A Presença Da Classe Burguesa No Saber

 

Notas para a Sociologia do Conhecimento Científico e do Filosófico [i].

Sumário

A Presença Da Classe Burguesa No Saber. 1

O Coeficiente Social Do Conhecimento.. 1

A História E A Sociologia. 2

A Filosofia E A Ciência. 3

Os Papéis Sociais Da Classe Burguesa. 3

A Consciência De Classe Otimista Da Burguesia. 4

 

 

Em todo o conhecimento científico interferem os coeficientes sociais do conhecimento, precipitando as variações do saber em função dos quadros sociais, variações tanto mais fortes quanto maior seja o desenvolvimento do próprio conhecimento científico.

 

Em relação ao conhecimento científico, a análise sociológica enfatiza o equívoco das pretensões da ciência em ser desvinculada dos quadros sociais.

 

 

O Coeficiente Social Do Conhecimento

Como sabido, o conhecimento científico parte de quadros operativos essencialmente construídos, justificados pelos resultados conseguidos, que chamam a uma verificação experimental.

A ciência busca a união do conceitual e do empírico e, se cultiva a pretensão de ser desvinculada será, talvez, porque é uma classe de conhecimento que tende ao desinteresse, ao “nem rir nem chorar” de Spinoza, ao aberto, à acumulação, à organização e ao equilíbrio.

Observa que o conhecimento científico ocupou um lugar predominante no sistema do conhecimento somente nas estruturas capitalistas, particularmente nas estruturas do capitalismo competitivo.

Aliás, é nas sociedades industriais que o conhecimento científico entrou em competição com o conhecimento filosófico e o ultrapassou.

Nota-se igualmente que em todo o conhecimento científico intervêm os coeficientes sociais do conhecimento, precipitando as variações do saber em função dos quadros sociais, variações tanto mais fortes quanto maior seja o desenvolvimento do próprio conhecimento científico.

Na apreciação desta situação, se observa inicialmente que a intervenção dos coeficientes sociais do conhecimento nas ciências exatas e nas ciências da natureza pode ser analisada sob as quatro linhas seguintes:

Primeiro: o coeficiente social do conhecimento intervém através da experiência e da experimentação, que são sempre essencialmente humanas e não apenas lógicas, e sofrem a influência do humano;

Segundo: o coeficiente social do conhecimento intervém também através da conceituação, a qual, geralmente, está avançada em face da experimentação. Quer dizer, toda a hipótese nova traz a marca da estrutura da sociedade em que se elaborou, como, aliás, já nos esclareceu C. Wright Mills [ii].

Ademais, a respeito do fato de que o coeficiente social do conhecimento intervém, igualmente, através da conceituação, acrescenta como exemplos significativos o seguinte:

(a) – a correspondência ideológica entre o darwinismo e a concorrência, tomada esta última como princípio em ação na sociedade da época;

(b) – em maneira menos evidente que a anterior, e em estado inconsciente, observa-se a correspondência entre as incertezas na microfísica e os limites à capacidade de controle que a mesma faz aparecer, e que provêm da energia atômica, como fator de explosão das estruturas sociais globais.

Terceiro:

O coeficiente social do conhecimento intervém através da importância das organizações privadas e públicas no planejamento da pesquisa científica, importância esta que é muito notada. Assim, na época da energia atômica e da eletrônica, a pesquisa exige laboratórios ou organismos de investigação e experimentação em muito vasta envergadura, com extensão internacional.

Quarto:

Os coeficientes sociais do conhecimento intervêm através da vinculação que se estabelece entre as ciências e a realidade social.  Ou seja, independentemente do fato de que a realidade social tanto pode dominar as ciências, por efeito das forças de produção nas quais as ciências se integram, quanto pode ser dominada por elas, os conhecimentos científicos exigem os meios adequados para a difusão dos seus resultados, estando entre estes meios de difusão o ensino, a vulgarização, as edições de bolso, o rádio ou a televisão.

A História E A Sociologia

No que concerne à história e à sociologia, menos comprometidas e menos ideológicas que as outras ciências do homem, voltadas estas últimas que são para sistematizar em vista de metas práticas, sustentam que as primeiras não podem liberar-se de certos coeficientes ideológicos.

Na história e na sociologia, os coeficientes sociais do conhecimento intervêm a duplo título:

(a) – em vinculação com a organização crescente da pesquisa e com a constituição cada vez mais relativista do aparato conceitual operativo;

(b) – em vinculação com o tema mesmo a estudar – os temas coletivos reais -, pois as sociedades, as classes, os grupos, os Nós-outros estão em movimento dialético e são penetrados de significados humanos.

Desta forma, a sociologia do conhecimento que é capaz de pôr em evidência os coeficientes sociais, e, desse modo, diminuir a sua importância, torna-se duplamente solicitada neste campo, alcançando a sociologia da sociologia.

A Filosofia E A Ciência

Quanto à sociologia do conhecimento filosófico, nota que a filosofia e a ciência possuem um umbral metodológico comum que é a purificação prévia, a dura prova, o ordálio do hiperempirismo dialético [iii] que libera tanto a ciência quanto a filosofia de todo o pré-conceito ou pré-judicação e provoca a demolição de todo o quadro conceitual operativo mumificado.

Entretanto, a dialética do hiperempirismo torna a sociologia da filosofia mais difícil do que a sociologia do conhecimento científico, já que prudência maior é exigida diante do fato de que se trata da cristalização em doutrinas e escolas filosóficas, que ressurgem a cem ou a mil anos de distância, e em tipos de sociedades completamente diferentes. Nada obstante, a reinterpretação dessas doutrinas e a modificação de seu sentido podem evidentemente conceber-se em uma perspectiva sociológica.

Quanto à análise das variações hierárquicas das classes do conhecimento em função dos tipos de sociedades, tem-se que o conhecimento filosófico só ocupou o primeiro lugar na cidade antiga, por um lado e, por outro lado, nas sociedades dos primórdios do capitalismo, onde está na base do “século das luzes”.  Em nossa época, a filosofia se encontra suplantada pelo conhecimento técnico e pelo conhecimento político.

No conhecimento filosófico, que é favorecido pela classe burguesa, nota-se a combinação de racionalismo e de voluntarismo em Descartes, de racionalismo e empirismo em Bacon, e as filosofias do Século das Luzes como marcas indiscutíveis da classe burguesa.

Neste ponto, duas posições gurvitchianas datadas dos anos 60 são a destacar: primeiro: que ainda não teria chegado o tempo de empreender com proveito o estudo aprofundado da sociologia das doutrinas filosóficas; segundo: que a maioria das doutrinas filosóficas elaboradas desde os fins do século XIX e aos começos do século XX já não têm sinais de relações diretas com a classe burguesa.

 

Os Papéis Sociais Da Classe Burguesa

Em relação à classe burguesa, como quadro social do conhecimento, nota-se, inicialmente, uma série de papéis desempenhados segundo as conjunturas particulares e as épocas: (a) papel de vanguarda revolucionária, primeiro; (b) papel de classe moderadora e conciliadora, por etapas; (c) de classe conservadora ou reacionária, mais tarde; e, (d) no início dos anos de 1960, em que temia as revoluções sociais, o papel de “classe fascistizante”, com diferentes matizes.

A análise sociológica explica essa série de papéis sociais por um conjunto de critérios que, todavia, considera insuficientes, a saber: (a) a propriedade dos meios de produção, (b) a propriedade das fontes de matérias primas e de capitais financeiros, a que se soma como elementos constitutivos da classe burguesa, (c) a tendência à dominação dos mercados interiores, coloniais, internacionais ou dos “mercados comuns”.

É preciso levar em conta que a classe burguesa se abriu muito a todos os grupos prósperos, trazendo para junto do patronato os magnatas das altas finanças e do comércio de envergadura, as profissões liberais, os altos funcionários da burocracia administrativa e técnica das empresas industriais, dos bancos, dos trustes e cartéis, por fim.  Tal é o conjunto de frações que desempenham papel predominante na vida da burguesia sob o regime do capitalismo organizado e dirigista.

A Consciência De Classe Otimista Da Burguesia

A análise sociológica remarca a distinção de uma consciência de classe otimista da burguesia, observada em períodos anteriores à sua degenerescência no capitalismo dirigista da primeira parte do século XX, isto é, uma consciência caracterizada pela confiança em um progresso técnico e econômico ilimitado; pela confiança na harmonia dos interesses de todos, na universalidade dos benefícios do capitalismo e da civilização urbana.

De início, a análise sociológica faz notar a tendência para a interpenetração e para a equivalência dos conhecimentos científico, técnico e perceptivo do mundo exterior, o que se compreende se observarmos o seguinte:

1) – foi o advento da burguesia o que fez progressarem as ciências, com as ciências da natureza e as ciências exatas em primeiro lugar, e o fez tanto diretamente quanto pela intermediação do Estado e seus estabelecimentos de ensino;

2) – é a burguesia que, dominando o Estado, lhe impôs a quantificação mais forte e mais eficaz das amplitudes e dos tempos, levando ao pé da letra a máxima de que “tempo é dinheiro”, notando-se, entre parêntesis, que essa quantificação serviu de laço entre o conhecimento perceptivo do mundo exterior e o conhecimento científico, com tendência para unificá-los;

3) – a chegada ao poder da classe burguesa no século XVIII trouxe, como mudança em permanência alcançando o interior das estruturas, o fato de que a sociedade industrial passa a experimentar uma união entre conhecimento científico da natureza e o conhecimento técnico.

Até então, antes da chegada ao poder da burguesia, com a sociedade industrial ainda em seus começos no século XVII, nota-se que essa mesma sociedade se inclinava para desenvolver-se fora das ciências, diretamente nas fábricas e nas práticas de trabalho que elas suscitavam.

Por sua vez, a mudança levando à união do científico e do técnico é comprovada pela seguinte análise sociológica:

3.1) – no momento inicial, o saber burguês situa o mundo exterior nas amplitudes prospectivas, as que “localizam adiante”, notando-se uma correspondência entre estas e os interesses imediatos dos empresários, referidos sobretudo à expansão econômica e à evolução técnica [iv] [Ver Notas Complementares].

3.2) – ocorre que a qualidade prospectiva das amplitudes é impossível sem a intervenção dos meios técnicos e, por sua vez, esses meios técnicos não podem evoluir com a rapidez suficiente sem a ajuda do conhecimento científico;

3.3) – Desta forma, se afirma a tendência para a união de ciência e técnica.

Quer dizer, (a) – o conhecimento perceptivo do mundo exterior produzido pela classe burguesa, ao situar o mundo sempre para adiante, acentuou o fato da mudança social em permanência e, (b) – posto que isto terminou por corresponder às perspectivas da expansão econômica e da evolução da técnica, podemos (c) – confirmar a maneira pela qual as amplitudes prospectivas e projetivas do saber burguês tiveram a ver (c1) – com a conquista de novos mercados, notadamente os coloniais;  (c2) – com a busca de mão de obra  e das riquezas naturais , tais como os minerais, o petróleo, o carvão, etc.; e, finalmente, (c3) – com a colocação nova dos capitais e com as organizações industriais nacionais e internacionais, incluindo os trustes e cartéis.   4) – Acresce que nesse conhecimento do mundo exterior próprio da classe burguesa, as amplitudes e os tempos se orientam no mesmo sentido, e são medidos com os mesmos padrões quantitativos do “tempo é dinheiro”: 4.1) – as amplitudes se afrouxam e se ajustam sem dificuldade graças à intervenção dos meios de comunicação; qualidade essa que, 4.2) – se combina aos tempos identificados à circulação dos capitais e aos investimentos, ao ciclo da produtividade das empresas, à duração do trabalho e do comércio. 5) – Com a decadência da classe burguesa desde o final do século XIX enfrentando mais forte resistência da classe proletária, crises econômicas mais graves, guerras de descolonização, advento dos regimes coletivistas a partir das revoluções sociais, o conhecimento do mundo exterior mostra que este mundo passa a estar imbricado em amplitudes e tempos mais egocêntricos e agitados, que não se submetem às medidas quantitativas e são refratárias aos estudos científicos ou às soluções técnicas.

6) – Assim se chega ao conhecimento que a classe burguesa tem do exterior na segunda metade do século XX, em que: a) – as amplitudes difusas resultam das incertezas ligadas à sorte das estruturas sociais de tipo capitalista; b) – as amplitudes concêntricas e projetivas são relativas à inclusão nos blocos internacionais, em conflito ou em concorrência pacífica.

***

Notas

[i] Comentário sobre os resultados da pesquisa de Georges Gurvitch (1894-1965) divulgados em: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, op. cit.

[ii] Wright Mills, C.: ‘Consecuencias Metodológicas De La Sociología Del Conocimiento’, in Horowitz, I.L. (organizador): ‘Historia Y Elementos De La Sociología Del Conocimiento – Tomo I’, artigo extraído de Wright Mills, C. : ‘Power, Politcs And People’, New York, Oxford University Press, 1963 ; tradução Noemi Rosenblat, Buenos Aires, Eudeba, 3ªedição, 1974, pp.143 a 156.

[iii] Cf.Gurvitch, Georges (1894-1965): “Dialectique et Sociologie”, Flammarion, Paris 1962, 312 pp., Col. Science.

[iv] Veja do autor desta página  “A Sociologia dos Sistemas Cognitivos“, http://www.bubok.es/libros/251124/A-Sociologia-dos-Sistemas-Cognitivos (versão PDF grátis).

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Apresentação do e-book: Entraves Ideológicos …

 

 

 

 

Apresentação do e-book:
Entraves ideológicos para a aproximação de sociologia e direitos humanos.
Notas sobre o hegelianismo em Max Weber e em Karl Marx

eBook-en-PDF-Entraves-ideologicos

 

Jacob (J.) Lumier

 

Janeiro 2017, 47 págs

@2017 by Jacob (J.) Lumier

Algunos derechos reservados

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Apresentação

 

Os estudos na área de ideologia e teoria sociológica frequentemente deixam de lado o problema do hegelianismo, tido como assunto erudito de crítica histórica, cujo interesse supõe-se restrito a uns poucos estudiosos do pensamento moderno.

Sem embargo, sabem que os fundadores da sociologia nos séculos dezenove e vinte defrontaram o problema recorrente da filosofia da história, em que o hegelianismo tem lugar. Esse problema revela-se suscitante a todos os que, por exigência de formação ou por programa de ensino, enfrentam o histórico da sociologia, como disciplina científica.

 

 Sumário

Notas sobre o hegelianismo em Max Weber e em Karl Marx  7

Influência do hegelianismo na sociologia 15

A teodiceia como tema crítico no estudo dos séculos XIX e XX  18

O Conceitualismo e a ideologia do método dialético em Hegel 20

O Paradoxo: 22

Hegel como coveiro da responsabilidade individual 22

O fracasso de Hegel como pensador do seu tempo 25

O desvio de Hegel e seu ponto de vista da eternidade 26

Da Filosofia cristã à Transposição de Valores: Hegel pensador do absolutismo 28

Finalidade negativa da teodiceia no sistema do hegelianismo 30

A Teodiceia em Max Weber 32

A “tensão da religião” como conhecimento teológico 33

A incongruência entre o destino e o mérito 34

Ideologia proletária e Teodiceia em Karl Marx. 38

A sociologia deve livrar-se desse mistério 40

Notas 42

 

 

Abstract

A influência do hegelianismo e da ideologia da dialética, como contrários aos direitos humanos e as convenções internacionais neste campo, deve-se ao peso histórico do mesmo como fonte da doutrina de soberania nacional exclusiva, em cujas fronteiras as sociologias se deixam aprisionar como sociologias nacionais, alheias ao esforço atual de internacionalização desta disciplina científica.

No presente artigo, distinguimos inicialmente a influência do hegelianismo na sociologia do conhecimento, que é constatada na concepção conservadora do saber, como instrumento de adaptação do espírito às situações existentes ao longo da história, que seduziu a Karl Mannheim. Mas, na transposição de valores que lhe corresponde, o hegelianismo exerce uma influência mais ampla, que alcança a teoria sociológica, na medida em que esta, por sua vez, assume uma filosofia da história, como acontece na obra de Max Weber e em Karl Marx. Nesse aspecto, o hegelianismo passa uma verdade chamada a se afirmar fora de qualquer quadro de referência, como ausência de limite de uma misteriosa vontade universal, cuja influência os mencionados sociólogos aceitam ao aproximar teodiceia e ideologia revolucionária.

 


 Influência do hegelianismo na sociologia

 

Um dos aspectos que pode explicar o estabelecimento de fronteiras nacionais para a sociologia, bem como a pouca sensibilidade dos cientistas políticos para com os direitos humanos, pode ser atribuído à ideologia da dialética [i], cuja representação misteriosa pode ser rastreada na nefasta influência do hegelianismo, tanto em Max Weber quanto em Karl Marx. Isto porque, nos antípodas de Platão e fixada na teodiceia, a razão em Hegel guarda um enfoque profundamente conservador: não é do tipo platônico. A razão de tipo platônico implica a responsabilidade individual, com desprezo do costume, do hábito e da tradição ou “justa opinião” (idoxa), e valoriza o conhecimento, a episteme, como a nova forma de racionalidade e consciência moral descoberta por Sócrates. Em Hegel, pelo contrário, a “noção de realização de uma razão consciente de si própria cumpre-se na vida de uma nação[ii].

 

***

 

Quando se fala da influência do hegelianismo na sociologia do conhecimento[iii] lembra-se a obra “Ideologia e Utopia”, de Karl Mannheim[iv], autor que, embora não apresente uma análise da teodiceia, já tratada no âmbito da sociologia do conhecimento por Max Weber – como registrou Wright Mills [v] – , comporta um enfoque neo-espiritualista inteiramente baseado na concepção hegeliana conservadorista, tomando o saber como instrumento de adaptação do espírito às situações existentes ao longo da história [vi].

O próprio Karl Mannheim afirma nessa mesma obra que a suposta “relação dialética” em que ”a ordem existente dá surgimento a utopias que, por sua vez, rompem com os laços da própria ordem existente, deixando-a livre para evoluir em direção à ordem de existência seguinte, é uma formulação que “já foi bem enunciada pelo hegeliano Droysen”, cujas definições Mannheim reproduz e subscreve, destacando a sentença de que” toda a evolução no mundo histórico se processa da seguinte forma: o pensamento, que é a contrapartida ideal das coisas como estas existem na realidade, se desenvolve como as coisas deveriam ser”; na medida em que esses pensamentos “possam elevar as condições ao nível deles próprios, alargando-se depois e se enrijecendo de acordo com o costume, com o conservadorismo e a obstinação, uma nova crítica se faz necessária, e assim por diante [vii].

Porém Mannheim vai mais longe no seu neo-hegelianismo e, reforçando a concepção conservadorista do saber, consente que o critério razoavelmente adequado para a distinção entre o utópico e o ideológico é sua realização: ideias que posteriormente se mostraram como tendo sido apenas representações distorcidas de uma ordem social passada ou potencial eram ideológicas, enquanto as que foram adequadamente realizadas na ordem social posterior eram utopias relativas[viii].

Mannheim entende que “as realidades atualizadas do passado põem um termo ao conflito de meras opiniões...” sobre o que era utópico e o que era ideológico [ix]. Então, o problema crítico do espiritualismo ou da teodiceia, examinado por Ernst Cassirer em O Mito do Estado [x], sobre a transposição do hegelianismo ou conservadorismo hegeliano em ideologia da dialética [xi] (ou “ideologia revolucionária”, como prefere Cassirer) torna-se, com Mannheim, no problema do “princípio vital que vincula o desenvolvimento da utopia com o desenvolvimento de uma ordem existente [xii], de tal sorte que o conservadorismo hegeliano, em sua concepção do saber como instrumento de adaptação, resta consagrado como paradigma de análise sociológica, sem tornar-se preliminarmente objeto de crítica alguma na obra desse polêmico autor.

 

A teodiceia como tema crítico no estudo dos séculos XIX e XX

 

Além da influência do neo-hegelianismo na sociologia do conhecimento, que é constatada na concepção conservadora do saber, como instrumento de adaptação do espírito às situações existentes ao longo da história, que seduziu a Karl Mannheim, como vimos acima, há que ter em conta que, na transposição de valores que lhe corresponde, o hegelianismo exerce uma influência mais ampla, que alcança a teoria sociológica, na medida em que esta assume uma filosofia da história, como em Max Weber e em Karl Marx. Nesse aspecto, o hegelianismo passa uma verdade chamada a se afirmar fora de qualquer quadro de referência, como ausência de limite da impossível vontade universal, assim tornada misteriosa, cuja expressão os mencionados sociólogos representam como ligação entre teodiceia e ideologia revolucionária.

Com efeito, a teodiceia é um tema crítico no estudo do século XX desde os pontos de vista filosófico e sociológico. A teodiceia de Hegel liga-se a sua visão da história do mundo – e não à sua visão da história da humanidade – e comporta uma recusa da oposição entre o conteúdo que os pensadores cristãos chamavam reino da natureza e o reino da graça ou dos fins. Pascal, por exemplo, acentuava que o Deus dos cristãos será sempre um obstáculo inamovível para todos os filósofos: é um Deus oculto envolvido em mistério. Hegel, em sua recusa, teria empreendido revelar esse mistério [xiii].

Em O Mito do Estado [xiv], lemos, com Ernst Cassirer, o seguinte: o que Hegel apresenta na sua filosofia da história é um paradoxo: é um racionalismo cristão e um otimismo cristão.  É a pretensão de que a religião cristã deve ser interpretada no seu sentido positivo e não no seu sentido negativo. No dizer do próprio Hegel: “Deus revelou-se, isto é, permitiu-nos compreender aquilo que ele é; daí não ser mais uma existência oculta ou secreta”. Para Hegel, na história, os dois fatores “tempo” e “eternidade” não se encontram separados um do outro, mas interpenetram-se.  A eternidade não transcende o tempo; pelo contrário: é no tempo que ela se encontra. O tema da filosofia é “alcançar o reconhecimento da substância que está imanente no que é temporal e transitório, e do eterno que está presente”.

 

 O Conceitualismo e a ideologia do método dialético em Hegel

 

Em seu comentário, Cassirer sublinha que, ao contrário de Platão, Hegel não procura a “ideia” em qualquer espaço supercelestial, mas encontra-a na atualidade da vida social do homem e das lutas políticas.  A verdadeira vida da Ideia, do Divino, começa na história. Cassirer nos esclarece que os pensadores filosóficos ou teológicos falaram da história como de uma revelação divina, mas, no sistema hegeliano, a história não é mera aparência de Deus, mas a sua realidade: Deus não só tem história, ele é história.

Desta sorte, a concepção hegeliana do Estado desprende-se da sua concepção de história como teodiceia e, por esta via, enseja o problema crítico da evolução do sistema filosófico de Hegel, quer dizer: o problema da sua transposição, como expressão do conservadorismo, para tornar-se ideologia de uma pretensa dialética, que salta as etapas do processus histórico.

O posicionamento de Cassirer é de que a forma do sistema hegeliano, que canoniza o existente como tal, era fartamente superior ao seu conteúdo imediato, de tal sorte que “muito depois da morte de Hegel e depois da queda da sua metafísica, o sistema continuava a funcionar”.

Isso deve ser atribuído ao caráter geral ou de conceito geral (conceitualismo) do método dialético em Hegel, que releva de uma concepção do pensamento como dupla face, que olha para frente e para trás: no processus dialético hegeliano houvera um ato de conservação que é necessariamente um ato de revolução.  Seja o que for que se torne um ser pelo processus dialético é preservado como um elemento integral, mas a sua realidade isolada anula-se: toda a existência finita tem de perecer a fim de dar lugar a formas novas e mais perfeitas [xv].

O Paradoxo: Hegel como coveiro da responsabilidade individual

 

Nos antípodas de Platão e nutrida de teodiceia, a razão em Hegel guarda um enfoque profundamente conservador: não é do tipo platônico. A razão de tipo platônico implica a responsabilidade individual, com desprezo do costume, do hábito e da tradição ou “justa opinião” (“idoxa”), e valoriza o conhecimento, a episteme, como a nova forma de racionalidade e consciência moral descoberta por Sócrates. Em Hegel, pelo contrário, a “noção de realização de uma razão consciente de si própria cumpre-se na vida de uma nação”.

 

Cassirer resume que, nos antípodas de Platão, a razão em Hegel guarda um enfoque profundamente conservador e não é do tipo platônico. A razão de tipo platônico implica a responsabilidade individual, com desprezo do costume, do hábito e da tradição ou “justa opinião” (“idoxa”), e valoriza o conhecimento, a episteme, como nova forma de racionalidade e consciência moral descoberta por Sócrates [xvi].

Em Hegel, pelo contrário, a “noção de realização de uma razão consciente de si própria cumpre-se na vida de uma nação.  A razão aparece aqui como a fluente substância universal, a qual se partilha ao mesmo tempo em muitos seres inteiramente independentes.  Eles estão conscientes dentro de si próprios de serem eles mesmos estes seres independentes e individuais, através do fato de cederem e sacrificarem a sua individualidade particular; e sabem que essa substância universal é sua alma e essência. Tal o aspecto mítico.

Acentuando o paradoxo de Hegel, nos diz Cassirer que o filósofo tem clareza sobre seu modo de tratar o problema da sabedoria divina como teodiceia, como justificação dos procedimentos de Deus, e que isso é formulado pelo próprio Hegel ao sustentar que a Providência se manifesta também na história universal e não apenas “em animais, plantas e ocorrências isoladas”, de tal sorte que “o mal que se encontra no mundo pode ser compreendido, e o Espírito pensante reconciliado com o fato da existência do mal”.

E Hegel, ele mesmo, prossegue: “na verdade, em parte alguma existe uma visão tão harmoniosa quanto na história universal, e só pode ser alcançada pelo reconhecimento da existência positiva, na qual esse elemento negativo é uma nulidade subordinada e vencida” [xvii].

Resulta então inegável que Hegel “canoniza o existente como tal”, e tenta justificar a dura e cruel “realidade desprezada”. O mal não aparece como um fato acidental ou como horrível necessidade: o mal em Hegel não é apenas “razoável”: é a própria encarnação e atualização da razão. Não no sentido da razão como imperativo moral, mas a razão que vive no mundo histórico e que o organiza. No dizer de Hegel, “o mundo real é como devia ser a razão divina universal”: “o verdadeiro bem não é mera abstração, mas um princípio vital capaz de se realizar a si próprio”. “A filosofia deseja descobrir o sentido substancial, o lado real da ideia divina, e justificar a realidade das coisas, tão desprezada”.

 

Para a continuação, veja a obra em pdf anexo: eBook-en-PDF-Entraves-ideologicos

 

 

Notas

[i] Ernst Cassirer fala de “ideologia revolucionária”, mas a define como representação de um procedimento que salta as etapas do processo histórico. Neste sentido, o termo “ideologia da dialética”, aqui adotado, é bem colocado e permite evitar equívocos com a propaganda de ideologias revolucionárias. Por outro lado, cabe notar que o termo ideologia da dialética não tem referência alguma aos autores reacionários como Karl Popper, que despreza a dialética como realidade reconhecida em sociologia. A ideologia da dialética ora em questão refere-se exclusivamente à representação de um procedimento que salta as etapas do processo histórico, como proposta equivocada para a sociologia do conhecimento.

[ii] A influência do hegelianismo e da ideologia da dialética, como contrários aos direitos humanos e as convenções internacionais neste campo, deve-se ao peso histórico do mesmo como fonte da doutrina de soberania nacional exclusiva, em cujas fronteiras as sociologias se deixam aprisionar como sociologias nacionais, alheias ao esforço atual de internacionalização desta disciplina científica. Sobre essa mirada pró internacionalização, veja: Lumier, Jacob (J.): “Las Bases Sociológicas de la Positivación de los Derechos Humanos”, link: http://www.bubok.es/libros/241945/Las-bases-sociologicas-de-la-positivacion-de-los-derechos-humanos

[iii] Esse problema do neo-hegelianismo na sociologia do conhecimento proposta por Karl Mannheim foi examinado em Lumier, Jacob (J.): A Utopia do Saber Desencarnado, Madrid, Bubok, Setembro 2013 link: http://www.bubok.es/libros/228014/A-Utopia-do-Saber-Desencarnado

[iv] Mannheim, Karl: « Ideologia e Utopia: uma introdução à sociologia do conhecimento », tradução Sérgio Santeiro, revisão César Guimarães, Rio de Janeiro, Zahar editor, 2ªedição, 1972, 330pp. (1ªedição em Alemão, Bonn, F.Cohen, 1929; 2ªedição remodelada em Inglês, 1936).

[v] Wrigth Mills, C. E Gerth, Hans – Organizadores:  « Max Weber: Ensaios de Sociologia », tradução Waltensir Dutra, revisão Fernando Henrique Cardoso, 2ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1971, 530 pp. (1ªedição em Inglês: Oxford University Press, 1946). Ver pp.318 sq, pp.409 sq

[vi] A influência do hegelianismo na sociologia do conhecimento é constatada na concepção conservadora do saber, como instrumento de adaptação do espírito às situações existentes ao longo da história. Mas, na transposição e valores que lhe corresponde, o hegelianismo exerce uma influência mais ampla, que alcança a teoria sociológica, na medida em que esta assume uma filosofia da história, como em Max Weber e em Karl Marx. Nesse aspecto, o hegelianismo passa uma verdade chamada a se afirmar fora de qualquer quadro de referência, como ausência de limite da vontade universal misteriosa, cuja expressão os mencionados sociólogos representam como ligação entre teodiceia e ideologia revolucionária.

[vii] Mannheim, Karl: op. cit., p. 223.

[viii] Ibid, ibidem.

[ix] Ibid p. 228

[x] Cassirer, Ernst: “O Mito do Estado”, trad. Álvaro Cabral, Rio de Janeiro, Zahar editor, 1976, 316 pp. (1ª edição em Inglês, Londres, 1946).

[xi] Sobre a dialética efetiva em sociologia, ver Gurvitch, Georges: ”Dialectique et Sociologie”, Flammarion, Paris 1962, 312 pp., Col. Science.

[xii] Cf. Mannheim, K: op.cit. p.222

[xiii] Cf. Cassirer, E: op. cit.

[xiv] Cf. Cassirer, E: op. cit., pp. 267/ 294 passim.

[xv] Essa fórmula conceitualista ou discursiva acolhida, inclusive, por Karl Mannheim, de que “toda a existência finita tem de perecer a fim de dar lugar a formas novas e mais perfeitas”, demonstra cabalmente a “ideologia da dialética”, ora posta em questão com a influência do hegelianismo na sociologia, entrave ao avanço dos direitos humanos e das convenções internacionais na ciência política. Note que a limitação dos cientistas políticos em relação à compreensão sociológica dos direitos humanos está observada em Lumier, Jacob (J.): “O antiabsenteísmo como ideologia radical e desvio persecutório na democracia eleitoral: Ensaio sobre os aspectos do radicalismo republicano No regime de voto obrigatório em Brasil”, Rio de Janeiro (RJ), SSF/RIO, agosto 2015, 15 págs. (A4), link: < https://leiturasociologica.files.wordpress.com/2015/08/o-radicalismo-corrigido-copia-3.pdf > Cf. pág.4.

[xvi] Sobre a descoberta da episteme como nova forma de racionalidade e consciência moral, veja Mondolfo, Rodolfo: ‘Sócrates’, tradução Lycurgo Motta, São Paulo, editora Mestre Jou, 2ª edição, 1967, 107 pp. (1ª edição em castelhano, 1959), cf. págs.  57 a 61

[xvii] cf. Hegel, G.W.F.: “Lectures on the Philosophy ou History”, p.16, apud Cassirer, E.: “O Mito do Estado”, op.cit, p.274; tradução em Francês: “La Raison dans la Histoire”, Paris, Ed.10/18, cf. 1965, p.67sq

Os níveis da consciência alienada

Leiturasociologica's Weblog

PSICOLOGIA COLETIVA E SOCIOLOGIA:

Os níveis da consciência alienada na

teoria do fetichismo da mercadoria em Karl Marx

por

Jacob (J.) Lumier

Extraído de “Sociologia dos Sistems Cognitivos” (a ser divulgado em breve).

Neste artigo quero pôr em relevo que o ponto de vista da sociologia é indispensável para ultrapassar o dogmatismo que se projeta sobre a suposta redução do psiquismo coletivo à consciência de classe.

A psicologia coletiva em sua vinculação à sociologia pode ser bem assinalada nas análises que levam ao desocultamento da consciência alienada como fenômeno sociológico descoberto por Karl Marx.

Como se sabe, no“Rascunho da Contribuição à Crítica da Economia Política” (“Grundrisse..”) Marx elabora sobre o problema da consciência alienada em revolta epistemológica não só contra Hegel, mas contra a Economia Política.

Dois níveis são nitidamente distinguidos nessa elaboração de tal sorte que o aspecto propriamente sociológico da consciência alienada vai surgindo…

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