O Enfoque sociológico de Wilhelm Dilthey

Cultura e Objetividade – Segunda Parte: Wilhelm Dilthey.

via Cultura e Objetividade – Segunda Parte: Wilhelm Dilthey.

 

O Enfoque sociológico de Wilhelm Dilthey

por

Jacob (J.) Lumier

Websitio Leituras do Século XX

http://www.leiturasjlumierautor.pro.br

Rio de Janeiro, Novembro 2014

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Leia os artigos conexos seguintes:

Comunicação Social e Consciência Coletiva: notas sobre o problema da cultura

Cultura e Objetividade: Preliminares

Cultura e Objetividade – Primeira Parte: Max Weber

Culturalismo e Sociologia

 

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  Resumo

O posicionamento culturalista de Max Weber não encontra respaldo em Wilhelm Dilthey, o fundador das Ciências da Cultura, em cuja obra não ocorre atomização da realidade social em coleções de condutas individuais, nem tampouco a dissolução das obras de civilização em nominalismo ou doutrina de especialistas.

Longe do pensamento diltheyano a concepção própria do culturalismo abstrato de que as condutas individuais tornam-se sociais unicamente na medida em que sejam orientadas para as condutas de outras pessoas, com a ajuda das significações internas ou subjetivas.

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  Apresentação

A importância das análises filosóficas de Dilthey para a sociologia foi reconhecida expressamente por Georges Gurvitch ao remarcar que a fundamentação dos tipos sociológicos se beneficiou do conhecimento de que as totalidades humanas são apreendidas por intuição, e não apenas dependentes da interpretação abstrata do sentido interno das condutas, como pretendeu Max Weber.

Nos termos de Gurvitch, “a apreensão das totalidades de que Dilthey já tinha falado antes de Mauss” é suficiente (para chegar aos tipos sociológicos), já que implica a apreensão de significações enxertando-se por vezes nessas totalidades e fazendo parte delas, como os juízos cognitivos, a experiência moral e a experiência jurídica. E Gurvitch não diminui a importância desta análise de Dilthey estabelecendo a noção de compreensão. Faz sobressair o alcance dessas significações apreendidas e como tais oferecendo-se à interpretação dos tipos sociológicos, especialmente no âmbito dos problemas das civilizações estudados nos respectivos ramos da sociologia (sociologia do conhecimento, do direito, da arte, da religião, da moral, da educação).

Do ponto de vista do realismo sociológico, a iniciativa de Gurvitch visando constituir e estabelecer o conceito sociológico de Fenômenos Psíquicos Totais em complementação dialética ao conceito de Fenômenos Sociais Totais, descoberto este último conceito por Marcel Mauss e Emile Durkheim, tem dois motivos provenientes da análise filosófica, seguintes: (a) – atender à recomendação formulada por Dilthey para que se pusesse em obra uma psicologia verdadeiramente descritiva no âmbito da análise dos fatos culturais, cujo caráter intuitivo esse pensador fez sobressair; (b) – levar em conta, ou melhor, buscar um desdobramento analítico e operativo à constatação assinalada igualmente por Dilthey de que, no seu dizer, “às relações permanentes dos atos psíquicos de um ser humano com os de outro estão conjugados sentimentos permanentes de co-pertinência” (e não somente uma fria representação dessas relações, como nas teorias de interação) [i].

Mas não é tudo. A afirmação da alta relevância metodológica da apreensão das totalidades liga-se à noção de “homem total”, notada primeiro em Marx e mutatis mutandis em Mauss [ii], como a primeira pista da necessidade de um conceito como o de fenômenos psíquicos totais em sociologia, pensado em estreita ligação com os fenômenos sociais totais.

Tanto é assim que a utilização dessa noção de homem total em Gurvitch na esteira de Marx atende a um duplo protesto metodológico marcante no século XX, seguinte:

Primeiro – a recusa da construção abstrata e arbitrária do homem econômico ou do homem político, ou do sujeito individual do direito, ou ainda do homem que joga, que conhece, ou do homem agente moral, afirmando-se, então, contra essas construções abstratas e arbitrárias a presença efetiva do homem que existe na realidade como sendo tudo isso e mais ainda;

Segundo: a recusa da identificação do homem à sua vida mental esquecendo que o homem é igualmente um corpo, um organismo fisiológico e um participante nas sociedades, nas classes sociais, nos agrupamentos sociais particulares, em os Nós-outros, enfim, nos próprios fenômenos sociais totais.

Desta sorte, as fronteiras entre o fisiológico, o psicológico e o social desde o ponto de vista dos novos conhecimentos metodológicos no século XX tornaram-se essencialmente instáveis, acentuando a imensa dificuldade para se definir o que se entende por psíquico e acrescentando um tópico de alta relevância para a argumentação em favor do conceito de fenômenos psíquicos totais [iii].

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Sumário

 

Resumo. 4

Apresentação. 5

Compreensão e Interpretação. 9

A orientação pró-realista. 10

Uma metodologia propedêutica. 11

Os tipos de dependências ou correlações. 13

O incremento histórico. 14

O sentimento de sociabilidade. 16

Análise dos sistemas culturais. 17

A formação do direito. 18

A psicologia descritiva. 20

O sistema moral 21

Notas de Fim.. 23

 

 

 Compreensão e Interpretação

 

Somente uma inovadora fundamentação epistemológica e lógica diferente, que tenha princípio na relação especial do conhecimento e da realidade histórico-social, pode suprir as lacunas que existem, todavia, entre as ciências particulares das unidades psicofísicas e as ciências da economia política, do direito, da religião e outras.

Note-se que o posicionamento culturalista de Max Weber não encontra respaldo em Wilhelm Dilthey, o fundador das Ciências da Cultura, em cuja obra não ocorre atomização da realidade social em coleções de condutas individuais, nem tampouco a dissolução das obras de civilização em nominalismo ou doutrina de especialistas.

Longe do pensamento diltheyano a concepção própria do culturalismo abstrato de que as condutas individuais tornam-se sociais unicamente na medida em que sejam orientadas para as condutas de outras pessoas, com a ajuda das significações internas ou subjetivas.

 

A apreensão das totalidades dispensa a interpretação do sentido interno das condutas para chegar à construção dos tipos sociológicos.

Segundo Gurvitch, não há dúvida de que o problema da compreensão foi formulado por Dilthey, quem empregou esse termo para dizer apreensão direta, intuitiva, relativamente às totalidades reais concretas e às significações humanas correspondentes.

Quer dizer, a apreensão das totalidades dispensa a interpretação do sentido interno das condutas para chegar à construção dos tipos sociológicos, incluindo a apreensão de significações enxertando-se por vezes nessas totalidades e fazendo parte delas.

A interpretação dessas significações apreendidas é particularmente importante para a construção dos tipos de sociedades globais, sendo nesses tipos que os problemas das civilizações ou das obras de civilização estão por sua vez implicados.

Aliás, é com base na interpretação dessas significações apreendidas que se elaboram os ramos da sociologia das obras de civilização ([iv]) que Gurvitch enumera como segue: 1) – sociologia dos sinais, dos símbolos, das idéias e valores (incluindo as suas diferenciações, as suas combinações, as suas hierarquias variáveis em função de tipos sociais diversificados); 2) – sociologia do conhecimento; 3) – sociologia da religião; 4) – sociologia da moral; 5) – sociologia do direito; 6) – sociologia da arte; 7) – sociologia da linguagem; 8) – sociologia da educação.

Portanto, essa orientação afirma a importância não da filosofia da história, mas da esfera simbólica e, nesse domínio a relevância da análise filosófica como indispensável para permitir reencontrar na realidade social os fenômenos específicos do conhecimento, da moral, da religião, do direito, etc., bem como para estabelecer os esquemas classificatórios que servem de referência à investigação sociológica.

A  orientação pró-realista

Em sua orientação pró-realista, Dilthey se distancia tanto da “corrente histórica” quanto da “corrente abstrata” – as duas correntes de conhecimentos universitários mais influentes na vida acadêmica das universidades alemães, no período do liberalismo, entre 1870 e 1914.

Essa orientação pró-realista é bem expressa na Introdução às Ciências do Espírito [v], na qual, em bom contemporâneo de sua época, Dilthey se distancia das duas correntes de pensamento então predominantes nos salões intelectuais e na vida acadêmica das universidades alemães no período do liberalismo, entre 1870 e 1914.

Conforme sua procedência no romantismo, na chamada “escola histórica” notava-se o erro de fugir do mundo da abstração para refugiar-se no “sentimento profundo” da chamada “realidade viva”, tida esta como poderosamente irracional, ultrapassando todo o conhecimento adquirido segundo o princípio de razão suficiente.

Em maneira complementar, este filósofo e historiador da filosofia se distancia igualmente da chamada “escola abstrata”, cujo erro registra como consistindo em descuidar a relação dos abstratos conteúdos parciais com o todo vivo e em tratar de maneira finalística essas abstrações como realidades.

Uma metodologia propedêutica

A realidade da vida histórico-social está escondida sob a bruma de certas entidades abstratas tais como a arte, a ciência, o Estado, a sociedade, a religião.

Trata-se nessas correntes equivocadas de duplo erro que tem a ver com a dificuldade própria para alcançar a realidade da vida histórico-social, a qual, segundo Dilthey está escondida sob a bruma de certas entidades abstratas tais como a arte, a ciência, o Estado, a sociedade, a religião.

Em face de tais entidades abstratas ocultando a vida histórico-social, elabora-se uma metodologia com caráter propedêutico, “para ensinar a ver”, incluindo inicialmente um esquema sobre a dinâmica da realidade social que, por sua vez, revela-se capaz de introduzir no estudo diferenciado do plano das unidades delimitadas e do plano dos objetos de análise social, tomados como os dois planos básicos da realidade.

Essa introdução toma em conta por sua vez a existência de dois processus sociais seguintes: 1) – o processus de articulação social, no âmbito do qual se conjugam (a) – não só a combinação do que Dilthey chama por um lado os efeitos pequenos e por outro lado os grandes efeitos, (b) – mas, igualmente, a combinação das relações permanentes entre os indivíduos, por um lado, e das formações permanentes existentes de antemão, por outro lado; 2) – o processus de homogeneidade e comunidade que, surgindo da articulação social alcança os grupos menores e os grupos maiores.

O campo dos estudos começa, pois, em referência dessa homogeneidade, e objetiva, primeiro, o plano dos diversos povos ou unidades delimitadas; segundo, o plano das formações permanentes ou objetos de análise social, o qual, este último, será privilegiado e definido em maneira dinâmica como “um fim permanente que promove atos psíquicos (intuições, juízos)”, isto é, compreende uma intervenção, com seus grandes efeitos no âmbito da reciprocidade dos indivíduos interacionados ou interpenetrados, cujos pequenos efeitos asseguram essa interpenetração [vi] .

O desenvolvimento da ciência da estética, tão ao gosto do sentimentalismo da corrente histórica, não é possível sem referência às ciências da moral ou às da religião, afirmando a conexão viva que liga a origem da arte e o fato ideal.

Nesse esquema complexo, o estudo do primeiro plano (o dos diversos povos ou unidades delimitadas) leva a distinguir o que Dilthey chama os sistemas culturais na sociedade, enquanto no segundo plano (o das formações permanentes ou objetos de análise social) se descobre a organização externa.

A essa organização externa correspondem respectivamente os três âmbitos seguintes: (a) – os Estados, (b) – as associações, (c) – a trama das vinculações permanentes das vontades segundo relações de prestígio, dependência, propriedade, comunidade – sendo que a amplitude dessas últimas relações tipo estratificação aparece a Dilthey como sendo mais estreita que a amplitude da sociedade e como estando em oposição ao âmbito dos Estados.

Temos, então, em correspondência aos dois planos, as Ciências da Cultura e as Ciências do Estado, havendo uma relação constante das verdades entre essas duas “classes de ciência”, bem como dentro de cada uma.

►Para Dilthey o desenvolvimento da ciência da estética tão ao gosto do sentimentalismo da corrente histórica, não é possível sem referência às ciências da moral ou às da religião, afirmando a conexão viva que liga a origem da arte e o fato ideal.

 

 Os tipos de dependências ou correlações

Com efeito, na análise diltheyana, a ciência se utiliza do princípio de razão suficiente, pelo qual, primeiro, pretendem determinar certas correlações funcionais – como se diria em sociologia do conhecimento – ou no dizer de Dilthey “as dependências” entre os diversos elementos psíquicos ou psicofísicos formadores da conexão de fim, tomada esta última em sua efetividade como fusionando os indivíduos interacionados; segundo: busca-se determinar a maneira como se condicionam uns aos outros esses elementos e suas propriedades.

Acresce que esses elementos são conscientes e em certo grau podem ser expressos em palavras, ou seja, mediante proposições e conceitos. Alcança-se então o nível propriamente epistemológico, em que Dilthey argumenta sua distinção a respeito da “escola abstrata” mostrando que a possibilidade de se pronunciar verdades, enunciados de conteúdo efetivo ou pronunciar regras: 1) – depende do modo pelo qual os elementos psíquicos se acham entrelaçados naquela conexão de fim; 2) – depende da pertinência predominante desses elementos psíquicos, seja ao pensamento, ao sentimento, à vontade.

Segundo Dilthey, no conjunto das proposições e conceitos científicos nota-se não só a diversidade da natureza das proposições, mas a essa diversidade corresponde a do enlace dessas proposições em referência das dependências que a ciência encontra nelas.

Quer dizer, a epistemologia é fundada no princípio de razão suficiente e esses enlaces das proposições e das dependências verificadas não podem ser tomados como unicamente lógicos.

Caso contrário se incorreria no erro da escola abstrata que, ao impor o nível lógico como único, leva a reduzir todas as atividades orientadas para um fim à razão e ao pensamento.

Desta forma, Dilthey define que a expressão sistema lhe serve para designar a conexão de fim, tal como entendida neste modelo de dependências dinâmicas.

A epistemologia é fundada no princípio de razão suficiente e os enlaces das proposições e das dependências verificadas não podem ser tomados como unicamente lógicos.

A exposição diltheyana da metodologia de análise dos sistemas culturais é orientada para pôr em relevo o problema das lacunas existentes entre as ciências particulares das unidades psicofísicas – baseadas na análise psicológica – e as ciências da economia política, do direito, da religião e outras, como ciências da cultura.

Inicialmente, se distinguem dois tipos de dependências ou correlações. Um é o tipo que releva da teoria geral de um sistema e se dá por referência às relações fundamentais que são próprias a esse sistema em modo uniforme em todos os seus pontos: é chamado tipo generalíssimo.

Assim, no caso de um sistema como o da religião, o tipo generalíssimo inclui o seguinte: 1)- as dependências entre os fatos do sentimento religioso e os da dogmática e os da concepção filosófica do mundo; 2) – as dependências entre os fatos desse sentimento religioso e os do culto e os da sociedade religiosa.

Mas não é tudo. Na exposição diltheyana o mesmo tipo generalíssimo de dependência pode ser observado, por exemplo, no âmbito da economia política pela relação de que, ao influir na valorização dos produtos da terra, o distanciamento dos locais de mercado condiciona a intensidade da agricultura.

Finalmente, quanto ao outro tipo de dependências, trata-se de um âmbito mais restrito e inclui as dependências que se dão entre as modificações das propriedades gerais de um sistema que constituem uma figura particular do mesmo.

O incremento histórico

A efetividade do incremento histórico é assimilada em graus nas várias formas de certeza científica.

Nada obstante, Dilthey chama a atenção para o fato de que os sistemas culturais assentam em conteúdos psicofísicos e de que os conceitos correspondentes a esses conteúdos são de segunda ordem, em comparação com os da psicologia individual.

Há uma distinção por efeito do incremento histórico entre o conteúdo fundamental estudado pela psicologia e constitutivo da base da análise do sistema, por um lado, e por outro lado os fatos complexos.

As várias formas de certeza científica absorvem esta distinção ou efetividade do incremento histórico em graus. Primeiro: ao nível da percepção, a efetividade do incremento histórico é assimilada como convicção da realidade; segundo: ao nível do pensar, como evidência; terceiro: ao nível do conhecer segundo o princípio de razão suficiente, como consciência da necessidade.

Por sua vez, são os conceitos psicofísicos que constituem a base da análise, isto é, em economia política, por exemplo, os conceitos tais como “escassez, economia, trabalho, valor, etc.”. Desta sorte, os fatos dos sistemas da cultura só podem ser estudados unicamente por meio de fatos acessíveis à análise psicológica.

Em outras palavras, na metodologia diltheyana, há uma dependência dos conceitos das ciências da cultura em relação à análise psicológica, que Dilthey aprecia como uma dependência embrulhada ao extremo.

No seu entender, somente uma inovadora fundamentação epistemológica e lógica diferente, que tenha princípio na relação especial do conhecimento e da realidade histórico-social ([vii]), pode suprir as lacunas que existem, todavia, entre as ciências particulares das unidades psicofísicas e as ciências da economia política, do direito, da religião e outras.

Com efeito, tal relação especial do conhecimento e da realidade histórico-social será tornada mais transparente com a tomada em consideração do que Dilthey chama as ciências do Estado, bem como mediante a colocação em relevo da complementaridade destas ciências do Estado e das ciências da cultura.

Para esse pensador, não se pode olvidar a relação que mantêm os conteúdos parciais artificialmente destacados pelas ciências com o organismo da realidade em que pulsa a vida mesma.

E acrescenta: a mais desse “não-olvidar”, é exigido assumir essa relação com a realidade viva para que o conhecimento possa estabelecer a forma exata dos conceitos e proposições, bem como atribuir-lhes seu valor cognoscitivo adequado.

Na falta da consciência metodológica de tal relação e na falta de sua colocação em obra não se poderiam desenvolver as verdades da ciência da estética que, como vimos, são para Dilthey referidas às da moral e às da religião.

O sentimento de sociabilidade

►Portanto, em vista de pôr em relevo a complementaridade entre as duas classes de ciência, Dilthey examina as ciências do Estado, começando sua exposição por rejeitar a hipótese de que a interação transcorra somente no âmbito da ligação dos atos psíquicos em um sistema cultural.

Se assim fosse – argumenta nosso autor – ainda que cada um dos seres em interação acomodasse sua atividade à do que se encontra junto dele seriam cada um para si e somente a inteligência estabeleceria a conexão entre eles, e cada um contaria com os outros, porém não se daria nenhum sentimento vivo de sociabilidade entre eles (Dilthey emprega comunidade por sociabilidade). Como átomos conscientes, tais seres daquela hipótese defeituosa realizariam tão pontual e perfeitamente as tarefas de suas conexões finais que entre eles seria dispensável qualquer associação ou qualquer constrição (Dilthey emprega coação por constrição).

Quer dizer, essa argumentação se afirma como decorrente da tomada em consideração da condição humana. Segundo Dilthey, o que converte o homem em membro da organização exterior sem deixar de ser igualmente um elemento integrante da trama de um sistema cultural é o poder desatado de suas paixões ou sua necessidade íntima, isto é, seu sentimento de sociabilidade.

Desta forma, diante da estrutura que mostra uma conexão de elementos psíquicos no todo final de um sistema, há que distinguir essa outra estrutura que surge na associação de unidades de vontade.

A essa última estrutura correspondem então as seguintes análises: (a) – a análise das propriedades da organização externa da sociedade, (b) – a análise das comunidades propriamente ditas, (c) – a análise das associações, (d) – a análise das urdiduras que surgem nas relações de dominação e na vinculação exterior das vontades.

O fundamento dessas ciências do Estado, tomado este como forma de relações permanentes dentro da interação, radica primeiro na virtude do homem que é um ser social.

Quer dizer, se o homem se acha dentro da conexão natural, então os sentimentos permanentes de co-pertinência estão conjugados às semelhanças decorrentes de tal conexão, bem como estão igualmente conjugados às relações permanentes dos atos psíquicos de um ser humano com os de outro, constituindo, portanto, um nível além da fria representação dessas relações.

Segundo: a mais desses sentimentos de co-pertinência há outras forças que, atuando conjuntamente, impulsionam as vontades para a associação, a saber: os interesses e a coação. Tal a complementaridade das ciências do Estado para com as ciências da cultura.

 Análise dos sistemas culturais

Ao parecer de teoria sociológica, e porquanto favoreçam (a) – a investigação da forma do processus cognitivo orientado para a realidade social e (b) – a investigação correlata da conexão de suas verdades como vinculadas à vontade de adentrar-se no conhecimento, será em atenção à interpolação desses sentimentos de co-pertinência que Dilthey nos apresentará sua análise dos sistemas culturais.

Esse mestre-pensador não só incorpora o incremento histórico em suas análises, mas põe em relevo que os sistemas culturais assimilam uma vontade de eficácia, designada como vontade total, à qual são relacionadas as atividades da organização exterior porquanto combinadas às ações recíprocas dos indivíduos, sendo dessa vontade de eficácia assim entendida como vontade total que dependerá a forma particular dos sistemas culturais.

Na premissa dessa análise se afirma a constatação no indivíduo de um ponto de entrecruzamento da pluralidade desses sistemas culturais, que Dilthey observará mediante o cotejo do ato e da obra tomando o caso das obras intelectuais, já que uma obra intelectual pode expressar ao mesmo tempo um fato de ciência, um fato econômico de mercado, o cumprimento de um contrato (acentuando o fato jurídico), a manifestação do profissional.

Aliás, o cotejo do ato e da obra está na base da objetividade dos sistemas culturais sendo deste ponto de vista que, mais uma vez, Dilthey se distancia da “ciência abstrata”, haja vista separar esta última em seus procedimentos metodológicos os diversos sistemas culturais que, ao contrário disso, aparecem entrelaçados na realidade histórico-social.

Os critérios da objetividade dos sistemas culturais são os seguintes: (a) – aparecem ao indivíduo em fatos que lhe são anteriores, que haverão de sobreviver-lhe e cujas disposições atuam sobre ele; (b) – aparecem à imaginação científica como repousando sobre si mesmos; (c) – aparecem ao homem atual ou moderno não só como parte da ciência natural mais ampla, porém como um fato com independência das pessoas que praticam esta ciência.

Para Dilthey, cada sistema de cultura por sua vez é definido nos seguintes aspectos: (a) – como um modo de atividade constitutivo da pessoa que se desenvolve em múltiplos aspectos a partir da mesma; (b) – satisfaz a um fim no todo da sociedade; (c) – está equipado com os meios duradouros estabelecidos no mundo exterior e finalmente, (d) – em uma etapa cultural superior, alcança uma diferenciação internamente rica em significações por efeito do incremento histórico.

 A formação do direito

Assim, atento a esta última característica onde já predomina o complexo dos sistemas culturais, Dilthey sustenta que a análise deve começar em nível mais simples, isto é, pelo sistema em que os elementos da cultura e da organização exterior ainda se encontram juntos, a saber: pelo fato do direito.

Na análise do processus do incremento histórico, o fato do direito não pode ser identificado nem a uma função da vontade de eficácia ou total, nem tampouco à função de um sistema de cultura e constitui o nível mais simples onde os elementos da cultura e da organização exterior ainda se encontram juntos.

Notando que o individualismo crescente provoca o desenvolvimento do direito, Dilthey em sua análise destaca as seguintes correlações: (A) – que o prestígio dos indivíduos se mede na referência da função que desempenham na sociedade; (B) – que a mesma vontade de eficácia ou total efetua por um lado a medida dos direitos individuais na referência da função que os indivíduos desempenham e por outro lado domina na organização externa da sociedade, figurando igualmente a sede da formação do direito; (C) – que, nessa formação do direito, a vontade de eficácia ou total, como portadora dos imperativos estabelecidos, e a consciência jurídica dos indivíduos atuam em consonância, sendo essa consciência jurídica não um fato teórico, mas uma realidade da vontade.

Vale dizer: a razão pela qual o direito, que concentra em si ambas as classes de realidade social, não pode ser identificado nem a uma função da vontade total nem tampouco à função de um sistema de cultura deve-se a que a substanciação do direito depende, por um lado, da consciência jurídica dos indivíduos interpenetrados – que são e permanecem sendo as forças viventes formadoras do direito – e, por outro lado, depende da unidade de vontade encarnada na organização externa da sociedade.

Desta forma, se revela o simples valor e o alcance de mera instância inicial que a análise da formação do direito produz, haja vista o estatuto dos demais sistemas culturais, que vão sendo diferenciados à medida do incremento histórico.

Trata-se de um processus de diferenciação em que, tanto as ações recíprocas dos indivíduos – base na qual se desenvolve um sistema cultural – quanto às atividades da vontade total, deixam-se ir particularizando cada vez mais, redundando na seguinte sequência dos sistemas culturais: primeiro – a economia política; segundo – a moral; terceiro – a linguagem e a religião; quarto – a arte e a ciência.

 A psicologia descritiva

Mas não é tudo. Esse desenvolvimento está em correspondência com a tomada em consideração (a) das propriedades gerais das ciências que estudam tais sistemas da cultura, (b) bem como da delimitação do campo das mesmas.

  • Dilthey insiste na importância de uma psicologia verdadeiramente descritiva para, por exemplo, (a) – esclarecer sobre o conceito de vontade ou de imputabilidade, no âmbito de direito; (b) – esclarecer sobre o conceito de imaginação ou de ideal, no âmbito da arte; (c) – elucidar proposições elementares como o princípio da gestão econômica, no âmbito da economia política; (d) – o princípio da metamorfosis das representações sob a vida anímica, no âmbito da estética [viii]; (e) – as leis do pensamento, em teoria da ciência.

A indispensabilidade de tal psicologia descritiva procede do fato ou situação de que esses sistemas culturais particulares se apresentam para Nós-outros como poderosos fatos objetivos, obstáculos que resistem e suscitam a tomada de consciência, isto é, fatos de intuição: o espírito humano houve por conformá-los desta sorte antes de atendê-los cientificamente.

A exposição de Dilthey deixa bem claro seu pensamento a respeito do caráter intuitivo dos fatos culturais e da importância dessa intuição intelectual para o conhecimento desses fatos.

Diz-nos que existe uma etapa no desenvolvimento dos sistemas culturais na qual a reflexão teórica não está, todavia, separada da ação e da conformação prática.

O mesmo entendimento que se dirigiu mais tarde para a fundação e explicação teórica do direito e da economia esteve ocupado no princípio com a configuração desses sistemas (no sentido de Gestalt).

 O sistema moral

Será mediante a análise de um sistema de moral configurado como independente que esse caráter intuitivo intelectual é posto em relevo.

►Em diferença do costume, que se diversifica segundo os povos e os Estados, a moral é observada como constituindo um único sistema ideal que só pode ser modificado unicamente pela diferença de articulações, comunidades, associações.

A proposição básica de análise desse sistema ideal implica enlaçar por um lado o que nosso autor chama a autognosis psicológica com a comparação das modificações afetando tal sistema ideal no âmbito dos diferentes povos, por outro lado. Lembre-se neste ponto as análises de Jacob Burckhardt como paradigmáticas na comparação das modificações afetando o sistema da vida moral [ix].

A análise de Dilthey é orientada para pôr em relevo no seu dizer “o poder regulador da consciência moral comum”, tomado este elemento regulador como um efeito diretamente observado sob os dois aspectos que se seguem, porquanto constituam os critérios objetivos do fato moral.

Com efeito: (a) – por um lado, o elemento regulador é observado no fato de que o indivíduo só é capaz de contrarrestar à imposição sobre si de certa corrente de opinião pública moral na medida em que encontra respaldo em outra atmosfera de opinião pública que o sustente; (b) – por outro lado, o elemento regulador é também observado na transmissão do resultado total da cultura moral como tendo sido feito em proveito do desenvolvimento ou elevação da pessoa humana em seus começos. Mas não é tudo.

Para introduzir seu modelo, Dilthey assinala o campo da moral como se apresentando em forma dupla, seguinte: (a) – sob a forma do juízo do espectador sobre as ações e, (b) – sob a forma assumida no âmbito dos motivos por um conteúdo independente de seu resultado no mundo exterior, isto é, independente de sua adequação. Neste caso o domínio moral aparece como força que vive na motivação, enquanto que no caso do item “ (a) ”, embora seja da mesma natureza que o item “ (b) ”, o domínio moral se apresenta como força que reage de fora em face das ações de outros indivíduos, afirmando-se em aprovação ou desaprovação desinteressada. Em ambos os casos a vinculação moral se deixa expressar sob a mesma proposição.

Nada obstante, nosso autor elabora sobre o fato de que o caráter dos homens lhe aparece como algo misterioso, admitindo que somente suas próprias ações possam revelar parcialmente a eles esse caráter algo misterioso que, nas criações literárias políticas, se trata como transparente.

Quer dizer, nosso autor considera de difícil acesso na vida real a transparência da conexão entre caráter, motivo e ação dos homens.

Sua análise põe em relevo que a moral aparece sem cisão facilitando a própria análise ao afirmar-se na aprovação ou reprovação pelos espectadores, enquanto que a dificuldade é maior na análise da moral da motivação.

Nesta, o analista só alcança com clareza unicamente a conexão entre o motivo e a ação, mas os motivos como tais restam misteriosos.

Dilthey observa dificuldade semelhante, mas em maneira inversa, na moral de aprovação e desaprovação, pois, se a moral está inteiramente contida no juízo dos espectadores, essa mesma moral se debilita por completo no aspecto da união íntima dos motivos com o conteúdo do espírito, uma vez assumida nos indivíduos a que tal juízo é referido.

  • Segundo Dilthey, essa dupla forma da consciência moral na sociedade tem atuação direta e atuação indireta, realizando um efeito regulador.

Diretamente, porque a consciência moral surge espontaneamente como o sentimento do valor inseparável da afirmação mesma da dignidade distintiva do ser humano; indiretamente, porque a consciência moral que se desenvolve na sociedade exerce uma pressão sobre o indivíduo, submetendo aos motivos mais variados.

Esse poder do sistema moral se exerce sob vários aspectos: como opinião pública, como o juízo dos demais homens, como a honra.

Daí que Dilthey fale de um sistema autônomo de moral, com ênfase no seu caráter autônomo, e assine ao mesmo uma espécie de coação interna (um efeito constringente) por contraposição à coação externa do sistema do direito.

***

Cultura e Objetividade: Notas sobre Max Weber e Wilhelm Dilthey

FIM

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Notas de Fim

[i] Ibid, ibidem.

[ii] A expressão homem total designa o homem completo ou em reciprocidade de perspectiva e não o homem indiferenciado.

[iii] Ver GURVITCH, Georges (1894-1965): “O Conceito de Fenômenos Psíquicos Totais” in “Tratado de Sociologia – Vol.2”, Revisão: Alberto Ferreira, Iniciativas Editoriais, Porto 1968, (1ªedição em Francês: PUF, Paris, 1960).

[iv] Impropriamente chamada “sociologia do espírito” para diferenciar dos materialismos.

[v] Ver Dilthey, Wilhelm: “Introducción a las Ciencias del Espíritu: em la que se trata de fundamentar el estudio de la sociedad y de la historia”, tradução e prólogo por Eugenio Ímaz , México, Fondo de Cultura Económica, 1944, 485 pp. (1ªedição em Alemão, 1883).

[vi] Sobre isto, Dilthey nos lembra o processamento a partir do século XVII do movimento inovador em efervescência cultural conhecido por “Sturm und Drang”.

[vii] O interesse das análises e inferências de Dilthey para a sociologia do conhecimento e para a complexa psicologia da consciência coletiva será assinalado no meu ensaio “Psicologia e Sociologia: o Sociólogo como Profissional das Ciências Humanas“, e-book pdf 158 págs. Web da OEI, 16 de Fevereiro 2008, ver págs. 111 sq. link http://www.oei.es/noticias/spip.php?article2005

[viii] A estética como disciplina crítica da cultura histórica, voltada especialmente para a arte em todos os seus aspectos, inclusive a literatura, é discutida por importantes pensadores sociólogos do século XX como Gyorg Lukacs, Ernst Bloch, Lucien Goldmann, Theodor W. Adorno.

[ix] Ver nesta obra / eBook o ensaio anexo intitulado Arte e Função Simbólica.

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Para ler Gurvitch segundo Gilberto Freire

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Conferência de Gilberto Freire sobre Gurvitch

Gilberto FREYRE (March 15, 1900 – July 18, 1987)
Gilberto_Freyre

MON AMI GURVITCH(*)

(*) In Caderno n° 32, Caruaru, 1972, pp. 3-14. Conférence prononcée à la Faculté de Droit de Caruaru le 11 août 1971, sous la présidence du professeur Pinto Ferreira et à l’initiative du professeur Tabosa de Almeida. Traduction de Christine Ritui. [ Revista Francesa ANAMNESE N° 1 -2005, edição digital em PDF, varios autores, dedicada a Georges Gurvitch, sous la direction de Christian PAPILLOUD & Claude RAVELET, Mise en page de Claude RAVELET, Traduction de Christine RITUI. Acervo de Sociólogos sem Fronteiras Rio de Janeiro – SSF/RIO ] .

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Je remercie les dirigeants de cette École de m’avoir aujourd’hui offert l’occasion d’un premier contact avec ses professeurs, ses étudiants et tous les aimables habitants de cette ville – ville déjà renommée pour tant de raisons dans la géographie culturelle du Brésil – très sensible aux questions intellectuelles. Mes remerciements vont au jeune et brillant professeur de Droit qui vient de me saluer d’une façon si expressive et dont le nom révèle un si illustre héritage : celui de José Isidoro Martins Júnior.

Ici fleurit depuis des années un ensemble d’activités universitaires dans une ambiance que l’on définirait sociologiquement comme rurbaine : un salutaire mélange d’urbain et de rural. Cet ensemble n’a pas surgi à l’improviste. Il représente l’effort énorme, et parfois héroïque, du professeur Tabosa de Almeida, auquel s’est associé, en tant qu’éminent collaborateur, un maître du Droit et un expert en sociologie de réputation nationale et même internationale, Pinto Ferreira.
C’est un effort qui, avec les triomphes obtenus, est déjà devenu une réalisation stable. Caruaru se trouve incorporée définitivement dans la géographie culturelle du Brésil au même titre que Campinas, Juiz de Fora, Ribeirão Preto, Santa Maria (de Rio Grande do Sul), parmi les différentes expressions rurbaines de l’activité intellectuelle dans lesquelles les études supérieures se décentralisent parmi nous, avec une vigueur plus ou moins grande, au bénéfice d’autres populations, en dehors des populations urbaines. Ce phénomène, à ses débuts, a attiré l’attention de l’érudit sociologue-juriste européen à l’automne de sa vie si intéressé au Brésil, créateur et non pas seulement systématisateur de savoirs sociologiques liés aux juridiques, dont j’évoquerai aujourd’hui la personnalité sur un ton moins de cours que de “causerie”. Je veux parler de Georges Gurvitch.

Une de mes fiertés est d’avoir fait venir Georges Gurvitch au Brésil, pour un second contact avec notre pays. J’ai obtenu qu’il soit invité à prononcer des conférences sur la Sociologie du Droit à la Faculté des Sciences Juridiques et Sociales de l’ex-Université de Recife ; sur la Sociologie Scientifique et la Sociologie Philosophique, à l’Institut Joaquim Nabuco de Recherches Sociales, et aussi sur la Sociologie du Droit à la Maison de Ruy Barbosa, à Rio de Janeiro, où il a été accueilli avec les attentions qui lui étaient dues, par le Ministre de l’Éducation.
Le premier contact avec le Brésil n’avait pas laissé chez Gurvitch une impression très favorable. Il avait admiré la beauté presque mythique de Rio de Janeiro. Il avait aussi constaté le progrès déjà à demi mythique de São Paulo. Mais il n’avait pas réussi à identifier dans le pays visité un peu en touriste, une culture distincte de celle européenne ou résistante à celle yankee, qui puisse éveiller en lui l’intérêt du sociologue : le constant sociologue en profondeur qu’il était, aussi bien en France que dans ses voyages à l’étranger.
Son deuxième contact avec le Brésil lui a procuré le plaisir d’identifier, dans notre pays, en tant que sociologue, une culture nationale. Il ne s’est pas limité alors à séjourner quelques jours à Rio et à revoir le Centre-Sud du pays : il est venu dans le Nordeste. Il a connu Recife, Olinda, le Pernambuco. Il est allé jusqu’à Paraíba. Il a fait même le projet de séjourner chez les cabocles de Paraíba, habitant un long mois dans une maison rustique, couverte de chaume, parmi les cocotiers. Et là, pour méditer et écrire. Un projet romantique, mais que le maître de la Sorbonne, égaré sous les tropiques brésiliens, n’a pu concrétiser.
Dès que les Gurvitch – le professeur et son épouse – se sont installés dans leur maison rustique, au lieu de partager la vie des cabocles, ils ont été assiégés par les gens de la ville plus ou moins intellectualisés qui allaient les voir presque en touristes, les connaître, les admirer de près, arrivant jusqu’à la retraite des Gurvitch à n’importe quel moment, les interrompant dans leurs travaux et leurs loisirs, dans leurs repas arrosés à l’eau de coco et durant la sieste : des siestes écologiques dans des hamacs frais, blancs, odorants, bien du Nordeste.
Et ainsi a échoué le rêve de l’érudit d’être, au milieu des cocotiers, un Gauguin d’une nouvelle espèce, qui au lieu de peindre des femmes de couleur, aurait vécu avec les cabocles, participé à leurs dîners de poisson frit accompagné de farofa, sortant avec un de ces autochtones, jangadeiro, au grand large, dans une jangada très brésilienne, une aventure extraordinairement osée pour un Européen résidant depuis des années dans son Paris sombre, super-civilisé. Parce que tout cela figurait dans le projet de Gurvitch. Mais de ce projet romantique il réaliserait peu de choses. Il réaliserait cependant assez pour qu’il quitte le Brésil le plus tropical qu’il a pu connaître, avec la nostalgie de son paysage et de son peuple.
Le gouverneur de l’État de Paraíba était un intellectuel qui a accueilli Gurvitch avec la plus grande sympathie : mon ami José Américo de Almeida(1). Gurvitch, à ses rêveries gauguinesques en ajoutait une autre : il rêvait de fonder, dans la capitale du Paraíba, où il avait trouvé au gouvernement de l’État un homme si compréhensif, une sorte de filiale de l’École Normale Supérieure de Paris, dont la grande école française s’occuperait avec une tendresse maternelle, si la convention qu’il proposait entre la France et le Brésil avait réussi. Du bon lyrisme. L’idée m’a semblé excellente, mais pour le Brésil d’alors elle était – je le répète – lyrique. José Américo de Almeida lui-même n’était pas très enthousiaste. Il ne pensait déjà qu’à concrétiser son rêve : être le fondateur d’une Université du Paraíba. Une université grandiose. Ce en quoi il a eu raison : l’Université fondée par lui a fait honneur à son fondateur.
La proposition de Gurvitch allait idéalement dans le sens de mon idée déjà ancienne – la mienne, et par rapport spécifiquement au Nordeste, aussi celle d’Odilon Nestor, du Paraíba – : une filiale de l’École Normale Supérieure de Paris, dans la capitale du Paraíba, orientée et en partie appuyée par l’insigne école-mère : ce serait la Faculté de Philosophie sinon unique, du moins principale, d’une Université fédérale régionale qui s’organiserait dans le Nordeste, se disséminant stratégiquement aux divers points de la région – y compris Caruaru – et n’ayant Recife que comme le point métropolitain de coordination. De Recife elle bénéficierait, en plus de l’avantage d’être la métropole régionale, aussi de la Faculté de Droit déjà existante, par sa tradition, et de celle de Médecine, avec ses hôpitaux métropolitains, où affluent des malades de toute la région du Nordeste.
Nos conversations sur ce sujet ont été longues. Mais aussi ce rêve gurvitchéen est resté dans le domaine de l’imagination, où ont disparu, ignorés et inédits, tant de bons projets de sociologues plus ou moins romantiques, faute d’appui extra-sociologique de ceux que l’on appelle les hommes pratiques.

(1) NDT : Politicien, essayiste et romancier, dont le principal roman est A Bagaceira.

anamnese n° 1, 2005.

Des problèmes – ceux des relations entre les scientifiques ou penseurs et les hommes dits pratiques – que d’ailleurs, Gurvitch et moi avions abordé, avec six autres scientifiques et penseurs sociaux – nous étions donc huit au total, de plusieurs spécialités – dans le colloque organisé à Paris en 1948, par l’alors directeur de l’UNESCO, le savant Julian Huxley, pour une étude collective de ce qu’on appelle les “tensions internationales”, alors très aiguës. Études qui mèneraient à des suggestions de valeur pratique possible, qui seraient réunies dans un livre publié en plusieurs langues, mais non en langue portugaise. Manque d’intérêt du Brésil pour un ouvrage collectif auquel ne manquait pas la présence d’un Brésilien.
Le colloque a été très intéressant. Y ont participé, en plus de Gurvitch, un philosophe norvégien, Naes, le psychiatre anglo-américain Sullivan, le réputé sociologue allemand Horkmeimer, un maître de psychologie sociale de Harvard, Gordon Allport, un psychanalyste anglais, Richman, un sociologue économiste soviétique, Szalai ; à une exception près, des personnalités de la plus grande renommée dans leurs spécialités et considérés comme hautement représentatifs des différents savoirs convoqués pour une réunion si importante. Aucun de nous ne représentait un État-nation, moins encore un gouvernement. Aucun de nous ne s’y trouvait par un choix officiel de son gouvernement ou de son pays. Nous avions été choisis comme des représentants – ou des supposés représentants – de ces différents savoirs considérés fondamentaux ou essentiels pour l’étude des “tensions internationales” : l’anthropologique, le sociologique – l’occidental et le soviétique – le psychologique, le psychiatrique, le philosophique.
C’est à cette occasion que j’ai connu personnellement Gurvitch. Une rencontre qui a presque provoqué une inimitié entre nous. Le fait est que, sans aucune raison apparente, l’illustre maître en Sociologie du Droit à la Sorbonne m’a accusé d’avoir été indûment convoqué à cette réunion non – a-t-il souligné – parce que je n’étais pas compétent en Sciences Sociales – je l’étais à coup sûr – mais par le fait que, comme politicien dans mon pays je n’avais pas le détachement nécessaire pour traiter du problème qui allait être débattu avec toute l’austérité scientifique ou toute la rigueur scientifique et philosophique. Attitude d’une étroitesse absolue. Max Weber est-il politicien ? Ortega est-il politicien ? Karl Marx est-il politicien ?
L’accusation m’a pris de surprise. Brutalement. Gurvitch parlait sur un ton dur. Emphatique. En colère. Rappelant des cas européens de sociologues qui, par le fait d’être politiciens, ont été totalement discrédités dans leur science. Il m’a semblé, à un moment donné, voir réincarné en lui un certain démagogue de Recife, d’ailleurs mon ami, et terrible dans ce genre oratoire. Je fais allusion au vieux João Barreto de Menezes, fils de Tobias Barreto. Dans son physique, dans sa physionomie, lorsqu’il était en colère, dans son propre ton de voix, Gurvitch ressemblait alors à mes yeux et à mes oreilles – paradoxe des paradoxes – au démagogue brésilien, fils du grand Tobias Barreto(2). Le fait est que, sous sa citoyenneté française il y avait toujours, en plus de celle du juif excommunié, un russe irréductible, qui avait connu Lénine et avait grandi dans le même village que Visinsky. Un Visinsky qu’il détesterait plus tard avec toute sa colère d’homme capable de grandes haines, autant que de grandes affections. Car il y avait chez Gurvitch un passionnel que la science n’est jamais arrivée à discipliner en faisant de lui un individu sans passions.
Que faire, étant le seul – je le répète – non-Européen du colloque, face à l’attaque frontale qui m’atteignait de plein fouet, me laissant – j’ai pensé – face aux moins informés, parmi ces savants, par rapport à mes pauvres travaux, dans la situation d’un intellectuel sud- américain qui s’ornait du titre de “scientifique social” ou de penseur pour mieux gravir des positions, des avantages, des honneurs à l’intérieur et à l’extérieur du pays ? J’ai alors essayé de parler, correspondant au mythe déjà établi autour de moi d’être un Brésilien apollinien, plutôt anglais que latin dans mes manières et dans ma façon de parler et de me comporter. J’expliquerais avec calme et tranquillité, avec tout le “sense of humour” dont j’étais capable, jusqu’à quel point je pouvais être considéré politicien. Et aussi jusqu’à quel point il serait inconvenant qu’un scientifique ou penseur social soit politicien.
Politicien de faction ou même de parti je ne l’étais pas ; non plus compromis dans quelque idéologie organisée – ai-je expliqué. Le professeur Gurvitch, pour m’accuser d’être “politicien” dans le sens péjoratif que, comme sociologue, il avait attribué à l’expression, se fondait sur le fait que j’étais membre du parlement national brésilien

(2) NDT : Critique, philosophe et poète. Roger Bastide en parle dans Poètes et dieux, “La poésie afro-brésilienne”, pp. 47 et suivantes.

anamnese n° 1, 2005.

G. FREYRE

et j’avais modestement participé à l’élaboration d’une Constitution pour mon pays, dans laquelle il y avait des innovations de savoir sociologique tendant à réduire des tensions ou déphasages sociaux. Exemple : l’élargissement des droits des Brésiliens naturalisés, pour lequel je me suis battu, sur la base d’arguments sociologiques, et me fondant sur ces mêmes arguments, je me suis battu pour une conciliation plus sociologique que purement politique, entre ce que l’on appelle la “libre entreprise” et le maximum de valorisation et dignification du travail humain et de la personne du travailleur. Les leçons de sociologie du Droit, apprises avec maître Georges Gurvitch étaient pour moi particulièrement précieuses – ai-je souligné – dans des activités modestes, mais pas totalement inutiles, de parlementaire à ma façon.
Je n’avais pas commencé dans ces activités comme membre d’un parti. Ni comme adepte d’une idéologie systématique, ni cherchant à être un Constituant. Ni en cherchant à entrer dans le parlement de mon pays. Ni, moins encore, demandant des voix ou courtisant des électeurs. Mais par l’imposition des étudiants universitaires de mon État. Ni plus ni moins que cela : par l’imposition de ces étudiants, sans qu’une telle imposition comporte un quelconque compromis de ma part, ou une obligation définie de ma part, à l’égard d’un quelconque leader ou parti politique. C’était peut-être un cas unique. Mais c’était mon cas.
À peine ai-je fini de parler, j’ai été salué avec enthousiasme par tous les participants du colloque : par Richman lui-même, homme au visage toujours très sévère. Beaucoup par Horkheimer. Gurvitch s’est transfiguré. Et à la fin de la réunion il m’a chaleureusement serré la main. Nous sommes sortis ensemble de la bâtisse de l’Avenue Kléber. Il a tenu à m’accompagner à mon hôtel.
Date de là l’amitié qui, de 1948 à 1966, n’a fait que se consolider. Augmenter. Elle est devenue définitive lorsque j’ai réussi à le faire venir au Brésil une deuxième fois et séjourner dans le Nordeste. Qu’il déjeune et dîne chez nous. Qu’il se promène dans notre propriété de campagne. Qu’il vive parmi mes livres. Qu’il écrive sur mon bureau qui lui a semblé davantage rempli de papiers en apparent désordre que le sien.
Je n’oublierai jamais les honneurs et les générosités que depuis 1948 j’ai reçus de ce penseur génial. De ce savant magnifique. De ce sociologue du genre créateur de sociologue. Mais un homme non seulement à l’enthousiasme difficile comme terriblement critique de sociologues, de juristes, de scientifiques sociaux chez lesquels
il trouvait, ou jugeait trouver – et sa perspicacité était diabolique – la médiocrité prétendant à la génialité ; ou la reprise du travail d’autrui jouant le rôle d’originalité.
C’est ce terrible Gurvitch qui m’a présenté au public nombreux – une foule ; aux personnes assises se joignait une quantité de gens debout – qui s’est réunie, dans un des salons de la Sorbonne, pour m’entendre, en 1956. Lui-même, la même année, a été le participant le plus actif au séminaire européen autour de mes idées, de mes méthodes d’analyse et de mon interprétation de l’Homme en situation, de cela – enfin – que le professeur Roger Bastide a appelé mon “humanisme scientifique”. Séminaire qui a eu lieu dans le Château de Cerisy, de Mme Hourgon-Desjardin, étant présents quelques-uns des plus grands maîtres de Philosophie, de Sociologie et de Littérature de la Sorbonne ; et sous la totale indifférence – comme on devait s’y attendre – de l’ambassade du Brésil à Paris, du gouvernement du Brésil, de la presse brésilienne. Même si le séminaire s’étendait sur toute une semaine de discussions très intéressantes, avec des interventions toujours magistrales de Gurvitch sur les idées et les méthodes sociologiques de son collègue brésilien, la seule répercussion que l’événement intellectuel si important a obtenu au Brésil – à l’étonnement de lui, Gurvitch, et d’autres maîtres de la Sorbonne – a été la nouvelle, dans une revue illustrée connue de Rio – d’ailleurs des gens apparemment mes amis – qu’il y avait eu au Château de Cerisy une “nuit folklorique brésilienne”. Malice ? – Probablement oui. Mais il est probable que ce soit une simple expression d’indifférence pour des événements ayant une quelconque importance intellectuelle pour le Brésil, de la part de la presse brésilienne de ces dernières décennies.
Je dois dire qu’à cette époque, Gurvitch avait déjà inclu un sociologue brésilien – en rendant hommage à l’Amérique latine – parmi les membres du conseil directeur de l’excellente publication de Philosophie et de Sciences sociales, qu’il a dirigée pendant de longues années, les Cahiers Internationaux de Sociologie. Avant, il avait déjà fait de ce même Brésilien un collaborateur de ses Archives de Jurisprudence et de Sociologie.
Nos idées sur les relations entre la sociologie et le Droit coïncidaient sur plusieurs points ; justement, ceux où nous nous éloignions des notions les plus médiocrement conventionnelles, encore dominantes dans le Droit Public et en d’autres Droits, aussi bien au Brésil que dans des pays plus développés que le nôtre.

anamnese n° 1, 2005.
G. FREYRE

Sur ce point de vue, il observait au Brésil, dans son premier contact avec Rio et avec São Paulo, l’extrême vogue parmi nous d’une jurisprudence un peu conditionnée par l’étude sociologique des phénomènes juridiques.
C’est aussi de Gurvitch – de Gurvitch et de Lucien Febvre, un autre grand maître français très vivant dans ma mémoire – qu’est partie l’idée que la France me consacre Docteur Honoris Causa, et il m’a averti dès 1953 : « lorsqu’on demande, sur le plan purement intellectuel, le titre de docteur à la Sorbonne, le processus est si long qu’il peut être comparé à celui de la canonisation par l’Église catholi- que. Ne vous étonnez pas du temps que cela prendra ». Il pouvait cependant – a-t-il ajouté – me considérer tout de suite Docteur de la Sorbonne. Je n’ai pas été surpris du temps d’attente.

(…)

Leia a continuação em < Sociologia e Direitos Humanos >

 

Apresentação e Introdução do livro Curso de Sociologia do Conhecimento – Texto 03

Curso de Sociologia do Conhecimento – Texto 03capa Curso texto 03

Comentários críticos e Observações de leitura em continuação aos TEXTOS 01 e 02 

Autor: Lumier, Jacob (J.)Jota 2013

Autor de Ensayos Sociológicos difundidos junto a la Web de la Organización de Estados Iberoamericanos para la educación, la ciencia y la cultura – OEI y en la Web Domínio Público, del Ministerio de Educación de Brasil – MEC

Editado por Bubok Publishing S.L.

Impreso en España

Contém notas, citações bibliográficas e sumário

Novembro 2013, 126 págs.

1. Comunicação Social.  2. Teoria Sociológica

Produção de e-book:

Websitio Leituras do Século XX – PLSV:

Literatura Digital

http://www.leiturasjlumierautor.pro.br

©2013 by Jacob (J.) Lumier

Todos os Direitos Reservados

Rio de Janeiro, Novembro de 2013

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Epígrafe

 No realismo de Saint-Simon, a sociologia deve manter o paralelismo e a interpenetração dos modos de produção material e dos sistemas de conhecimento, que são afinal tão-só aspectos parciais dos “regimes” ou, como diríamos hoje, tipos de estruturas sociais.

Apresentação

O relativismo sociológico é dialético e exige um esforço para ser adequadamente explicitado em sua complexidade devido ao problema do falso saber.

Algumas vezes, por exemplo, em razão de não atribuir valor ao conhecimento nem justificá-lo, a sociologia do conhecimento é rotulada equivocadamente como ceticismo e nihilismo, supostamente voltada para invalidar todo o saber ou diminuir o seu valor.

Verão neste ensaio que, seguindo o ensinamento de Georges Gurvitch (1894-1965) e ao contrário de seus opositores, a sociologia estuda o conhecimento em sua efetividade como regulamentação social, em conjunto com as demais obras de civilização como o direito, a moral, a educação e, neste marco, questiona as préconceituações e o dogmatismo metodológico [i].

Além disso, a sociologia oferece como contribuição à epistemologia suas pesquisas sobre as variações do papel efetivo do saber nos diferentes tipos de estruturas sociais.  Seu instrumental operativo de análise e explicação não implica projetar uma epistemologia própria, nem atribuição prévia de valor, mas é elaborado com o método dialético e repele qualquer juízo filosófico prévio à análise.

Em consequência, não há cabimento em rotular a sociologia do conhecimento.

Sem embargo, no estudo dos coeficientes pragmáticos, o sociólogo descobre o problema da veracidade ou não de uma multiplicidade quase infinita de perspectivas do conhecimento”, “ideológicas”, “utópicas”, “mitológicas”, etc., diferenciadas entre o saber meramente adequado (falso saber, reflexo dos papéis sociais) e o seu quadro social. Só a epistemologia dirá se tais perspectivas são igualmente válidas, ou se algumas delas o são menos que outras e poderiam designar-se “má interpretação”.

O presente trabalho introduz o estudo dos coeficientes pragmáticos do conhecimento; situa os aspectos do falso saber, suas implicações inclusive no psiquismo da estrutura de classes, e põe em relevo que, antes de vincular-se a uma epistemologia, a sociologia tem por indispensável a dialética complexa, cujos procedimentos lhe são imprescindíveis.

Finalmente, o aproveitamento deste trabalho tem por pressuposto a leitura dos Textos 01 e 02 do atual Curso de Sociologia.

Rio de Janeiro, 18 de Outubro 2013

Jacob (J.) Lumier

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Sumário

Epígrafe        7

Apresentação          9

INTRODUÇÃO        15

Sociologia e Relativismo   15

Dialética experimental e relativista         15

O elemento especulativo   18

As especulações arriscadas         20

O conhecimento em correlações 22

PARTE 01     27

Falso saber e conhecimento espontâneo         27

Conhecimento espontâneo          29

O saber pode repetir-se     30

Ambiguidade da função simbólica         30

Os tempos sociais múltiplos         32

Visões de mundo e sociologia     32

O culturalismo abstrato      35

Os tipos ideais weberianos           37

A orientação de teoria dinâmica  39

O primeiro aspecto do método sociológico        39

O segundo aspecto do método sociológico      41

Problema dos tipos sociológicos 41

A objeção dos leigos          42

Hermenêutica extra-sociológica  42

Competência da sociologia          43

O teórico e o pragmático    44

O desvio contínuo do conceitual 46

Os opositores da sociologia          47

A suposta “orientação radical”     52

Planejamento da pesquisa científica     56

Má Interpretação e Falso saber    57

A incompreensão do público       61

PARTE 02       65

O Falso Saber e o Psiquismo da Estrutura de Classes          65

Um processo de unilateralização            66

As Três dimensões do Psiquismo           67

Falso saber e personificação do capital 71

A imanência recíproca       72

A Imitação e as Relações com Outrem   75

Os fenômenos da psicologia coletiva     77

Uma crença sociológica    80

Ciência dos Costumes e Sociologia       83

Uma metamoral semi-sociológica           86

Realismo de Saint-Simon 87

Liberdade humana 90

O princípio de obediência à ordem         92

O Relativismo Sociológico -2       94

A Sociologia de Karl Marx 98

Epistemologia e Sociologia          100

Os sistemas cognitivos      103

Notas de Fim            111

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Introdução:

Sociologia e Relativismo

O relativismo sociológico é dialético e exige um esforço para ser adequadamente explicitado em sua complexidade.

Algumas vezes, por exemplo, em razão de não atribuir valor ao conhecimento nem justificá-lo, a sociologia do conhecimento é tomada equivocadamente como ceticismo e nihilismo, supostamente voltada para invalidar todo o saber ou diminuir o seu valor, como se essa disciplina fosse contrária ou cultivasse a pretensão descabida em substituir-se à epistemologia. Nada mais deslocado, embora seja certo que não haja competição e que os raciocínios axiomáticos, por dispensarem explicação, sejam repelidos.

Dialética experimental e relativista

Sem embargo, a sociologia é uma disciplina de conhecimento científico, apresenta-se como tal e, nesse quadro preciso, elabora as suas orientações como teoria determinista. Seu instrumental operativo de análise e explicação sociológica não implica projetar uma epistemologia própria, nem atribuição prévia de valor, mas é elaborado com o método dialético devidamente informado com os resultados divulgados em 1947 e 1948 pelos cientistas da natureza, na revista internacional Dialectica, então lançada na Europa [ii].

Entenderam que o processamento dialético é essencialmente depuração de um conhecimento sob a pressão de uma experiência com a qual ele se defronta, implicando o vaivém incessante entre o especulativo e o experimental, de tal sorte que o intuitivo e o construtivo estão compreendidos em uma complementaridade [iii].

Essa introdução da dialética nas ciências exatas foi feita em relação ao seguinte: (a)- para abrir um acesso em direção ao que é escondido, ao que é dificilmente possuível (dificilmente designável ou assinalável); (b)- para renovar experiência e experimentação; (c)- para tornar essencialmente impossível a esclerose dos quadros operativos.

Portanto, uma dialética que não é nem arte de discutir e de enganar, nem um meio de fazer a apologia de posições filosóficas preconcebidas – sejam elas denominadas racionalismo, idealismo, criticismo, espiritualismo, materialismo, fenomenologia, existencialismo. Tal é a dialética experimental e relativista, recorrendo à especulação para melhor adaptar os objetos do conhecimento às profundezas do real [iv].

A mesma orientação vale para um importante filósofo da cultura científica como Gastón Bachelard, quem começou a introduzir a dialética complexa desde o ano de 1936 [v] e notou que a dialética é ligada a procedimentos operativos que tornam relativo o aparelho conceitual de toda a ciência.

Sem embargo, o único caminho para escapar ao dogmatismo e aos posicionamentos axiomáticos em sociologia, como disciplina científica, é a distinção entre vários procedimentos operativos de dialetização ou clarificação dialética (“éclairage”), os quais, relevando todos do método dialético, são aplicáveis de várias maneiras, seja de maneira exclusiva, de maneira concorrente, ou de maneira conjunta, como no caso do estudo das relações entre atitudes  individuais e atitudes coletivas, que exige a consideração de todas as possibilidades de relações dialéticas.

O elemento especulativo

Podem ver que, embora tenha na acentuação do elemento racional uma exclusividade sua, o conhecimento científico enseja a formação de equilíbrio do positivo e do especulativo, assim como do simbólico e do adequado.

Daí que a teoria sociológica incorpore em sua positividade o elemento especulativo.

Aliás, em relação à dicotomia do conhecimento positivo e do conhecimento especulativo, o enfoque sociológico resgata a relevância das “especulações arriscadas” na história dos descobrimentos científicos, notando que estes se fizeram graças a especulações verificadas depois.

Desse ponto de vista põe em relevo o seguinte:

(a)- o grave erro que consiste em assimilar o conhecimento positivo ao conhecimento empírico e o conhecimento especulativo ao conhecimento conceitual, já que, em condições favoráveis o conhecimento empírico pode converter-se em conhecimento especulativo, e o conhecimento conceitual revelar-se positivo; (b)- o equívoco em se compreender o positivo como a recusa em arriscar novas hipóteses, reservando-se ao conhecimento especulativo a aptidão para tomar iniciativas novas; (c)- o conhecimento de senso comum, por um lado e, por outro lado, o conhecimento perceptivo do mundo exterior são os que tendem até o positivo no sentido de fidelidade às tradições, aos estereótipos ou à prática; (d)- o conhecimento filosófico e o conhecimento técnico, por um lado, e o conhecimento científico, por outro lado, favorecem a forma especulativa do conhecimento mais do que a sua forma positiva[vi] .

Nota, enfim, que a valoração das especulações arriscadas, que fazem avançar em direções desconhecidas, tem lugar em face de uma compreensão limitada de que positivo é o conhecimento prudente e conformista, contrário a orientar-se fora dos caminhos já explorados. Essa compreensão assim restrita é um legado da filosofia positivista da primeira metade do século XIX, cujo equívoco foi pretender que o conhecimento científico só podia ser positivo [vii] e não especulativo.

Embora o conhecimento especulativo com suas intuições, conjecturas e hipóteses seja mais suscetível aos simbolismos, mitologias e utopias do que a forma positiva, devem ter em conta que, nesta última, revela-se um conhecimento racional, calculador e adequado, que guarda o equilíbrio do especulativo e do próprio elemento positivo.

As especulações arriscadas

Em face do que precede, podem compreender que a teoria sociológica é algumas vezes confundida ao ceticismo e ao nihilismo exatamente porque adota especulações arriscadas para organizar o campo de aplicação da dialética nesta matéria.

Recompor o todo pela aplicação do método dialético empírico realista – sobretudo pela aplicação da reciprocidade de perspectivas entre o Eu e o objeto – significa aceitar a evidência no trabalho intelectual de que, cabe repetir, o compromisso inelutável de qualquer existência em situações sociais múltiplas e antinômicas (incluindo a chamada “intenção humana valorativa”) não pode ser posto em relevo, não pode ascender à percepção ou à tomada de consciência senão graças aos procedimentos dialéticos operativos da reciprocidade de perspectiva, implicando a tomada de risco para a realização da obra do conhecimento [viii].

Como sabem, e foi comentado no Texto 01 deste Curso, a sociologia do conhecimento derruba o preconceito de que os juízos especialmente cognitivos devem ter validade universal. Sua conjectura fundamental é de que a validade de um juízo nunca é universal, e se refere a um quadro de referência preciso que frequentemente corresponde aos quadros sociais. Tal é a sua especulação arriscada fundamental, que será verificada depois.

Para essa conjectura, concorre a constatação de que até mesmo os filósofos mais dogmáticos distinguem dois ou três gêneros do conhecimento: o conhecimento filosófico, o conhecimento científico e o conhecimento técnico, que, como classes do conhecimento, se impõe cada um como um quadro de referência, eliminando assim o dogma da validade universal dos juízos.

Daí falarem das verdades do conhecimento técnico, as do conhecimento científico, tanto quanto das verdades do conhecimento filosófico, diferentes.

O conhecimento em correlações

Nesse marco conjectural, a fim de preparar o tópico posterior sobre o problema do falso saber, cabe pôr ao dia o que foi dito no Texto 01 em vista de explicitar a procedência histórica e intelectual da pesquisa do conhecimento em correlações funcionais, especialmente nos tipos de sociedades globais construídos com base em materiais historiográficos.

Com efeito, o conhecimento tomado desde sua tendência a ser coletivo pode definir-se como “participação de uma realidade a uma outra” sem que nesta outra se produza qualquer modificação.  É o sujeito cognoscente que sofre alterações em virtude do conhecimento, ou seja, são transformados os próprios quadros sociais que comportam e atualizam o conhecimento em correlações, por efetividade destas.

Max Scheler insistiu no fato de a cada tipo de sociedade, a cada grupo, a cada ligação social, a cada era de civilização se oferecer um setor diferente do mundo infinito dos valores e do “logos”, assim como uma ordem das realidades com particular relevo conduzindo à necessidade da colaboração de todos os quadros sociais e de todos os indivíduos para chegar a uma visão de conjuntos.

Na sequência dessa proposição, a sociologia incorpora em base concreta as duas descobertas fundamentais de Max Scheler para chegar à descrição dos sistemas cognitivos, seguinte: (a)- a multiplicidade dos gêneros de conhecimento e, (b)- a diferente intensidade de ligação entre esses gêneros de conhecimento e os quadros sociais.

Quer dizer, a cada tipo de sociedade, a cada grupo, a cada ligação social, a cada era de civilização se oferece um setor diferente da multiplicidade dos gêneros de conhecimento.

Se oferece igualmente uma intensidade diferente de ligação entre gêneros de conhecimento e quadros sociais, de que surgem as hierarquias formadoras dos sistemas cognitivos.  

A sociologia das formas e classes do conhecimento são desdobradas dessas duas linhas de pesquisa, como veremos nesta obra.

Daí, contrariando a orientação “causalista” do pioneiro Karl Mannheim [ix], fundador desta disciplina, e seus importantes seguidores, chega-se à formulação propriamente sociológica de que:

(a) – a relação entre quadro social e conhecimento não é geralmente uma ligação causal; (b) – não se pode afirmar nem que a sociologia do conhecimento institui a realidade social como causa e o conhecimento como efeito, nem que o conhecimento, como tal, age como causa sobre os quadros sociais. Por isso a colocação do conhecimento em perspectiva sociológica nada tem a ver em si própria com a afirmação de que um conhecimento é uma projeção ou um epifenômeno de um quadro social, ou ainda que é uma superestrutura ideológica. Trata-se, afinal, de verificar a coerência de um conhecimento, um estudo explicativo que não levanta a questão do condicionamento de uns em relação ao outro, mas limita-se a verificar seu paralelismo.

Os símbolos sociais só em parte exprimem os conteúdos. São presenças intencionalmente introduzidas e invocadas para indicar carências. Impulso para a participação direta nem tanto no conteúdo (ideias, valores), mas prioritariamente participação no simbolizado (lugar desejado, a significação em ausência).

Cabe notar que, sob esse paralelismo, ademais da dependência ao mesmo fenômeno social completo, como realidade particularmente qualitativa e contingente em mudança, pode surgir a autonomia do simbolizado como lugar desejado a respeito do próprio símbolo como mediador, um aspecto da antecipação no presente de um tempo futuro ou “um futuro atual”  [x] (participação direta no simbolizado [xi]): como verão adiante, a ambiguidade da função simbólica (os símbolos expressam as “ausências invocadas” apenas parcialmente, de maneira que o lugar desejado nunca é inteiramente direcionado nos símbolos, mas é apenas uma participação mútua) não somente tem repercussão na afirmação do conhecimento em correlações funcionais, mas penetra a efetividade do mesmo como regulamentação social [xii].   

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Notas


[i] Gurvitch, Georges (1894-1965): “Problemas de Sociologia do Conhecimento”, in Gurvitch et al.:  “Tratado de Sociologia”, Vol. II, revisão: Alberto Ferreira, Porto, Iniciativas Editoriais, 1968, pp.145 a 189 (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1960).

[ii] Gurvitch, Georges (1894-1965):“Dialectique et Sociologie”, Paris, Flammarion, 1962, 312pp., col. Science.  Veja também : Editorial board of dialectica : « Dialectica – Philosophy Journal », Suisse, Edited By: Marcel Weber and Philipp Blum – Online – ISSN: 1746-8361  link: http://onlinelibrary.wiley.com/journal/10.1111/(ISSN)1746-8361

Dialectica é uma Revista internacional de filosofia do conhecimento fundada em 1947 por Ferdinand Gonseth, Gaston Bachelard et Paul Bernays.

[iii] O matemático e lógico F.Gonseth, insistiu, nas ciências exatas modernas, sobre o vaivém incessante entre o especulativo e o experimental, e sobre o fato de que, em matemáticas, o infinitamente grande e o infinitamente pequeno se detêm e se pressupõem;  revelou que, nessa matéria, o intuitivo e o construtivo estavam compreendidos em uma dialética de complementaridade. Ibid, ibidem.

[iv] Basicamente, o que caracteriza a especulação é o exercício de pesquisar mediante a reflexão por inferências cujas bases empíricas passam por mediações, em vista de obter a solução de contradições ou antinomias que não se confundem aos “extremos que se podem juntar” nem aos termos que não têm sentido um sem o outro como o pólo Norte e o pólo Sul, o Oriente e o Ocidente, o pólo positivo e o pólo negativo da corrente elétrica, o branco e o negro, o alto e o baixo, o dia e a noite, o quente e o frio, o inverno e o verão, a direita e a esquerda, etc.,. Nesses casos, os “procedimentos discursivos” se revelam inteiramente suficientes. Na clarificação dialética, por sua vez, se trata de desvelar a aparência de uma exclusão recíproca dos termos ou dos elementos contrários que se revelam como duplos se afirmando uns em função dos outros e desse fato participam dos mesmos conjuntos. Na sociologia os tipos microssociais, os tipos de agrupamentos, os tipos de classes sociais e os tipos de sociedades globais exigem a clarificação com o procedimento da complementaridade dialética, dentre outros.

[v] Bachelard, Gastón: “La Dialectique de la Durée”, Paris, Press Universitaire de France-PUF, 1972, 151 pp., 1ªedition 1936.

[vi] Gurvitch, Georges (1894-1965): “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, trad. Mário Giacchino, Caracas, Monte Avila, 1969, 289pp (1ªedição em Francês: Paris, PUF, 1966).

[vii] Gurvitch, Georges (1894-1965):“Dialectique et Sociologie”, Paris, Flammarion, 1962, 312pp., col. Science.

[viii] “Tomada de Risco” no sentido examinado por Bachelard de que há uma indefinição básica quanto aos resultados possíveis e a obra com disciplina científica só é realizada na medida em que novos conhecimentos são conseguidos.

[ix] Mannheim, Karl: ‘Ideologia e Utopia: uma introdução à sociologia do conhecimento’, tradução Sérgio Santeiro, revisão César Guimarães, Rio de Janeiro, Zahar editor, 2ª edição, 1972, 330 pp. (1ª edição em Alemão, Bonn, F. Cohen, 1929; 2ª edição modificada em Inglês, 1936).

[x] O termo futuro atual designa que o saber em correlações funcionais é sempre prospectivo, é lançado para adiante, é o saber que alguém está a usar para se orientar no mundo, portanto em vias de se fazer (o contrário de estar feito). Vejam Gurvitch, Georges (1894-1965): “Problemas de Sociologia do Conhecimento”, in Gurvitch et al.:  “Tratado de Sociologia”, Vol. II, revisão: Alberto Ferreira, Porto, Iniciativas Editoriais, 1968, pp.145 a 189 (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1960), Cf. págs.157, e 168/9.

[xi] A constatação de que nas sociedades industriais há um abismo entre os homens e os significados” (Birnbaum, Norman: “A Crise da Sociedade Industrial”, trad. Octávio Cajado, São Paulo, editora Cultrix, 1973, 167pp. 1ª edição em Inglês, Londres, 1969, cf. pág.126) desdobra o aspecto dialético no estudo da função mediadora dos símbolos, a saber: a relação do símbolo ao conteúdo simbolizado (o lugar desejado, a significação em ausência) é necessariamente plena de ambiguidades.  Embora os símbolos sejam, como os signos são, substitutos que invocam ausências e que servem de mediadores, o fazem de maneira bem mais complexa e dialetizada do que os signos, já que essa mediação à qual servem, consistindo em orientar para a participação mútua dos agentes no simbolizado (lugar desejado) e reciprocamente, mostra que a característica essencial dos símbolos no dizer de Gurvitch (op.cit) consiste em “revelar velando e em velar revelando”.

Se os símbolos fossem substitutos assim tão claros como são os signos se confundiriam com estes, ao passo que os símbolos expressam as “ausências invocadas” apenas parcialmente, de maneira que o lugar desejado nunca é inteiramente direcionado nos símbolos, mas é apenas uma participação mútua.

[xii] Opositores questionam a dialética sociológica. Não levam em conta a correspondência e o paralelismo entre (a) o fato da autonomia do simbo- lizado a respeito do conteúdo (os símbolos suscitam os conceitos ou as ideias esquemáticas do conteúdo aos quais são chamados a expressar);

(b) a efetividade da experiência humana (vivida ou construída) ao produzir a negação do conceitual; (c) o fato que nenhuma comunicação simbólica pode ter lugar fora do psiquismo coletivo. Sabem que, em virtude de sua complexidade, a dialética em sociologia mostra não ser capaz de desalie- nar o falso saber. Em face dessa característica e, ao invés de aí reconhe- cerem a alta relevância das “especulações arriscadas”, os opositores apontam uma limitação, tomam por supérflua uma dialética que suposta-mente não dá garantia contra o falso e, desta forma, não colocaria suposta- mente o pensamento e a explicação no elemento de uma verdade que imaginam para além das mencionadas especulações arriscadas. Veja as críticas de Sartre contra Gurvitch em: Sartre, Jean Paul: ‘Critique de la Raison Dialectique – Tome I : théorie des ensambles pratiques (précedé de Questions de Méthode)’, Paris, Gallimard, 1960, 756 pp. Cf: págs.98.