercebida a indispensabilidade da dialética em sociologia é a proliferação de estudos e teorias formalistas de papéis sociais, nas quais prevalece a valorização do paradigma de Hobbes (Thomas Hobbes, 1588 —1679) para explicar as desigualdades sociais. Diz-se equivocadamente que as posições são dotadas de soberania: os homens que as ocupam estabelecem a lei para seus súditos e, notadamente, exercem o controle de sanções, isto é, a suposta capacidade de garantir a conformidade à lei [ii].

Diz-se ademais, e ainda equivocadamente, que, de essa noção de posições dotadas de soberania – ou noção de “poder” e sanções –, se deve concluir o seguinte: (a) – há sempre resistência a essas posições dotadas de soberania, cuja eficiência e legitimidade são precárias; (b) – o grupo dos que ocupam tais posições será supostamente o mais forte e a sociedade – assim supostamente regida pelo princípio de obediência – se mantém unida pelo exercício de sua força, isto é, pela coação. É a chamada “solução hobbesiana para o problema hobbesiano da ordem”.

Daí que o problema das desigualdades sociais torna-se derivado e se resume em estabelecer o elo perdido entre a sanção do comportamento individual e a desigualdade das posições sociais” [iii], “elo perdido” este que a filosofia social encontra como contido na noção de “norma social”, a saber: “as expectativas de papéis são apenas normas sociais concretizadas” ou “instituições”.

Diz-se, então, equivocadamente, que é útil reduzir a estratificação social à existência de normas sociais reforçadas por sanções, já que essa explicação demonstraria a “natureza derivativa” do problema das desigualdades [iv].

Por sua vez, ao invés de levar aos determinismos sociais, essa derivação teria a suposta vantagem de reconduzir a pressupostos tais como a existência de normas e a necessidade de sanções que “podem ser considerados como axiomáticos”, isto é, que dispensariam uma análise maior!

Com poucas palavras: porque há normas e porque as sanções são supostamente necessárias para impor conformidade à conduta humana (diferenciação avaliadora), tem que haver desigualdade de classes entre os homens.

Nota-se por essa “teoria da coação” (ou de “repressão”) que a variabilidade da estratificação fica absolutamente fora de cogitação na aplicação do paradigma de Hobbes, tornando consequentemente desprovida de valor ou sem aplicação metodológica alguma a discussão de “universais sociológicos” neste marco axiomático preferido pelos formalistas.

►Mas não é tudo. Será em conseqüência da teoria de papéis sociais decorrente dessa visão axiomática impositiva que certos autores formalistas serão questionados por promoverem a reificação [v] nas relações sociais e humanas.

Com efeito, diz-se que “todo o segmento de posição estabelece uma relação (necessária) entre o ocupante da posição e um ou mais grupos de referência”.

À continuidade, então, fica estabelecido “um conjunto de grupos de referência, cada um dos quais impõe ordens e é capaz de sancionar o comportamento da pessoa”, seja positivamente, seja negativamente.

Daí, “a questão da natureza da sociedade se transforma na questão de saber “como os grupos de referência formulam e sancionam as expectativas das posições que definem” [vi].

Pode-se ver que, sendo tomada separadamente dos Nós, e de todas as relações com outrem atuantes nesses Nós grupais, a indicada “relação necessária” surge como atributo impositivo do “segmento (geométrico) de posição”, revela-se uma força de imposição lógica e exteriorizada.

Será em razão dessa formulação conceitualista que, como se sabe, certos autores se verão na circunstância embaraçosa de esclarecer se os enunciados da suas teorias de papéis sociais seriam de molde a favorecer a reificação, haja vista que, nessas teorias formalistas, o indivíduo se personaliza na medida em que é constrangido a enquadrar-se nessa suposta “relação necessária (lógica)”, que lhe é imposta como um valor por força da objetivação conceitual do grupo vinculado ao segmento de posição [vii].

Tal é o método axiomático das teorias que buscam o “lugar” das desigualdades, isto é, aplicam e desenvolvem os paradigmas de localização, no caso, os esquemas de filosofia social tirada como disse de Thomas Hobbes (1588 —1679).

 

►Por contra, como se sabe é indevida a confiança que se tem no absoluto da localização porque, antes de constituir uma exigência propriamente epistemológica, essa localização encontra-se na base da linguagem como tal, sendo toda a sintaxe de “essência topológica”.

Há uma limitação das atribuições realísticas que pretendem empregar as palavras “posição” e “movimento” fora do terreno em que foram definidas ou onde esses termos são definíveis, isto é, nas equações de incerteza descobertas na Física Quântica e tornadas características de todo a atitude científica contemporânea nutrida da teoria da relatividade de Albert Einstein (1879 — 1955).

Neste ensaio levamos em conta a compreensão da revolução de Heisenberg [viii] que derruba por terra a objeção de que noções tão fundamentais como “posição e movimento” (velocidade) têm sentido universal.

Segundo Bachelar, as qualidades geométricas incluindo a posição e a velocidade não têm direito algum a serem chamadas qualidades primeiras.  Só há qualidades secundárias, uma vez que toda a qualidade é solidária de uma relação (de incerteza) que, junção das intuições contrárias, faz girar as duas intuições fundamentais: a corpuscular e a ondulatória [ix].

Desta forma, tendo em conta a aplicação em sociologia da dialética relativista complexa [x], elaboramos sobre o fato social comprovado de que, antes de se ligarem aos papéis sociais, as expectativas ligam-se ao esforço coletivo, incluindo-se neste último o histórico das iniciativas, dos projetos e métodos, das tentativas e das próprias realizações do grupo.

Resgatamos a afirmação espontânea do equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros, como foco da vida do Direito, que se inclui nas manifestações da sociabilidade e no consequente pluralismo social efetivo (a multiplicidade dos Nós e das relações com outrem é irredutível), como um dado empírico que derruba por terra os axiomas tirados da filosofia social de Hobbes.

O pluralismo social efetivo como “sistema de freios e contrapesos” [xi] se descreve a partir da constatação de que a realidade social é integrada. Isto significa que a afirmação espontânea do equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros é uma característica da realidade social dos Nós, como manifestações concretas da consciência coletiva ao nível da experiência humana [xii].

Ou seja, não há pólos heterogêneos na realidade que não sejam relativos, toda a polarização dos contrários, dos contraditórios ou até antagônicos revela-se dialética, intermediada ou interpenetrada. Por mais que sejam polarizadas as antinomias guardam um setor intermediado e não chegam a romper totalmente a reciprocidade de perspectiva, cuja exasperação constitui o limite mais extremado, para além do qual a realidade social se abisma.

Como dado empírico implicando procedimentos de verificação dos determinismos sociais, tais como as correlações funcionais e as integrações diretas nos conjuntos práticos [xiii] dentre outros recursos de método, a afirmação espontânea do equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros (espontânea porque não imposta) diferencia-se no conjunto dos psiquismos individuais e coletivos lá onde esses psiquismos transferem suas energias subjetivas para a realidade de conjunto, por efetividade do próprio conjunto prático, de tal sorte que a realidade social toda inteira vem a ser penetrada de aspiração aos valores (subjetividade coletiva).

Por efetividade desse determinismo de conjunto tem-se que a realidade social é integrada e se compreende a soberania social, isto é, a afirmação espontânea (espontânea porque não imposta) do mencionado equilíbrio parcial entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros.

►Destas observações decorre que realidade social ex­clui o chamado “princípio de obediência à ordem”, que é caracte­rístico das consciências fechadas sobre si mesmas, intros­pectivas. O fato de que o mundo de realidade social ultra­passa qualquer imposição de condutas preestabelecidas constitui importante diferencial da sociologia, a quem re­pugna o paradigma da filosofia social de Thomas Hobbes (1588 – 1679), acolhido em especial pelos cientistas políti­cos, notadamente o falso postulado da natureza heterogê­nea, levando ao atomismo que fragmenta a realidade so­cial em uma poeira de indivíduos isolados (“o homem é o lobo do homem”), suportes de reflexos condicionados.

Todavia, não se pense que a exclusão do chamado “princípio de obediência à ordem” seja decorrente de um voluntarismo abstrato. Pelo contrário. Inicialmente é pre­ciso ter em conta o contexto histórico em que Émile Dur­kheim (1858 – 1917) desenvolverá seu conceito de “amor­fismo social” [xiv], isto é, a decadência não só do Es­tado, como pacto ou bloco de localidades (“instituições parlamentares”), mas também do Contrato que o representava como segurança jurídica para o indivíduo no final do século XIX.

Tal é o contexto privilegiado no curso da Segunda Re­volução Industrial iniciada na segunda metade do século XIX (desenvolvimentos dentro da indústria química, elé­trica, de petróleo e de aço), com destaque para os suces­sos do período datado de 1885 a 1914 (Paz Armada), quando o “neo-imperialismo” levou à contraposição da Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália), por um lado, e da “Tríplice Entente” (Rússia, França e Inglaterra), por outro lado.

Como se sabe, a significação sociológica de tal deca­dência do Estado está em que a mesma se faz em pro­veito do direito social autônomo, que impulsionará o desenvolvimento da estrutura de classes no começo do século XX. Quer dizer, em conseqüência da decadência do Estado, as relações coletivas produzirão sem a imposição estatal – isto é, em soberania social – os acordos, as con­venções e os contratos coletivos no mundo do trabalho e da produção industrial. Portanto, será neste sentido histó­rico-sociológico que a realidade social exclui como disse o chamado “princípio de obediência à ordem”.

Mas não é tudo. Tendo em conta as imanentes forças psicossociológicas de pressão e de atração, a integração no conjunto da realidade social ultrapassa qualquer força de imposição, qualquer força previamente definida que se imponha logicamente do exterior, ainda que chamada a distribuir prestígio e influência.

Embora tenha níveis objetivados, a realidade social não é um lugar, é mais do que simples extensão (res extensa) [xv], é realidade em ato, em vias de se fazer e se atualiza na multiplicidade dos quadros sociais cujo conjunto em sua não-determinação prévia não é, pois, reduzido à história das civilizações (embora participem das estruturas como elementos anestruturais, os quadros microssociológicos são não-históricos) [xvi].

Neste sentido, o realismo relativista sociológico é con­forme a dialética complexa de que, tendo em vista o pensamento probabilitário, comentou Gastón Ba­chelard ao sustentar que temos necessidade de mudar o real de lugar e que a função realista é cada vez mais móvel: as revoluções frutuosas do pensamento ci­entífico são crises que obrigam a uma “reclassificação profunda do realismo” [xvii].

Nos presentes artigos elaboro uma reflexão crítica às ori­entações centradas nas categorias de posição e movi­mento, visando dimensionar o alcance da mirada sociológica diferencial em face dos antigos paradigmas de locali­zação.

Rio de Janeiro, Janeiro de 2011

Jacob (J.) Lumier

 

Categorias: sociologia, psicologia coletiva, comunicação social, ensaios críticos, história, metodologia científica, análise e interpretação.

 

***

 

 

[i] Sobre o conceito de estrutura social e as hierarquias múltiplas vejam Nota Complementar no final deste livro.

[ii] Dahrendorf, Ralf (1929 – 2009): “Ensaios de Teoria da Sociedade”, Rio de Janeiro, Zahar – Edusp, 1974, 335 pp. (1ª edição em Inglês, Stanford, EUA, 1968). pp.141 a 173.

[iii] Ibidem, pág. 193

[iv] Ibidem, pág. 196

[v] A reificação da realidade social surge como a questão de saber até que ponto uma ordem institucional ou alguma parte dela é apreendida como uma faticidade não humana, ou inversamente, se o homem em certa organização ainda conserva a noção de que, embora objetivado, o mundo social foi feito pelos homens e, portanto, pode ser refeito por eles. Veja Berger, Peter e Luckmann, Thomas: “A Construção Social da Realidade: Tratado de Sociologia do Conhecimento”, Trad. Floriano Fernandes, Rio de Janeiro, Editora Vozes, 1978, 4ªedição, 247 pp. (1ª edição em Inglês, New York, 1966).

[vi] Dahrendorf, Ralf (1929 – 2009): “Ensaios de Teoria da Sociedade”, op. cit., págs. 62/63.

[vii] Ibidem, págs. 106/126

[viii] As equações de incerteza foram defendidas por Werner Karl Heisenberg (1901-1976) em 1927.

[ix] Bachelard, Gastón (1884 -1962): “Le nouvel esprit scientifique” (1934)

[x] Vejam os tópicos que se seguem, em especial “Os procedimentos Dialéticos do Hiperempirismo”.

[xi] Na mesma medida em que viabiliza a funcionalidade das políticas públicas como ação de integração social, será este equilíbrio dinâmico entre as prerrogativas de uns e as obrigações de outros que o sistema de freios e contrapesos como conceito de técnica constitucional visa configurar em sua aplicação ao pluralismo mais concreto dos agrupamentos particulares em suas disputas de interesses no âmbito da história parlamentar.

[xii] Vejam Gurvitch, Georges (1894-1965): “Dialectique et Sociologie”, Paris, Flammarion, 1962, 312 pp., col. Science.

[xiii] Como se verá adiante, os conjuntos práticos são não-inertes, não apenas lógi­cos, mas em alteração, cujas probabilidades admitem um fator imponderável levando a previsibilidade científica a admitir uma verificação a-posteriori.

[xiv] Émile Durkheim, Le suicide. Étude de sociologie (1897). Paris: Les Presses universitaires de France, 2 éme édition, 1973, 463 pp. Col: Bibliothèque de philoso­phie contemporaine. Cf: p. 421 segs.

[xv] Vejam as análises de Georges Gurvitch sobre as extensões ou amplitudes concretas em “Determinismos Sociais e Liberdade Humana”, Rio de Janeiro, Forense, 1968, 361 pp., traduzido da 2ª edição francesa de 1963. (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1955).

[xvi] Se a realidade social é frequentemente tida como um lugar ou uma localização é porque a apreensão original do mundo social é consideravelmente reificada. Veja Berger, Peter e Luckmann, Thomas: “A Construção Social da Realidade: tratado de sociologia do conhecimento”, trad. Floriano Fernandes, Rio de Janeiro, editora Vozes, 1978, 4ª edição, 247 pp. (1ª edição em Inglês, New York, 1966), págs. 124/132.

[xvii] Bachelard, Gaston (1884 -1962): “Le Nouvel Esprit Scientifique. Paris, PUF, 10e édition, 1968. Collection : Nouvelle encyclopédie philosophique, 181 pages./// O Novo Espírito Científico”, São Paulo, ed. Abril 1974, coleção “Os Pensadores”, vol.XXXVIII, pp.247 a 338 (1ª edição em Francês, Felix Alcan 1934). Cf. pág. 315.

O problema da possibilidade da estrutura

 

O problema da possibilidade da estrutura e a classificação dos grupos estruturados como Sedes específicas do conhecimento

Por Jacob (J.) Lumier

 

O conceito de estrutura, em sociologia diferencial, não minimiza a variabilidade, mas acentua a escala dos tempos sociais, e o faz na medida em que põe em relevo o fato de o conjunto social, por mais complexo que seja, preceder, virtualmente ou atualmente, todos os equilíbrios, hierarquias, escalas, de que depende o tipo de estrutura. Em consequência, as tendências e os equilíbrios que constituem o caráter estruturável de um grupo nem sempre são conseguidos, levando a constatar que existem grupos “apenas estruturáveis”.

Sumário

Preliminares. 1

A classificação das hierarquias que definem o tipo de sociedade. 1

As hierarquias múltiplas. 1

As hierarquias em unificação. 1

Passagem do grupo à história. 1

O caráter estruturável de um grupo. 1

Os agrupamentos estruturáveis. 1

Os grupos estruturados. 1 (descrição e classificação)

 

 

 

O conceito de estrutura, em sociologia diferencial, não minimiza a variabilidade, mas acentua a escala dos tempos sociais, e o faz na medida em que põe em relevo o fato de o conjunto social, por mais complexo que seja, preceder, virtualmente ou atualmente, todos os equilíbrios, hierarquias, escalas, de que depende o tipo de estrutura. Em consequência, as tendências e os equilíbrios que constituem o caráter estruturável de um grupo nem sempre são conseguidos, levando a constatar que existem grupos “apenas estruturáveis”.

 

 

Preliminares

 

Este artigo pressupõe a leitura dos seguintes textos do autor: (a) “Os tempos sociais, a sociologia e a história”< https://leiturasociologica.wordpress.com/os-tempos-sociais-a-sociologia-e-a-historia/ >; (b) “ Pluralismo Descontinuísta: Primeira Parte” < https://leiturasociologica.wordpress.com/2016/09/20/pluralismo-descontinuista-e-desdogmatizacao/ >(sobre o método tipológico no estudo da realidade social); (c) “A sociologia dos agrupamentos particulares como quadros sociais do conhecimento” <https://leiturasjlumierautor.wordpress.com/2017/04/18/a-sociologia-dos-agrupamentos-particulares/ >. Devem ter em conta, igualmente, que, em sociologia, os quadros conceituais operativos são relacionais, e se definem uns pelos outros.

No caso presente, o conceito de estrutura é relacional do método tipológico, é um quadro dialético, favorece a descrição dos tempos sociais, e não deve ser reduzido às tipologias, que são construídas para chegar à explicação sociológica, a qual é mais ou menos conjectural.

O tipo sociológico reflete o ideal do equilíbrio tendencial entre as diversas hierarquias em uma sociedade, sua construção não reduz nem absorve o problema dos equilíbrios reais, cuja formação se expressa na estrutura social. Os problemas que devem ser esclarecidos são igualmente problemas reais e não artificiais, tais com a duração da estrutura e a sua possibilidade em face da variabilidade que caracteriza a realidade social. Assim, por exemplo, a “ordem” das condutas, dos procedimentos, dos fatos, sua relativa coerência são aspectos reais das hierarquias na estrutura social.

 

A classificação das hierarquias que definem o tipo de sociedade

 

Se trata de incluir no estudo da estruturação, a compreensão de que as manifestações da sociabilidade, como fenômenos microssociológicos, são elementos anestruturais, portanto, incapazes, por si próprios, de formar hierarquias dos patamares de realidade. Ou seja, as formas da sociabilidade, embora não unifiquem, como vimos, atualizam no seu seio os degraus objetivados da realidade, aos quais Gurvitch chamará “níveis múltiplos”, constatando que, entre esses níveis, se trata de relações inteiramente variáveis, alternando e combinando, por um lado, graus de cristalização e, por outro lado, graus de espontaneidade, e assim constituindo forças dinâmicas de mudança.  Em palavras simples, a partir desses níveis assim compreendidos como níveis múltiplos, se afirma o conhecimento de que não existe tipo de sociedade que alcance uma coesão sem choques; de que nada se resolve nunca numa sociedade, pelo menos não definitivamente, só há graus de coesão e de disparidade.

Portanto, as hierarquias em que esses níveis múltiplos tomam parte são também hierarquias múltiplas, que variam em cada sociedade e em tal ou qual tipo de estrutura, seja estrutura parcial ou global, e nas quais a descontinuidade prevalece.  O estudo desses níveis e dessas hierarquias múltiplas permite avançar na explicação sociológica do que Gurvitch chama “pluridimensionalidade da realidade social” , suas “ordens sobrepostas” ,e , se as camadas seccionadas podem se afirmar como sendo mais cristalizadas e oferecer um suporte mais sólido à estruturação do que jamais poderão fazê-lo as manifestações da sociabilidade, cabe sublinhar que elas nada representam, e não passam de aspectos difusos da matéria social dinâmica, independentes do grau de valor e de realidade, somente limitados aos graus de dificuldade para acessá-los.  Dessa maneira, a teoria sociológica constrói seu objeto na medida em que delimita a realidade social em níveis mais ou menos construídos para estabelecer “conceitos” ou quadros operativos eficazes em vista de dar contas da pluridimensionalidade da realidade social.

O estudo das combinações móveis dessas camadas seccionadas somente tem lugar se for feito antes que intervenha sua unificação no determinismo sociológico parcial regendo os agrupamentos particulares e as classes sociais. Note-se que, para esse autor, a anterioridade desse estudo das camadas seccionadas se resguarda da arbitrariedade do chamado “corte epistemológico” praticado nas metodologias abstratas, exatamente por verificar a dialética dos níveis de realidade como combinada a essa outra dialética das três escalas.

Desse modo, se poderá diferenciar  dez patamares em profundidade, seguintes:  1)- a superfície morfológica e ecológica;  2)- os aparelhos organizados;  3)- os modelos sociais;  4)- as condutas coletivas regulares;  5)- as tramas dos papéis sociais;  6)- as atitudes coletivas;  7)- os símbolos sociais;  8)- as condutas coletivas inovadoras;  9)-as idéias e valores coletivos;  10)- os estados mentais e atos psíquicos coletivos   -cabendo sublinhar que é maior a dificuldade de acesso quanto mais profundo ou espontâneo é o nível estudado.

Para aclarar o arranjo dessas camadas subjacentes, suas combinações móveis em hierarquias específicas múltiplas, a sociologia diferencial leva em conta que as alterações nesses planos de conjunto estão na origem das mudanças fundamentais no interior das estruturas,  e que, portanto, igualmente a estas, as camadas subjacentes se movem nos tempos sociais , por meio dos quais admitem princípios de equilíbrio, isto é: admitem graus diversos de mediação entre o contínuo e o descontínuo, entre o quantitativo e o qualitativo, o reversível e o irreversível, constituindo sequências de microdeterminismos sociológicos que se combatem e sofrem desajustes nas cadências dos seus movimentos, mas que , nada obstante, chegam a arranjos em hierarquias múltiplas e variadas, por efeito da dialética entre a escala do microssocial, a escala do parcial  e a escala do global, de tal sorte que as hierarquias figuram como criações do esforço de unificação.

Temos, então, para simplificar, que os princípios de equilíbrio constituindo sequências microssociológicas, estão na base das hierarquias de que, por sua vez, as estruturas configuram as dinâmicas de formação de equilíbrio ao darem nascimento aos tempos sociais.

 

As hierarquias múltiplas

 

As hierarquias múltiplas implicam uma formação dinâmica de equilíbrio no interior de uma estrutura social, uma formação que não chega a estar pronta e acabada em suas posições relativas, mas em vias de se fazer conforme a escala dos tempos sociais da própria estrutura. Pode dizer que as hierarquias múltiplas acentuam a permanência das mudanças fundamentais ocorrentes no interior da estrutura.

Por sua vez, os tempos sociais, pela variabilidade que precipitam, alteram a formação de unidade do tipo de sociedade global, alteram a combinação das hierarquias que definem o tipo.

Devem observar a classificação de Gurvitch sobre as hierarquias de que depende o tipo de estrutura. Essa classificação consiste em uma aplicação da visão de conjunto (veja a exposição sobre essas hierarquias em sua obra “Determinismos Sociais e Liberdade Humana: em direção ao estudo sociológico dos caminhos da liberdade”, Rio de Janeiro, Forense, 1968, 361 pp., traduzido da 2ª edição francesa de 1963. (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1955). 

A série das hierarquias específicas e múltiplas compreendem as escalas ramificadas nas quais o elemento hierárquico assenta-se na distribuição [efetividade da multiplicidade dos tempos sociais] e não na pressão do conjunto [unificação dos tempos].

Tais hierarquias múltiplas são as seguintes: 1)- a combinação das manifestações da sociabilidade, como atualizando-se no conjunto e nos agrupamentos particulares;   2)- a acentuação dos  patamares em profundidade da realidade social, como atualizando-se no conjunto, na escala do parcial, e no microssocial;   3)- a escala dos modos de divisão do trabalho e dos modos de acumulação , que também se atualizam nas classes sociais, e não só nas sociedades globais;   (4)- a hierarquia das regulamentações sociais (também chamados “controles sociais”);   5)-  a escala dos tempos sociais , hierarquizando-se, combinando-se, interpenetrando-se, entrechocando-se de diferentes maneiras, pois, como já foi dito, a duração de uma estrutura nunca é um repouso, mas, no dizer de Gurvitch (ibid, ibidem), é uma “procissão através de vias tortuosas abertas pela multiplicidade dos tempos sociais”.

 

As hierarquias em unificação

A série das hierarquias em unificação com preeminência do elemento de contenção são as seguintes:

1)- a hierarquia dos agrupamentos funcionais, às vezes em competição com as hierarquias das classes sociais e das respectivas organizações.  Nota-se que  essa competição lhe imprime um acentuado fator de variação, em virtude do que a hierarquia dos agrupamentos funcionais desfruta de um estatuto ambíguo e pode ser considerada também entre as hierarquias múltiplas [o elemento hierárquico assenta-se na distribuição e não na pressão do conjunto], já que ainda não constitui as formas particulares dos  conjuntos;   2)- a combinação dos modelos, signos, sinais, símbolos, ideias, valores, em breve, das obras de civilização cimentando a estrutura social global, notando-se que essa hierarquia constitui o momento fundamental na formação de unidade;   3)- a hierarquia dos determinismos sociais, compreendendo a dialética entre o microssocial, o parcial e o global, cuja unificação dá a forma particular do determinismo sociológico global.

 

Passagem do grupo à história

Do fato de o conjunto social preceder todas as hierarquias, temos não somente que o problema chamado “passagem do grupo à história” releva da pluridimensionalidade da realidade social e se examina no âmbito do estudo das camadas seccionadas, que, conforme dissemos, é um estudo empreendido  antes que intervenha a unificação das mesmas  nos determinismos sociológicos parciais regendo os agrupamentos particulares e as classes sociais,  mas, em consequência, temos que as tendências e os equilíbrios que constituem o caráter estruturável de um grupo nem sempre são conseguidos e os grupos não chegam a se tornar estruturados, mostrando ser real o problema da possibilidade da estrutura .

 

O caráter estruturável de um grupo

O caráter estruturável de um grupo tem três proveniências, seguintes:   (1)- o fato de que a unidade do grupo se realiza mediante o arranjo de uma coesão particular entre  (a)- as manifestações da sociabilidade, por um lado, e (b)- por outro lado, as atitudes coletivas, incluindo suas expressões nas condutas regulares;    (2)- a existência de um princípio de equilíbrio entre as hierarquias múltiplas;    (3)- o fato de que a inserção do grupo em uma classe social ou em uma sociedade global tende a manifestar-se por um arranjo  (a)- de suas relações com os outros grupos e, (b)-, do papel e do lugar que o grupo tem na hierarquia particular dos agrupamentos que caracterizam uma sociedade global dada.

 

Os agrupamentos estruturáveis

Em consequência da observação dessas proveniências, se pode formular a definição de que os agrupamentos são estruturáveis porque:  1)-  manifestam tendência para estabelecer um arranjo virtual das hierarquias múltiplas, ou seja, uma “ordem particular”;  2)-  manifestem tendência para pôr em relevo a posição, o papel e as relações do grupo com o “exterior”, ou seja, um “espírito de corpo”.

Todavia, como dizíamos, do fato de o conjunto social preceder todas as hierarquias, resulta que as tendências e os equilíbrios que constituem o caráter estruturável de um grupo e que viemos de enumerar nem sempre são conseguidos.  Daí que existam grupos estruturados, como os idosos, os grupos de juventude, certas profissões (embora estes grupos sejam habitualmente desorganizados, têm expressão em diferentes organizações), e existam também grupos “apenas estruturáveis”, como os diferentes públicos, as minorias étnicas, os produtores, os consumidores, as indústrias, os grupos de geração.

Nota que o nível organizado, em relação ao equilíbrio da estrutura, é só uma questão de expressão, não indispensável, ainda que todo o grupo organizado seja ao mesmo tempo estruturado, já que, em contrapartida, um grupo pode ser não somente estruturável sem ser organizado, como pode também ser estruturado e não ter organização própria.

Do ponto de vista do interesse na sociologia do conhecimento, que apreciamos neste ensaio, são os grupos estruturados que oferecem planos de referência mais precisos (ver a este respeito e das análises que se seguirão, a obra de Gurvitch intitulada “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, já citada).  Tanto é assim que, pela abordagem da análise gurvitcheana, o conhecimento opera como um elemento cimentador da estrutura, fazendo com que os grupos estruturados sejam sedes específicas do conhecimento.

 

         Os grupos estruturados

Visando exatamente pôr em relevo o caráter específico dessas sedes do conhecimento, a análise gurvitcheana dá privilégio aos agrupamentos sociais caracterizados no seguinte: (I) – segundo seu modo de acesso seja aberto, condicionado, fechado; (II) – segundo suas funções, destacando a família, os grupos de localidade de pequena envergadura, as fábricas; (III) – os blocos de grupos multifuncionais, como o Estado e a Igreja.

(I) – Os grupos abertos, como já mencionamos, incluem, além dos grupos de fato (diferentes públicos, grupos de idade, etc.) as multidões, as manifestações públicas ou não públicas, as reuniões, certos grupos filantrópicos, etc.   Evidentemente, esses grupos não representam focos ou sedes específicas do conhecimento.  Todavia, é admitido a exceção dos grupos de jovens e dos grupos das pessoas de idade, na medida em que constituem unidades coletivas reais, como nas sociedades patriarcais ou, simplesmente, nas sociedades tradicionais, visto que os anciãos podem ser considerados como os únicos portadores do conhecimento esotérico ou do conhecimento cuja difusão é aceite, fazendo predominar, como intermediários, o sistema cognitivo da sociedade global sobre todo outro saber nessas sociedades,  tornando-se, imperceptivelmente, grupos fechados.

(I-1)- Quanto a esses grupos fechados , quer se trate de uma casta de sacerdotes, de um grupo feudal, da nobreza de armas, ou da nobreza de toga, da camada mais alta da burguesia (que recruta somente por nascimento ou por herança), de trustes, ou de cartéis, nacionais ou internacionais, produzem um saber específico, oposto ao da sociedade global, um saber que,(a)- mesmo formando sistemas cognitivos, estes se reduzem a certos conhecimentos políticos, a certos conhecimentos técnicos, ou a outros tantos de senso comum, sendo que a combinação de tais conhecimentos varia segundo o caráter dos grupos fechados e o das conjunturas ante as quais se encontram;  (b)- um saber que manifesta uma tendência ao hermético e esotérico, ainda que a forma racional triunfe por completo e conduza ao cálculo aperfeiçoado de balanços financeiros complexos …

(I-2)- No que concerne os grupos de acesso condicionado, em que a análise gurvitcheana do interesse na sociologia do conhecimento contempla os grupos profissionais privilegiados, aqueles que exigem títulos ou diplomas, como o professorado, a magistratura, ou os que são submetidos a um controlador organizado, como o conselho de medicina, a ordem dos advogados, etc.   Gurvitch descreve a situação dos estabelecimentos de ensino superior, cujo acesso é por cooptação ou por concurso, notando que essas instituições são sedes específicas de conhecimentos científicos, técnicos, ou de conhecimentos filosóficos.  Considerados como conhecimentos propriamente universitários, ou que constituem matéria de ensino e pesquisa, esses conhecimentos se caracterizam todos pela acentuação das formas de conhecimento, com predomínio das formas conceitual, simbólica, positiva, coletiva e racional, sem excluir que o saber concebido e ensinado nas universidades continua sendo em parte esotérico , hermético e tradicional, “defeito” este que,  segundo o nosso autor, se corrige pelo espírito competitivo, embora seja certo que toda a inovação se faça com lentidão e não se impõe sem grandes precauções.   Quanto ao papel do conhecimento estratégico ou político e do conhecimento de senso comum nesse sistema cognitivo, nota-se que estes conhecimentos restam muito abaixo dos níveis dos conhecimentos ensinados , já que, quando se trata de estabelecer questões administrativas, se  requerem qualidades e conhecimentos  de uma classe completamente distinta.  Enfim, o conhecimento de outro e dos Nós-outros , quer dizer,  dos colegas e dos estudantes,  não se atualiza no seio da universidade se a comunidade não consegue  predominar sobre a massa e a comunhão.

(II)-     Na análise da família-matrimônio como sede de conhecimentos , deve-se levar em conta o seguinte:  (1)- que, como já sublinhamos, todo o grupo muda de caráter  segundo o tipo de sociedade global em que está incluído e segundo a classe social em que está inserido;    (2)- o estado de harmonia ou de desacordo no seio da família;   (3)- as influências exteriores dos outros grupos;  (4)- a mobilidade social;  (5)- que, em nossa época, a família não revela grande riqueza ao estudo do saber, encontrando-se habitualmente como um grupo  demasiado submetido e aberto  à influência cognitiva  das classes e sociedades globais em que está inserido.  Dessa maneira, considerando o papel do conhecimento de outro e dos Nós-outros, nota-se que essa classe de conhecimento predomina sobre as demais se a situação familiar é de harmonia:  é, então, conhecimento entre marido e mulher, entre pais e filhos, e conhecimento entre os filhos.  Se, todavia, aparecem na família os desacordos, os problemas de qualquer classe, os membros deixam de entender-se e se dividem em campos opostos, o que leva a desprezar o conhecimento dos demais.  Quanto ao conhecimento de senso comum, se supõe que os pais o transmita aos filhos e o apliquem eles mesmos para um funcionamento sem tropeços da família. Entretanto, nota-se que, nas condições atuais de vida, esse conhecimento de senso comum está mais limitado e dá espaço às influências contrárias ao saber viver da família, influências estas que podem se exercer sobre os pais desde os locais de trabalho, desde a participação nos sindicatos, etc., e sobre os filhos, desde os estabelecimentos de ensino e desde os companheiros.   Somente as famílias dos meios de classe média, ou as camponesas, continuam cultivando essa classe de conhecimento.  Já o conhecimento político dispõe de mais espaço nas famílias.  Há o sentido restrito de um conhecimento da estratégia a que devem recorrer os pais para a educação e a formação dos seus filhos e, reciprocamente, pelo lado dos filhos, há o sentido de um conhecimento dos meios de lograr de seus pais o máximo de liberdade.  Caso se tome o conhecimento político em seu sentido mais geral e habitual, que implica tomadas de posição estritamente políticas e o conhecimento das regras estratégicas a observar no que concerne à sociedade global, nota-se a perda de lugar desse conhecimento em relação ao tempo em que estava submetido a uma tradição longínqua e contínua, efeito de uma mobilidade muito reduzida da situação de classe das famílias (os filhos seguindo as posições dos pais).   Observa-se que, no século XX, por um lado, a mobilidade se tornou maior e, por outro lado, em um mesmo nível social, a continuidade dos conhecimentos políticos se rompe amiúde.  Todavia, essa diminuição progressiva da influência da família continua sendo limitada. Enfim, nota-se a importância crescente de certos conhecimentos técnicos, ainda que em nível rudimentar, no funcionamento da família: o manejo dos artefatos domésticos e das máquinas a motor exige um mínimo de informação.

(II-1)-       A análise  e descrição  dos grupos locais de pouca envergadura, tais como povoados, lugarejos, vilas ou aldeias, leva em conta o seguinte:   (1)- a delimitação desses grupos como grupos funcionais se faz com precisão porque suas “obras a realizar” são sempre multifuncionais e bem diferenciadas, pois se trata de assegurar a regulamentação e a administração da boa vizinhança, bem como a realização de distintas atividades econômicas e administrativas , ou de estabelecer as relações com outros grupos locais da mesma classe, etc.;  (2)- esses grupos tendem normalmente a favorecer a atuação em seu seio das comunidades em detrimento das massas e das comunhões , sendo, porém, eles próprios inconfundíveis com as comunidades que atualizam em seu seio, além disso, esses grupos , em conjunturas históricas especiais, como guerras, revoluções , movimentos de libertação, etc., são incapazes de resistir ao surgimento de comunhões ou à dissolução da comunidade em massa.

A classe de conhecimento mais preeminente nos grupos locais de pouca envergadura é o conhecimento perceptivo das relações com o exterior, isto é, o mundo exterior que esses grupos conhecem está imbricado nas perspectivas dos jardins, hortas, campos, bosques, estradas e caminhos de comunicação com as localidades vizinhas e os lugarejos onde se fazem os mercados.  Segundo os termos da análise gurvitcheana, trata-se de amplitudes egocêntricas e concêntricas imprimindo o caráter específico desse conhecimento, portanto, um conhecimento voltado para a ambiência particular desses grupos. Isso quer dizer que o mundo exterior tende a se afrouxar, perdendo poder de atração ou de pressão como o que vem de fora, embora seja digno de notar as perspectivas ou amplitudes difusas das relações com as cidades, com o Estado e sua capital, como lugar de organização administrativa e política.

Nota-se ainda que a penetração pelos Estados, Igrejas, e sociedades globais se faz sentir na aplicação pelos grupos locais de conceptualizações e de medidas para os tempos, como os tempos cíclicos das estações do ano e os de longa duração, bem como na aplicação de conceptualizações para as amplitudes das relações com o exterior, ocorrendo, então, que os grupos locais rechaçam suas amplitudes e seus tempos concretos, aos quais, todavia, permanecem vinculados.  No que concerne ao conhecimento de senso comum, esses grupos são seu último refúgio.  Já o conhecimento de outro e dos Nós-outros são marcados pelos estereótipos provenientes da sociedade global, com a televisão e o rádio tendo parte importante nisto.  O conhecimento político dos grupos locais de pouca envergadura compreende a tática própria para manter boas relações com os vizinhos, compreende também a participação na vida política do país, através das eleições municipais, as legislativas, etc., participação esta que, aliás, se faz notar exatamente a partir dos grupos locais de pequena envergadura.

(II-2)-       A análise gurvitcheana das fábricas e o saber, privilegiando os grupos de operários, favorece o interesse pelo conhecimento político que apresenta caráter específico.   São distinguidos três níveis dessa classe do saber: (a) – um nível particularizado, entendido como “tática de adaptação ao humor dos companheiros de equipe, ao humor dos capatazes ou ao dos engenheiros”.   Tática de adaptação esta que vem unida a uma espécie de conhecimento de senso comum, em relação não com a tradição, mas com o ambiente específico da fábrica.  Dessa maneira, esse conhecimento político particularizado pode às vezes entrar em conflito com: (b) –  o conhecimento político em nível proletário ou nacional e, por conseguinte, com a atitude dos sindicatos e dos organismos de representação operária.  Entre estes dois aspectos, há (c) – o terceiro nível de conhecimento político das fábricas: o modo de expressão do descontentamento, a fatiga e a oposição espontânea ao regime autoritário das fábricas.  Note-se que essa modalidade do conhecimento político contribui para reconciliar e combinar as outras duas.  Sem dúvida, há que levar em conta o igualmente específico conhecimento perceptivo do mundo exterior, cujo lugar é muito importante na fábrica, como conhecimento que os operários têm do mundo próprio da oficina, da fábrica, da empresa, cuja característica básica está em que os objetos dessa percepção, os locais, as máquinas, as oficinas, incluindo as oficinas dos diretores e dos engenheiros, são objetos tão próximos e ao mesmo tempo estão tão longe dos operários.   Além disso, são também objetos desse mundo exterior que os operários conhecem, as perspectivas e as correspondentes cadências em que se desenvolvem os esforços e a vida dos operários em equipe; bem como as distâncias, incluindo os percursos para falar aos seus chefes; as máquinas a usar; o tempo a sacrificar, como a locomoção domicílio-trabalho-domicílio.

Enfim, completando sua análise desse sistema cognitivo,  Gurvitch situa a submissão dos trabalhadores às máquinas, à administração dos técnicos especialistas e aos diretores das fábricas,  no âmbito  do conhecimento de outro e dos Nós-outros, o qual, exatamente  por esses mesmos  fatos, fica em último lugar, tornando-se um conhecimento de aspectos padronizados, um conhecimento de expectativas, como o comportamento, que, então, é o que se nota nos companheiros, como, por exemplo, o comportamento em relação ao trabalho, o comportamento a respeito do sindicato, ou  durante uma greve , ficando distanciadas, nesse conhecimento de expectativas ou de comportamentos, as pessoas próprias dos companheiros, situação de “estranhamento” esta que poderia mudar em um regime  de gestão autocontrolada.  Nota-se ainda que a forma do conhecimento político acentua o especulativo, o simbólico, e até o mitológico, sem perder, todavia, seu aspecto racional, calculador e adequado, enquanto as demais classes de conhecimento em foco nas fábricas atualizam, ao lado das formas adequada e racional, a forma empírica, a positiva, e a forma coletiva, o que, sublinha nosso autor, torna bem diferenciado o aspecto específico do conhecimento político dos operários das fábricas.

***

 

 

A sociologia dos agrupamentos particulares

 

A sociologia dos agrupamentos particulares como quadros sociais do conhecimento e

a estruturação das classes sociais

 

Sumário

O grupo como quadro social estruturável 1

Dialética entre independência e dependência. 2

Os tipos de agrupamentos diante da sociedade global 3

A estruturação das classes sociais. 4

As classes sociais diante da hierarquia da sociedade. 6

 

 O grupo como quadro social estruturável

No que concerne a sociologia diferencial dos agrupamentos particulares, como quadros sociais do conhecimento, deve-se notar inicialmente, que só há grupo quando, em um quadro social parcial, aparecem as seguintes características:    1) – predominam as forças centrípetas sobre as centrifugas; 2) – os Nós-outros convergentes predominam sobre os Nós-outros divergentes e sobre as diferentes relações com outrem.

Será dessa maneira e nessas condições que o quadro do microcosmo das manifestações de sociabilidade, que constitui um grupo social particular, pode afirmar-se no seu esforço de unificação como irredutível à pluralidade das ditas manifestações.  Daí a percepção de que, em todo o microcosmo social, há virtualmente um agrupamento particular, que a mediação da atitude coletiva faz sobressair.

De fato, o grupo é uma unidade coletiva real, mas parcial, que é observada diretamente, como sabe.  Essa unidade é fundada exatamente em atitudes coletivas contínuas e ativas;  além disso, todo o grupo  tem uma obra comum a realizar, encontra-se engajado na produção da “ideias”, como o direito, a moral, o conhecimento, etc.,  de tal sorte que sua objetivação se afirma, reiteradamente, como “unidade de atitudes,  obras e condutas”, advindo dessa característica objetivação que o grupo se constitua como quadro social estruturável, com tendência para uma coesão relativa das manifestações de sociabilidade.

 

Dialética entre independência e dependência

Nota-se, então, no conjunto dos agrupamentos particulares, uma dialética entre independência e dependência a respeito do modo de operar da sociedade global.  Dessa forma, como já o notamos, observa-se que os grupamentos mudam de caráter em função dos tipos de sociedades globais, nas quais se integram conforme hierarquias específicas, notadamente conforme a escala dos agrupamentos funcionais.

  • Nota-se também, do ponto de vista da dialética diferencial independência/dependência, que em tipos de sociedades globais favorecendo a estruturação dos agrupamentos particulares, como na sociedade feudal, o modo de operar desses grupos pode parecer comandar o do conjunto. O inverso é verdadeiro: na teocracia oriental, na Cidade-Estado, na sociedade do início do capitalismo, no comunismo, nota-se que o modo de operar das estruturas globais tem eficácia que parece predominar ostensivamente sobre o modo dos agrupamentos particulares. Enfim, nas lutas das classes, a competição e a combinação entre o modo de operar unificando os grupos, e o que rege as sociedades globais, podem tomar formas muito diversas (Ver Gurvitch, G.: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, Caracas, Monte Avila, 1969, 289pp (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1966). 

Seja como for, é essa dialética sociológica de competição e combinação, orientada ora para a independência, ora para a dependência a respeito do modo de operar da sociedade global, que, em sociologia diferencial, justifica o estudo separado dos modos de operar regendo os grupamentos. Da mesma maneira, é essa dialética que justifica a percepção do papel essencial que, pela objetivação, os grupos desempenham na unificação pela sociedade global.

Ou seja: existe um deslocamento, uma competição, uma ruptura, uma tensão entre o determinismo sociológico das classes sociais e o das sociedades em que elas se encontram integradas.  Observou Gurvitch que é um erro fatal transformar o determinismo das classes em um princípio universal, em módulo permitindo atingir a compreensão de todo o determinismo sociológico global.

Sem levar em consideração essa ruptura, não se chega ao essencial, não se percebe que se está ante “uma descontinuidade relativa limitada por uma continuidade relativa”, cujos graus só podem ser estudados em maneira empírica.

Daí o campo da dialética entre independência e dependência, sendo essencial o papel dos agrupamentos particulares porque impedem que a unificação pelo modo de operar da sociedade global – cuja integração dos fatos é a mais eficaz –, seja efetuada sem a intervenção da liberdade humana, sem a intervenção da liberdade de escolha, da liberdade de decisão, da liberdade de criação.

 

Os tipos de agrupamentos diante da sociedade global

Vale dizer, o papel dos agrupamentos particulares é não deixar escapar nem a descontinuidade, nem a continuidade entre os dois determinismos, entre o determinismo das classes sociais e o das sociedades globais.

Dessa maneira, a análise sociológica diferencial  empírica do grupal, isto é, a análise da escala do parcial  na realidade social leva a distinguir seis espécies de agrupamentos funcionais, seguinte:    (1)- os agrupamentos de parentesco : clã, família doméstica, família conjugal, lar, etc.;  (2)- os agrupamentos de afinidade fraternal , que são fundados sobre uma afinidade de situação, compreendida aí a situação econômica, mas que também podem ser fundados sobre uma afinidade de crença, de gosto ou de interesse: por exemplo: os agrupamentos de idade e de sexo , os diferentes públicos, os agrupamentos de pessoas tendo os mesmos rendimentos ou fortunas;  (3)- os agrupamentos de localidade : comunas ou comarcas, municipalidades, departamentos, distritos, regiões, Estados;  (4)- os agrupamentos de atividade econômica, compreendendo todos os agrupamentos  cujas principais funções consistem em participação na produção, nas trocas, na distribuição ou na organização do consumo;   (5)- os agrupamentos de atividade não-lucrativa, como os partidos políticos, as sociedades eruditas ou filantrópicas, clubes esportivos, etc.;   (6)- os agrupamentos místico-extáticos , como as igrejas, congregações, ordens religiosas, seitas, confrarias arcaicas, etc.

Acresce que a escala dos agrupamentos funcionais, cujas espécies acabamos de enumerar, é posta em relevo como sendo privilegiada e formando os pilares das sociedades.  Constituem não só o pilar das sociedades globais de todo o tipo, mas também o de toda a estrutura social do conjunto.  Todavia, é do fato de que os agrupamentos mudam de caráter em função dos tipos de sociedades globais em que se integram, como já o dissemos, que se pode falar de tipos de agrupamentos e de que estes tipos são mais concretos que os tipos microssociológicos, são mais concretos do que a Massa, a Comunidade, a Comunhão, as relações de aproximação, as relações de afastamento, as relações mistas.

Os tipos de agrupamentos são mais submetidos às condições históricas e geográficas; são mais dependentes dos tipos de estruturas globais em foco na estrutura social do conjunto, em que ora formam blocos maciços, ora se dispersam, sofrendo de maneira manifesta os efeitos do modo de operar da sociedade global.

 

A estruturação das classes sociais.

 

Reciprocamente, o modo de operar da sociedade global é, por seu lado, fortemente impregnado (a) – pelo modo de operar dos agrupamentos parciais, em especial daqueles que exercem papel destacado na hierarquia dos agrupamentos funcionais, sobre a qual, ademais, se apoia a estrutura do conjunto em questão, assim como, (b) – pelo modo de operar das classes sociais, as quais desde que aparecem nas sociedades industrializadas, subvertem a hierarquia básica da estrutura do conjunto e a combatem.

Sob este aspecto das relações entre a escala do parcial e a escala do global, incluindo a dialética entre a independência e a dependência em face do global, nota-se ainda que, do ponto de vista da sociologia diferencial, a hierarquia dos agrupamentos no interior de uma classe social só raramente se reduz à escala dos estratos de afinidade econômica, resultantes estes que são da disparidade de riqueza ou de salário, da disparidade de preparação profissional, de necessidades , de carências ou de satisfação destas.   Outros gêneros de hierarquias de grupos surgem com base em critérios como o prestígio, o poder, a boa reputação de certos agrupamentos no interior da classe, critérios estes que, em geral, são completamente independentes da estratificação econômica.

Por sua vez, no interior de uma classe social, a escala dos agrupamentos independentes dos estratos econômicos implica uma avaliação que só pode derivar da tábua de valores própria a esta classe (cf.Gurvitch, G: “Determinismos Sociais e Liberdade Humana”, op. cit. pp. 209 sq).   Desse modo, a classe social em seu esforço de unificação dos agrupamentos parciais, que ela empreende em competição com a unificação pelo tipo de sociedade global, se afirma como totalidade dinâmica específica que, todavia, apresenta caráter diferente para cada classe, para cada estrutura e, às vezes, para cada conjuntura global.

Quer dizer, a unificação dos modos de operar dos agrupamentos sociais particulares em um modo de operar de classe, toma formas diferentes, dado a variedade das classes sociais, seus tempos diferentes e suas obras diferentes.  O esforço de unificação dos modos de operar divergentes no interior de uma classe social , põe em relevo o papel destacado que a consciência de classe, a ideologia e as obras de civilização desempenham habitualmente na dinâmica das classes sociais, que não é só uma dinâmica de avaliação relativamente à hierarquia dos agrupamentos independentes da estratificação econômica, mas inclui a suprafuncionalidade da classe, pois a classe social interpreta a totalidade das funções sociais, como combinada esta última ao esforço concentrado que realiza para ascender ou para ingressar no poder.

A análise da totalidade dinâmica específica da classe social faz notar o fato de que as classes sociais servem normalmente de planos de referência ao conhecimento, à moral, ao direito, à arte, à linguagem, favorecendo a verificação do funcionamento dos modos de operar parciais dessas próprias classes sociais.

Enfim, como já foi notado, o modo de operar das classes sociais afirma, antes de tudo, a acentuação dos papéis sociais, de preferência no domínio econômico e político; em seguida, afirma a eficácia da consciência coletiva muito intensa e penetrante, conseguindo predominar sobre o espírito de corpo dos agrupamentos, chegando a guiar suas atitudes.  Vem depois a afirmação da eficácia dos símbolos, ideias e valores e, mais amplamente, das obras de civilização e ideologias que as justificam, elementos estes que colaboram para solidificar a estruturação das classes sociais.

As classes sociais diante da hierarquia da sociedade

É preciso ter em vista, quando se adentra a sociologia diferencial, que se trata de pôr em relevo os meandros da liberdade humana intervindo na realidade social, de tal sorte que a variabilidade é pesquisada exatamente porque constitui o critério da liberdade nos determinismos sociais (ver a este respeito, notadamente, “Determinismos Sociais e Liberdade Humana”, já citada).

Desse modo, não é de estranhar que se tome por irredutíveis as tensões verificadas entre os grupos subalternos no interior de uma classe, tanto mais percebida quanto, simultaneamente, a classe se revela um macrocosmo de agrupamentos e um microcosmo de manifestações da sociabilidade.

Da mesma maneira, são irredutíveis: (a) – as variações na tomada de consciência de classe; (b) – as variações no papel desempenhado pelas classes na produção, distribuição e consumo; (c) – as variações das obras de civilização que realizam ou da ideologia que representam.   Ou seja, não se pode deixar de perceber um elemento de liberdade humana, ao menos sob o aspecto coletivo da liberdade, penetrando na realidade social pela luta das classes sociais, pela tomada de consciência de classe, pelos conflitos entre classes e sociedades globais, pelas tensões entre forças produtivas e relações de produção.  Quanto aos diferentes agrupamentos em tensões e lutas no seio das classes sociais, notam-se as famílias, os grupos de idade, os agrupamentos de afinidade econômica ou estratos, as profissões, os públicos, os grupos de produtores e de consumidores, os agrupamentos locais, as associações amicais, fraternais, religiosas, políticas, educativas, esportivas e assim por diante, isto, sem falar na limitação recíproca entre Estado, igrejas diversas, sindicatos profissionais, partidos políticos, que favorece a liberdade individual.

Enfim, a percepção da multiplicidade dos agrupamentos no seio de uma classe varia em função da própria luta das classes: maior a luta, menor a percepção.

Por sua vez, o Estado e os partidos políticos são dois gêneros de agrupamentos particulares que, nos tipos das sociedades modernas, se apresentam geralmente como instrumentos das lutas das classes.

Nota-se ainda que a redução dos agrupamentos a estratos ou camadas caracterizadas pela disparidade de fortuna ou de salário é, como já dissemos, um erro, que ameaça a unidade da classe, como totalidade irredutível aos agrupamentos que nela se integram.

As classes sociais têm sempre tendência a alterar a hierarquia oficial da sociedade em que elas são incluídas; elas não concedem importância às tradições e às regras, a não ser quando são afastadas do poder ou lhes é difícil mantê-lo.

Além disso, a eficácia da consciência de classe, da ideologia e da organização concretiza-se de maneira diferente para cada classe, e varia em função das estruturas, e, às vezes, das conjunturas, notando-se que a consciência de classe , a ideologia e a organização são (a)- normalmente muito mais pronunciadas no proletariado do que nos camponeses, ou nas classes médias e, mesmo,  do que na burguesia;  (b)- tampouco são de intensidade igual segundo as nações, os tipos de capitalismo, os regimes políticos, as flutuações nos rumos da crise ou da prosperidade, e assim por diante.

 

 

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Apresentação do e-book: Entraves Ideológicos …

 

 

 

 

Apresentação do e-book:
Entraves ideológicos para a aproximação de sociologia e direitos humanos.
Notas sobre o hegelianismo em Max Weber e em Karl Marx

eBook-en-PDF-Entraves-ideologicos

 

Jacob (J.) Lumier

 

Janeiro 2017, 47 págs

@2017 by Jacob (J.) Lumier

Algunos derechos reservados

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Apresentação

 

Os estudos na área de ideologia e teoria sociológica frequentemente deixam de lado o problema do hegelianismo, tido como assunto erudito de crítica histórica, cujo interesse supõe-se restrito a uns poucos estudiosos do pensamento moderno.

Sem embargo, sabem que os fundadores da sociologia nos séculos dezenove e vinte defrontaram o problema recorrente da filosofia da história, em que o hegelianismo tem lugar. Esse problema revela-se suscitante a todos os que, por exigência de formação ou por programa de ensino, enfrentam o histórico da sociologia, como disciplina científica.

 

 Sumário

Notas sobre o hegelianismo em Max Weber e em Karl Marx  7

Influência do hegelianismo na sociologia 15

A teodiceia como tema crítico no estudo dos séculos XIX e XX  18

O Conceitualismo e a ideologia do método dialético em Hegel 20

O Paradoxo: 22

Hegel como coveiro da responsabilidade individual 22

O fracasso de Hegel como pensador do seu tempo 25

O desvio de Hegel e seu ponto de vista da eternidade 26

Da Filosofia cristã à Transposição de Valores: Hegel pensador do absolutismo 28

Finalidade negativa da teodiceia no sistema do hegelianismo 30

A Teodiceia em Max Weber 32

A “tensão da religião” como conhecimento teológico 33

A incongruência entre o destino e o mérito 34

Ideologia proletária e Teodiceia em Karl Marx. 38

A sociologia deve livrar-se desse mistério 40

Notas 42

 

 

Abstract

A influência do hegelianismo e da ideologia da dialética, como contrários aos direitos humanos e as convenções internacionais neste campo, deve-se ao peso histórico do mesmo como fonte da doutrina de soberania nacional exclusiva, em cujas fronteiras as sociologias se deixam aprisionar como sociologias nacionais, alheias ao esforço atual de internacionalização desta disciplina científica.

No presente artigo, distinguimos inicialmente a influência do hegelianismo na sociologia do conhecimento, que é constatada na concepção conservadora do saber, como instrumento de adaptação do espírito às situações existentes ao longo da história, que seduziu a Karl Mannheim. Mas, na transposição de valores que lhe corresponde, o hegelianismo exerce uma influência mais ampla, que alcança a teoria sociológica, na medida em que esta, por sua vez, assume uma filosofia da história, como acontece na obra de Max Weber e em Karl Marx. Nesse aspecto, o hegelianismo passa uma verdade chamada a se afirmar fora de qualquer quadro de referência, como ausência de limite de uma misteriosa vontade universal, cuja influência os mencionados sociólogos aceitam ao aproximar teodiceia e ideologia revolucionária.

 


 Influência do hegelianismo na sociologia

 

Um dos aspectos que pode explicar o estabelecimento de fronteiras nacionais para a sociologia, bem como a pouca sensibilidade dos cientistas políticos para com os direitos humanos, pode ser atribuído à ideologia da dialética [i], cuja representação misteriosa pode ser rastreada na nefasta influência do hegelianismo, tanto em Max Weber quanto em Karl Marx. Isto porque, nos antípodas de Platão e fixada na teodiceia, a razão em Hegel guarda um enfoque profundamente conservador: não é do tipo platônico. A razão de tipo platônico implica a responsabilidade individual, com desprezo do costume, do hábito e da tradição ou “justa opinião” (idoxa), e valoriza o conhecimento, a episteme, como a nova forma de racionalidade e consciência moral descoberta por Sócrates. Em Hegel, pelo contrário, a “noção de realização de uma razão consciente de si própria cumpre-se na vida de uma nação[ii].

 

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Quando se fala da influência do hegelianismo na sociologia do conhecimento[iii] lembra-se a obra “Ideologia e Utopia”, de Karl Mannheim[iv], autor que, embora não apresente uma análise da teodiceia, já tratada no âmbito da sociologia do conhecimento por Max Weber – como registrou Wright Mills [v] – , comporta um enfoque neo-espiritualista inteiramente baseado na concepção hegeliana conservadorista, tomando o saber como instrumento de adaptação do espírito às situações existentes ao longo da história [vi].

O próprio Karl Mannheim afirma nessa mesma obra que a suposta “relação dialética” em que ”a ordem existente dá surgimento a utopias que, por sua vez, rompem com os laços da própria ordem existente, deixando-a livre para evoluir em direção à ordem de existência seguinte, é uma formulação que “já foi bem enunciada pelo hegeliano Droysen”, cujas definições Mannheim reproduz e subscreve, destacando a sentença de que” toda a evolução no mundo histórico se processa da seguinte forma: o pensamento, que é a contrapartida ideal das coisas como estas existem na realidade, se desenvolve como as coisas deveriam ser”; na medida em que esses pensamentos “possam elevar as condições ao nível deles próprios, alargando-se depois e se enrijecendo de acordo com o costume, com o conservadorismo e a obstinação, uma nova crítica se faz necessária, e assim por diante [vii].

Porém Mannheim vai mais longe no seu neo-hegelianismo e, reforçando a concepção conservadorista do saber, consente que o critério razoavelmente adequado para a distinção entre o utópico e o ideológico é sua realização: ideias que posteriormente se mostraram como tendo sido apenas representações distorcidas de uma ordem social passada ou potencial eram ideológicas, enquanto as que foram adequadamente realizadas na ordem social posterior eram utopias relativas[viii].

Mannheim entende que “as realidades atualizadas do passado põem um termo ao conflito de meras opiniões...” sobre o que era utópico e o que era ideológico [ix]. Então, o problema crítico do espiritualismo ou da teodiceia, examinado por Ernst Cassirer em O Mito do Estado [x], sobre a transposição do hegelianismo ou conservadorismo hegeliano em ideologia da dialética [xi] (ou “ideologia revolucionária”, como prefere Cassirer) torna-se, com Mannheim, no problema do “princípio vital que vincula o desenvolvimento da utopia com o desenvolvimento de uma ordem existente [xii], de tal sorte que o conservadorismo hegeliano, em sua concepção do saber como instrumento de adaptação, resta consagrado como paradigma de análise sociológica, sem tornar-se preliminarmente objeto de crítica alguma na obra desse polêmico autor.

 

A teodiceia como tema crítico no estudo dos séculos XIX e XX

 

Além da influência do neo-hegelianismo na sociologia do conhecimento, que é constatada na concepção conservadora do saber, como instrumento de adaptação do espírito às situações existentes ao longo da história, que seduziu a Karl Mannheim, como vimos acima, há que ter em conta que, na transposição de valores que lhe corresponde, o hegelianismo exerce uma influência mais ampla, que alcança a teoria sociológica, na medida em que esta assume uma filosofia da história, como em Max Weber e em Karl Marx. Nesse aspecto, o hegelianismo passa uma verdade chamada a se afirmar fora de qualquer quadro de referência, como ausência de limite da impossível vontade universal, assim tornada misteriosa, cuja expressão os mencionados sociólogos representam como ligação entre teodiceia e ideologia revolucionária.

Com efeito, a teodiceia é um tema crítico no estudo do século XX desde os pontos de vista filosófico e sociológico. A teodiceia de Hegel liga-se a sua visão da história do mundo – e não à sua visão da história da humanidade – e comporta uma recusa da oposição entre o conteúdo que os pensadores cristãos chamavam reino da natureza e o reino da graça ou dos fins. Pascal, por exemplo, acentuava que o Deus dos cristãos será sempre um obstáculo inamovível para todos os filósofos: é um Deus oculto envolvido em mistério. Hegel, em sua recusa, teria empreendido revelar esse mistério [xiii].

Em O Mito do Estado [xiv], lemos, com Ernst Cassirer, o seguinte: o que Hegel apresenta na sua filosofia da história é um paradoxo: é um racionalismo cristão e um otimismo cristão.  É a pretensão de que a religião cristã deve ser interpretada no seu sentido positivo e não no seu sentido negativo. No dizer do próprio Hegel: “Deus revelou-se, isto é, permitiu-nos compreender aquilo que ele é; daí não ser mais uma existência oculta ou secreta”. Para Hegel, na história, os dois fatores “tempo” e “eternidade” não se encontram separados um do outro, mas interpenetram-se.  A eternidade não transcende o tempo; pelo contrário: é no tempo que ela se encontra. O tema da filosofia é “alcançar o reconhecimento da substância que está imanente no que é temporal e transitório, e do eterno que está presente”.

 

 O Conceitualismo e a ideologia do método dialético em Hegel

 

Em seu comentário, Cassirer sublinha que, ao contrário de Platão, Hegel não procura a “ideia” em qualquer espaço supercelestial, mas encontra-a na atualidade da vida social do homem e das lutas políticas.  A verdadeira vida da Ideia, do Divino, começa na história. Cassirer nos esclarece que os pensadores filosóficos ou teológicos falaram da história como de uma revelação divina, mas, no sistema hegeliano, a história não é mera aparência de Deus, mas a sua realidade: Deus não só tem história, ele é história.

Desta sorte, a concepção hegeliana do Estado desprende-se da sua concepção de história como teodiceia e, por esta via, enseja o problema crítico da evolução do sistema filosófico de Hegel, quer dizer: o problema da sua transposição, como expressão do conservadorismo, para tornar-se ideologia de uma pretensa dialética, que salta as etapas do processus histórico.

O posicionamento de Cassirer é de que a forma do sistema hegeliano, que canoniza o existente como tal, era fartamente superior ao seu conteúdo imediato, de tal sorte que “muito depois da morte de Hegel e depois da queda da sua metafísica, o sistema continuava a funcionar”.

Isso deve ser atribuído ao caráter geral ou de conceito geral (conceitualismo) do método dialético em Hegel, que releva de uma concepção do pensamento como dupla face, que olha para frente e para trás: no processus dialético hegeliano houvera um ato de conservação que é necessariamente um ato de revolução.  Seja o que for que se torne um ser pelo processus dialético é preservado como um elemento integral, mas a sua realidade isolada anula-se: toda a existência finita tem de perecer a fim de dar lugar a formas novas e mais perfeitas [xv].

O Paradoxo: Hegel como coveiro da responsabilidade individual

 

Nos antípodas de Platão e nutrida de teodiceia, a razão em Hegel guarda um enfoque profundamente conservador: não é do tipo platônico. A razão de tipo platônico implica a responsabilidade individual, com desprezo do costume, do hábito e da tradição ou “justa opinião” (“idoxa”), e valoriza o conhecimento, a episteme, como a nova forma de racionalidade e consciência moral descoberta por Sócrates. Em Hegel, pelo contrário, a “noção de realização de uma razão consciente de si própria cumpre-se na vida de uma nação”.

 

Cassirer resume que, nos antípodas de Platão, a razão em Hegel guarda um enfoque profundamente conservador e não é do tipo platônico. A razão de tipo platônico implica a responsabilidade individual, com desprezo do costume, do hábito e da tradição ou “justa opinião” (“idoxa”), e valoriza o conhecimento, a episteme, como nova forma de racionalidade e consciência moral descoberta por Sócrates [xvi].

Em Hegel, pelo contrário, a “noção de realização de uma razão consciente de si própria cumpre-se na vida de uma nação.  A razão aparece aqui como a fluente substância universal, a qual se partilha ao mesmo tempo em muitos seres inteiramente independentes.  Eles estão conscientes dentro de si próprios de serem eles mesmos estes seres independentes e individuais, através do fato de cederem e sacrificarem a sua individualidade particular; e sabem que essa substância universal é sua alma e essência. Tal o aspecto mítico.

Acentuando o paradoxo de Hegel, nos diz Cassirer que o filósofo tem clareza sobre seu modo de tratar o problema da sabedoria divina como teodiceia, como justificação dos procedimentos de Deus, e que isso é formulado pelo próprio Hegel ao sustentar que a Providência se manifesta também na história universal e não apenas “em animais, plantas e ocorrências isoladas”, de tal sorte que “o mal que se encontra no mundo pode ser compreendido, e o Espírito pensante reconciliado com o fato da existência do mal”.

E Hegel, ele mesmo, prossegue: “na verdade, em parte alguma existe uma visão tão harmoniosa quanto na história universal, e só pode ser alcançada pelo reconhecimento da existência positiva, na qual esse elemento negativo é uma nulidade subordinada e vencida” [xvii].

Resulta então inegável que Hegel “canoniza o existente como tal”, e tenta justificar a dura e cruel “realidade desprezada”. O mal não aparece como um fato acidental ou como horrível necessidade: o mal em Hegel não é apenas “razoável”: é a própria encarnação e atualização da razão. Não no sentido da razão como imperativo moral, mas a razão que vive no mundo histórico e que o organiza. No dizer de Hegel, “o mundo real é como devia ser a razão divina universal”: “o verdadeiro bem não é mera abstração, mas um princípio vital capaz de se realizar a si próprio”. “A filosofia deseja descobrir o sentido substancial, o lado real da ideia divina, e justificar a realidade das coisas, tão desprezada”.

 

Para a continuação, veja a obra em pdf anexo: eBook-en-PDF-Entraves-ideologicos

 

 

Notas

[i] Ernst Cassirer fala de “ideologia revolucionária”, mas a define como representação de um procedimento que salta as etapas do processo histórico. Neste sentido, o termo “ideologia da dialética”, aqui adotado, é bem colocado e permite evitar equívocos com a propaganda de ideologias revolucionárias. Por outro lado, cabe notar que o termo ideologia da dialética não tem referência alguma aos autores reacionários como Karl Popper, que despreza a dialética como realidade reconhecida em sociologia. A ideologia da dialética ora em questão refere-se exclusivamente à representação de um procedimento que salta as etapas do processo histórico, como proposta equivocada para a sociologia do conhecimento.

[ii] A influência do hegelianismo e da ideologia da dialética, como contrários aos direitos humanos e as convenções internacionais neste campo, deve-se ao peso histórico do mesmo como fonte da doutrina de soberania nacional exclusiva, em cujas fronteiras as sociologias se deixam aprisionar como sociologias nacionais, alheias ao esforço atual de internacionalização desta disciplina científica. Sobre essa mirada pró internacionalização, veja: Lumier, Jacob (J.): “Las Bases Sociológicas de la Positivación de los Derechos Humanos”, link: http://www.bubok.es/libros/241945/Las-bases-sociologicas-de-la-positivacion-de-los-derechos-humanos

[iii] Esse problema do neo-hegelianismo na sociologia do conhecimento proposta por Karl Mannheim foi examinado em Lumier, Jacob (J.): A Utopia do Saber Desencarnado, Madrid, Bubok, Setembro 2013 link: http://www.bubok.es/libros/228014/A-Utopia-do-Saber-Desencarnado

[iv] Mannheim, Karl: « Ideologia e Utopia: uma introdução à sociologia do conhecimento », tradução Sérgio Santeiro, revisão César Guimarães, Rio de Janeiro, Zahar editor, 2ªedição, 1972, 330pp. (1ªedição em Alemão, Bonn, F.Cohen, 1929; 2ªedição remodelada em Inglês, 1936).

[v] Wrigth Mills, C. E Gerth, Hans – Organizadores:  « Max Weber: Ensaios de Sociologia », tradução Waltensir Dutra, revisão Fernando Henrique Cardoso, 2ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1971, 530 pp. (1ªedição em Inglês: Oxford University Press, 1946). Ver pp.318 sq, pp.409 sq

[vi] A influência do hegelianismo na sociologia do conhecimento é constatada na concepção conservadora do saber, como instrumento de adaptação do espírito às situações existentes ao longo da história. Mas, na transposição e valores que lhe corresponde, o hegelianismo exerce uma influência mais ampla, que alcança a teoria sociológica, na medida em que esta assume uma filosofia da história, como em Max Weber e em Karl Marx. Nesse aspecto, o hegelianismo passa uma verdade chamada a se afirmar fora de qualquer quadro de referência, como ausência de limite da vontade universal misteriosa, cuja expressão os mencionados sociólogos representam como ligação entre teodiceia e ideologia revolucionária.

[vii] Mannheim, Karl: op. cit., p. 223.

[viii] Ibid, ibidem.

[ix] Ibid p. 228

[x] Cassirer, Ernst: “O Mito do Estado”, trad. Álvaro Cabral, Rio de Janeiro, Zahar editor, 1976, 316 pp. (1ª edição em Inglês, Londres, 1946).

[xi] Sobre a dialética efetiva em sociologia, ver Gurvitch, Georges: ”Dialectique et Sociologie”, Flammarion, Paris 1962, 312 pp., Col. Science.

[xii] Cf. Mannheim, K: op.cit. p.222

[xiii] Cf. Cassirer, E: op. cit.

[xiv] Cf. Cassirer, E: op. cit., pp. 267/ 294 passim.

[xv] Essa fórmula conceitualista ou discursiva acolhida, inclusive, por Karl Mannheim, de que “toda a existência finita tem de perecer a fim de dar lugar a formas novas e mais perfeitas”, demonstra cabalmente a “ideologia da dialética”, ora posta em questão com a influência do hegelianismo na sociologia, entrave ao avanço dos direitos humanos e das convenções internacionais na ciência política. Note que a limitação dos cientistas políticos em relação à compreensão sociológica dos direitos humanos está observada em Lumier, Jacob (J.): “O antiabsenteísmo como ideologia radical e desvio persecutório na democracia eleitoral: Ensaio sobre os aspectos do radicalismo republicano No regime de voto obrigatório em Brasil”, Rio de Janeiro (RJ), SSF/RIO, agosto 2015, 15 págs. (A4), link: < https://leiturasociologica.files.wordpress.com/2015/08/o-radicalismo-corrigido-copia-3.pdf > Cf. pág.4.

[xvi] Sobre a descoberta da episteme como nova forma de racionalidade e consciência moral, veja Mondolfo, Rodolfo: ‘Sócrates’, tradução Lycurgo Motta, São Paulo, editora Mestre Jou, 2ª edição, 1967, 107 pp. (1ª edição em castelhano, 1959), cf. págs.  57 a 61

[xvii] cf. Hegel, G.W.F.: “Lectures on the Philosophy ou History”, p.16, apud Cassirer, E.: “O Mito do Estado”, op.cit, p.274; tradução em Francês: “La Raison dans la Histoire”, Paris, Ed.10/18, cf. 1965, p.67sq