Haverá uma ordem geral da sociabilidade? Observações sociológicas sobre coesão e mobilidade.

Sumário

Haverá uma ordem geral da sociabilidade? Observações sociológicas sobre coesão e mobilidade. 1

Apresentação

Introdução: A mediação comunicativa – Preliminares sobre língua e sociabilidade. 1

As relações do todo e das partes: ou o estatuto da pressão, da atração e da persistência, assim como do volume (extensão) e da participação. 1

O que será coesão social 1

A limitação do enfoque filosófico. 1

O aperfeiçoamento moral 1

O problema da inteligência das ideias lógicas e dos conceitos. 1

Sociabilidade ativa e passiva. 1

Sociabilidade espontânea. 1

O estatuto da mentalidade na oposição entre sociabilidade ativa e sociabilidade passiva. 1

O efeito do todo microssocial 1

A concorrência entre os Nós-outros ativos e os Nós-outros pasivos. 1

 

Apresentação:

A suposição de que as manifestações de sociabilidade são determinadas pelo modo de produção capitalista é falsa. O estudioso que leva a sério suas leituras sobre mudança social e exerce a reflexão sobre a sociedade industrial intrigado por esse tipo  que não se individualiza, já terá anotado que frequentemente as estruturas sociais são estudadas desde o ponto de vista do sistema econômico, como sujeitas à mudança somente nas posições relativas de grupos e classes, em conformidade aos padrões do capitalismo.

Isto quer dizer que o problema da possibilidade mesma da estrutura resta à margem, sendo pouco estudados em sua especificidade os níveis que se diferenciam entre as superestruturas e a infra-estrutura, ou melhor, os níveis
intermediários entre as obras de civilização e a base morfológica da sociedade.

Neste ensaio ultrapassamos o ponto de vista do sistema de produção e elaboramos a partir não de um posicionamento prévio, mas da constatação que é improdutivo discutir problemas de estrutura social sem levar em conta a nítida consciência coletiva da hierarquia específica e referencial de uma unidade coletiva real, como o é a hierarquia das relações com os outros grupos e com a sociedade global ou, designada em modo mais amplo, a hierarquia das manifestações de sociabilidade, a qual só se verifica nos agrupamentos estruturados. Orientação essa bem apresentada no ensaio “O Problema da Possibilidade da Estrutura” https://leiturasjlumierautor.wordpress.com/2017/04/18/o-problema-da-possibilidade-da-estrutura/

A luz da orientação afirmada no referido artigo, postado nesta Web, o presente ensaio revela-se, por sua vez, esclarecedor e complementar, haja vista pôr em relevo e investigar o problema correlato de uma ordem geral da sociabilidade, que antecede qualquer suposição sobre a determinação desta pelo modo de produção capitalista. A verificação de uma ordem geral microssociológica da vida em sociedade  é a condição mínima para que a sociabilidade seja previamente determinada, e atenda às  funções e à dinâmica de reprodução do  sistema econômico.

Introdução: A mediação comunicativa – Preliminares sobre língua e sociabilidade

Em acordo com a teoria sociológica diferencial, compreende-se que todos os Nós-outros se encontram fundados em intuições coletivas no estado virtual (não traduzidas em juízos): “sem a presença das intuições coletivas virtuais, a existência dos Nós-outros seria impossível, como seria impossível a ação dos símbolos que facilitam o funcionamento dos Nós-outros e levam os seus membros à participação”.

Com efeito, a análise sociológica mostra que “a própria imanência dos Eu ao Nós-outros e dos Nós-outros ao Eu não pode efetuar-se se não for a partir de uma base intuitiva, mais não seja que virtual; é nisso precisamente que consiste em última análise a fusão parcial ou interpenetração”.

Ao mesmo tempo, quaisquer que sejam, todos os Nós-outros funcionam como precedendo qualquer mediação comunicativa por meio de sinais e símbolos, que poderia em seguida contribuir para sua conservação, sua consolidação e o seu reforço – o exemplo da língua impondo-se aqui.

Ninguém contestará a importância do papel desempenhado pela língua na aproximação, na ligação, na interpenetração, na participação dos sujeitos individuais e coletivos nos conjuntos práticos. Mas, para que os símbolos de uma língua provoquem os mesmos efeitos em todos que a falam, para que a própria língua se constitua é preciso que ela possa apoiar-se em uma união prévia, em um Nós-outros preexistente.

Conforme o ensinamento realista de Gurvitch que subscrevemos aqui, “a língua não é, portanto, senão um meio para reforçar a interpenetração e a participação em um todo”; “ela não é o fundamento da fusão parcial exatamente porque pressupõe a existência prévia de um Nós-outros”.

Tal é a razão pela qual a sociabilidade por participação em um Nós-outros, embora se apoiando em “todos os meios de mediação oferecidos pelos sinais e pelos símbolos, permanece fundada sobre intuições coletivas virtuais (que podem tornar-se atuais) [i]·.

 

As relações do todo e das partes: ou o estatuto da pressão, da atração e da persistência, assim como do volume (extensão) e da participação.

 

► Quando se fala de sociabilidade, cujas manifestações são integradas, está implicada a distinção entre macro e microssociologia, notadamente, como veremos, em relação ao problema da mobilidade e da formação de hierarquias das formas de sociabilidade, a chamada “coesão social”, por diferença de “disparidade”.

O sociólogo sabe que está diante dos graus de fusão das consciências (entreabertas) e que, em consequência, a análise diferencial não aplica um esquema prévio das relações do todo e das partes em geral, mas busca em cada caso e em cada situação verificar o estatuto da pressão, da atração e da persistência, assim como do volume (extensão) e da participação, que não podem ser estabelecidos uma vez por todas.

Quanto ao problema de uma hierarquia que tenha alcance geral, e seja válida entre as diferentes manifestações da sociabilidade, problema que se coloca desde o ponto de vista sociológico quanto do ponto de vista filosófico, observa-se que só pode tratar-se de tendências e de probabilidades, e que isto confirma e justifica uma vez mais a necessidade de distinguir entre o aspecto microssociológico e o aspecto macrossociológico.

Vale dizer: do ponto de vista sociológico, só é aceitável considerar hierarquias no interior de quadros sociais precisos, especialmente no interior de diferentes tipos de estruturas sociais.

Uma escala geral e imanente é uma impossibilidade que se aplica em particular às relações entre os três graus de intensidade da sociabilidade por fusão parcial: Massa, Comunidade, Comunhão.

 

O que será coesão social

Com efeito, mesmo para os quadros sociais particulares dependentes da macrossociologia, o papel da pressão, da atração e da persistência, assim como o papel do volume (extensão) e o da participação não podem ser estabelecidos uma vez por todas e, dado que o mesmo varia igualmente segundo as conjunturas, as estruturas sociais e os tipos de sociedades, o sociólogo admite igualmente a impossibilidade em conjecturar sobre o que será a “coesão social”.

Dado que, no aspecto microssociológico, a pressão varia em proporção inversa da intensidade da participação, e esta, por sua vez, varia em proporção inversa do volume, ao passo que a força de atração é diretamente proporcional ao grau da fusão, o papel respectivo da Massa, da Comunidade, da Comunhão varia com cada quadro de referência.

►Tudo o que se pode dizer é que a presença virtual ou atual, seja no seio de um Nós-outros, no de cada grupo, seja no seio de cada conjunto, e de cada sociedade global, dos três tipos de sociabilidade em concorrência, revela-se um fator essencial da mobilidade desses quadros sociais.

Então, em conformidade com Gurvitch temos o seguinte:

O enfraquecimento ou o reforço da Comunhão como elemento de um grupo ou de uma sociedade podem contribuir para o seu desenvolvimento.

Tal é o caso de alguns tipos de sociedades arcaicas onde predomina a mentalidade mística.

Nessas sociedades, o enfraquecimento da Comunhão em proveito da Comunidade é acompanhado da diferenciação das esferas religiosa, mágica, política, jurídica, econômica, e da atualização das “relações com outrem intergrupais e interindividuais” que vêm limitar a sociabilidade por fusão parcial.

Nas sociedades históricas nota-se o movimento contrário: a tendência da sociedade econômica, onde predomina o elemento da Massa, a intensificar no seu seio comunidades ou mesmo comunhões;

Igualmente, em certas conjunturas difíceis do fim do século XIX e primeiro quartel do século XX, nota-se a tendência da sociedade internacional para favorecer a passagem do elemento da Massa ao da Comunidade ou mesmo ao da Comunhão.

►Em conclusão, se pode constatar em acordo com a análise sociológica diferencial que esses dois movimentos inversos, em diferentes espécies da sociedade arcaica e da nossas sociedade históricas, marcam tendências a reforçar por meios contrários a “coesão social” de um tipo particular de sociedade. Acrescente-se a isso o fato de que qualquer sociedade global, sendo composta de uma multiplicidade de agrupamentos particulares, todos esses agrupamentos diferentes podem tornar-se o teatro de um enfraquecimento ou de um reforço, segundo as circunstâncias, dos elementos da Comunhão, da Comunidade e da Massa.

Assim, por exemplo, no mesmo momento em que a Comunidade prevalece sobre a Massa nos agrupamentos de localidade (cujo bloco forma a sociedade política), a Massa pode prevalecer sobre a Comunidade nos agrupamentos de atividade industrial (cujo bloco constitui a sociedade econômica), como aconteceu nos começos do capitalismo.

‹  Em sua análise sociológica, Gurvitch esclarece o seguinte:

Em relação à identificação da Comunidade com a “união fundadora subjacente a cada grupo”, é preciso a predominância de um Nós-outros diante dos outros Nós-outros para que a unidade de um grupo possa afirmar-se e que se estabeleça certa coesão entre esses Nós-outros.

Todavia, como se sabe, não está em modo algum provado que seja para isso indispensável que, em o Nós-outros unificador, o grau médio – quer dizer, a Comunidade – predomine sobre os dois extremos que são a Massa e a Comunhão.

Antes disso, o que se constata é que, no geral, os grupos organizados são mais favorecidos pela predominância no seu seio da Comunidade.

►Quanto à idealização da Comunidade (Solidarismo), nota Gurvitch que a origem desta passagem dos juízos de realidade aos juízos de valor levando à mencionada idealização da comunidade reside (a) tanto na “identificação involuntária do coletivo com a pressão”, por um lado e, por outro lado, na “identificação do individual com a atração”, (b) quanto na atribuição à paridade entre uma e outra do sentido de uma equivalência entre os valores morais do conjunto e os dos seus membros – observando-se aqui a falta de distinção sociológica entre o que experimentam os participantes de uma Comunidade e o que ela é na realidade, já que os dois não correspondem sempre entre si.

Como qualquer manifestação da sociabilidade e mais geralmente qualquer quadro social, a Comunidade pode (a) servir para realizar tanto valores negativos quanto valores positivos; (b) pode acontecer também que o coletivo não exerça nenhuma pressão – como é o caso, p.ex., nas camadas mais profundas da realidade social e nas Comunhões; (c) pode acontecer ainda que o individual não exerça nenhuma atração – como é o caso quando ele é dominado pelo hábito, pela rotina, etc.; (d) enfim, a paridade entre pressão e atração pode, segundo o seu conteúdo, servir tanto o mal quanto o bem, ou ainda permanecer completamente neutra do ponto de vista dos valores (que são eles próprios essencialmente variáveis).

Quanto à confusão habitual do aspecto microssociológico e do aspecto macrossociológico em relação ao problema da Comunidade, o sociólogo deve ultrapassar a falta de distinção entre (a), por um lado, a tendência de alguns agrupamentos e conjuntos a favorecer no seu seio a atualização desses “elétrons sociais” que são as comunidades e (b), por outro lado, aquelas próprias unidades coletivas macrossociológicas que favorecem em seu seio a atualização das comunidades.

Assim, p.ex., os agrupamentos de localidade, por um lado, e, por outro lado, a Nação, ambos favorecem concretamente no seu seio a atualização do elemento microssociológico da Comunidade.

Isto se deve, dentre outras razões, ao fato de, tal como as Comunidades, os agrupamentos de localidade manifestarem certa tendência à racionalidade e à mentalidade reflexiva, por um lado e, por outro lado, à multifuncionalidade (formação dos “blocos de localidades”, bem conhecidos notadamente nos regimes federativos).

Entretanto, nosso autor remarca que, se levarmos em conta a distinção entre a microssociologia e a macrossociologia, se notará que nos agrupamentos de localidade podem atualizar-se, em algumas estruturas e conjunturas, tanto os “elétrons sociais” da Massa e da Comunhão quanto o da Comunidade, e que, inversamente, esta última pode atualizar-se no seio de qualquer agrupamento ou conjunto, quando os seus tipos, as suas estruturas ou circunstâncias concretas, muito variáveis, levam a isso.

Quanto à aplicação do ponto de vista filosófico a uma hierarquização prévia das relações entre Massa, Comunidade e Comunhão, notam-se alguns argumentos ou constatações tidos como prova de ser a mesma completamente irrealizável.

A limitação do enfoque filosófico

Com efeito, na análise sociológica sobre a aplicação do ponto de vista filosófico ao problema de uma hierarquia que seja geralmente válida, se pode destacar o seguinte:

Dado a particularização e a localização de todos os valores morais, “que são estritamente singularizados”, admite-se que, para serem entrevistos ou afirmados, alguns deles podem exigir quer comunhões, quer comunidades, quer massas.

Entretanto, afirma-se igualmente que, mesmo se comparados esses três graus da sociabilidade, desde o ponto de vista de um único e mesmo valor positivo, não é certo que a intensidade com a qual o experimentamos contribua sempre para o aperfeiçoamento moral de um Nós-outros ou do grupo em questão;

O aperfeiçoamento moral

O aperfeiçoamento moral de um Nós-outros ou de um grupo pode, com efeito, consistir ora na passagem da Massa à Comunhão ora, pelo contrário, no repouso da Comunhão, que se enfraquece em Comunidade e mesmo em Massa.

Isso tanto mais que a intensidade com a qual se experimenta e se afirma coletivamente (ou individualmente) um valor é muitas vezes compensada pelo empobrecimento do pluralismo das escalas de valores equivalentes e concorrentes.

Haveria, portanto, uma impossibilidade em atribuir um privilégio moral a priori, seja à Comunhão ou à Comunidade em prejuízo da Massa.

►Nada obstante, é admitido que, sendo na Massa mais superficial a interpenetração das consciências, por esta razão, as duas outras manifestações da sociabilidade constituem centros geralmente mais favoráveis para a atualização da intuição coletiva dos valores.

Mas não é tudo.  Para o sociólogo não está em modo algum provado do ponto de vista do aperfeiçoamento moral, nem que a intuição direta dos valores seja sempre superior à fidelidade aos deveres, ou às imagens simbólicas ideais, nem que, mais geralmente, o fato de experimentar valores seja uma condição indispensável em qualquer circunstância ou situação concreta para aceder à moralidade.

Em realidade social, a respeito disto nada pode ser afirmado de antemão, porque a filosofia moral não é mais do que uma “reflexão posterior” sobre a experiência moral, que o sociólogo constata ser uma experiência imprevisível e infinitamente variável.

Tendo em conta essa imprevisibilidade, deve-se constatar que o papel efetivo desempenhado pela Massa, pela Comunidade e pela Comunhão na vida moral, e os graus de valor que uma filosofia não-dogmática poderia atribuir-lhes são essencialmente variáveis em função das diferentes escalas de valores vividos e aceites.

Desse modo, a filosofia moral não pode conceder um privilégio de princípio à Comunhão ou à Comunidade, atribuindo-lhe um valor mais alto do que à Massa.

O problema da inteligência das ideias lógicas e dos conceitos

►A mesma orientação sociológica para acentuar a variabilidade deve ser considerada em relação ao problema da inteligência das ideias lógicas e dos conceitos, e o sociólogo insiste igualmente na necessidade de a filosofia resistir a qualquer tentativa de fixar uma hierarquia universalmente válida entre Massa, Comunidade e Comunhão.

Os argumentos de fato, as constatações são as seguintes:

É certo que as intuições intelectuais e os juízos coletivos são evidentemente mais favorecidos pelas comunhões e comunidades do que pelas massas (as comunhões tendem antes para as intuições, enquanto as comunidades tendem para as conceituações, que são resultantes do juízo).

No entanto, constata-se ser possível comungar com bastante vigor nas ideias mais falsas e nos conceitos mais inúteis e mais grosseiramente afastados da verdade, e isso da mesma maneira em que a Massa pode entrever ideias verdadeiras, mesmo se ela não se inteira suficientemente disso.

Quer dizer, conforme as estruturas e as circunstâncias concretas, ora é a passagem da Massa à Comunhão que liberta a inteligência e a torna perspicaz, ora pelo contrário, é a passagem da Comunhão tornada demasiado estreita à Massa que produz esse efeito.

A razão disso é que todos esses graus dos Nós-outros, valendo para todas as formas de sociedade e todos os quadros sociais, têm os seus próprios “ídolos”, no sentido que este termo tem para Francis Bacon, contra os quais aqueles graus dos Nós-outros são forçados a lutar para se elevarem à intelecção.

Tais “ídolos” ou obstáculos para o conhecimento não são os mesmos nas comunhões, nas comunidades e nas massas, cujo papel efetivo no avanço ou no recuo do saber depende, portanto, dos tipos de estrutura, das conjunturas concretas (variáveis) e dos “obstáculos-ídolos” particulares encontrados no caminho pelas intelecções diferentes.

Em resumo: o papel efetivo desempenhado pela Massa, pela Comunidade e pela Comunhão na intelecção das ideias, e mais geralmente no saber, assim como o valor cognitivo que uma epistemologia não-dogmática lhe poderia atribuir, varia em função de diferentes quadros de referências lógicas reconhecidas como válidas.

►Mas não é tudo. Essa orientação realista da sociologia diferencial acentuando a impossibilidade de uma hierarquia universalmente válida entre Massa, Comunidade e Comunhão, bem como insistindo na necessidade da filosofia resistir a qualquer tentativa de fixar uma hierarquia nessa matéria, tem procedência no aprofundamento da análise da sociabilidade humana e na pesquisa da variabilidade.

Sociabilidade ativa e passiva

Desta forma, quanto ao estudo da oposição entre sociabilidade ativa e sociabilidade passiva nota-se que essa oposição se entrecruza (a) com a oposição já sublinhada que se afirma entre Massa, Comunidade e Comunhão; (b) com essa outra oposição que se manifesta entre os Nós-outros e as “relações com outrem”, isto é, entre sociabilidade por fusão parcial e sociabilidade por oposição parcial.

A oposição entre Nós-outros e relações com outrem, juntamente com a que opõe a sociabilidade espontânea às suas expressões organizadas, incluem-se entre os dados primeiros da condição humana e, portanto, são dados básicos de qualquer análise sociológica, sendo impossível negar a sua realidade sem recorrer a construções artificiais.

►Em acordo com a classificação de Gurvitch, a oposição entre sociabilidade passiva e sociabilidade ativa revela-se uma distinção cujo campo de aplicação, embora estando primordialmente ligado ao domínio microssociológico, o ultrapassa, estendendo-se igualmente à esfera macrossociológica, e desse modo permitindo verificações diretas – situando-se no mesmo caso as oposições entre sociabilidade uni, multi e suprafuncional, bem como a sociabilidade servindo o interesse particular e a sociabilidade servindo o interesse geral.

Além disso, nota-se que as principais distinções entre os tipos de sociabilidade se afirmam primeiro no seio da sociabilidade espontânea.

Sociabilidade espontânea.

Como se sabe, entre as camadas propriamente espontâneas da realidade social, incluindo as atitudes coletivas, as condutas criadoras, os valores e ideias coletivas, os estados e atos mentais, por um lado, e o nível das organizações, por outro lado, intercalam-se camadas intermediárias, tais como os modelos flexíveis, as práticas e os papéis sociais.

Nada obstante, é possível sob o aspecto horizontal em que se verificam as manifestações da sociabilidade pôr de um lado tudo o que é fixado, preestabelecido, cerimonial e estritamente regulamentado na vida social, e pôr de outro lado tudo que não o é – sendo constatado que essa distinção surge em todos os níveis da realidade social.

O estatuto da mentalidade na oposição entre sociabilidade ativa e sociabilidade passiva

►Uma vez estabelecida essa dicotomia, podemos destacar os seguintes pontos na descrição sociológica da oposição entre sociabilidade ativa e sociabilidade passiva:

A sociabilidade é relativamente passiva quando a coloração afetiva própria à mentalidade e às atitudes que ela implica como passiva, predomina sobre as volições e as intelecções que se poderiam desencadear;

A sociabilidade é relativamente ativa quando a coloração voluntária, própria à mentalidade e às atitudes que ela implica como ativa, predomina sobre a afetividade e a intelecção que a acompanham. O caráter ativo manifesta-se pela afirmação de uma obra comum a realizar (direito, educação, conhecimento, moral, por menor grau que seja tal obra).

Fazendo uma ressalva, Gurvitch tem por muito raro que os Nós-outros (e as relações com outrem) que se afirmam como centros de atos mentais (intuições ou juízos) persistam no estado passivo, mesmo quando predominam a emotividade e a intelecção.

Pelo contrário, quando os Nós-outros (e as relações com outrem) não constituem, do ponto de vista mental, mais do que centros de estados psíquicos e de opiniões, persistem quase sempre efetivamente passivos – a não ser que se trate de estados volitivos. Passividade esta que atinge o seu máximo quando se trata de Nós-outros inconscientes e subconscientes, o que é um caso muito propagado.

Inversamente, o caráter ativo dos Nós-outros (e das relações com outrem) encontra-se no seu máximo quando a predominância das volições nas suas mentalidades e atitudes se combina com a sua afirmação como centros ou focos de atos mentais e, portanto, como centros de escolha, de decisão e de criação.

 O efeito do todo microssocial

 ►Dado que, por efeito do todo microssocial (os Nós-outros são fenômenos sociais totais e soberanos em escala microssociológica, portanto, só apreensíveis em parte, e ultrapassam o plano conceitual) é a resultante ativa ou passiva das manifestações da sociabilidade que conta efetivamente na realidade social, o sociólogo constata que essa resultante se manifesta em modo muito evidente nas atitudes, “as quais permitem muitas vezes a mensuração” (mediante o coeficiente de discordância nas pesquisas de opinião) e, por seu intermédio nas condutas coletivas [ii].

Daí, com efeito, a constatação de que as atitudes e as condutas que têm por base os Nós-outros, de predominância quer ativa, quer passiva, não serem difíceis de diferenciar.

Encontram-se exemplos de Nós-outros passivos em algumas fusões parciais em que, do ponto de vista mental, predominam: (a)- reações a situações análogas (Nós-outros desempregados, Nós-outros refugiados); (b)- impressões e lembranças coletivas respeitantes a um grande homem (Nós-outros partidários de…), ou: (c)- respeitantes a um acontecimento histórico; (d)- a aceitação pura e simples de um valor, de uma idéia, de uma doutrina, de uma tradição ou mesmo de um conjunto de slogans (Nós-outros partidários da ordem, do progresso; Nós-outros pessoas de direita, de esquerda, etc.; Nós-outros racionalistas, etc.); (e)- a fidelidade à amizade, à camaradagem; afinidade provocada pela proximidade de idade (Nós-outros da turma do ano “x”…; Nós-outros antigos alunos de…); (f)- o uso da mesma língua.

A concorrência entre os Nós-outros ativos e os Nós-outros pasivos

► Pelo fato do seu automatismo, nota-se que alguns desses Nós-outros podem tornar-se semiconscientes ou, por tal ou qual razão, encontrarem-se recalcados no inconsciente (Nós-outras pessoas idosas, Nós-outros doentes, Nós-outros antigos refugiados ou desempregados, Nós-outros reprovados várias vezes, etc.) ou mesmo nunca sobressair.

Nestes casos, eles atingem o máximo de passividade e não se repercutem nas atitudes e nas condutas senão em modo indireto – por exemplo: por inibições e complexos.

Noutros casos, sobretudo quando se combinam com atos mentais (por exemplo: os Nós-outros linguísticos e os Nós-outros apreendendo valores ou ideias ou aceitando uma doutrina) eles podem levar indiretamente os seus participantes à ação – mas não é a ação que está na sua origem e eles não são diretamente centros de ação.

►Pelo contrário, os Nós-outros que se atualizam e prevalecem (a)- no seio das equipes desportivas, no seio das orquestras, das equipes de pesquisadores e de cientistas; (b)- no seio das fábricas e das empresas, dos sindicatos, das cooperativas, das municipalidades; (c)- no seio dos Estados, das Igrejas, das classes sociais, das Nações, das sociedades internacionais, etc., são sempre Nós-outros mais ou menos ativos;  têm obras comuns a levar a cabo e impulsionam os agrupamentos e as sociedades onde eles predominam tanto a constituir-se como a empreender esforços contínuos e concentrados.

Os Nós-outros de que se trata neste caso, portanto, do ponto de vista mental, são antes de mais centros de ação coletiva, de interpenetrações e fusões parciais das vontades.

É evidente que os Nós-outros ativos não podem ser nem semiconscientes nem inconscientes; trata-se de centros de atividade consciente e comum que, sob algumas condições, podem intensificar-se em centros de inovação e de criação coletivos.

Sem dúvida, a concorrência entre os Nós-outros ativos e os Nós-outros passivos pode levar a situações em que a sociabilidade passiva consiga por vezes limitar a sociabilidade ativa ao ponto de paralisá-la, ao menos parcialmente – o que se observa em grupos tais como as classes sociais, as famílias, ou mesmo os partidos políticos (quando são numerosos e fracos); e nas sociedades globais tais como as Nações (divididas) e as Sociedades Internacionais (nas situações de desordem).

Mais informação ver  https://leiturasociologica.wordpress.com/psiquismo-e-sociabilidade-68578-2/

***

 

Fim Do Artigo “O Estudo Sociológico Dos Nós-outros”

Rio de Janeiro, 16 de Dezembro de 2009/Julho 2010

©2010 by Jacob (J.) Lumier

 

 

[i] Cf. Gurvitch, Georges: “A Vocação Atual da Sociologia“, vol. I op.cit. pp.162 a 169.

[ii] Gurvitch, Georges (1894-1965): “A Vocação Actual da Sociologia” – vol. 1 e vol. 2, Lisboa, Cosmos, 1968 / 1979.

Advertisements

O Esquema de Análise Diferencial em Microssociologia

 

Sumário

O Esquema de Análise Diferencial em Microssociologia. 1

Os doze planos da pesquisa microssociológica da variabilidade segundo a classificação de Gurvitch   2

Resumo dos enunciados básicos de teoria sociológica diferencial: 2

As Relações com Outrem.. 3

As manifestações da sociabilidade como fenômenos de mudança social 5

As ambiguidades dialéticas. 7

 

O Esquema de Análise Diferencial em Microssociologia.

►Apreciado nele mesmo, o esquema para a análise diferencial em microssociologia distingue o seguinte:

1) – a sociabilidade por fusão parcial nos Nós-outros, ou que se manifesta na participação nos Nós-outros, cujos graus de intensidade são a Massa, a Comunidade e a Comunhão.

Na Massa, a pressão (“exterior”) do conjunto sobre os participantes é a mais forte dos três graus, e a atração (“interior”) do Nós-outros é a mais débil; na Comunidade prevalece a média e na Comunhão ocorre o inverso da Massa, de tal sorte que o volume desta última pode ter uma expansão quase ilimitada, enquanto a Comunhão se estreita para manter a força e a profundidade da fusão em um Nós-outros.

2) – a sociabilidade por oposição parcial em um Nós-outros, ou que se manifesta nas relações com outrem, sejam relações interpessoais ou relações entre Eu, Tu, ele, sejam relações intergrupais.

É na fusão nos Nós-outros que se afirma a tomada de consciência da unidade relativa desse Nós-outros e do mundo de significados práticos ou mundo de realidade que desse modo se abre. O Nós-outros revela-se a expressão concreta da consciência coletiva.

Vale dizer, sem o estudo dos Nós-outros restaria inacessível um imenso conjunto de significados, notando-se a grande riqueza que a descoberta desse mundo de significados microssociológicos aporta à sociologia do conhecimento, à sociologia da moral, à do direito etc.

No plano das relações com outrem, todavia, a unidade resta inconsciente, já que os juízos, as ideias, os símbolos atualizados neste plano se reduzem aos horizontes de sócios, e reproduzem as significações que têm sede em um Nós-outros, em um grupo, em uma classe, ou em uma sociedade global.

Os doze planos da pesquisa microssociológica da variabilidade segundo a classificação de Gurvitch [i].

►Vimos que é pela microssociologia que se põe em relevo a variabilidade no interior de cada grupo, de cada classe, de cada sociedade global, de cada estrutura.

Na classificação de Gurvitch, a pesquisa microssociológica da variabilidade descobre doze planos, cujas coordenadas básicas são as duas espécies de sociabilidade mencionadas: (1) a sociabilidade por fusão parcial nos Nós-outros e, (2) a sociabilidade por oposição parcial em um Nós-outros.

Cada uma dessas duas espécies microssociológicas se atualiza em três graus: 1) – os três graus de fusão nos Nós-outros, correspondendo, como já mencionado, à Massa, Comunidade, à Comunhão, e 2) – os três graus de oposição parcial em um Nós-outros, correspondendo por sua vez às relações com outrem por afastamento, às relações mistas, às relações por aproximação.

As relações com outrem são observadas desde o ponto de vista da dialética sociológica (complexa), sobretudo a dialética das três escalas – o microssocial, o parcial e o global, – sob os seguintes aspectos: (a) – como as relações variáveis que se manifestam entre os diferentes Nós-outros, os grupos, as classes, as sociedades globais; (b) – como as relações que, em acréscimo, variam com a oposição entre sociabilidade ativa e sociabilidade passiva, sem deixar, todavia, de manter sua eficácia de conjuntos ou de quadros sociais, já que são componentes fundamentais da estruturação dos grupos.

Resumo dos enunciados básicos de teoria sociológica diferencial:

►As manifestações da sociabilidade, os grupos, as classes sociais, mudam de caráter em função das sociedades globais em que estão integrados; inversamente, as sociedades globais se modificam de cima a baixo sob a influência da mudança de hierarquia e de orientação das primeiras.

►As manifestações da sociabilidade compreendem a Massa, a Comunidade, a Comunhão: os três graus de fusão ou participação nos Nós-outros, fusão esta que não é somente a tomada de consciência da unidade relativa de um Nós-outros, mas é também a de todo um mundo de significados, sendo nesta tomada de consciência afirmado o grupo em formação.

►A sina dos Nós-outros, dos grupos, das sociedades inteiras é se mover não somente na esfera da complementaridade por dupla compensação, mas é igualmente se mover na esfera da ambiguidade que se exaspera facilmente em ambivalência.

►As manifestações da sociabilidade como fenômenos de mudança social se encontram em diferentes graus de atualidade e virtualidade para combaterem-se, complementarem-se ou combinarem-se em cada unidade coletiva real; são os fenômenos sociais totais de caráter flutuante ou instável, frequentemente espontâneos ou anestruturais, mas que são utilizados pelos agrupamentos particulares em seus processus de estruturação.

As Relações com Outrem

As relações com outrem não podem ser identificadas nem às fases históricas da sociedade global, nem aos agrupamentos particulares.

►Em microssociologia estudam-se as relações com outrem por afastamento, as relações mistas, as relações por aproximação.

As relações com outrem são observadas (a) – como as relações variáveis que se manifestam entre os Nós-outros, entre os grupos, entre as classes, entre as sociedades globais; (b) – como as relações que, em acréscimo, variam com a oposição entre sociabilidade ativa e sociabilidade passiva, todavia sem deixar de manter sua eficácia de conjuntos ou de quadros sociais, já que são os componentes não-históricos fundamentais da estruturação dos grupos.

Deste ponto de vista, em cada unidade coletiva real se encontram os Nós-outros e as relações com outrem em maneira espontânea, que são utilizadas pelas unidades coletivas para se estruturarem na medida em que o grupal e o global imprimem a sua racionalidade mais ou menos histórica e a ligação estrutural a essas manifestações microscópicas da vida social.

Vale dizer: as manifestações da sociabilidade são hierarquizadas do exterior ou de fora para dentro, sem perderem sua característica anestrutural. É essa experiência dialética que tornam as relações humanas tão problemáticas, variáveis e escorregadias para a tecnocratização dos controles.

As relações com outrem não podem ser identificadas nem às fases históricas da sociedade global, nem aos agrupamentos particulares. E isto é assim porque a diversidade irredutível dos Nós-outros faz com que tais manifestações da sociabilidade por relações com outrem não admitam síntese que ultrapasse a combinação variável dessas relações microscópicas, como espécie de sociabilidade.

►Quer dizer, mesmo no estado muito valorado pelos estudiosos da história social, quando as relações com outrem são distribuídas hierarquicamente e servem de ponto de referência a uma estrutura social (relações com o Estado, relações com a classe empresarial, relações com os estratos dominantes, com os estratos intermediários, com os produtores, etc.) a síntese não ultrapassa o estado de combinação variável. É pela microssociologia que se põe em relevo a variabilidade no interior de cada grupo, de cada classe, de cada sociedade global.

Só é possível falar de grupo quando em um quadro social parcial aparecem as seguintes características: 1) – predominam as forças centrípetas sobre as centrifugas; 2) – os Nós-outros convergentes predominam sobre os Nós-outros divergentes e sobre as diferentes relações com outrem.

Quer dizer, é dessa maneira e nessas condições que o quadro do microcosmo das manifestações de sociabilidade que constitui um grupo social particular pode afirmar-se no seu esforço de unificação como irredutível à pluralidade das ditas manifestações.

Daí a percepção desenvolvida na sociologia de que em todo o microcosmo social há virtualmente um grupo social particular que a mediação da atitude coletiva faz sobressair.

As manifestações da sociabilidade, os grupos, as classes sociais, mudam de caráter em função das sociedades globais em que estão integrados; inversamente, as sociedades globais se modificam de cima a baixo sob a influência da mudança de hierarquia e de orientação das primeiras.

As manifestações da sociabilidade como fenômenos de mudança social

►Na orientação do realismo relativista sociológico, tem-se a compreensão de que a formação da preeminência do todo (complexo de significações existente), isto é, a totalização como formação social, se manifesta igualmente em escala microssociológica nos diferentes Nós-outros, tanto quanto “nos grupos, nas classes e nas sociedades”, a par de manifestarem-se nos “Eu” participantes.

Como se sabe cada ‘Eu’ participa inevitavelmente dos conjuntos sociais mais diversos que lhe dão aos seus membros os critérios para chegar a uma integração relativa e variada das tendências contrárias ou complementares próprias de toda a pessoa humana.

Portanto, essa constatação dos âmbitos da totalização torna imprescindível a microssociologia do conhecimento, havendo uma dialética complexa entre esta última, o âmbito parcial e o global: ou seja, “as manifestações da sociabilidade, os grupos, as classes sociais, mudam de caráter em função das sociedades globais em que estão integrados; inversamente, as sociedades globais se modificam de cima a baixo sob a influência da mudança de hierarquia e de orientação das primeiras”.

Em consequência, as manifestações da sociabilidade como fenômenos de mudança social se encontram “em diferentes graus de atualidade e virtualidade para combaterem-se, complementarem-se ou combinarem-se em cada unidade coletiva real”; são “os fenômenos sociais totais de caráter flutuante ou instável, frequentemente espontâneos ou anestruturais”, mas que são “utilizados” pelos grupos em seus processus de estruturação” .

►As manifestações da sociabilidade compreendem a Massa, a Comunidade, a Comunhão: os três graus de fusão ou participação nos Nós-outros, fusão esta que não é somente a tomada de consciência da unidade relativa de um Nós-outros, mas é também a de todo um mundo de significados, sendo nesta tomada de consciência afirmado o grupo em formação.

Aliás, já assinalamos que o mundo de significados acessível à consciência por meio dos Nós-outros seria inacessível de outra maneira, já que as “relações com outrem” só alcançam as significações que reconduzem aos horizontes limitados de ‘sócios’ e reproduzem os juízos, as idéias, os símbolos dos Nós-outros em que têm sede e, por meio destes, os de um grupo, uma classe social, ou uma sociedade.

Se os Nós-outros representam um dos primeiros focos do movimento dialético na realidade social, as relações com outrem nada mais fazem que tornar mais amplo esse movimento – tomando-se aqui os Nós-outros como fusões parciais onde os membros se afirmam de uma só vez como participantes em um todo e irredutíveis, unidos pela interpenetração e múltiplos; enquanto que as relações com outrem compreendem as manifestações de sociabilidade pressupondo os Nós-outros.

Entretanto, há neste ponto um duplo aspecto da dialética que nosso autor põe em relevo: (a) – mais os membros de um Nós-outros são nele efetivamente integrados, menos eles precisam de relações com os outros que nele igualmente tomam parte e, inversamente, (b) – menos eles são efetivamente integrados em um Nós-outros, mais eles precisam, a título de compensação, de relações com os outros intrínsecos ou extrínsecos a esse Nós-outros.

Deste ponto de vista se pode dizer que: a Comunidade é incontestavelmente um foco mais propício às múltiplas relações com outrem do que a Comunhão; o erro em se apreciar a Massa como um foco ainda mais favorável às relações com outrem do que a Comunidade se deve exclusivamente ao fato de que, neste caso, se trata notadamente de fusão a distância e freqüentemente de ampla envergadura.

A sina dos Nós-outros, dos grupos, das sociedades inteiras é se mover não somente na esfera da complementaridade por dupla compensação, mas é igualmente se mover na esfera da ambigüidade que se exaspera facilmente em ambivalência.

As ambiguidades dialéticas

As compensações verificadas entre Massa, Comunidade e Comunhão (os três graus de intensidade dos Nós-outros) tomam freqüentemente um caráter de ambigüidade e até de ambivalência.

O primeiro aspecto dessa ambigüidade entre Massa, Comunidade e Comunhão, como graus de fusão em um Nós-outros, é verificado em torno da extensão e da intensidade de fusão. Quer dizer, como já mencionamos quanto mais o volume das fusões parciais é mais amplo, menos elas são intensas.

No segundo aspecto, nota-se que a Massa, a Comunidade, e a Comunhão podem se afirmar uma por relação à outra, de uma só vez, como diminuições e como aumentos sucessivos de pressão.

Com efeito, a Massa (a fusão mais superficial) se apresenta à Comunidade (e esta à Comunhão) como um fardo e opressiva. Inversamente, a Comunhão se afirma como libertadora das pressões da Comunidade e com maior razão das pressões da Massa. Sublinha Gurvitch que isso se deve tanto aos graus da força de atração e de repulsão, exercidas por essas manifestações dos Nós-outros sobre seus membros, quanto aos graus de participação destes últimos nas primeiras.

►Todavia, nosso autor admite que os focos de atração e de repulsão mudam de lugar (…). Quer dizer, a Comunhão tem tendência a estreitar não somente sua extensão, mas igualmente o conteúdo daquilo no que se comunga. Por sua vez, sobretudo quando é de ampla envergadura, a Massa se mostra amiúde mais generosa e mais rica em conteúdos postos em jogo do que a Comunidade, sobretudo do que a Comunhão. Então, a Massa se apresenta como libertadora das pressões da Comunidade e esta como libertadora dos estreitamentos opressivos das comunhões.

No terceiro aspecto da ambigüidade dialética tocando ainda a relação entre Massa, Comunidade e Comunhão, nota-se na análise sociológica que essas manifestações dão ensejo a contradições flagrantes nos juízos de valor.

Ou seja, como já o mencionamos, o que é libertação para os participantes sem reserva é ambivalência penível para os recalcitrantes e servidão para aqueles que ficam de fora, – advindo daí as contradições nos juízos de valor em um conjunto macrossocial relativamente às três manifestações dos Nós-outros.

O quarto exemplo refere-se à aplicação do procedimento por ambigüidade dialética no estudo das relações com outrem. Já notamos que as relações mistas são aquelas onde alguém se aproxima se distanciando e onde se distancia se aproximando.

Sob o aspecto ativo, tratam-se das trocas, relações contratuais, relações de crédito, promessas diversas. Apesar do seu caráter fundado sobre a reciprocidade nota-se certa ambigüidade nessas relações. Elas implicam de uma só vez certa harmonia de interesses quanto à validade das obrigações previstas, e um conflito de interesses quanto à interpretação de suas cláusulas materiais e dos modos de sua execução.

Essa ambigüidade se exaspera em ambivalência quando essas relações com outrem de caráter misto tomam uma forma passiva, já que os indivíduos, grupos, sociedades (os Eu e os Outrem) são de uma só vez atraídos e repelidos uns pelos outros, sem que cheguem a se dar conta da parte de elementos negativos e positivos nessas confusões.

Além disso, que podem surgir antagonismos entre Eu, Outrem e Nós-outros, assim como entre as manifestações de sociabilidade, os grupos e as sociedades globais – quer dizer, é possível a ruptura da reciprocidade de perspectiva ou da implicação mútua a que tais elementos tendem habitualmente.

Uma mudança sobrevinda em um Nós-outros posto diante de um dilema imprevisto impulsiona certos Eu participantes seja a tornarem-se heterogêneos a esse Nós-outros, seja a participarem de outros Nós-outros. Ou então acontece que em um Nós-outros, no lugar da Comunidade a que um Eu permanece fiel, é o elemento da Massa que se encontra acentuado.

►Quanto à tendência para a reciprocidade de perspectivas é a mesma manifestada habitualmente pelo individual e o social em todas as suas escalas: (a) – em nível dos Nós-outros, onde um paralelismo se revela entre, por um lado, as pressões exercidas pela Massa sobre a Comunidade ou por esta sobre a Comunhão e, por outro lado, as pressões que no indivíduo mesmo o participante da Massa exerce sobre o participante da Comunidade, e este ultimo sobre o participante da Comunhão; (b) – em nível dos grupos, onde, à luta entre os diferentes agrupamentos em que o indivíduo participa, corresponde a fragmentação entre os diferentes Eu do mesmo indivíduo desempenhando nesses grupos os diversos papeis sociais. (c) – em nível das classes sociais e das sociedades inteiras, que elaboram seus critérios de harmonização da personalidade humana (é o chamado problema da “personalidade de base”) [4].

***

Mais informação tecle aqui: https://leiturasociologica.wordpress.com/a-microssociologia-na-formacao-dos-grupos-sociais-e-seus-efeitos-sobre-as-estruturas-sociais/

***

[i] Gurvitch, Georges: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, trad. Mário Giacchino, Caracas, Monte Avila, 1969, 289pp (1ªedição em Francês: Paris, PUF, 1966). Págs. 55 sq. Ver também do mesmo autor “Dialectique et Sociologie”, Paris, Flammarion, 1962, 312 pp., col. Science.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apresentação do e-Book Cultura e Consciência Coletiva

Ícone+legenda SSF_RIOpeq

CULTURA E CONSCIÊNCIA COLETIVA:
Leituras Saint-simonianas de Teoria Sociológica – por Jacob (J.) Lumier
http://www.oei.es/salactsi/lumier.pdf

***

APRESENTAÇÃO
Ao comunicar sobre a sociologia o sociólogo faz algo mais do que um paper de universidade. Sua aproximação da matéria inclui a mais do caráter desinteressado do conhecimento científico uma mirada vinculada à prática profissional. Desta sorte produz textos sociológicos, elaborações sobre a realidade social que aportam não só os resultados da sociologia que faz, mas igualmente revelam os procedimentos em vias de fazer.

Há uma indispensabilidade em produzir texto sociológico para a prática do sociólogo, na qual os resultados levam aos procedimentos e vice-versa ultrapassando a sugestão epistemológica de estabelecer um hiato entre contexto da descoberta e contexto da justificação.

Esta obra mostra que o estudo histórico da sociologia revela- se uma pesquisa de sociologia dos quadros operativos da teoria sociológica e constitui a continuação do nosso e-book Leitura da Teoria de Comunicação desde o ponto de vista da Sociologia do Conhecimento, publicado na Biblioteca Virtual de Ciencia, Tecnología, Sociedad e Innovación, junto ao Programa Sala de Lectura CTS+I, da O.E.I.(Organización de Estados Iberoamericanos).

Elaboramos pela revalorização pedagógica da colocação do conhecimento em perspectiva sociológica, orientação esta atualmente solicitada para contrarrestar a filosofia abstrata das ciências cognitivas: para o sociólogo não há comunicação fora do psiquismo coletivo.
[Se o mundo como significado foi transposto pela modernização “a uma distância muito vaga” das vidas das pessoas não se pode deixar aí passar inteiramente despercebido que a autonomia do significado em relação ao significante em contexto de dependência de um grupo, classe ou sociedade global configura a criação de ligações com o próprio significado autônomo, expressando não o Outro imaginário do entendimento abstrato da alteridade, mas desde o ponto de vista do contexto de realidade social expressando as relações com outrem.]
Entendendo que a linguagem humana exige uma união prévia, seguimos o realismo de Georges Gurvitch em relação ao interesse, alcance e especificidade da teoria sociológica distinguindo sem separar os elementos históricos e os elementos pouco ou não-históricos da realidade social. Desta sorte, aprofun damos a sociologia diferencial e a dialética acentuando o ponto de vista da autonomia relativa dos grupos em relação às classes e às sociedades globais por desenvolvimento da microssociologia e do pluralismo social efetivo. Entende-se, portanto, que o subtítulo deste ensaio como Leituras Saint-Simonianas visa acentuar que a sociologia é ciência dos determinismos sociais e que suas raízes estão plantadas na sociedade industrial.

Quanto ao nosso estilo, contrariando as sugestões editoriais de que os escritos com disciplina científica devem ser impessoais, utilizamos a primeira pessoa do plural para afirmar a vontade de valor ou de verdade. [Repelimos o paradoxo em se ignorar nos seres do passado a vontade de valor ou de verdade, lembrando que Raymond Aron sublinha a separação radical do fato e dos valores em Max Weber como limitando erroneamente a compreensão da conduta individual unicamente na referência das ideias de valor. Por contra, criando hermenêutica weberiana em um dos seus primeiros ensaios marcantes, sustenta esse estudioso que se tal concepção excluindo a vontade de valor ou de verdade fosse admitida não se teria o critério para diferenciar entre uma obra de filosofia como a “Crítica da Razão Pura” de Kant e as imaginações delirantes de um paranóico, já que ambas seriam colocadas no mesmo plano. Ver Aron, Raymond: Introduction à la Philosophie de l’Histoire (Paris, Gallimard).]

***

Rio de Janeiro, Dezembro 2007.